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11/01/2010

Caminhos de Belém

Washingtonia filifera (Lindl.) H. Wendl. / Phoenix canariensis Chabaud
Em Portugal, o caminho de Belém é uma metáfora do percurso político — alimentado durante anos por «tabus» postos a cozinhar em lume brando nos títulos especulativos dos jornais — que pode guindar alguém ao mais alto cargo da nação. Quem não tiver sido eleito para nada de especial, nem for político ou personalidade pública de relevo bastante para ser recebido em audiência, pode apenas visitar os jardins do Palácio de Belém em cada dia 5 de Outubro ou em alguma outra rara ocasião em que os portões sejam franqueados ao povo. Mas é possível, em qualquer altura do ano, espreitá-los sem grande despesa pagando uma entrada de dois euros no vizinho Jardim Botânico Tropical, aberto todos os dias (excepto feriados) até às 17:00. Os dois jardins partilham um gradeamento de algumas dezenas de metros, e dá para ver, do lado de lá, dois ou três pinheiros-mansos, um lago rodeado por laranjeiras para onde se desce por uma dupla escadaria, e, nas traseiras do palácio, uma araucária-de-Norfolk entristecida por falta de companhia. Um gato digno e anafado, de pelagem cinzenta e porte inconfundivelmente presidencial, atravessa amiúde o gradeamento para vir ao lado de cá mordiscar as ervitas que lhe lubrificam o trânsito digestivo.

Evocativas do sul e dos trópicos, palmeiras em dupla procissão ladeiam os caminhos que, dentro do Jardim Botânico Tropical, conduzem ao Palácio de Belém atrás das grades. Não um sul muito exacerbado, pois tanto a palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) como a palmeira-de-leque-da-Califórnia (Washingtonia filifera) resistem bem ao frio e são comuns — muito mais a primeira do que a segunda — em todo o litoral norte do país. Alamedas com o efeito cénico destas duas, com centenas de metros de extensão, não são, porém, nada comuns, e valem, por si só, uma visita ao jardim.

Inaugurado em 1912, com uma área ajardinada de cinco hectares, este espaço já se chamou Jardim Colonial e, depois de 1951, Jardim do Ultramar. Integrando o Instituto de Investigação Científica Tropical, não consegue disfarçar um certo desmazelo, ainda que menos chocante do que noutros jardins botânicos portugueses. Será esse o resultado da falta de pessoal? Segundo esta página, dos 25 funcionários do jardim no activo, incluindo investigadores, técnicos e bolseiros, só dois são jardineiros. Também o dinheiro não parece por aqui existir às mãos-cheias: a estufa, fechada há dois anos para obras de recuperação que nem sequer se iniciaram, está a caminho da ruína completa.

17/12/2009

Ficus fugit



Ficus sycomorus L.

    O rei fez com que, em Jerusalém, a prata e o ouro fossem tão
comuns como as pedras, e os cedros, tão numerosos como os
sicómoros da planície da Chefela.

Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali.

Bíblia Sagrada - 2 Cr 1, 15; Lc 19, 1-4
Sicómoro, ou sycamore em inglês, é nome que já vem no Antigo Testamento; mas, como a árvore de prestígio bíblico assim designada não ocorre em território europeu nem americano, ele foi dado de empréstimo a outras árvores. Quando os britânicos falam de sycamore, referem-se ao nosso padreiro (Acer pseudoplatanus), mas os americanos reservam esse nome para os plátanos - a que os ingleses, por sua vez, chamam plane tree. Se a semelhança na folhagem entre o plátano e o padreiro pode desculpar esta divergência, já custa mais ver que afinidade poderão ter estas árvores com a Ficus sycomorus. Pois a árvore a que subiu Zaqueu para ver Jesus, e que abundava na terra de Israel ao tempo do rei Salomão, era na verdade uma figueira.

O sicómoro é cultivado há milénios no Egipto e na Palestina, e alguns sarcófagos dos faraós foram feitos com a sua madeira, a mais usada, a seguir à da acácia, no país das grandes pirâmides. Originário do continente africano, em habitats variados que vão do nível do mar aos 1850 m de altitude, tem uma área de distribuição ampla, que começa a sul do Sara, inclui parte da península Arábica, e desce até à fronteira norte da África do Sul. Árvore caducifólia, as suas folhas, rugosas na face superior e de margens onduladas, assemelham-se às das amoreiras em tamanho, textura e cor. Os figos, com cerca de 4 cm, ganham tom amarelo ou vermelho ao amadurecerem e são tidos como comestíveis, embora pouca gente lhes gabe o sabor. De facto, parecem ser mais apreciados por pássaros, macacos e babuínos do que por humanos.

Com longos ramos quase horizontais a irradiar do tronco atarracado, o sicómoro do Jardim Botânico Tropical, em Belém, faz jus à fama da espécie como árvore de sombra. Imagino que essas ramadas sejam, em África, poiso de emboscada para os grandes felinos à espera de presa - ou pelo menos era isso que sugeria a foto de grande formato lá pendurada. Mas a maior aventura sucedida a esta árvore é a guerra de morte que lhe é movida por uma sua vizinha e congénere. O tronco inclinado mostra-a em tentativa de fuga, e o caso não é para menos. Relato completo do drama, com todos os protagonistas em discurso directo, nesta notícia de última hora.