31/01/2026

Confusão de línguas

Habitat de Ophioglossum polyphyllum em Lanzaote

As línguas-de-cobra (género Ophioglossum) são propícias à confusão, por falta de características diferenciadoras que separem claramente as diversas espécies. O botânico norte-americano Robert T. Clausen, numa revisão da família Ophioglossaceae publicada em 1938, concluiu que nem a venação das folhas, nem o seu formato, nem o tamanho ou ornamentação dos esporos, podiam, cada um por si, ser usados para delimitar as espécies de Ophioglossum de modo fiável. Certas pequenas diferenças evidenciadas por populações restritas, ou às vezes apenas por indivíduos isolados, perdiam, segundo esse autor, todo o significado quando vistas no contexto da distribuição mais alargada das espécies. O resultado de estudos parcelares ou muito localizados, valorizando diferenças miúdas, teria sido a proliferação de novas espécies de validade duvidosa — que, na opinião de Clausen, nunca deveriam ter sido publicadas.

O trabalho de Clausen foi assim, em grande medida, o de reunir, para cada uma das espécies que considerou válidas, todos os nomes que, no seu entender, representariam simples sinónimos dessa espécie, não merecendo especial reconhecimento taxonómico. Do Ophioglossum vulgatum, uma das espécies do género mais disseminadas a nível mundial, Clausen contabilizou nada menos que 15 sinónimos.

Acontece que a taxonomia botânica evoluiu muito desde 1938, e nas últimas décadas foi revolucionada de alto a baixo pelos estudos moleculares. Espécies que visualmente mal se distinguem podem agora ser certificadas como distintas por via genética. Além disso, um estudo mais minucioso das diferenças observadas, a par de considerações sobre a distribuição, pode levar ao reconhecimento, como espécies distintas, de entidades morfologicamente próximas mas geografi­camente afastadas. Por exemplo, ao contrário do que defendia Clausen, não se considera hoje que o verdadeiro O. vulgatum ocorra na América do Norte: o que lá há são espécies semelhantes como O. pycnostichum (na costa leste) e O. pusillum (com uma distribuição mais nortenha).

A um olhar contemporâneo, Clausen avulta como praticante extremo de lumping, o acto de amalgamar coisas muito diversas sob o mesmo nome, adoptando conceitos muito latos de espécie e desvalorizando diferenças com o estafado argumento das “formas intermédias” — como se a existência de mulas demonstrasse que cavalos e burros são da mesma espécie.

Ophioglossum azoricum e Ophioglossum polyphyllum são dois dos nomes que, segundo Clausen, seriam sinónimos de Ophioglossum vulgatum. Ambas essas espécies são hoje reconhecidas como válidas — e, nos exemplares típicos, a diferença entre elas e o O. vulgatum é flagrante: são plantas muito mais pequenas, em geral com duas ou mais folhas em vez de uma só, e estas parecem brotar directamente do solo (as do O. vulgatum têm pecíolos muito longos), sendo lanceoladas em vez de largas e rombudas; além disso, cada espiga tem no máximo uns 20 pares de esporângios, quando no O. vulgatum esse número pode chegar aos 40.

Ophioglossum polyphyllum A. Braun


Resta a questão de diferenciar o O. polyphyllum do O. azoricum. Para isso, ilustramos o texto com fotos de ambas as espécies, as da primeira obtidas em Lanzarote, em Dezembro de 2025, perto da playa del risco, as da segunda em Maio de 2022 num prado húmido no concelho de Miranda do Douro. O período de visibilidade destas espécies é desde logo um dado importante: o O. polyphyllum surge no Inverno, o O. azoricum só o faz com a Primavera em velocidade de cruzeiro. Também salta à vista a diferença de habitat: o O. polyphyllum foi fácil de fotografar porque se destacava do solo argiloso-arenoso praticamente nu; o O. azoricum, camuflado numa confusão de mini-herbáceas, fez tudo para dificultar a tarefa do fotógrafo. Quanto às diferenças morfológicas, as folhas do O. polyphyllum são mucronadas e têm um vinco longitudinal notório; as hastes férteis são amiúde ultrapassadas pelas folhas, e o seu ponto de inserção situa-se na base da lâmina foliar (no O. azoricum a folha e a haste fértil separam-se quase a nível do solo); por fim, a espiga dos esporângios é nitidamente mais engrossada no O. polyphyllum do que no O. azoricum.

Ophioglossum azoricum C. Presl
O O. azoricum distribui-se sobretudo pela Europa ocidental, de Itália a Portugal e deste à Grã-Bretanha, Irlanda e Islândia; e, além de estar presente nos Açores, foi assinalado na Madeira e, muito residualmente, nas Canárias. O O. polyphyllum, por seu turno, está presente também em Cabo Verde e tem uma distribuição muito vasta em zonas tropicais e subtropicais de África, Ásia, Austrália e América Central; e, apesar de velhas notícias em contrário, está totalmente ausente da Europa. Só nas Canárias é que as duas espécies coexistem, mas não nos mesmos habitats e nem sequer em lugares próximos.

