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09/10/2009

A prima boazinha


Pontederia cordata L.

É o que consta das cartas de recomendação reproduzidas nos manuais de botânica: embora sem esconder o parentesco com o jacinto-de-água, reflectido tanto no aspecto geral da planta como na preferência por habitats aquáticos, a Pontederia cordata tem uma índole completamente diferente, muito mais benigna e recatada. Mais alta e empertigada (1 metro contra 50 cm), com flores mais miúdas e dispostas em espiga, é também nada e criada no novo mundo, numa faixa que vai do sul dos EUA à América tropical. O que mais diferencia estes dois primos é que a Pontederia, receosa de ser deixada à deriva, prefere agarrar-se ao chão pelas raízes, enquanto que o jacinto-de-água flutua sem medo para onde o vento ou a corrente o empurrarem.

Não se conhece em Portugal qualquer nome vernáculo para a planta, e aliás ela pouco se vê por cá (as fotos são de um tanque no Parque da Cidade do Porto). Mas os brasileiros, sempre mais criativos do que nós no uso da língua comum, atribuiram-lhe pelo menos quatro designações: aguapé, rainha-dos-lagos, mururé e orelha-de-veado. Dessas, as três primeiras aplicam-se também ao jacinto-de-água - o qual, com uma avidez nomenclatural que lembra fidalgo da mais antiga estirpe, ainda se apropriou de mais seis nomes: camalote, mureré, baronesa, pareci, murumuru e pavoa.

07/10/2009

Tanta água, Jacinto


Eichhornia crassipes (Mart.) Solms - Pateira de Fermentelos, Setembro de 2009

A Pateira de Fermentelos é um rio, o Cértima, atacado de elefantíase no troço final do seu percurso. Engorda e espraia-se desmesuradamente, mas a água que transporta, e que depois entrega ao Águeda e ao Vouga, nem por isso deixa de ser doce. Fosse a Pateira de água salgada, como é a Ria de Aveiro, a que a ligam os meandros do Vouga, e não teria sido quase sufocada pela proliferação dos jacintos-de-água. É que esta invasora temível tem um ponto vulnerável: não tolera a salinidade.

O jacinto-de-água (Eichhornia crassipes) é uma planta aquática flutuante, de 20 a 50 cm de altura, originária da bacia do Amazonas, mas presente hoje nas regiões tropicais, subtropicais e temperadas de todo o mundo. Reproduz-se a uma taxa avassaladora, tanto vegetativamente como por sementes, formando tapetes que revestem por completo rios, ribeiras, represas e lagos. As suas folhas rígidas, de pecíolos inchados (daí o epíteto crassipes), fazem de velas enfunadas, ajudando o vento a disseminar a planta.

Com início em Dezembro de 2006, e durante dois meses e meio, uma ceifeira-aquática laborou na Pateira de Fermentelos para remover os jacintos-de-água. A comparação entre o antes e o depois, em especial junto ao parque de lazer de Espinhel, não deixa dúvidas sobre a oportunidade e o mérito da intervenção: em vez dos hectares cobertos de jacintos-de-água, um espelho de água límpida estende-se agora até ao horizonte. Mas a planta não foi erradicada, e recomeça a acumular-se junto às margens. Sem uma limpeza periódica, assistiremos em poucos anos a uma reinfestação da Pateira.

Não fosse ele culpado de expansionismo desenfreado, e o jacinto-de-água até teria virtudes apreciáveis: as suas raízes funcionam como infantário para peixes, beneficiando igualmente as aves aquáticas que dessa fauna se alimentam; absorve substâncias poluentes, como o chumbo e o mercúrio; dado o seu grau de proliferação, é um excelente produtor de biomassa, a qual, após secagem, pode ser usada directamente como combustível ou convertida em gás, e é também útil como fertilizante.