17.5.07

Domingo no parque com sorvete



Victoria Park (oeste): cedro-do-atlas e freixo (Fraxinus excelsior)

Há três categorias de veículos motorizados que podem circular num parque londrino: os de emergência, os do serviço de manutenção do próprio parque, e os de venda de sorvetes. Só os últimos são imprescindíveis. Quando ao princípio da tarde a banda sonora da passarada é interrompida para a sesta, é a carrinha dos sorvetes, estridulando um jingle bells circense a cada centena de metros, que enche os ouvidos dos frequentadores do parque. E esse afago auditivo é só o preâmbulo da sua função mais nobre, que é a de nos comprazer o paladar. Uma carrinha cantante, uma sombra de árvore, um banco de jardim, um sorvete de morango e baunilha: eis o clímax de um perfeito domingo à tarde no parque.

[Um parêntesis linguístico-sociológico. O termo sorvete é mais usado no Brasil do que em Portugal: aqui quase toda a gente diz gelado, palavra muito menos expressiva. Em Portugal os sorvetes são coisa do Verão, mas em países como a Inglaterra, onde os meses quentes pouco têm de escaldante, são consumidos o ano inteiro.]

Três razões me levaram ao Victoria Park no meu último domingo em Londres: a pulsão coleccionista de converter em imagens reais todas as manchas verdes no mapa da cidade; o percurso no autocarro 55 entre Oxford Circus e o East End londrino; e o facto de ser no Victoria Park ou na vizinhança que decorrem algumas peripécias de dois livros de Barbara Vine (Asta's Book e The Chimney Sweeper's Boy). Assim como Charles Dickens e Conan Doyle construíram uma Londres oitocentista ficcionada que se tornou mais real do que a Londres dos historiadores, também Ruth Rendell / Barbara Vine nos tem legado, em romances que de policial pouco ou nada têm, um perdurável retrato físico e social da Londres contemporânea.

O Victoria Park ocupa 87 hectares; tal como o Regent's Park (com o qual tem grandes semelhanças), foi inaugurado em 1845 e é dos parques mais antigos de Londres. Os vitorianos consideravam os parques «como instrumentos para a melhoria física e moral, principalmente das classes trabalhadoras» [citação daqui], e o parque foi uma oferta da coroa às gentes pobres do East End. Ladeado por dois canais (o Regent's Canal a oeste e o seu afluente Hertford Union Canal a sul), é atravessado por uma rodovia (Grove road) que o divide em duas partes bem distintas: a metade ocidental é mais frondosa e pitoresca, com sebes de plantas variadas, canteiros floridos, muitas árvores ornamentais em maciços e alamedas, e um lago cheio de meandros com uma ilha arborizada ao centro. É aqui que as mães vêm empurrar os carrinhos de bebé, enquanto os maridos (enfim, nem todos) e os filhos mais graúdos se divertem nos campos de jogos que preenchem boa parte da metade oriental. Mas mesmo aí há um lago enfeitado com muitos lírios amarelos e um jardim inglês à moda antiga (old english garden) protegido por um gradeamento; delimitando o parque a nordeste, alonga-se a mais comprida alameda de plátanos que alguma vez percorri. E foi também na metade oriental que uma benemérita carrinha sorveteira completou a perfeição de uma tarde de domingo.



Victoria Park (leste): lírios amarelos e castanheiro-da-Índia em flor; laburno (Laburnum anagyroides) e campo de jogos

6 comentários :

Eduardo disse...

Os meus níveis de inveja estão a atingir valores clinicamente incaceitáveis. Just so you know.

Paulo Araújo disse...

Compreendo. O meu eu quotidiano também sofre de inveja desse outro eu estrangeirado que só daqui a uns anitos poderei reencontrar em Londres. O que me vale é que em Portugal também há sorvetes.

Ana Ramon disse...

Olá Paulo! Eu sempre estive convencida que havia uma diferença entre sorvete e gelado. Para mim, os sorvetes não são fabricados com leite e ovos. Ao contrário dos gelados que já os utilizam. Embora este blog não seja vocacionado para este tema, não quis deixar de participar. Felicidades. Um abraço

Paulo Araújo disse...

Olá Ana. É natural que haja quem faça esta distinção, que aliás tem a sua lógica. Mas no dicionário da Porto Editora (o único que tenho à mão) os dois termos são sinónimos: a definição de ambos é «doce, geralmente preparado com leite, natas, açúcar e frutos ou chocolate, tornado frio e consistente por meio de refrigeração». Abraço.

Manuela disse...

Quando era miuda sempre ouvi dizer em casa dos meus avos e pais "sorvete" (-ête);
este artigo da wikipedia está interessante.

Luciano Lema disse...

O que me impressionou quando visitei o Victoria Park, Kew Gardens ou tantos outros, para além da cuidado na concepção e na conservação, é a própria atitude de fruição: as pessoas estendem-se na relva ou alugam cadeiras, brincam, lêem, apanham Sol. E no fim tudo continua limpo e arranjado.