20.11.09

EN 222


Populus nigra L. (choupo) - EN 222 entre a Régua e o Pinhão

Antes da invenção das auto-estradas, as estradas moldavam-se ao território em vez de o devassarem. Enrolavam-se amorosamente nas serras, abraçando-as a cada curva. As árvores, dispostas em galeria ao longo das bermas, ofereciam mistério e aconchego; e algumas delas, como os castanheiros no Outono, davam de prenda os frutos a quem passasse. Descendo para os vales, punham-se as estradas a acompanhar os meandros dos rios. Se por capricho os quisessem cruzar, faziam-no quase rasando as águas.

Hoje há túneis, viadutos e pontes altíssimas. Perfura-se aqui, nivela-se acolá, assentam-se nos vales grossos pilares como patas de uma centopeia apocalíptica. O território deixou de ser a paisagem em que nos reconhecemos para se transformar em obstáculo a ultrapassar e, se necessário, a remover. Passamos e não vemos nada. E ainda bem que não vemos, pois o tapete de asfalto (seis faixas, separador central, áreas de serviço, portagens, nós de acesso) não deixou nada de reconhecível. Claro que agora é mais fácil de chegar, mas aonde? Os lugares por onde rompem as moderníssimas estradas já não são o que eram.

A EN 222, que parte da avenida da República, em Gaia, e, duzentos quilómetros adiante, termina o seu percurso, tortuoso como o do rio que quis emular, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma dessas estradas antigas que se acrescentam à paisagem em vez de a destruírem. É verdade que o seu troço gaiense foi adulterado por sucessivos alargamentos e está visualmente poluído pela proliferação dos subúrbios e dos edifícios fabris; mas, deixando para trás Avintes, Sandim e Castelo de Paiva, vai-se revelando a vocação desta estrada a sul do Douro: o que ela quer é ver-se reflectida no rio. Ultrapassados Cinfães e o maravilhoso vale do Bestança, já o Douro se começa a ver ao fundo de encostas cobertas com vinhas ou, depois de Resende, com pomares de cerejeiras. Contudo, é só nos 23 quilómetros entre a Régua e o Pinhão, onde rio e estrada parecem gémeos, que ela cumpre a sua sina: foram 130 km para aqui chegar, e são mais 50, já longe do Douro, até ao Côa, mas é ao Douro que a estrada pertence, como se os dois nunca deixassem de correr lado a lado.

Este choupo outonal, tendo por companhia freixos, lódãos e uma ou outra oliveira assilvestrada, mora perto da foz do rio Távora. O Tedo e o Torto, outros dois pequenos rios com letra inicial T, também por aqui desaguam na margem esquerda do Douro. Do outro lado do rio, com a linha férrea fazendo contraponto à estrada, sucedem-se montes onde os socalcos das vinhas desenham as curvas de nível com rigor cartográfico. São poucos e invariavelmente brancos, de um branco encardido pelo tempo, os edifícios que se avistam: apeadeiros, armazéns, solares debruçados no rio. É uma paisagem líquida de silêncio, fechada pelos montes e pela bruma, como não há outra em Portugal.

[Texto dedicado ao inspector Jaime Ramos, que conhece bem esta estrada.]

8 comentários :

Henrique Souto disse...

Belíssimo texto. Diz o que todos nós pensamos sempre que percorremos as novíssimas auto-estradas. Já não viajamos, procuramos unir dois pontos o mais depressa possível e deixamos de ver as coisas simples, e belas, da natureza, mesmo quando esta é moldada pelo Homem. Parabéns.

Ramiro Araújo disse...

Só hoje tomei conhecimento da existência deste blogue.
Estou maravilhado.
Ramiro Araújo.

Paulo Araújo disse...

Obrigado pela gentileza. Henrique: tal como há um movimento em defesa da degustação demorada (slow food), também fazia falta um outro pelas viagens sem pressas, sem hora marcada, com paragens e desvios sempre que nos apetecesse. As auto-estradas, obviamente, seriam de uso interdito (ou de último recurso) para quem aderisse ao movimento.

Rafael Carvalho disse...

Conheço a referida estrada em todo o seu percurso.
Revejo-me no texto.
Cumprimentos.

Gi disse...

Já na antiguidade as estradas romanas eram pensadas como uma espécie de auto-estradas: sempre a direito, a maneira mais rápida de chegar de um ponto a outro.

Que haja ambas as coisas, digo eu, e comboios também.

António disse...

Excelente texto, sobretudo o final, da Régua ao Pinhão.
Não deixo de concordar, em parte, com o que escreve sobre as novas vias de comunicação. Mas a verdade é que, muitas vezes, as antigas permanecem. É só uma questão de escolha.
E recordo, também, os tormentos que passávamos, quando crianças, de visita ao Douro, Favaios, para rever Avós: de Coimbra a Favaios (pouco mais longe que o Pinhão) levávamos nunca menos de 6 horas, por vias tortuosas, lindíssimas, mas nauseantes. Tempos houve que, para evitar o Marão, o meu pai nos embarcava no combóio, no Porto, seguindo sozinho até ao Pinhão para nos recolher. Sorte a nossa: a linha do Douro é impar.
Lembro também o Douro, precisamente no percurso Régua-Pinhão, bem antes da construção da barragem de bagaúste (Régua). Muitos se manifestaram contra a sua construção, arautos da desgraça. Lucrámos, pois claro, também com a navegabilidade mas, sobretudo, com a paisagem, soberba.
O mesmo se passará no Tua?

Paulo Araújo disse...

Caro António:

De facto muitas das antigas estradas permanecem, e por isso muitas vezes o viajante poderá optar por elas. Mas, além de terem estragado muitas paisagens, as auto-estradas encorajaram o frenesim de consumir quilómetros, de nos irmos embora logo que acabámos de chegar. Quando viajar era mais complicado, permanecia-se pelo menos uma noite ou um fim-de-semana no local de destino: havia tempo para estar e para ver.

Quanto à paisagem do Douro, infelizmente não tenho idade para me lembrar dela antes das barragens, mas, apesar dos espelhos de água, não penso que o rio tenha ficado mais bonito com essas construções. João de Araújo Correia, grande escritor duriense, chamava rio morto ao Douro depois de construídas as barragens. E o troço da EN222 exactamente junto à barragem de Bagaúste é certamente o mais feio de todo o percurso. Com a barragem o rio ficou com menos vida, engordou a montante e emagreceu a jusante.

No caso do Tua, há elevadíssimos prejuízos com a construção da barragem: ecológicos (perda de qualidade da água, perda de importante biodiversidade com o afogamento das margens), económicos (perda de vinhas e terrenos agrícolas) e patrimoniais (afogamento da linha do Tua). A estes prejuízos objectivos podemos juntar a destruição da paisagem, pois só quem nunca percorreu o vale do Tua pode imaginar que ele ficaria mais bonito debaixo de água.

Francisco Bernardo disse...

revaleCompletamente de acordo com o texto.
Deixo aqui um atalho para algumas fotos
Que fiz precisamente entre a barragem
De Bagaúste e o Pinhão
http://www.flickr.com/photos/frbernardo/sets/72157621568912754/


Cumprimentos

Francisco Bernardo.