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30/08/2007

Amor de passarinho


Geranium robertianum (erva-de-São-Roberto)

Desde que mandei colocar na minha janela uns vasos de gerânio, eles começaram a aparecer. Dependurei ali um bebedouro, desses para beija-flor, mas são de outra espécie os que aparecem todas as manhãs e se fartam de água açucarada, na maior algazarra. Pude observar então que um deles só vem quando os demais já se foram.

Vem todas as manhãs. Sei que é ele e não outro por um pormenor que o distingue dos demais: só tem uma perna. (...) Segundo o dicionário, trata-se de «uma ave passeriforme de coloração verde-azeitonada em cima e amarela embaixo». Na realidade, é uma graça, o meu passarinho perneta.

Ao pousar, equilibra-se sem dificuldade na única perna, batendo asas e deixando à mostra, em lugar da outra, apenas um cotozinho. É de se ver as suas passarinhices no peitoril da janela, ou a saltitar de galho em galho, entre os gerânios, como se estivesse fazendo bonito para mim. Às vezes se atreve a passar voando pelo meu nariz e vai-se embora pela outra janela. (...)

Enquanto escrevo, ele acaba de chegar. Paro um pouco e fico a olhá-lo. Acostumado a ser observado por mim, já está perdendo a cerimônia. Finge que não me vê, beberica um pouco a sua aguinha, dá um pulo para lá, outro para cá, esvoaça sobre um gerânio, volta ao bebedouro apoiando-se num galho. Mas agora acaba de chegar outro que, prevalecendo-se da superioridade que lhe conferem as duas pernas, em vez de confraternizar, expulsa o pernetinha a bicadas, e passa a beber da sua água. A um canto da janela, meio jururu, ele fica aguardando os acontecimentos, enquanto eu enxoto o seu atrevido semelhante. Quer dizer que até entre eles predomina a lei do mais forte! De novo senhor absoluto da janela, meu amiguinho volta a bebericar e depois vai embora, não sem me fazer uma reverência de agradecimento. (...)

Desde então muita coisa aconteceu. Para começar, a comprovação de que não era amiguinho e sim amiguinha - segundo me informou o jardineiro: responsável pelos gerânios e pelo bebedouro, seu Lorival entende de muitas coisas, e também do sexo dos passarinhos. (...)

Só de uns dias para cá deixou de vir. Fiquei apreensivo, pois a última vez que veio foi num dia de chuva, estava toda molhada, as peninhas do peito arrepiadas. Talvez tivesse adoecido. Não sei se passarinho pega gripe ou pneumonia. Segundo me esclareceu Rubem Braga, o sádico, costuma morrer de gato. Ainda mais sendo perneta.

Fernando Sabino, As melhores crónicas (Ed. Record - 2000)

28/01/2005

Dúvidas de semeador

Informa-nos Harri Lorenzi, no livro Árvores Brasileiras - Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil (Instituto Plantarum, São Paulo, 1998), que as sementes da Ceiba insignis, que plantaremos logo que resolvam espreitar do aconchego do algodão que as envolve, germinarão em uma a duas semanas. Informações bem-vindas para aplacar a ansiedade. Em tempos idos, sem literatura especializada disponível, a sorte do semeador - e do contista - era mais imprevisível. Disso nos dá conta Fernando Sabino em As melhores crónicas (2000):

«Um ficcionista às vezes precisa saber coisas muito esquisitas. A experiência própria nem sempre ajuda. Passei, por exemplo, a minha infância nos galhos de uma mangueira, chupando manga o dia todo, e não soube responder a um amigo meu, excelente romancista, quanto tempo levava para germinar um caroço de manga. Contou-me ele, na época, que andou precisando saber este pormenor, em razão de uma história que estava escrevendo. Depois de perguntar a um e outro, e não obtendo senão respostas vagas, telefonou para a repartição do Ministério da Agricultura que lhe pareceu mais apta a fornecer-lhe a informação. O funcionário que o atendeu ficou simplesmente perplexo:
- Caroço de manga? Que brincadeira é essa?
Como insistisse, informaram-lhe que, realmente, havia quem talvez soubesse - um especialista no assunto, lotado num departamento ao qual estava afeto o sector de fruticultura. Discou para lá - mas só conseguiu colher vagos palpites:
- Um caroço de manga? Bem, deve levar um ou dois meses, o senhor não acha?
- Não acho nada: preciso saber com exatidão.
- Por quê?
- Bem, porque ...
Outros telefonemas, que somente despertaram reminiscências infantis:
- Na minha casa tinha uma mangueira. A manga-espada, por exemplo, se bem me lembro...
- Boa é a manga carlota, aquela pequenina, sem fibra nenhuma... Lá no Norte chamam de itamaracá.
- O caroço? Bem o caroço, para lhe dizer com franqueza...
Resolveu telefonar para o Gabinete do Ministro.
- Queria uma informaçãozinha de Vossa Excelência.
O Ministro não sabia.»