J. Amaral Franco & M. Rocha Afonso, no livro (de 1982) Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal, informam que o O. polyphyllum ocorre em Portugal, algures nas margens da Douro perto da Régua. Além de o habitat favorável não existir nessa região (nem, provavelmente, em nenhuma parcela do território português), o desenho com que os autores pretendem ilustrar a espécie em nada se assemelha às plantas que vimos em Lanzarote. É provável, portanto, que perfilhem um conceito da espécie diferente daquele que é aceite na actualidade. A que se deve tal discrepância?

O nome Ophioglossum polyphyllum foi originalmente publicado em 1844, pelo alemão Moritz Seubert, no seu livro Flora Azorica, sendo então atribuído a plantas que os também alemães Hochstetter (pai e filho) haviam colhido na Terceira no final da década de 1830. Contudo, o nome da espécie e a sua descrição, tal como aparecem no livro, são da autoria de A. Braun, e referem-se a exemplares colhidos por este último em 1837 na Península Arábica. A conclusão da posteridade foi que as plantas árabes são diferentes das açorianas, e portanto o nome Ophioglossum polyphyllum, ainda que aparecido num livro dedicado à flora dos Açores, não pode ser aplicado às plantas açorianas. Os mesmos exemplares colhidos pelos Hochstetter na Terceira serviram de base à descrição, publicada em 1845 pelo botânico checo Carl Presl, do Ophioglossum azoricum; e, ainda que se tenha posteriormente constatado não estarem elas confinadas aos Açores, é esse o nome válido que hoje as ditas plantas ostentam. Para agravar a confusão, o O. azoricum foi, a dada altura, subordinado ao O. vulgatum sob os nomes de O. vulgatum var. ambiguum ou O. vulgatum subsp. ambiguum. Assim, os exemplares colhidos pelos Hochstetter, ainda que pertencentes todos à mesma espécie, levaram a que autores mais incautos decretassem nos Açores (e, em particular, na Terceira) a existência de nada menos que três espécies: O. azoricum, O. polyphyllum e O. vulgatum. Só a primeira dessas línguas-viperinas é que ocorre no arquipélago, embora na verdade haja lá mais uma — O. lusitanicum — que, por ser minúscula, é impossível confundir com qualquer uma dessas três.

Toda esta confusão de línguas foi deslindada cabalmente pelo italiano Rodolfo E. G. Pichi-Sermolli, em 1954, num trabalho dedicado à flora etíope (Adumbratio Florae Aethiopicae 3. Ophioglossaceae, Osmundaceae, Schizaeaceae). O jugo italiano sobre a Etiópia durou apenas de 1936 a 1941, mas treze anos depois ainda havia quem trabalhasse nos despojos do frustrado império. Na parte que nos interessa, desde 1954 que o conceito de O. polyphyllum deveria ter deixado de suscitar dúvidas, pelo que insistir que esse feto existe em Portugal (seja no Continente ou nos Açores) ou em algum lugar da Europa continental só revela distracção ou teimosia.

24/01/2026

Mar-me-queres



A costa de Menorca, uma das mais pequenas ilhas Baleares, não é toda feita de praias extensas de areia fina. Em alguns destes locais à beira-mar, o solo é arenoso e avermelhado, com inúmeros afloramentos rochosos de permeio. O vento e a maresia têm suavizado as arestas destas fragas, e criam nelas inúmeros nichos ondulados onde as plantas se refugiam dos excessos do clima mediterrânico e da influência marinha, sejam o calor e a secura extrema no Verão, a chuva intensa na estação fria ou o nível elevado de salinidade. Estes são lugares onde nem sempre é cómodo caminhar, e onde não se pode estender uma toalha para passar a tarde refastelado a bronzear a pele. Talvez por isso mesmo, são habitats bem conservados, que se destacam pela concentração invulgar de endemismos. As plantas que hoje vos mostramos são vizinhas num pedaço de costa pedregoso no norte de Menorca, onde predominam os solos ácidos, e florescem na Primavera.

Bellium bellidioides L.


Este malmequer é uma espécie endémica da região mediterrânica, havendo registos dela apenas nas ilhas Baleares, Córsega e Sardenha. É uma herbácea perene rasteira, de folhas inteiras com 2 a 5 cm de comprimento, que se estende frequentemente em tapetes densos pois também se propaga por estolhos. Prefere habitats húmidos e frescos, e tolera melhor uma exposição longa ao sol do que à geada. Entre Abril e Agosto, cobre-se de pequenos capítulos (um eficiente chapéu-de-sol que protege as rosetas de folhas) cujas lígulas brancas são rosadas na face inferior. As inflorescências lembram as margaridas do género Bellis, que florescem no Outono e Inverno — com excepção da linda Bellis azorica, cuja floração se inicia em Junho e não vai além de Setembro.

