7.10.04

Nossas irmãs, as plantas

«Não sei como a humanidade se conforma em não viver pelo menos quinhentos anos. Mesmo que os vivêssemos, acharíamos a vida curta, se os empregássemos em aprender tudo o que não sabemos, em ler todos os livros que devem ser lidos, visitar todos os países, conhecer todos os mares, saber como são os grandes rios, as grandes florestas, e mirar as folhas de todas as plantas...
(...)
Há, decerto, pessoas felizes, que sabem os nomes das plantas. (...) Mais felizes são as pessoas que, com sangue ou seiva de bamadríade, habitam verdadeiramente no interior dos mistérios botânicos, banhando-se em águas de plantas fervidas, borrifando-se com infusões de plantas, bebendo cozimento de folhas e raízes, falando das propriedades de flores e cascas com certezas tão familiares que bem se vê serem de uma estirpe diferente da nossa, e andarem por este mundo humano extraviadas, sem adaptação possível, saudosas do prestigioso encanto das selvas. Passam por nós trescalando florestas; seu corpo é como madeira aromática.
(...)
Só a lembrança de um jardim já serve de refrigério para as fadigas deste mundo. Os árabes, que conheceram a dureza dos desertos, inventaram com felicidade, para sossego das suas opressões, esses recantos perfumosos onde as plantas mais adoráveis oferecem seus dons com uma graça quase pecadora; e até construíram a esperança de outros jardins, por onde se possa transitar depois que os desta vida já forem inúteis à nossa transfigurada sombra...
(...)
Hoje nós somos criaturas sem sossego, perdidas em lutas urgentes e difíceis, amarguradas e envenenadas, de tão mergulhadas no puramente humano. Quando amanhã pudermos descansar, olharemos em redor, procurando nestas cidades de cimento um lugar para o sonho tranquilo, e então nos lembraremos dos jardins, das árvores, de qualquer flor. Sentiremos que estamos mais perfeitos, que já somos melhores, quando pudermos sorrir diante de um ramo que desabrocha, e olhar com doçura para qualquer folha que cai - e que hoje, nesta pressa bárbara, nem sentimos que existe, nem nos importamos que acabe...»

Cecília Meireles, Crónicas em geral (texto de 1945)

1 comentário :

Anónimo disse...

Texto belíssimo!
Alguém