15/03/2007

A náusea e o sabugo



Sabugueiro (Sambucus nigra) no Parque da Cidade do Porto

Não posso ver este arbusto sem me lembrar de Jean-Paul Sartre [JPS]. As leituras da adolescência, por muito desvairadas que sejam, têm sempre alguma utilidade, por exemplo a de nos vacinarem contra certos escritores: se sobrevivemos como leitores à agonia de os lermos, temos toda a vida adulta para lermos coisas melhores. Assim foi com JPS: interrogo-me como foi possível manterem-se os seus romances nas minhas estantes todos estes anos, tendo eu desdenhado e perdido livros muitos mais estimáveis como as colecções completas dos Cinco e do Sandokan. A conexão entre o sabugueiro e JPS vem-me da seguinte passagem de A Náusea:

«Tenho medo das cidades. Mas não posso abandoná-las. Se nos aventurarmos a ir muito longe, encontramos o círculo da Vegetação. A Vegetação tem rastejado quilómetros e quilómetros em direcção às cidades. Está à espera. Quando a cidade tiver morrido, a Vegetação vai invadi-la, trepar-lhe pelas pedras, encerrá-las, esquadrinhá-las, fazê-las estalar com as suas longas pinças negras; obstruir os buracos, fazer pender, de toda a parte, patas verdes. É de ficar nas cidades, enquanto estão vivas; e nunca penetrar sozinho por aquela grande cabeleira que está às suas portas: deixemo-la ondular e estralejar sem testemunhas.»
(trad. de António Coimbra Martins, ed. Europa-América)

Embora este trecho faça lembrar distopias futuristas como Nós, do russo Yevgeny Zamyatin (em que toda uma civilização asséptica, onde não há plantas nem animais, se desenvolve sob uma gigantesca cúpula de vidro cercada por uma floresta proibida), A Náusea não é um livro de ficção científica: é a narrativa na primeira pessoa de alguém enjoado com todas as formas de vida animal ou vegetal, em particular com a humana. Mesmo em 1938, ano da publicação do livro, a ideia de que as cidades estariam a recuar face ao avanço da vegetação é estranha, e sublinha o carácter doentio do narrador. Mas a verdade é que a vegetação se apropria dos espaços abandonados das cidades, como há tantos no Porto: antigos quintais, lotes expectantes, casas em ruínas, esqueletos de prédios inacabados. E é nessa guerra que o sabugueiro dá cartas: já o vi romper do cimento, da brecha do muro, do monte de entulho por detrás da cerca ferrugenta.

Além de incansável guerrilheiro urbano, o sabugueiro tem outras virtudes que o recomendam: é das primeiras caducifólias a revestir-se de folhagem, logo em meados de Fevereiro; é óptimo para sebes vivas em campos de cultivo ou pomares, pois atrai numerosos pássaros e insectos úteis; os frutos, depois de fervidos para eliminar a ligeira toxicidade, são empregues na confecção de bebidas; e o próprio sabugo (medula branca e esponjosa dos galhos) é usado em histologia e em medicina.

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