Cenouras, funchos e brucos
O período de festas, tão desafiante para os estômagos, já ficou para trás, e é possível outra vez falar de comida sem risco de enjoo. À cautela, porém, ficar-nos-emos por considerações puramente teóricas. Das plantas de que hoje falamos, todas elas fotografadas em Menorca, e todas pertencentes à família das umbelíferas, nenhuma é na verdade comestível, podendo embora ter afinidades com outras que assumidamente o são.

Daucus carota subsp. hispanicus (Gouan) Thell.

A encabeçar a lista temos uma cenoura temperada com sal marinho. Entre as variedades de Daucus carota, avulta a consabida cenoura cultivada (subsp. sativus), de que a parte comestível é a raiz grossa, alaranjada, de formato cónico. A versão silvestre de Daucus carota não produz essas raízes napiformes, para desilusão daqueles que acreditam ser obrigação da natureza disponibilizar-nos alimentos prontos a consumir. Mas se produzisse, e tendo em conta a abundância dessa planta por toda a Europa, ninguém precisaria de cultivar cenouras na sua horta. Ainda que sem préstimo culinário, as cenouras silvestres apresentam-se sob formas muito diversas: plantas esguias ou atarracadas, umbelas achatadas ou convexas, hastes mais ou menos escábridas, folhas quase suculentas ou de textura herbácea. A subespécie hispanicus (nas fotos) revela a sua adaptação a habitats costeiros pelo porte robusto, pelas inflorescências compactas, e pela folhagem semi-suculenta, de um verde brilhante.

Kundmannia sicula (L.) DC.

A Kundmannia sicula é uma planta de até um metro de altura que, em Maio, floresce profusamente nas bermas das estradas menorquinas. É só por preguiça que a associamos ao funcho, pois as semelhanças entre as duas plantas resumem-se à circunstância de ambas seram umbelíferas de flores amarelas. Já as diferenças são muito evidentes, a começar pelas folhas: as do funcho parecem um emaranhado de fios, mas as da Kundmannia, sobretudo as basais, são uma ou duas vezes pinatissectas e dispõem de folíolos bem amplos. E, ao contrário do funcho, a Kundmannia pouco ou nada tem de aromática.
Disseminada pela bacia mediterrânica, mas menos abundante no continente europeu do que no norte de África (sobretudo na Argélia) e em algumas ilhas do Mediterrâneo (Baleares, Sicília), a Kundmannia sicula só tangencialmente atinge território português. Contudo, a sua presença residual no Algarve, e o facto de aí estar em sério risco de extinção, valeram-lhe lugar destacado na Lista Vermelha da flora portuguesa.


Magydaris pastinacea subsp. femeniesii O. Bolòs & Vigo

É um contra-senso que a umbelífera mais bem cheirosa de que temos notícia, a Magydaris, afinal não seja comestível. A representante solitária do género em Portugal, Magydaris panacifolia, — que, já lá vão muitos anos, tivemos oportunidade de cheirar em primeira mão em Trás-Os-Montes — singulariza-se, de acordo com o portal Flora-On, pelo “forte e característico odor a cumarina”. A planta menorquina, Magydaris pastinacea, não é menos olorosa; e, tal como a sua congénere, destaca-se pela altura (alcança os 2,5 m) e pelas folhas de grande formato (até 50 cm de comprimento). De facto, não é pelas flores nem pelas folhas que as duas espécies mais facilmente se distinguem, mas a M. pastinacea tem umbelas mais amplas, à vezes com 40 ou mais raios, ficando-se a M. panacifolia por um máximo de 20 a 25 raios.
A M. pastinacea tem uma distribuição global escassa: além de Menorca, apenas ocorre na Península Itálica, Sicília, Sardenha, Córsega e norte de África. A subespécie femeniesii, a única assinalada em Menorca, é tida como endémica dessa ilha, mas nem todos os autores aceitam a pertinência dessa combinação. Em todo o caso, é uma planta que pouco se vê. Não porque esteja em vias de desaparecer, mas porque a quase totalidade dos barrancos onde vegeta são propriedade privada e estão vedados à visitação.