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17/03/2006

(sem título)

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Não regressarei à terra
como uma folha que cai.
Condição de ser a hera
que no meu tronco se enlaça
sou a nascente da água
que me leva quando passa.

Não sou poeira que o vento
arrasta até encontrar
a florescência da flor.
Origem morte existência
sou a própria florescência
incontinente na flor.
Natália Correia (1955)
Poesia Completa. O Sol nas noites e o Luar nos Dias (Lisboa: Dom Quixote, 1999)

14/01/2006

«Singelinha
Quando me acodem na berra
destas guerrilhas sem glória
saudades da minha terra,
põe-se-me a Musa remota
a trautear toutinegras
e dessas lembranças ledas
aconchadas em camélias
num rumor de frautas gregas
Sai-me a Ilha em pastorela.

Eram bosques refugiados
em altas ebúrneas névoas
e desses enovelados
torreões de criptomérias
veludos verdes tombavam
e no mar se desfiavam
em vastas músicas cérulas.

Eram, se a luz com mãos cheias
de safiras ocupava
águas em paz apuradas,
lagoas aleluiadas
entre fetos e conteiras.

Mas que frémitos de origem
nelas nos arrepiavam
se das rosas às azáleas
se faziam caminheiras
neblinas que as embuçavam
em iriadas poeiras.


Começos estarrecidos
nos chamavam em ladridos
por detrás dessas viseiras.


Eram pastos paulatinos
e neles vacas sineiras
espraiando em relvas fagueiras
um viço cheio de sinos.
E logo vinha o responso
em estrofes de estorninhos.
(...)
E já naquelas verduras
o marulho das maretas,
águas inteiras exactas,
ares, aromas, farturas
de acácias, cômoros, pratas
coalhadas nas calhetas,
destas minhas escrituras
eram as primeiras letras.

Ali singela me achei
porquanto pura me achavam
que modos de flor ganhei
no nome que me botaram.

(...)»
O Dilúvio e a Pomba, 1979-Natália Correia
in Poesia Completa. O Sol nas noites e o Luar nos Dias (Lisboa: Dom Quixote, 1999)