4.6.18

Ouro branco

Ainda que, depois do Verão muito seco e dramático no ano passado, muitos tenham passado a apreciar mais a chuva, não deixa de ser um mistério que haja plantas terrestres que espontaneamente colonizem meios aquáticos. É que a sobrevivência em habitats palustres exige cuidados que podem ser ignorados em terra: é essencial que as folhas se mantenham a flutuar, para o que faz falta uma estrutura celular esburacada como a da cortiça, ou algum tipo de bóia; é imprescindível que as hastes florais sobressaiam na água para atrair os polinizadores sem os colocar em risco de se afogarem; os frutos têm de se dispersar na água sem apodrecer com a humidade excessiva; a planta tem de aprender a retirar nutrientes da água, uma sopa demasiado diluída; e há que saber aproveitar as interacções que o ambiente novo proporciona. Uma lista idêntica, a que se deve juntar a capacidade de hibernar debaixo de neve por largos meses, aplica-se às plantas vivazes que se adaptam a locais com invernos inclementes. Certo é que, depois de milhões de anos aflitos em ensaios e ajustes, com os pés molhados ou sob frio intenso, o planeta ganha novas espécies, e nós podemos hoje maravilhar-nos com as soluções engenhosas descobertas por elas neste processo.

A família Ranunculaceae, de que o género Ranunculus é o mais numeroso, é exemplar nesta adaptação a novos habitats, merecendo o prémio de uma distribuição invejável. Em Portugal, ocorrem espécies de berma de estrada, de turfeiras, de solos arenosos, de rochas expostas ao sol, de prados húmidos na montanha, de lagoas e charcos. Mas não há registo da espécie que está hoje na montra.


Ranunculus amplexicaulis L.



Com as informações genéticas a que os botânicos têm actualmente acesso, é possível identificar as alterações nos genes que acompanharam a transição do meio terrrestre para o aquático, ou do litoral para regiões acima dos mil metros. Curiosamente, no caso dos ranúnculos, essas mudanças não correspondem a alterações radicais nas flores. Estas são sempre do mesmo formato achatado, com pétalas ovadas amarelas brilhantes, ou brancas com um centro amarelo vistoso, por vezes raiadas por uns tons rosados. Mas a morfologia das folhas é bastante variada, o que até nem supreende: enquanto que a uma planta aquática interessam folhas fininhas, leves e muito recortadas, a uma espécie perene de montanha servem melhor folhas robustas, inteiras, penugentas e coriáceas.

O Ranunculus amplexicaulis, um quase endemismo ibérico de zonas montanhosas acima dos 1300 metros, tem folhas generosas que abraçam o caule e a haste floral para os agasalhar entre Maio e o início do Verão. A flor é por vezes solitária mas vistosa, com o centro amarelo protegido por alguma penugem. Vimos estes exemplares no Pico Tres Mares, na Cantábria, durante a primeira semana de Maio do ano passado. Neste início de Junho, o Pico tem ainda estradas cortadas pela neve, a maioria das plantas ainda não floriu, e poucos polinizadores estão ao serviço. Quem sabe, é apenas um atraso ocasional, como quando nos deixamos ficar mais meia hora no quentinho dos lençóis por sabermos do frio lá fora.

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