Anthemis maritima L.


Esta outra margarida é mais exuberante, além de aromática, rescendendo a camomila. As folhas são muito divididas e carnudas, adaptadas a ambientes litorais com solo pobre, e agrupam-se em formas compactas arredondadas que se resguardam, aninhadas nas rochas, contra o vento frio e seco que sopra na costa norte (a tramontana). Ocorre também no sul de Portugal continental, colonizando dunas secundárias e arribas rochosas.

13/01/2026

Cenouras, funchos e brucos



O período de festas, tão desafiante para os estômagos, já ficou para trás, e é possível outra vez falar de comida sem risco de enjoo. À cautela, porém, ficar-nos-emos por considerações puramente teóricas. Das plantas que hoje apresentamos, todas elas fotografadas em Menorca, e todas perten­centes à família das umbelíferas, nenhuma é na verdade comestível, podendo embora ter afinidades com outras que assumidamente o são.

Daucus carota subsp. hispanicus (Gouan) Thell.


A encabeçar a lista temos uma cenoura temperada com sal marinho. Entre as variedades de Daucus carota, avulta a consabida cenoura cultivada (subsp. sativus), de que a parte comestível é a raiz grossa, alaranjada, de formato cónico. A versão silvestre de Daucus carota não produz essas raízes napiformes, para desilusão daqueles que acreditam ser obrigação da natureza disponibilizar-nos alimentos prontos a consumir. Mas se produzisse, e tendo em conta a abundância dessa planta por toda a Europa, ninguém precisaria de cultivar cenouras na sua horta. Ainda que sem préstimo culinário, as cenouras silvestres apresentam-se sob formas muito diversas: plantas esguias ou atarracadas, umbelas achatadas ou convexas, hastes mais ou menos escábridas, folhas quase suculentas ou de textura herbácea. A subespécie hispanicus (nas fotos) revela a sua adaptação a habitats costeiros pelo porte robusto, pelas inflorescências compactas, e pela folhagem semi-suculenta, de um verde brilhante.

Kundmannia sicula (L.) DC.


A Kundmannia sicula é uma planta de até um metro de altura que, em Maio, floresce profusamente nas bermas das estradas menorquinas. É só por preguiça que a associamos ao funcho, pois as semelhanças entre as duas plantas resumem-se à circunstância de ambas seram umbelíferas de flores amarelas. Já as diferenças são muito evidentes, a começar pelas folhas: as do funcho parecem um emaranhado de fios, mas as da Kundmannia, sobretudo as basais, são uma ou duas vezes pinatissectas e dispõem de folíolos bem amplos. E, ao contrário do funcho, a Kundmannia pouco ou nada tem de aromática.

Disseminada pela bacia mediterrânica, mas menos abundante no continente europeu do que no norte de África (sobretudo na Argélia) e em algumas ilhas do Mediterrâneo (Baleares, Sicília), a Kundmannia sicula só tangencialmente atinge território português. Contudo, a sua presença residual no Algarve, e o facto de aí estar em sério risco de extinção, valeram-lhe lugar destacado na Lista Vermelha da flora portuguesa.

Magydaris pastinacea subsp. femeniesii O. Bolòs & Vigo


É um contra-senso que a umbelífera mais bem cheirosa de que temos notícia, a Magydaris, afinal não seja comestível. A representante solitária do género em Portugal, Magydaris panacifolia, — que, já lá vão muitos anos, tivemos oportunidade de cheirar em primeira mão em Trás-Os-Montes — singulariza-se, de acordo com o portal Flora-On, pelo “forte e característico odor a cumarina”. A planta menorquina, Magydaris pastinacea, não é menos olorosa; e, tal como a sua congénere, destaca-se pela altura (alcança os 2,5 m) e pelas folhas de grande formato (até 50 cm de comprimento). De facto, não é pelas flores nem pelas folhas que as duas espécies mais facilmente se distinguem, mas a M. pastinacea tem umbelas mais amplas, à vezes com 40 ou mais raios, ficando-se a M. panacifolia por um máximo de 20 a 25 raios.

A M. pastinacea tem uma distribuição global escassa: além de Menorca, apenas ocorre na Península Itálica, Sicília, Sardenha, Córsega e norte de África. A subespécie femeniesii, a única assinalada em Menorca, é tida como endémica dessa ilha, mas nem todos os autores aceitam a pertinência dessa combinação. Em todo o caso, é uma planta que pouco se vê. Não porque esteja em vias de desaparecer, mas porque a quase totalidade dos barrancos onde vegeta são propriedade privada e estão vedados à visitação.