12.4.05

Tílias do Jardim do Morro



Fotos: pva 0504 - tílias e, em primeiro plano na 2.ª foto, glícinia, azálea e loendro

Ainda que avesso desde criança ao exercício físico, sempre gostei de andar a pé. Na verdade, só quando desesperaram de nos fazer praticar desportos a sério é que os médicos e outros oficiosos promotores da boa forma física se lembraram de elevar o naturalíssimo acto de caminhar, entretanto rebaptizado como walking, à categoria de desporto. Mas eu nunca caminhei por desporto - como aliás nunca pedalei por desporto, nem fiz nada com o intuito consciente de praticar desporto.

Sou sobretudo um caminhante de cidade. É a andar a pé que coso mentalmente os retalhos do tecido urbano e surpreendo os seus contrastes. Mas há motivos mais prosaicos para esta preferência: não me enervo com o trânsito e chego sempre a horas; e, quando estudante, andar a pé era um importante reforço da mesada, pois embolsava todo o dinheiro que me era entregue como subsídio de transporte. Nos anos em que, morador em Gaia, estudava no Porto, passei quase diariamente sob esta alameda de 22 tílias no Jardim do Morro, prelúdio para a travessia da Ponte D. Luís com o mais famoso postal do Porto a desenrolar-se vertiginosamente até à foz do rio.

O meu convívio com estas árvores tem assim mais de vinte anos, embora de início nem lhes soubesse o nome. Estão saudáveis, bonitas, elegantes como só as tílias - e por isso, e também pela amizade antiga, vou desde já galardoá-las com o título de melhor alameda de tílias que conheço. Numa bem-vinda excepção à regra, as obras do Metro só as beneficiaram: a Avenida da República, finalmente livre da perturbação do trânsito no seu troço final, fornece-lhes agora uma envolvente digna da sua grandeza. E a Câmara de Gaia, ao contrário da sua congénere portuense, não parece ter equipas de especialistas encarregadas de desfigurar as tílias, que assim podem exibir intacta a arquitectura ímpar das suas copas. (No Porto, o zelo podador extravasou da via pública e vitimou mesmo as tílias do Palácio de Cristal, que ficaram em estado lastimável.)

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