13/01/2026

Cenouras, funchos e brucos



O período de festas, tão desafiante para os estômagos, já ficou para trás, e é possível outra vez falar de comida sem risco de enjoo. À cautela, porém, ficar-nos-emos por considerações puramente teóricas. Das plantas de que hoje falamos, todas elas fotografadas em Menorca, e todas perten­centes à família das umbelíferas, nenhuma é na verdade comestível, podendo embora ter afinidades com outras que assumidamente o são.

Daucus carota subsp. hispanicus (Gouan) Thell.


A encabeçar a lista temos uma cenoura temperada com sal marinho. Entre as variedades de Daucus carota, avulta a consabida cenoura cultivada (subsp. sativus), de que a parte comestível é a raiz grossa, alaranjada, de formato cónico. A versão silvestre de Daucus carota não produz essas raízes napiformes, para desilusão daqueles que acreditam ser obrigação da natureza disponibilizar-nos alimentos prontos a consumir. Mas se produzisse, e tendo em conta a abundância dessa planta por toda a Europa, ninguém precisaria de cultivar cenouras na sua horta. Ainda que sem préstimo culinário, as cenouras silvestres apresentam-se sob formas muito diversas: plantas esguias ou atarracadas, umbelas achatadas ou convexas, hastes mais ou menos escábridas, folhas quase suculentas ou de textura herbácea. A subespécie hispanicus (nas fotos) revela a sua adaptação a habitats costeiros pelo porte robusto, pelas inflorescências compactas, e pela folhagem semi-suculenta, de um verde brilhante.

Kundmannia sicula (L.) DC.


A Kundmannia sicula é uma planta de até um metro de altura que, em Maio, floresce profusamente nas bermas das estradas menorquinas. É só por preguiça que a associamos ao funcho, pois as semelhanças entre as duas plantas resumem-se à circunstância de ambas seram umbelíferas de flores amarelas. Já as diferenças são muito evidentes, a começar pelas folhas: as do funcho parecem um emaranhado de fios, mas as da Kundmannia, sobretudo as basais, são uma ou duas vezes pinatissectas e dispõem de folíolos bem amplos. E, ao contrário do funcho, a Kundmannia pouco ou nada tem de aromática.

Disseminada pela bacia mediterrânica, mas menos abundante no continente europeu do que no norte de África (sobretudo na Argélia) e em algumas ilhas do Mediterrâneo (Baleares, Sicília), a Kundmannia sicula só tangencialmente atinge território português. Contudo, a sua presença residual no Algarve, e o facto de aí estar em sério risco de extinção, valeram-lhe lugar destacado na Lista Vermelha da flora portuguesa.

Magydaris pastinacea subsp. femeniesii O. Bolòs & Vigo


É um contra-senso que a umbelífera mais bem cheirosa de que temos notícia, a Magydaris, afinal não seja comestível. A representante solitária do género em Portugal, Magydaris panacifolia, — que, já lá vão muitos anos, tivemos oportunidade de cheirar em primeira mão em Trás-Os-Montes — singulariza-se, de acordo com o portal Flora-On, pelo “forte e característico odor a cumarina”. A planta menorquina, Magydaris pastinacea, não é menos olorosa; e, tal como a sua congénere, destaca-se pela altura (alcança os 2,5 m) e pelas folhas de grande formato (até 50 cm de comprimento). De facto, não é pelas flores nem pelas folhas que as duas espécies mais facilmente se distinguem, mas a M. pastinacea tem umbelas mais amplas, à vezes com 40 ou mais raios, ficando-se a M. panacifolia por um máximo de 20 a 25 raios.

A M. pastinacea tem uma distribuição global escassa: além de Menorca, apenas ocorre na Península Itálica, Sicília, Sardenha, Córsega e norte de África. A subespécie femeniesii, a única assinalada em Menorca, é tida como endémica dessa ilha, mas nem todos os autores aceitam a pertinência dessa combinação. Em todo o caso, é uma planta que pouco se vê. Não porque esteja em vias de desaparecer, mas porque a quase totalidade dos barrancos onde vegeta são propriedade privada e estão vedados à visitação.

