28.10.13

Lagoacho das espadas



Sparganium angustifolium Michx.

Estas são espadas que flutuam à tona da água: verdes, leves, inofensivas. Qualquer planta com folhas longas, planas e pontiagudas suscita de imediato a comparação com a arma favorita e mais simbólica dos antigos guerreiros, anterior à pólvora e a tudo o mais que se inventou para matar em larga escala. A espada e as suas variações, como o gládio e o espadachim, deram nome ao gladíolo e à espadana, plantas que nada têm a ver uma com a outra, embora as designações vernáculas tendam a confundi-las. Ou, mais precisamente, as designações que alguém entendeu eleger como vernáculas, pois por certo nunca nenhum representante do saber popular chamou espadana-dos-montes-de-folhas-largas ao comum gladíolo (Gladiolus illyricus) dos nossos campos. Haja juízo: um gladíolo é um gladíolo, e dá vistosas flores cor-de-rosa; e uma espadana é uma planta aquática com inflorescências brancas e globulosas. Os espanhóis também são culpados, ao reservarem espadaña para aquilo a que chamamos foguetes ou tábuas (género Typha) e ao chamarem platanaria ou platanera às legítimas espadanas (género Sparganium).

Como várias outras plantas aquáticas, as diferentes espadanas têm uma distribuição muito ampla, cruzando vários continentes. Das catorze espécies que mundialmente compõem o género Sparganium, em Portugal calharam-nos três. A mais bonita delas, e a única com inflorescências ramificadas, é também a mais comum: trata-se da espadana-de-água (S. erectum), já aqui descrita em pormenor. As outras não são menos dadas a mergulhos, mas a que ocorre na serra da Estrela (e só lá), e que por isso deveria chamar-se espadana-da-serra, tolera o esvaziamento sazonal de alguns dos lagoachos a que costuma acolher-se. Sente-se, porém, bem mais feliz quando a água farta lhe permite estender as folhas como lâminas afiadas.

Quando o Alexandre Silva nos acompanhou às Salgadeiras, em meados de Setembro, há já muitos meses que a chuva era pouca ou nenhuma: para aflição das plantas e dos bichos aquáticos, quase todas as pequenas lagoas estavam secas. Só na maior delas, ainda com um volume de água respeitável, encontrámos Sparganium angustifolium em boas condições. Já era tarde para as flores, mas alguns frutos ainda espreitavam entre a folhagem. Talvez a chuva entretanto caída tenha restituído o azul aos lagoachos do planalto central. O ano de 2013 não tem sido próspero para um ecossistema que alberga raridades únicas em Portugal.

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