16.12.04

A faia em quatro novas lições



Fotos: pva 0411-0412 - Fund. Eng. António de Almeida e Serralves

No tempo em que a ludo-pedagogia não dominava exaltava-se o valor didáctico da repetição, e daí que muitos portugueses acima dos trinta ainda saibam recitar a tabuada ou consigam calcular o troco de cabeça. Da repetição, argumentava-se, acabaria por nascer a compreensão: de tanto insistir que 9x8 = 72, alguma vez, num relâmpago de inspiração, se iriam perceber as razões profundas de tão estranho resultado.

aqui falámos da faia: da sua robustez elegante, da sua fidelidade como repositório de afectos gravados, das cores outonais da sua folhagem. Mas, com a sucessão dos dias, os textos antigos são empurrados para o fundo da página até adormecerem no arquivo. Desfilam novos assuntos, novas árvores; porém a faia continua a deslumbrar-nos. Por isso a recapitulamos em quatro novas lições ilustradas: à força de a repetirmos ela há-de fazer parte de nós, e então talvez a possamos compreender.

14 comentários :

asa disse...

Bom dia Paulo

Obrigada por estas licoes. Fiquei mesmo contente e talvez me possa explicar uma coisa. Porque e' que as folhas da Faia podem ser tao diferentes, tal como nos mostra na fotografia da esquerda e da direita? Perdoe-me se fui distraida, mas ja' fui aos textos anteriores sobre a Faia e nao encontrei resposta.

Ha' cerca de tres semanas estive no Jardim Botanico de Glasgow e demorei-me debaixo da copa de uma belissima Faia (quase despida) a admirar a cor das folhas que ainda resistiam nos ramos. Tem toda a razao, a Faia e' uma das arvores mais bela quando esta' despida. Tenho uma fotografia muitos bonita de ramos de Faia, vou tentar encontrar para lhe enviar. Mas voltando ao assunto que me leva a escrever, nessa tal visita ao jardim botanico reparei tambem que havia um ramo da Faia que tinha folhas muito diferentes tais como as da fotografia da direita. A que se deve isso? Penso que nao sera' como o Eucalipto em que as folhas jovens sao completamente diferentes. No caso da Faia parece-me que ambas as morfologias sao folhas adultas?

Grata pela explicacao...

ver

Paulo Araújo disse...

Boa tarde

Foi preguiçoso da minha tarde não ter legendado as fotos, mas também queria ver se alguém notava essas folhas de faia tão incomuns. Os dois tipos de folha vêm de árvores diferentes - ou seja, a mesma árvore não dá folhas dos dois tipos. As faias "normais" têm folhas como na foto da esquerda; as da direita são do cultivar "asplenifolia", de que no Porto só conheço o exemplar em Serralves (em Coimbra, no Jardim Botânico, há outro exemplar no Quadrado Central).

O que é curioso é que estas árvores não são de espécies distintas: todas elas são "Fagus sylvatica", ou faia europeia. Os chamados "cultivares" são clones de uma mesma planta que sofreu uma mutação espontânea considerada interessante pelos horticultores, que por isso a reproduzem por métodos vegetativos. Isso quer dizer que as sementes da "asplenifolia" dão em princípio origem à versão "normal" da faia e não à versão mutante.

As duas variedades são indistinguíves quando as árvores estão sem folhagem. Descobri há uns anos atrás essa faia em Serralves, e na altura também me fez confusão que uma faia pudesse dar tais folhas.

Gostava muito de ver essas fotos de Glasgow.

asa disse...

Interessante! Mas a arvore de Glasgow tem os dois tipos de folhas na mesma arvore. Tenho a certeza porque de tao estranho que achei o caso dei a volta a arvore para confirmar se poderiam vir de outro lado. Deve ser uma man made tree misturando a mutante com a "normal"?!

Penso que a arvore por esta altura ja' deve estar sem folhas mas posso tirar uma fotografia para ter uma ideia do tamanho da arvore. Posso tambem enviar-lhe um exemplar dos dois tipos de folhas que apanhei e sequei num livro. Recolhi na altura 1 par de cada tipo.

Curiosamente ontem estive a colar uma folha de cada tipo
num postal de natal para um amigo. Ele trabalhou no Jardim Botanico do Faial e resolvi perguntar-lhe se sabia a que se devia a diferenca. Por isso achei graca que hoje mostrasse as fotografias das folhas. Assim ainda tive a resposta a minha pergunta mais cedo do que imaginava. E' curioso como o universo e' tao generoso, ate' nos pequenos detalhes.

BlueShell disse...

àrvores...as minhas amigas de sempre, as minhas companheiras, as minhas confidentes?...loucura? Não porque as minhas árvores são especiais: são minhas...jinho, BShell

Carla de Elsinore disse...

obrigada, obrigada

Paulo Araújo disse...

Boa noite Verónica,

(Peço desculpa se me enganei no nome.) Essa árvore de Glasgow, a meio caminho entre o mutante e o não-mutante, não será resultado de um enxerto? Com certeza haverá no Jardim Botânico quem saiba a explicação (que fiquei mesmo muito curioso em conhecer).

asa disse...

Exciting news!

Estive no Jardim Botanico pela manha e tirei fotografias. Como era de esperar, a Faia ja' nao tinha folhas, mas ainda recolhi folhas de ambos os tipos caidas no chao. Reparei tambem que um dos ramos da arvore apresenta pequenas saliencias (assim como pequenos inchacos, "mameloes").