24/12/2025

Impressionista


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado, Bagagem (Editora Record, 1976)

19/12/2025

Beldroega cornuda

O famoso deserto de Tabernas, na altura em que o visitámos, nada tinha da aridez estéril que associamos à palavra deserto. A cobertura vegetal, ainda que esparsa, era iniludível, e de tal modo rica e diversa que poucos lugares da Europa, mesmo da Europa mediterrânica, a poderiam igualar. Claro que a Primavera no sudeste de Espanha estava a ser anormalmente molhada, e das chuvas de Abril que transitaram para Maio apanhámos ainda copiosa amostra. As plantas mostravam uma pujança colectiva que, provavelmente, só se dá a ver em anos excepcionais. Mas mesmo nos anos maus as plantas estão lá, ainda que debilitadas ou temporariamente invisíveis; a diversidade vegetal ímpar é intrínseca à paisagem agreste.

Em Fuerteventura, onde já fomos duas vezes, a impressão é outra. As zonas desérticas que cobrem quase toda a ilha apresentam-se irremediavelmente despidas; as moitas secas e espinhosas da asterácea Launaea arborescens, em vez de aliviarem a desolação, parecem apenas sublinhá-la. Certamente o cenário muda nas raríssimas ocasiões em que a chuva vem refrescar a ilha. Choveu algumas vezes quando lá estivemos em Dezembro de 2024, mas não ficámos tempo suficiente para testemunhar os efeitos que tal chuva terá tido na vegetação.

Betancuria, Fuerteventura
Na ausência quase completa de vegetação arbustiva, são as plantas anuais ou vivazes que beneficiam da efémera presença da humidade. Não havendo chuva, é nas zonas elevadas que a condensação pode amenizar a secura. E é sobretudo por isso que em Fuerteventura a maioria da vegetação interessante (incluindo algumas endémicas) se concentra nos picos de Jandía, em altitudes entre os 600 e os 800 metros, ou em alguns morros e montanhas da zona central da ilha. Os montes em volta de Betancuria são especialmente compensadores para quem se dedique à exploração botânica; e, por terem declives pouco acidentados, são fáceis de percorrer a pé. Foi em Betancuria, perto do topo do Morro Veloso, que encontrármos um prado de herbáceas — o único digno desse nome que vimos em toda a ilha, revestindo de verde fresco algumas dezenas de metros quadrados de solo. Eram plantas baixas, pouco ou nada extraordinárias (vimos Anagallis arvensis, Ajuga iva, Matthiola parviflora, Dipcadi serotinum, Neatostema apulum, Plantago ovata, Reichardia tingitana, etc.), mas para a vista eram um regalo maior do que um oásis num deserto, florindo como se morassem no melhor lugar do mundo.

Notoceras bicorne (Aiton) Amo


Fazia parte da florida amostra uma planta que, pela folhagem, pelo porte rasteiro, pelo tamanho diminuto (10 a 20 cm de comprimento), e pelas minúsculas flores amarelas, nos pareceu à primeira vista uma beldroega (Portulaca olearaceae). Embora nestas latitudes mais cálidas as beldroegas apareçam durante todo o ano, desconfiámos de uma floração tão fora de época; e, observadas as flores à lupa, concluímos tratar-se afinal de uma crucífera. Os frutos, já exibidos por alguns exemplares, revelaram-se peculiares: compridos, rematados por duas protuberâncias (ou cornos), dispostos em racimos alongados. Consultado o manual, a identificação foi célere. De seu nome Notoceras bicorne, esta espécie anual tem a distinção de ser a única do seu género, e distribui-se por zonas áridas ou desérticas desde o norte de África (incluindo Canárias) até ao Paquistão. Na Europa, a sua presença restringe-se ao sudeste da Península Ibérica — a saber, às províncias de Almeria, Múrcia e Alicante. Isso mesmo pudemos confirmar in loco, quando, quatro meses depois de travarmos conhecimento com a Notoceras bicorne em Fuerteventura, a reencontrámos em Almeria.

