24.6.08

Feriado republicano

Estamos no ano 1911, com uma República ainda bebé e o país governado por uma equipa provisória que, nos primeiros dias de poder, decreta quais os feriados para todo o território nacional (1 e 31 de Janeiro, 5 de Outubro, 1 e 25 de Dezembro) e, desaparecidos os entraves da monarquia paternal e centralizadora, estabelece que cabe a cada município escolher um dia extra como feriado no respectivo concelho. Na reunião de 19 de Janeiro, a recém-empossada Comissão Administrativa do Município do Porto entende dar seguimento a esta deliberação. O vereador (da viação, ruas e jardins) Henrique Pereira d'Oliveira propõe que o feriado seja o de S. João pela tradição de festa no Porto nessa data. O colega de soberania Pereira Osório alega «ser-lhe indifferente o dia a escolher, mas parece-lhe que o espírito do decreto respectivo foi outro. Elle é mais talvez para se commemorar o nascimento de alguma individualidade que tenha prestado grandes serviços à cidade. N'essas condições, parece-lhe conveniente que o assumpto fique para ser resolvido em outra sessão.» O presidente Xavier Esteves opina que se «devia solemnisar sim, mas a Natureza» e que, por isso, «o dia 25 de junho, que marca o apogeu do Estio, acha-o bem.» Mas é Sousa Junior que faz história neste evento, sugerindo um processo de decisão que se tem revelado devastador para tratados: o referendo popular. «O assumpto é complicado, se bem que pareça simples. A commissão administrativa não deve votar sobre o caso sem consultar a maioria da cidade.»

No sábado 21 de Janeiro, pondo a ideia em prática, o Jornal de Notícias, por anúncio de primeira página, inicia uma consulta sobre qual o dia que o povo prefere para feriado municipal. Os portuenses escrevem milhares de postais ao periódico, dividindo-se entre o 1º de Maio e o 24 de Junho; mas a 2 de Fevereiro, na contagem final, o dia de S. João venceu a disputa.


Buddleja globosa

A tradição de guarnecer esta noite com sardinhas, manjerico (Ocimum minimum) e alho silvestre (Allium porrum) é muito anterior aos alvores da República, e sobre ela nunca houve plebiscito. Tivesse ele ocorrido, e a Buddleja globosa, do Chile e Argentina, ter-se-ia batido com valentia por um lugar no folclore: não só tem inflorescência semelhante à do alho, de que as moleirinhas poderiam fugir com igual porfia e diversão, como as bolinhas são iluminadas - o que, convenhamos, fica bonito à noite - e as flores rescendem a mel. Ora, mesmo entre aqueles para quem a zebra é impossível porque só conhecem o burro, há narizes - e muitos são sábios no inclinar-se até uma flor.

1 comentário :

bettips disse...

Estes "assumptos" democráticos deveriam mais assumir-se pela tradição: ainda bem que o 24 celebra um "santo com cordeirinho" e por isso, nem vingador nem castigador! E a festa do Verão na cidade das "orvalhadas", o que parece perfeito para este povo que tantos anos, só mesmo no S. João se atrevia a sair aos molhos e a falar alto na rua.
E tenho, sim, saudade da cidreira, do limonete, da alfazema, do alho pôrro ...uma espécie de festival das plantas e graciosidade no cumprimentar.
Abçs