21.1.10

Trapezistas



Arum italicum Mill.

A floração do jarro-bravo, planta vivaz comum em solos húmidos e ensombrados do sul da Europa e norte de África, começa em Abril e dura cerca de três meses. Tal intervalo de tempo parece curto quando se analisa o elaborado esquema de polinização que esta aracea adoptou e cujo sucesso reprodutivo, como num duo de trapezistas, exige rigorosa sincronia.

Na inflorescência consegue-se ver uma espiga (ou espadiz) envolvida por uma bráctea lisa (a espata amarela na foto). Depois de a espata desabrochar, sem contudo comprometer a câmara onde esconde as flores férteis, o apêndice no topo do espadiz inicia a sua função de minarete: na noite em que as (cerca de 60) flores femininas estão receptivas, chama os insectos, ressumando um aroma que os atrai, intenso porque o apêndice aquece bastante acima da temperatura ambiente: se lhe pudesse tocar através da foto, sentiria uma diferença superior a 6ºC.

Há flores dos dois sexos, mas coexistem na mesma planta - que por isso em inglês se designa Italian lords-and-ladies. Nascem em volutas na base da espiga, as femininas no fundo, as masculinas mais acima, separadas das primeiras por flores estéreis. Estas últimas, entrelaçadas em posição horizonal, formam uma rede que, permitindo aos polinizadores aceder às flores femininas, impede porém a sua saída. Iludidos, sem qualquer recompensa, os insectos (sobretudo fêmeas de mosca, pois o odor simula o dos pântanos ou da matéria orgânica deteriorada onde elas gostam de depositar os ovos) ficam ali presos durante um dia.

O calor retorna na manhã seguinte para se iniciar a fase masculina da reprodução: o pólen amadurece, as anteras atrofiam-se e libertam-no, e a agitação dos insectos dispersa-o. Um novo pico de calor ocorre nessa tarde para que a porta de flores estéreis murche e a espata fique rugosa para ajudar à escalada dos insectos - os quais, soltando-se, caem de imediato em logro idêntico numa outra flor, que deverá estar na fase feminina para que a possam fertilizar e reiniciar o processo. Desse modo se garante que a polinização é cruzada, um aspecto muito caro a esta candeia, que aborta avisadamente a maioria dos frutos produzidos por auto-polinização.

Finalmente, no Outono, o anel de flores femininas transforma-se numa cabecinha de bagas vermelhas brilhantes (e venenosas), a única componente da planta que resta à superfície nessa altura.

1 comentário :

Maria da Luz Borges disse...

Eu gosto muito de jarros, sejam bravos ou de jardim... E as bolinhas vermelhas, que não sabia venenosas também povoaram a minha infância... É por isso que gosto tanto deste blogue. Só me traz boas recordações.
Luz