12.4.13

Vida ultrabásica



Notholaena marantae (L.) Desv. [sinónimo: Cheilanthes marantae (L.) Domin]

Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.

O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.

À hora e no local previstos, deparámos com a Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.

Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas nothos (= falsa) e chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma Nothochlaena. O epíteto marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.

6 comentários :

bea disse...

Muito prazer, feto transmontano. Ultrabásico.

BFS aos proprietários do blogue

Carlos M. Silva disse...

Olá

Belo texto e uma vez mais ..a vossa perseguição contra-relógio do que por cá existe e ainda existe ..mas sem certezas de que continuará a existir! A nostalgia do que ainda existe ..é certamente maior do que a do que já não existe ..pela mera razão de que, neste país, se teima (intencionalmente) em fazer asneira em nome do 'chamado bem geral do país', quando o país é já o de apenas uns quantos e a impotência é erva daninha bem acarinhada por quem a quer para os outros.
A vossa demanda é científica! Há uma lacuna, aqui, nesta qudrícula familiar, e lá vão vocês em busca do estranho, estranho para o leigo como eu!).
Coisas espantosas que ainda pululam por aí.
Obrigado!
Carlos M. Silva

Paulo Araújo disse...

Nós é que agradecemos o comentário, Carlos. Como aqui nada se conserva, a indústria da nostalgia (sobretudo livros a mostrar como "era dantes") tem em Portugal terreno fértil. O Tua e o Sabor são mortes há muito anunciadas, e já toda a gente tem prontos os elogios fúnebres.

ZG disse...

Fantástico post, efectivamente!
Os tesouros naturais continuam a ser aqui revelados!
Bem hajam,
ZG

Anónimo disse...

Boa tarde.
Parabéns pelo excelente trabalho de ensino, divulgação e defesa da flora portuguesa( e não só).Sou um fiel leitor do Vosso blog que muito admiro pelo profundo conhecimento que demonstram sobre a flora e temas relacionados e da maneira aprazível como o dão a conhecer, através dos textos dedicados a cada assunto. Gosto muito de flores e de as fotografar também. A propósito do artigo que publicam hoje sobre a Saxifraga, há alguns dias atrás durante uma caminhada fotografei (à pressa)uma planta que depois ver o vosso artigo, me parece uma Saxifraga, mas, pesquisando outros artigos sobre este assunto não me pareceu encontrar nenhuma igual.
Não sei se aceitam fotos dos seguidores do Vosso blog mas dar-me-ia muito gosto se quisessem que as envia-se para as apreciarem e fazerem a vossa avaliação da planta em questão.
Peço desculpa se Vos estou a fazer o vosso precioso tempo.
Desde já agradecido pela atenção que me queiram dispensar.
Cumprimentos.

Manel

Paulo Araújo disse...

Muito obrigado pelas suas boas palavras. Pode enviar as fotos para o endereço dias.com.arvores(at)sapo.pt [substitua (at) por @]. Responder-lhe-emos logo que possível.
Saudações,
Paulo Araújo