6.10.18

Violeta de Anaga



Viola anagae Gilli



Anaga, no extremo oriental de Tenerife, feita de relevos abruptos e acidentados, cortada por (poucas) estradas todas em curvas e contra-curvas, suspensas em encostas vertiginosas, esconde uma floresta laurissilva que, embora menos húmida e luxuriante do que a da Madeira, não lhe fica nada atrás em riqueza botânica. É um mundo à parte que parece ter-se juntado por acidente à mesma ilha onde pontifca a paisagem lunar da montanha do Teide. Seguimos de carro pela crista arborizada, a 900 metros de altitude, com a floresta derramando-se pelas encostas, e acessível por caminhos partindo dos vários lugares onde era possível estacionar. Nesta latitude subtropical, mesmo em Dezembro havia flores na berma de estrada que nos obrigaram a sucessivas paragens: uma misteriosa Pericallis, um gerânio gigante, os sinos alaranjados da Canarina. Chegámos por fim ao ponto onde tinha início o trilho quase secreto (só o encontrámos à segunda tentativa) que, entre loureiros e urzes, e pontuado pelo nosso bem conhecido feto-do-botão e por algumas orquídeas temporãs, nos conduziria ao almejado pico Chinobre.

O nosso objectivo era encontrar a Viola anagae, uma violeta endémica de Tenerife que só existe nos bosques desta ponta da ilha. Ao longo do trilho, assim como no exacto lugar onde deixámos o carro, avistámos tapetes de folhas que pertenciam indubitavelmente a alguma violeta - mas, sendo eles tão extensos e numerosos, supusemos tratar-se de coisa banal como a Viola riviniana, comum em toda a Europa e igualmente presente nas Canárias. Mas as folhas anormalmente grandes e coriáceas, com as margens peculiarmente serradas, acabaram por despertar suspeitas que, alcançado o pico Chinobre, se converteram em certezas: aquilo era mesmo a Viola anagae, e ali no pico (mas não antes) havia meia dúzia de flores a comprová-lo. Aprendemos a lição: um endemismo muito restrito (a área total de distribuição da Viola anagae é talvez inferior a 3 km2) pode afinal ser abundante nos poucos nichos onde se acolhe.

A Viola anagae é uma planta rizomatosa, de longos caules rastejantes e folhagem perene, com flores pequenas (1,5 a 2 cm de diâmetro) mas de coloração distintiva. Não é a mais vistosa do seu género nas Canárias, mas dificilmente se confunde com qualquer outra Viola nativa do arquipélago. Sendo tão fácil de encontrar na laurissilva de Anaga, e sendo a flora canarina tão intensamente estudada pelo menos desde o século XIX, é um mistério que a espécie só em 1979 tenha sido reconhecida. Quem dela publicou a primeira descrição foi o botânico austríaco Alexander Gilli (1904-2007).

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