24.2.07

Manhattan nas Antas


Torre das Antas

Empurrado pelo Euro 2004 e pelos superiores interesses do nacional-futebolismo, o Plano de Pormenor das Antas (PPA) quis converter uma zona de moradias, aqui e ali pincelada com o verde de antigas matas, numa miniatura portuense de Manhattan. Anterior ao próprio PPA, a guarda-avançada dessa brutal transformação foi a famosa torre das Antas, construção de duvidosa legalidade amplamente acarinhada pelos poderes públicos: além de ser sede da Metro do Porto, é lá que funciona a única Loja do Cidadão da cidade.

Do que o PPA previa já se construíram o estádio, o centro comercial e algumas das torres habitacionais; esperam-se 8000 novos moradores quando a urbanização estiver concluída. Para servir tais moradores e os restantes utentes da zona - 5000 trabalhadores do comércio e serviços, a que acrescem os frequentadores do centro comercial e do estádio -, o PPA prometia um espaço verde público de 10 hectares, o chamado Parque Verde das Antas. Isto dá 12,5 m2 por habitante, o que, não sendo generoso, é todavia razoável para os padrões nacionais. Tal como Manhattan tem o seu Central Park de 340 hectares, também a nova cidade das Antas teria um parque à correspondente escala miniatural.

Mas já vamos em 2007, e nas Antas o único novo espaço verde aberto ao público - ainda assim de acesso reservado - é o relvado do estádio do Dragão, que não tardará a soprar as velas do seu terceiro aniversário. Dos milhões investidos em betão, parecem não ter sobrado sequer uns trocos para o mirífico Parque Verde das Antas, designação entretanto caída no esquecimento. A mancha verde que se avista a norte da alameda das Antas - e que deixará de se avistar quando se erguer a cortina de prédios de que já se vão escavando os alicerces - deveria integrar o prometido parque: trata-se da Quinta dos Salgueiros, propriedade em estado de ruína actualmente na posse da Câmara Municipal do Porto.


Quinta dos Salgueiros

A Quinta dos Salgueiros já conheceu períodos de glória: foi residência de Jacinto de Matos, um dos maiores jardineiros-paisagistas portugueses da primeira metade do século XX, que aí teve as suas estufas e os seus viveiros ao ar livre. No livro Jardins Históricos do Porto (Ed. Inapa, 2001), Teresa Andresen e Teresa Portela Marques enumeram alguns dos jardins e parques projectados por Jacinto de Matos em todo o país: Parque de S. Roque, Casa das Artes, jardim da Ordem dos Médicos (à Arca d'Água), Parque da Curia, Parque das Pedras Salgadas, espelhos de água dos jardins da Presidência do Conselho de Ministros, etc.

Os muros escalavrados e a mansão a cair de podre da actual quinta nada deixam adivinhar desta história. Do antigo arvoredo, sobrevivem ainda camélias, pinheiros, cedros, ciprestes-do-Buçaco, bétulas, Prunus, magnólias, grevíleas, carvalhos-americanos e uma imponente faia - mas, se não houver uma intervenção regeneradora, todas as árvores estão condenadas a prazo pelo avanço da vegetação daninha.


Quinta dos Salgueiros

11 comentários :

Francisco Oliveira disse...

Como moro nas redondezas desta zona do célebre PPA tenho acompanhado com receio o "desenvolvimento" de tal plano. Mas não tenho encontrado companheiros para seguirem o meu desconforto. O futebol e certas correntes políticas têm muita força.
Quanto à Quinta de Salgueiros, não sei se o caro Paulo Araujo já reparou que pelo menos foi feita uma limpesa. Já se conseguem ver as árvores a que se refere. Aquilo era um enorme matagal. Parece-me que as fotografias publicadas já são posteriores a esta limpesa. Imagine como era antes.
Haverá continuidade nos cuidados? Duvido.

Paulo Araújo disse...