05/12/2025

Plantas do rés-do-chão



Com a vulgarização dos telemóveis inteligentes, muito gente, para não perder pitada das novidades personalizadas que o algoritmo lhe fornece a cada instante, passou a andar sempre de pescoço vergado. Além do desgaste da visão associado a esse comportamento obsessivo, é de recear que tal vício de postura provoque a médio prazo dolorosas lesões musculares ou ósseas. Contudo, e há muito mais tempo do que os ditos aparelhos, existem profissões que também induzem os seus praticantes a manter o pescoço dobrado por períodos nocivamente longos. Uma delas é a de botânico especializado em plantas pequeninas, dessas que crescem rentes ao chão — se bem que observar de baixo a copa de árvores descomunais como sequóias ou araucárias também possa provocar torcicolos. Cá por casa gostamos de plantas pequenas, médias ou grandes, pelo que curvamos o pescoço em todas as direcções. Sendo nós amadores, esse exercício não é tão assíduo como gostaríamos, o que acaba por ser benéfico para a nossa saúde.

É de plantas rasteiras avistadas na província de Almeria que trata este texto, e uma óbvia vantagem da pequenez é que num único fascículo conseguimos acomodar quatro espécies.

Aizoon hispanicum L. [= Aizoanthemopsis hispanica (L.) H. E. K. Hartmann]


O Aizoon hispanicum é uma herbácea anual algo suculenta, de caules ramificados que não excedem os 25 cm de comprimento, com flores brancas de uns 2 cm de diâmetro, que vive em terrenos secos e pedregosos da região mediterrânica. Um dos nomes que lhe quiseram dar em português, estrelinha-das-arribas, justifica-se pela sua ocorrência (ainda que rara) no litoral algarvio e pela sua acentuada predilecção por zonas costeiras. No nordeste da Península Ibérico, porém, ela aventura-se bem longe do mar, ao longo do vale do rio Ebro.

Calendula tripterocarpa Rupr.


Versão abreviada da erva-vaqueira (Calendula arvensis), tão comum em pomares e orlas de campos de cultivo, a Calendula tripterocarpa partilha as preferências de habitat com a espécie anterior, tanto que a encontrámos no mesmo local. O que é inteiramente apropriado, pois Almeria é a única região europeia onde a planta é conhecida. De resto, a sua área de distribuição abrange Marrocos, Argélia, Tunísia e Israel; e, embora ela tenha sido igualmente assinalada nas Canárias, uma revisão do género Calendula, publicada em 2024 por quatro botânicos portugueses e um espanhol, concluiu que o que existe no arquipélago é uma espécie próxima mas distinta, endémica dessas ilhas.

Tripodion tetraphyllum (L.) Fourr.


É quase indesculpável que uma planta tão bonita como o Tripodion tetraphyllum, ademais tão frequente em paragens algarvias, tenha sido obrigada a esperar pela nossa viagem a Almeria para finalmente, com dez ou vinte anos de atraso, a exibirmos no escaparate. A desculpa, claro, é que o desfasamento entre as nossas viagens a sul e a data de floração da planta não nos permitia observá-la no seu melhor momento. Agora que o enguiço foi quebrado, cumpre-nos deixar um conselho aos nossos leitores: quem não queira sofrer frustração como a nossa deve programar as suas idas ao Algarve (ou a Almeria, por que não?) para Março ou Abril.

Lotononis lupinifolia (Boiss.) Benth. [= Leobordea lupinifolia Boiss.]


Mais uma leguminosa, e mais uma planta norte-africana que logrou meter uma lança na Europa, precisamente em Almeria. Fácil de ignorar por ser minúscula e confundível, a um olhar distraído, com alguma espécie de Lotus, a Lotononis lupinifolia parece ser sumamente rara, não havendo dela registos recentes nos dois países magrebinos (Marrocos e Argélia) onde se presume que exista. O epíteto lupinifolia é certeiro, pois as folhas digitadas compostas por cinco folíolos são iguaizinhas às dos tremoceiros (género Lupinus). O género a que a planta pertence tem suscitado alguma controvérsia: descrita em 1838, pelo botânico suiço Pierre Boissier, como Leobordea lupinifolia, em 1843 o inglês George Bentham arrumou-a no género Lotononis (amálgama de Lotus e Ononis), e em 1923 o espanhol Carlos Pau quis fixá-la no género Amphinomia, inventado por De Candolle (outro suiço) um século antes. Durante muitos anos, e como atesta a Flora Iberica, foi a proposta de Bentham que teve melhor acolhimento; mas as referências mais recentes (entre elas o Plants of the World Online e o EuroMed Plantbase) têm dado primazia ao nome original. Curiosamente, das cerca de cinquenta espécies que perfazem o género Leobordea, pelo menos quarenta estão confinadas à África do Sul.

