24/03/2024

Nevadensia & C.ª

As plantas perenes de montanhas onde os invernos são rigorosos, e tudo fica sob neve durante meses a fio, refugiam-se bem agasalhadas no solo até receberem um sinal de que é hora de acordar. Quem lhes envia um tal alerta? Para nós, a Primavera tem data de início pré-estabelecida, e são muitos os órgãos de informação empenhados anualmente em que não esqueçamos o feliz evento. Sabe-se hoje que o despertador das plantas, que assegura a transição para a floração, é parte integrante delas: há genes que controlam a produção de flores e cuja voz de comando se silencia quando a temperatura ambiente é muito baixa por um período longo, mas se expressa de novo quando esse período termina. Com o passar dos anos, talvez as plantas se tornem minimalistas como nós, e lhes baste notar que o mês de Março chegou ao fim.

No topo da Serra Nevada há várias espécies que podem ter este perfil genético. O género Hormathophylla, cujo nome alude à disposição das folhas nos caules, tem uma área de distribuição vasta na região mediterrânica e abriga algumas das plantas mais pequenas e mais bonitas da Serra Nevada.

Hormathophylla purpurea (Lag. & Rodr.) P. Küpfer
[= Nevadensia purpurea (Lag. & Rodr.) Rivas Mart.]


A H. purpurea é um endemismo da Serra Nevada que oficialmente floresce entre Abril e Maio, embora as fotos sejam de Julho. Vive em fissuras de rochedos estratificados, com solo ácido, entre os 2000 e os 3400 m de altitude. Tem um porte rasteiro, com talos lenhosos e indumento denso em toda a folhagem, e não ultrapassa os 8 cm de altura. As cabrinhas da Serra gostam bastante de as comer, sendo por isso agora bastantes raras (as plantas) em toda a área de distribuição.

Hormathophylla spinosa (L.) P. Küpfer


A H. spinosa é mais fácil de encontrar na Serra Nevada, por ser mais alta (chega aos 40 cm de altura), ramificada na base, e muito mais frequente. Na sua ampla área de distribuição (Espanha, França e Marrocos), ocorre entre os 100 e os 3400 m de altitude. A este sucesso na colonização não será estranho o facto de a planta transformar parte dos talos de anos anteriores em rijos espinhos, que a protegem das tais cabrinhas e de outros curiosos. Como a espécie anterior, também aprecia pedregais, embora seja menos caprichosa quanto ao tipo de solo. Floresce abundantemente entre Abril e Agosto.

Hormathophylla longicaulis (Boiss.) Cullen & T. R. Dudley


Finalmente, a H. longicaulis, de taludes e matos calcários, é a mais bizarra das três espécies do género Hormathopylla que vimos em Julho do ano passado. É um endemismo do sudeste de Espanha, dá flores brancas pequenas e a folhagem é glauca, quase prateada. O aspecto mais curioso, porém, é que as hastes florais são bastante longas, quebradiças e ramificadas no topo. Há registo dela entre os 1100 e os 1800 m de altitude, e floresce em pleno Verão. As fotos são de exemplares na Serra de Huétor.

1 comentário :

bettips disse...

A data (na ideia do oxalá) de florescerem Mil Tomilhos... não se concretizou. Outras haverá, supõe-se. Bom é olhar de perto os campos e os caminhos e os pedregais. Há sempre lugar para a esperança enquanto a Natureza puder "assumir-se". Brinco, a Natureza não se assume, acontece sempre que pode.
Abçs