11.11.05

A ler - Um monumento à autocracia

Palavras - Manuel António Pina (No JN)

«Siza Vieira e Souto Moura estão a fazer nos Aliados um monumento à autocracia. A autocracia já merecia um monumento no Porto!

Ora, um monumento à autocracia tem que ser cinzento (e, se possível, "sizento"), que é a cor do posso, quero e mando. E tem que obedecer à regra da autocracia, a uniformidade. Por isso, Siza e Souto Moura conceberam os novos passeios, a nova placa central e as novas faixas de rodagem da Avenida, onde até aqui reinava uma perigosíssima diversidade (até flores havia na placa central!), do modo mais uniforme que puderam granito cinzento, granito cinzento e granito cinzento. Coexistiam por ali, diversamente, uma Praça do General Humberto Delgado, uma Avenida dos Aliados e uma Praça da Liberdade; Siza e Souto Moura tornaram tudo numa coisa só: assim a modos que um Rolex "made in Taiwan". Dessa maneira, os portuenses sempre poderão ir a Paris sem sair de casa. E como a calçada à portuguesa é também excessivamente diversa e excessivamente portuguesa, decidiram fazer-lhe o mesmo que às árvores e às flores, arrancá-la e uniformizá-la. O Porto terá uma Avenida de uniforme "signé Siza". Para tudo ficar uniformemente perfeito, só falta obrigar os portuenses a pôr fato cinzento quando vierem os fotógrafos das revistas de arquitectura.»

3 comentários :

MJE disse...

Embora trabalhe em arquitectura, concordo com a denúncia e a avaliação estética do autor do artigo;

desejo que apareçam mais destes 'levantamentos' de situações negativas, desde que acompanhados de exemplos de casos bem resolvidos;

atitude que tem sido brilhantemente elaborada pelos autores deste blog;

Sugiro uma visita ao 'Infohabitar' onde também se pretende fazer a apologia da qualidade do ambiente urbano, através de intervenções transdisciplinares.

MJE

Luis disse...

Eu diria que uma coisa é diversidade outra é pireza, não confundir. A diversidade dos Aliados é pires, profundamente pires. O canteirinho, a lambisgóiazinha relvada, o motivo delico-doce em pedrinha branca e preta e sei lá que mais...Fizeram bem os mestres em passar tudo a cinzento. O Porto é uma cidade cinzenta, triste. É essa a sua alma. O mestres souberam interpreta-la.

manueladlramos disse...

Nao se esqueça de bater, luis, com a testa no granito...(que de portuense pouco tem). Aliás aquele empredrado em cauda de pavão, vi-o idêntico em frente ao centro Pompidou. Eh Oui. A fonte será como a de Luxemburgo e os Aliados como os Campos Elísios ( assim "Eles" o afirmaram).