28.5.08

Manteiga clarificada

Andaram há dias, perto da Ponte da Arrábida, a rapar os taludes da auto-estrada e dos seus acessos. Desde há muito que o desmazelo das bermas, eriçadas de ervas em desalinho e semeadas de flores garridas, compungia os automobilistas, que não se cansavam de buzinar o seu protesto. Nas últimas semanas eram as dedaleiras que, imunes ao fumo dos escapes e ao rugir dos motores, lideravam a folia, içando escandalosamente as suas longilíneas hastes de flores lilases. Até que, por fim, veio a máquina zero e fez uma limpeza que dá gosto ver: a terra nua, sem ponta de verde, parece, de tão lisa, ter sido calcada por rolo compressor. E, para garantir efeitos duradouros a tão higiénica operação, talvez os cantoneiros tenham complementado a acção mecânica com uma copiosa rega de herbicida.

Mas é possível que as buzinadelas tenham sido mal interpretadas, e houvesse quem, passando de automóvel, não se incomodasse assim tanto com as flores nos taludes. Aqui vai um segredo que confiamos à discrição do leitor: nós por cá gostamos dessas plantas vadias a que o vulgo chama ervas daninhas, e rogamos pragas (em surdina, é certo) a quem as manda arrancar. Achamos triste - e, já agora, um sinal da tão badalada crise - haver quem seja pago para extirpar a beleza espontânea que, em troca apenas de mantermos os olhos abertos, a natureza nos oferece.



Ranunculus peltatus / Ranunculus muricatus

Os ranúnculos, de que há mais de 600 espécies espalhadas pelo mundo, são daquelas plantas atrevidas que, mesmo na cidade, colonizam qualquer pedaço de solo livre. Não são uma praga: são uma dádiva, porque são bonitos e não nos custam nada; com as boninas, os trevos e outras florzitas teimosas, amenizam a tristeza dos relvados. Um dos ranúnculos de flor amarela que se fazem convidados nos nossos jardins é o bugalhó (R. muricatus); um outro, igualmente vulgar, mas com flores maiores e folhas de margens lisas, é a erva-hemorroidal (R. ficaria - foto aqui). Em ambos as flores exibem pétalas brilhantes e coroas de numerosos estames.

Além dos ranúnculos de flores amarelas, que são os mais frequentes e mais fáceis de reconhecer, outros há de flores brancas; mas estes últimos, em Portugal, vivem exclusivamente em habitats alagados ou húmidos. O nome comum do R. peltatus - aqui fotografado na reserva das Lagoas, em Ponte de Lima - é justamente ranúnculo-aquático.

Buttercup (ou copo-de-manteiga) é o nome inglês geralmente aplicado aos ranúnculos - mesmo, curiosamente, às espécies de flor branca.

6 comentários :

António Erre disse...

Olá! Depois quando vierem as chuvas vê-los-emos a buzinar porque as estradas estão alagadas de chuva que não é retida e de areia arrastada pela erosão.

as-nunes disse...

Cambada de imbecis é o que estes automobilistas acabam por se mostrar! Desculpem a forma rude como me estou a manifestar, mas à medida que os anos vão avançando e vejo a Natureza cada vez mais desprezada e menosprezada, como se de um impecilho se trate, mais me revolto.
São as podas rentes, é a destruição química das tais ditas plantas daninhas (e não é só nas bermas das auto-estradas), é a falta de consideração pelas plantas (olhem-nas, insensatos, e apreciem a sua beleza, pensem na sua utilidade para o equilíbrio ecológico do Planeta!)
Parem, escutem, olhem.
Enquanto é tempo!
Um grande abraço
António

Paulo Araújo disse...

Caro António:

Isto de os automobilistas buzinarem contra as plantas é invenção minha. Que eles buzinam, sabemos nós bem, mas normalmente por outras razões. Mas, uma vez que a ideia de limpar as bermas de plantas que não tolhem a visibilidade a ninguém é tão inexplicável, supus, por brincadeira, que quem dá tais ordens interpreta as buzinadelas como um protesto contra essa vegetação. As verdadeiras razões de tais limpezas escapam-me. Obsessão higienista? Prevenção de incêndios? A coisa parece-me tão absurda que só consigo falar dela a brincar (o que não quer dizer que não a considere muita séria).

Abraço,
Paulo

Anónimo disse...

Sou conhecida no horto onde vou muitas vezes pela"Senhora das pragas",porque eu peço algumas das tais "pragas" para admiração a dona do horta e de quem está à volta.Com muito custo lá me tem arranjado algumas.Mas não me livro de um sorriso trocista.Seria possível dizer-me qual o nome de umas flores azuis que crescem na sombra de grandes árvores-fotografia de parque aqui posta por si?Tenho espaços de sombra que adoro mas o chão pintado de azul seria um encanto para os olhos.Espero olhando os carvalhos do norte do meu jardim.


TRAÇO

Paulo Araújo disse...

Suponho que se refere à entrada "Bluebell season" mais abaixo. As fotos foram tiradas na primeira semana de Maio, em dois parques de Londres, identificados na legenda. Essas flores azuis são espontâneas na Grã-Bretanha e não se encontram por cá: são plantas bulbosas com um período de floração curto. O tapete azul dura não mais que uma ou duas semanas.

Os ingleses chamam-lhes bluebells (ou sinos azuis); o nome científico é Hyacinthoides non-scripta. Para ver a planta de perto, carregue no atalho (a azul) debaixo das fotos.

Temos por cá flores silvestres que podem dar um efeito semelhante, mas infelizmente não conheço nenhum horto ou viveiro que venda sementes dessas plantas. Preferimos vender em exclusivo produtos holandeses.

Anónimo disse...

Agradeço a sua amabilidade respondendo à minha pergunta e peço desculpa de algumas gralhas na minha escrita.Eu e computador ainda não nos damos muito bem.
Até já.


Traço