14.8.19

Feto lunar


Botrychium lunaria (L.) Sw.


Atingindo uns 10 a 15 cm de altura máxima, e surgindo de modo efémero entre Junho e Agosto, a parte aérea do feto-lunar (Botrychium lunaria) é formada por duas partes: uma folha (ou fronde) dividida em segmentos com o feitio de lua crescente ou minguante; e uma haste fértil em que os esporângios, pela forma e disposição, lembram um cacho de uvas (é esse precisamente o significado de botrys, palavra grega de que deriva o nome Botrychium). A mesma arquitectura básica, mas com um desenho muito diferente, é partilhada pelas línguas-de-cobra - os fetos do género Ophioglossum, de que são três as espécies espontâneas em Portugal. À afinidade morfológica junta-se a semelhança dos estilos de vida: tanto os Ophioglossum como os Botrychium são plantas vivazes que passam a maior parte da sua vida reduzidas a rizomas subterrâneos; se as condições forem desfavoráveis, podem mesmo em certos anos não emitir folhas, sobrevivendo com a ajuda dos fungos simbióticos que se lhes agarram às raízes. Os dois géneros são os únicos representantes na Europa da família Ophioglassaceae, que representa uma etapa primitiva na evolução dos pteridófitos.

Pela sua pequenez, coloração inconspícua e carácter fugidio, o feto-lunar, tal como as línguas-de-cobra, é de difícil detecção. Está contudo muito disseminado pelas zonas frias ou temperadas dos dois hemisférios, estendendo-se por toda a Europa e Ásia, pelos extremos norte e sul das Américas, pelo norte de África (montanha do Atlas), e pela Austrália e Nova Zelândia. Portugal é o único país do continente europeu onde ele nunca foi visto; em jeito de compensação, sabe-se que ocorre no Pico (no topo da montanha) e na Madeira (Encumeada). Na Península Ibérica, a julgar pelo mapa de distribuição no portal Anthos, é frequente nos Pirenéus e esporádico ao longo da cordilheira cantábrica.

Foi para remediar essa lacuna no nosso currículo de avistamentos botânicos que em Julho de 2015 rumámos à Cantábria e ao Pico Três Mares. Embora o intento saísse frustrado, a viagem foi inesquecível por muitos motivos, tanto que a repetimos em 2017 e 2018. O feto-lunar nada quis connosco, talvez porque, a 2100 metros de altitude, só em Agosto ele se dê a ver. A terceira visita, no final de Maio de 2018, tinha tudo para correr pior do que as anteriores: uma Primavera invulgarmente fria atrasara o degelo e os cumes cobertos de neve permaneciam inacessíveis. Nesse dia, acossados por chuva persistente, a nossa exploração botânica resumiu-se a umas curtas paragens em bermas de estrada. Quando revisitávamos o local onde no ano anterior víramos duas espécies de Gentiana, eis que nos surge o feto-lunar num tapete de musgos e entre tufos de Potentilla montana (espécie abundante na Cantábria). Um encontro inteiramente inesperado, a 15 km de distância e 1000 metros abaixo do local onde anteriormente o procuráramos, e para mais em zona calcária, sabendo nós que o Pico Três Mares é formado por quartzitos.

De modo que aqui está ele exibido como troféu: um único exemplar em condições de ser fotografado entre muitos outros que apenas despontavam. Gostaríamos de o ter encontrado na Madeira ou no Pico, mas quem não tem cão caça com gato e as grandes escaladas de montanha já não são para nós.

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