As fotos foram tiradas no fim-de-semana passado. Há já algum tempo que eu e uns amigos tínhamos pedido à Câmara para visitar a Quinta dos Salgueiros: embora nos tenham respondido que sim, ficaram de marcar uma data e depois nada mais disseram. Assim, eu e a Maria tomámos a iniciativa de lá entrar a salto - mas não é um exercício que eu recomende, pois há que subir uma ladeira íngreme e sem apoios. Notava-se que tinha sido limpo algum mato, mas deixaram ficar as acácias, e algumas das árvores que sobraram não estão de boa saúde. Se a manutenção não for regular (e não vai ser se não houver a intenção de abrir a quinta ao público) aquilo regressa em pouco tempo ao estado em que estava antes da limpeza.

SCS disse...

Ontem, ao passear pelas ruas deste meu impregnado Porto, lembrei-me de vocês.

Mesmo na Praça da Liberdade.
A dar sombra a um Carteiro que já nem o tempo sabe contar, uma árvore em flor.

Não resisto à partilha do momento.
Bem Hajam,
Vira Vento.

Manuela D.L.Ramos disse...

obrigada scs
É verdade : mesmo na Praça da Liberdade. A dar sombra a um Carteiro que já nem o tempo sabe contar, uma árvore em flor

zooexotico disse...

Essa Quinta dos Salgueiros deixou-me bastante triste. É uma pena que o dinheiro dos portugueses vá para tanta coisa inutil e que não consigam fazer um projecto de recuperação...

Alguém sabe quais os planos da Câmara Municipal do Porto para essa quinta?

Não havia aí pelo norte um grupinho que se unisse para lutar pela preservação desse espaço?

Envergonho-me do meu país...

http://musgoverde.blogspot.com/

José M. Lopes disse...

Gostaria que os autores do Blog "Dias com árvores" me pudessem fornecer ou informar, se for possível, elementos biográficos sobre o Senhor Jacinto de Matos, jardineiro e paisagista, natural do Porto, autor de muitos jardins e parque no nosso país.

Paulo Araújo disse...

O pouco que sabemos sobre Jacinto de Matos é o que consta do livro Jardins Históricos do Porto (Edições Inapa, 2001), de Teresa Andresen e Teresa Portela Marques. O livro contém uma listagem (incompleta) das obras de Jacinto de Matos e refere que ele morreu em 1948. Não diz quando nasceu. Talvez as autoras do livro tenham entretanto recolhido informação mais detalhada sobre ele. Pode tentar contactá-las pelos endereços mlandres(at)fc.up.pt e teresamarques(at)fc.up.pt [substitua (at) por @].

José M. Lopes disse...

Srº Paulo Araújo
Boa tarde.
Agradeço-lhe a informação que me forneceu sobre Jacinto de Matos. Ele foi o o autor do Jardim muncipal de Nisa (alentejo), localidade de onde lhe estou a enviar este e-mail. Estou a tentar reunir alguns elementos biográficos sobre Jacinto de Matos. Possivelmente irei tentar contactar igualmente a Biblioteca Municipal do Porto. Agradeço-lhe uma vez mais a informação e a atenção que me prestou. O meu muito obrigado.

Teresa Marcelino disse...

Quatro anos passados e que será feito deste espaço?
Tenho curiosidade e acho que é responsabilidade de todos questionar-se sobre os espaços verdes já tão escassos!
Temo que no Porto se continue a ignorar o ambiente e a ecologia se fique pela reciclagem.
Talvez, um dia, tenham oportunidade de lá voltar e dizer-nos se "este paraíso" já se encontra a "salvo".
Bem hajam!

Anónimo disse...

Era neta Jacinto de Matos e que eu me recorde os viveiros do meu avô eram em Gaia e a sua residênscia num chalet na R. Oliveira Monteiro, onde eu o visitava todos os domingos.
Maria Luísa Matos Henriques

eduardo disse...

Desculpar-me-á o atrevimento a Srª D. Maria Luísa, mas sendo o Exmo.Sr. Jacinto de Matos uma figura tão querida para tantos, e o país em geral, não estará na disposição de falar um pouco mais da vivência que a Srª teve com o Sr. seu Avô?
Muito agradeceríamos essa grata disponibilidade, que fortemente enriqueceria o nosso conhecimemto.
Já agora deixo a quem interessar, que a revista "O TRIPEIRO" no seu número de Fevereiro de 1950, faz um excelênte elogio A Jacinto de Matos.