Falei com um dos curadores do Jardim. Disse-me que nao sabe a data exacta em que a arvore foi plantada, mas pensa que tera' cerca de 100 anos. Disse-me tambem que inicialmente era uma mutante (que aqui no RU se chama "feather like firch", aparentemente porque as folhas mutantes lembram uma pena) mas que entretanto regrediu e que comecou a ter folhas "normais" tambem. Disse-me que era uma situacao natural e sem intervencao do homem. Assim nao se trata de um enxerto mas sim de uma mutacao que entretanto regrediu. Quando eu vi a arvore a meio do Outono reparei que a maior parte das folhas erao "normais", talvez apenas cerca de 10-15%, ou menos, eram mutantes. Isso tambem me confirmou esta manha o curador. Quando lhe perguntei se era comum uma mutante regredir disse-me que nao estava certo, mas provavelmente nao, visto que nao conhece outro caso em que isto tenha acontecido.

Saudacoes caledonicas

PS: As fotografias sao um pouco pesadas para lhe enviar por email. Conhece o software "Hello from Picasa"? O download e' gratuito e caso o tenha poderia enviar-lhe as fotografias pelo hello em data a combinar. Tambem fotografei o tronco com os tais mameloes.

PS2: Prometo que na Primavera lhe tiro uma fotografia da arvore com folhas dos dois tipos. Se continua a regredir qualquer dia escondera' para sempre a sua origem mutante.

Paulo Araújo disse...

Que notícia extraordinária! É como se a mutação fosse uma doença de que a árvore se curou espontaneamente; e quem sabe se o mesmo não acabará por suceder a todas as árvores da mesma variedade (todas elas clones de uma mesma árvore).

Posso receber as fotos por email desde que os anexos em cada mensagem não ultrapassem os 4 MB. O meu endereço é

paraujo(at)fc.up.pt

E muito obrigado por tão preciosa colaboração!

asa disse...

A historia complica-se...

Esta tarde fui ao jardim botanico para uma fantastica "Victorian Style Christmas Party" com teatro, cancoes de natal e "mulled wine".

No final da festa fui falar com outro curador do jardim botanico. Conheci-o ha' dois anos atras quando gentilmente me cedeu uma Sorbus aucuparia para plantar no wildlife garden aqui do campus.

Falei-lhe do estranho caso da Faia mutante que esta' a regredir. E ele respondeu "that's one explanation". Entao ha' outras? Aparentemente sim. Pelo que me explicou ha' duas teorias para a origem da Faia que tem os dois tipos de folha. Este curador disse-me que aquando da plantacao da Faia poderiam ter sido usados 3-4 "galhos" e que eventualmente diferentes galhos se poderiam ter "misturado"/tornado numa so' arvore com o tempo. Sou muito ignorante nestas questoes mas penso que neste caso nao se trataria de um enxerto uma vez que nao se "enxertava" um ramo numa arvore ja' adulta, mas apenas se plantavam varios ramos juntos para aumentar a possibilidade de sucesso da plantacao. Provavelmente o eventual recurso a um ramo da mutante nao foi deliberado porque este tipo de plantacao e' feito no inverno quando os ramos estao sem folhas. Desculpe se esta mensagem e' um pouco confusa. Devo confessar que nao percebo como e' que se planta uma arvore usando varios ramos. Pensava que a Faia "pegava bem" de semente. Tenho o pressentimento que com a traducao para portugues possa nao estar a explicar a historia muito bem... provavelmente porque estou a tentar explicar uma coisa que nao percebi muito bem. Isto faz algum sentido para si, Paulo?

Maria Carvalho disse...

Obrigada por mais esta achega, está a revelar-se uma fonte inesgotável de informações num assunto muito interessante. A faia asplenifolia, por ser um cultivar, não se reproduz por semente, daí o uso pelos jardineiros de estacas (ou ramos), várias para aumentar o sucesso do plantio. Soa plausível que as estacas tivessem origens diferentes, por engano ou não; mas a hipótese da árvore ser uma mutante a regredir estava a maravilhar-nos...

asa disse...

Estacas! Era esta a palavra que nao encontrava. Por isso escrevi ramos entre aspas. Obrigada, Maria.

Pois e', a hipotese do mutante em regressao era curiosa! Ainda hei-de averiguar mais um bocadinho no futuro, mas provavelmente a hipotese alternativa esta' mais perto da realidade. Independentemente disso, however, esta arvore continuara' a maravilhar pela sua beleza todos quantos passam junto a ela.

saudacoes caledonicas!

antonio disse...

Em relação às faias do cultivar asplenifolia... quem quiser adquirir uma ? julgo que um horto em Amarante de nome "Mestre Jardineiro" ainda deve ter algumas... tinha umas pequenas com cerca de 1 metro e uma maior com 4 ou 5 metros.

Luisinha disse...

Comprei na semana passada uma faia do cultivar asplenifolia, no mestre Jardineiro ( pela indicação que fez aqui no comentário).

Estamos em 2008, o seu comentário é de 2005, isto apenas para dizer que este blog é interessantissimo, que dá vontade de o esmiuçar até ás últimas...

Não percebo nada de botânica, mas adoro o tema e leio imenso, tento perceber alguma coisa...ehehe

Parabéns

Anónimo disse...

Lourdes
Bom Dia a todos
Hoje, ao terminar de ler Dom Quixote de Miguel de Cervante, tradução e adaptação de Orígines Lessa, tive a curiosidade de conhecer a faia sob a qual Dom Quixote e Sancho Pança repousam após a Batalha Final. Apreciei e muito a troca de informações nos comentários.
Vou procurar ser mais observadora ao andar pelos parques. Quem sabe eu encontre, pois algumas espécies de árvores foram trazidas da Europa e Oriente e se adaptaram bem ao clima de nossa região (São Paulo).
Abraços