1.12.11

Debaixo dos pinheiros


Monotropa hypopitys L.

O género Monotropa contém duas espécies perenes, a M. uniflora L. (Indian's pipe) e a M. hypopitys L. (Dutchman's pipe), originalmente da família Monotropaceae mas agora colocadas na família Ericacea, onde coabitam com plantas com que parecem ter reduzido parentesco, como os rododendros. Contudo, a flor das monotropas (única no caso da M. uniflora, em cacho terminal na M. hypopitys), com quatro ou cinco pétalas, é de facto semelhante às dos medronheiros, urzes e mirtilos. Quando nasce, no fim da Primavera, mantém a corola voltada para baixo para que alguma chuva que caia não dilua o néctar que está na base das pétalas, ou comprometa a facilidade do pólen em se colar aos insectos. No Verão levanta-a ligeiramente, não vá a excessiva cautela deixá-la sem visitas. Finalmente em Setembro, quando polinizada, ergue a corola para que murchem convenientemente as componentes que não fazem falta ao fruto, uma cápsula com aberturas laterais por onde as sementes aladas se escapam. [Esta época de floração varia com a região; as plantas com flores mais tardias tendem a ser menos glabras e avermelhadas.]

Monotropa significa uma volta, aludindo à posição unilateral das flores. Hypopitys deriva do termos gregos hypo (abaixo) e pitys (pinheiro), em referência ao habitat sombrio que é natural para esta herbácea - que também ocorre em matas caducifólias húmidas, com outras coníferas ou faias, e até em algumas dunas. Na Península Ibérica prefere a metade mais fria; por cá, vê-se cada vez menos nas montanhas do norte e centro (o primeiro exemplar que vimos vive na mata da Margaraça). É espontânea, embora em geral rara, em boa parte das regiões temperadas do hemisfério norte.

Vivendo assim em condições extremas de falta de luminosidade, e não exibindo folhas verdes (as folhas são as escamas transparentes de aspecto ceroso que abraçam o caule), desconfia-se que se alimente da matéria em decomposição que abunda nas florestas densas ricas em humidade. Engano nosso, esta não é uma planta saprófita. Na verdade tem um rizoma carnudo que se reveste de fungos cuidadosamente seleccionados, e são estes que lhe fornecem alimento. O negócio funciona do seguinte modo. As árvores sintetizam açúcares nas folhas, com luz, clorofila e dióxido de carbono, e enviam-no para toda a planta, incluindo as raízes. Aqui os fungos retiram uma porção, que dividem com a Monotropa, pagando à árvore em nutrientes minerais, especialmente fósforo, e ajudando-a a absorver água. O negócio é proveitoso para o fungo e para a árvore, mas também para a oportunista Monotropa, que talvez tenha aprendido/ensinado a esta orquídea, com a qual é frequentemente confundida, uma tal estratégia barata de alimentação. Não é porém clara a razão para os dois parceiros, árvore e fungo, cooperarem no sustento destas parasitas.

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