28.12.07

Escola do Porto

É um lugar-comum dizer-se que a Avenida da Ponte (Av. D. Afonso Henriques na toponímia oficial), no Porto, é uma ferida aberta na freguesia da Sé: é-o desde 1952, ano em que o bairro foi esventrado para se abrir uma ligação rodoviária desafogada entre a estação de São Bento e a ponte D. Luís. Agora que no tabuleiro superior da ponte só passa o metro, a avenida perdeu muita da sua importância para o tráfego automóvel. Teria sido bom aproveitar a ocasião para estreitar a rodovia e reconstruir, com materiais modernos, parte do casario demolido há meio século. Contudo, algo se ganhou: com a eliminação de duas ruelas secundárias paralelas à avenida, cada uma do seu lado, criaram-se nas suas margens dois espaços ajardinados bordejados por largos passeios.




Ganhou - ou poderia ter ganho. O jardim que a Metro do Porto aqui fez construir faz irresistivelmente lembrar o novo Jardim do Marquês, que é outra empreitada da mesma empresa: é a mesma terra nua e excrementícia, aqui e ali decorada com garrafas, papéis e outros detritos; tal como no Marquês, houve uma tentativa de a cobrir parcimoniosamente com vegetação (neste caso hera), que aqui igualmente não vingou. Há um eficiente sistema de rega que mantém a terra encharcada, pronta a acolher a sementeira que nunca há-de vir. Não há flores, não há arbustos, não há nada. Não há sombra de árvore a crescer em nenhum dos avantajados passeios. Há oito magnólias trémulas de susto que se juntaram encolhidas num canto: nunca esperaram viver em lugar tão feio.

Dadas as semelhanças entre estes dois espaços verdes, o transeunte desprevenido pode julgar-se perante mais uma obra de Souto Moura, principal arquitecto da Metro do Porto, mas de facto o jardim da Avenida da Ponte é criação de Siza Vieira. A confusão é perdoável, pois além de terem já colaborado um com o outro em intervenções como a da Avenida dos Aliados, os dois arquitectos são figuras de proa da celebrada escola de arquitectura do Porto. Escola essa que, como se vê, extravasou da concepção de edifícios para o desenho do espaço público - e que, nesse particular, em especial no que toca ao planeamento de jardins, mostra um grau de inépcia tão inacreditável que roça o virtuosismo.

9 comentários :

Eduardo disse...

Este creio que não conheço (tal como não conheço o "novo" jardim do Marquês, que é sítio onde já não passo há milhões de anos), mas, de facto, parece-me fascinante. Aposto que no papel tem um óptimo aspecto.

Ana disse...

Será também da Escola do Porto que resulta a deposição de lixo em espaços públicos e o pisoteamento/calcamento de todo o espaço sem barreiras?

não me parece...mas talvez seja mesmo um problema de escola...

Maria Carvalho disse...

No papel é também uma eira rasa; assim pode escrever-se no verso.

Paulo Araújo disse...

O Porto de facto não é nenhum exemplo no que diz respeito à limpeza do espaço público. Não que os portuenses sejam mais sujos do que a generalidade dos seus compatriotas, mas a qualidade dos serviços de limpeza tem diminuído a olhos vistos nos últimos anos.

É claro que o lixo espalhado na terra não é inteiramente culpa dos arquitectos. Culpa deles é só a visibilidade desse mesmo lixo (também há lixo, embora menos, noutros jardins, mas as plantas ocultam-no) e talvez o descaso com que para lá se deita lixo (como não há nada que se veja, deitar lixo não parece estragar muito). O mesmo se diga do pisoteamento: se houvesse visivelmente alguma coisa para estragar, por certo as pessoas evitariam calcar tanto a terra.

as-nunes disse...

lEMBRO-ME MUITO BEM DESSA AVENIDA, APESAR DE JÁ NÃO PASSAR POR ESSA ZONA HÁ MUITOS ANOS. NÃO SABIA QUE AS COISAS ESTAVAM NESSE PÉ. MESMO ALI AO PE DA SÉ E DA SEMPRE POR MIM MEMORIZADA IMAGEM DA VELHINHA PONTE D. LUÍS, TAL COMO EU A ATRAVESSEI A PÉ, DURANTE UM ANO LECTIVO INTEIRINHO. FIZESSE, CHUVA, SOL, VENTO...
LAMENTÁVEL A FALTA DE CONSIDERAÇÃO PELO BEM-ESTAR DAS PESSOAS. AS CIDADES NÃO SÃO ALDEIAS PARA AS PESSOAS VIVEREM EM COMUNIDADE E SE SENTIREM BEM?!
BOM 2008
António Nunes

as-nunes disse...

lEMBRO-ME MUITO BEM DESSA AVENIDA, APESAR DE Já NãO PASSAR POR ESSA
ZONA Há MUITOS ANOS. NãO SABIA QUE AS COISAS ESTAVAM NESSE Pé. MESMO
ALI AO Pé DA Sé E DA SEMPRE POR MIM MEMORIZADA IMAGEM DA VELHINHA PONTE D. LUíS,TAL COMO EU A ATRAVESSEI A Pé, DURANTE UM ANO LECTIVO de 1964/65.

Aproveito o ensejo para desejar a toda a equipa do blogue um excelente ano de 2008.
António Nunes

bettips disse...

Quando passei, esqueci-me de dizer que no tempo dos 50s (seria quando veio cá a raínha???) aquilo era tudo pedregulhos mesmo, só com a avenida ao meio. E não é que mandaram pintar, sim pintar, todas as pedras de AZUL? Quem se lembrará?
A tacanhez é igual, o progresso medíocre escamoteia o furor contra a preservação da natureza, da terra-terra e das velhas casas que têm história. Abraços, sempre, ano a ano...

Anónimo disse...

Ando muito pelo Marquês tenho pois acompanhado o que se tem feito no jardim. Como agora a CMP está numa de contenção de verbas não quer jardineiros. Então ali se plantou "vinca", relva que não exige corte. Mas a vinca não vingou apesar de coberturas de plástico e de redes e o jardim continua um terreiro sem jeito.

(antonio)

António Pedro Faria disse...

caros autores do post.

em primeiro lugar aviso o erro que estão a cometer. Caso tivessem investigado melhor o projecto para esta avenida, perceberiam que esse espaço de relva com garrafas não foi projectado por siza vieira.
Siza projecto sim, a avenida e a estação que se encontra por baixo da mesma.
Todo o espaço vazio que restou não faz parte do projecto.
Do mesmo arquitecto faz parte sim um projecto para a construção de um museu da cidade, projecto esse que não chegou a ir para a frente.
Esse mesmo projecto tinha como objectivo repor a malha e rematar todo o casario existente. Com esse projecto este arquitecto do Porto pretendia criar ruas com a escala do bairro medieval da se, bem com largos e espaços de estar de acordo com o que acontece com esse mesmo bairro.
Alerto para o erro e para a precipitação tomada por vossa parte ao julgar sem saber.
Portanto, aconselho a ver o projecto que Siza Vieira tinha para todo esse conjunto mas que, por motivos de ordem maior e cujo aquitecto não tem qualquer responsabilidade, não se deu.

Mais atenção para uma melhor e mais justa e discussão, não só ficava bem, como seria essencial para começar-se a discutir arquitectura com a responsabilidade e respeito que a própria merece.

António Pedro Faria