28/11/2025

Ramalhete de endémicas



Em Menorca, o mar Mediterrâneo está quase sempre à vista, e de perto pois a altitude não excede os 340 metros. É inevitável, para quem visita a ilha, passear demoradamente à beira mar, onde não faltam passadiços pelo areal avermelhado ou de tom ocre, e caminhos estreitos mas bem cuidados desde o topo dos penhascos até às baías com água azul-turquesa. Apesar da presença de inúmeros turistas, a costa de Menorca é um habitat bem preservado, por vezes com zonas interditadas para conservação de alguns endemismos raros. Exemplo disso é Cala del Pilar, uma praia na costa norte moldada pela tramontana (o sussurro de Menorca), um vento frio e seco que, dizem, chega a Menorca revigorado pela viagem desde os Alpes. A vegetação neste local é testemunha dessa permanente agitação atmosférica, do ar limpo e quase sem humidade, que a mantém saudável mas de pequeno porte. Não surpreende que a maioria das plantas que aqui se encontram sejam arbustos ou herbáceas perenes de base lenhosa, com talos prostrados a formar coxins atarracados e folhame muito penugento. Quando também ocorrem em Maiorca, frequentemente colonizam também nichos nas montanhas, até cerca de 1400 metros acima do mar, em taludes e rochedos sem tanta ventania. É o caso das três espécies que vos mostramos hoje.

Thymelaea velutina (Cambess.) Endl.


Este endemismo de Menorca e Maiorca é uma planta arbustiva com cerca de 50 cm de altura, revestida de indumento denso que lhe dá um aspecto aveludado. As folhas são imbricadas e as flores, que nascem entre Fevereiro e Julho nas axilas das folhas, agrupam-se em capítulos terminais com 2 a 3 flores. É uma espécie dióica (as flores masculinas e as femininas nascem em pés distintos); nas fotos acima pode identificar essa separação (à esquerda, está a flor masculina). O género Thymelaea abriga um número considerável de espécies que apreciam a beira-mar, agasalhadas do vento e da maresia pela lanugem, gastando por isso quase todos os epítetos que em taxonomia se referem a esta camada protectora: T. hirsuta, T. lanuginosa, T. velutina, T. villosa, T. pubescens...

Digitalis minor L.
A herba de Santa Maria (ou didals de la Mare de Déu) é mais um endemismo das ilhas Baleares, ocorrendo em fissuras de rochas calcárias junto ao mar, e nas montanhas de Maiorca até aos 1400 m. É uma herbácea perene de base lenhosa, com uma roseta densa de folhas basais e uma haste floral, coberta de pêlos curtos, que pode atingir os 80 cm de altura. Distingue-se bem da maioria das espécies do género Digitalis, e em particular da D. purpurea, pela menor envergadura, pelas flores por vezes brancas (embora em regra sejam rosadas), e por a corola ter os lóbulos laterais do lábio inferior mais proeminentes.

Santolina magonica (O. Bolòs & al.) Romo


Partilhando as mesmas areias compactas do litoral, ou as mesmas encostas pedregosas de origem calcária em matos de montanha até os 1400 m, ocorre um subarbusto de uns 40 cm de altura com folhagem glandulosa acinzentada, muito peludinha e aromática, que parece formar bolinhas de algodão agarrados aos ramos. Trata-se de uma espécie do género Santolina, também endémica das Baleares (Maiorca e Menorca) e bastante resistente à secura. Os capítulos de flores, em geral solitários e inicialmente da cor do limão, têm cerca de 1 cm de diâmetro, com as flores do bordo a desabotoarem antes das do centro. Apresenta algumas semelhanças com a ibérica S. rosmarinifolia. Procurámos informação sobre a origem do epíteto específico magonica e, depois de lermos na Flora ibérica que um dos nomes vernáculos desta planta é manzanilla de Mahón (ou camamilla de Maó), o Paulo descobriu que a designação latina de Mahón (ou Maó) é Portus Magonis, e o mistério sobre o epíteto ficou resolvido: é uma referência toponímica à região de Mahón (Maó), onde esta planta foi primeiramente descrita.