17.12.09

Ficus fugit



Ficus sycomorus L.

    O rei fez com que, em Jerusalém, a prata e o ouro fossem tão
comuns como as pedras, e os cedros, tão numerosos como os
sicómoros da planície da Chefela.


Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali
um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de
impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão,
pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um
sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali.


Bíblia Sagrada - 2 Cr 1, 15; Lc 19, 1-4
Sicómoro, ou sycamore em inglês, é nome que já vem no Antigo Testamento; mas, como a árvore de prestígio bíblico assim designada não ocorre em território europeu nem americano, ele foi dado de empréstimo a outras árvores. Quando os britânicos falam de sycamore, referem-se ao nosso padreiro (Acer pseudoplatanus), mas os americanos reservam esse nome para os plátanos - a que os ingleses, por sua vez, chamam plane tree. Se a semelhança na folhagem entre o plátano e o padreiro pode desculpar esta divergência, já custa mais ver que afinidade poderão ter estas árvores com a Ficus sycomorus. Pois a árvore a que subiu Zaqueu para ver Jesus, e que abundava na terra de Israel ao tempo do rei Salomão, era na verdade uma figueira.

O sicómoro é cultivado há milénios no Egipto e na Palestina, e alguns sarcófagos dos faraós foram feitos com a sua madeira, a mais usada, a seguir à da acácia, no país das grandes pirâmides. Originário do continente africano, em habitats variados que vão do nível do mar aos 1850 m de altitude, tem uma área de distribuição ampla, que começa a sul do Sara, inclui parte da península Arábica, e desce até à fronteira norte da África do Sul. Árvore caducifólia, as suas folhas, rugosas na face superior e de margens onduladas, assemelham-se às das amoreiras em tamanho, textura e cor. Os figos, com cerca de 4 cm, ganham tom amarelo ou vermelho ao amadurecerem e são tidos como comestíveis, embora pouca gente lhes gabe o sabor. De facto, parecem ser mais apreciados por pássaros, macacos e babuínos do que por humanos.

Com longos ramos quase horizontais a irradiar do tronco atarracado, o sicómoro do Jardim Botânico Tropical, em Belém, faz jus à fama da espécie como árvore de sombra. Imagino que essas ramadas sejam, em África, poiso de emboscada para os grandes felinos à espera de presa - ou pelo menos era isso que sugeria a foto de grande formato lá pendurada. Mas a maior aventura sucedida a esta árvore é a guerra de morte que lhe é movida por uma sua vizinha e congénere. O tronco inclinado mostra-a em tentativa de fuga, e o caso não é para menos. Relato completo do drama, com todos os protagonistas em discurso directo, nesta notícia de última hora.

7 comentários :

Estela disse...

Vim lhes desejar um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de alegria e muitas árvores no nosso caminho.
Abraços.

Paulo Araújo disse...

Obrigado, Estela. E que sejam também felizes (embora menos frios do que aqui) o seu Natal e Ano Novo.

Paulo disse...

Paulo, salgueiros e padreiros (obrigado, não sabia que tinham este nome) lembram-me sempre a Canção de Desdémona que Korngold compôs a partir do poema de Shakespeare: The poor soul sat sighing by a sycamore tree...

Paulo Araújo disse...

Olá, Paulo, e obrigado pela adenda poético-musical. Isso dos nomes comuns das árvores tem a sua graça. Quando o mesmo nome significa várias coisas, as imagens mentais que cada um forma a partir de uma canção ou de um poema são por vezes bem diferentes daquilo que o autor quis exprimir. (Isto, claro, só quando se atinge o estádio em que as árvores e as outras coisas da natureza passam a ter nome próprio e deixam de ser simplesmente árvores.)

Padreiro é um dos vários nomes que se podem dar ao Acer pseudoplatanus, como se vê aqui. Mas os outros nomes parecem-me depreciativos (falso-plátano e plátano-bastardo) ou aplicam-se também a outras árvores.

Paulo disse...

Apenas conhecia o A. pseudoplatanus pela designação de bordo, plátano-bastardo e falso-plátano. De onde virá o padreiro?

Paulo Araújo disse...

Padreiro é certamente um nome popular. O dicionário da Porto Editora diz que se trata de um regionalismo, e de facto é bastante semelhante às designações galegas para a mesma árvore: padrairo ou prádano. Os nomes plátano-bastardo e falso-plátano foram decerto inspirados pelo nome científico da planta e são por isso de origem mais "erudita". Não são muitas as árvores que em Portugal têm um nome genuinamente vernáculo, e por isso seria um desperdício não usar este.

maria cova disse...

Também para desejar um Ano Novo com saúde e alegria mas principalmente para agradecer a recordação do sabor,ao ler o vosso comentário. Foram muitas as tardes que passei debaixo de uma figueira a chupar a polpa fibrosa dos saborosos figos e de seguida, com uma pedra( quantas cabeças de dedos esborrachadas eheheh!!!),partir o caroço e comer a gostosa amêndoa que se encontra no seu interior! Há sabores que nunca esquecemos.
Parabéns pelo interessante e útil blog.