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04/09/2021

Azevinho da Madeira (e das Canárias)

Por que razão quase não há florestas planas? A pergunta refere-se apenas àquelas florestas ou bosques que temos frequentado na nossa limitada experiência de naturalistas amadores — e que, se descontarmos as nossas insistentes visitas às ilhas atlânticas, são quase todos na Península Ibérica. A resposta óbvia parece ser que é nos lugares planos que estão os solos de maior aptidão agrícola, tendo por isso o arvoredo aí sido sacrificado, há já longos séculos, às necessidades de sobrevivência da nossa espécie, mantendo-se apenas os bosques lineares que acompanham rios ou delimitam parcelas de diferentes proprietários. Os pinhais que ocupavam as grandes extensões arenosas e sem préstimo agrícola do litoral centro, e que foram quase integralmente destruídos nos grandes incêndios de 2017, eram talvez, no nosso território, os derradeiros exemplos de florestas planas.

Quando a orografia é de tal modo acidentada que os terrenos planos são poucos ou nenhuns, o engenho humano viu-se obrigado a esculpir encostas em socalcos para abrir espaços de cultivo, como sucedeu no vale do Douro ou na metade sul da ilha da Madeira. O trabalho de gerações foi fazendo com que da vegetação original pouco restasse. No Douro, o abandono das vinhas causado pela filoxera no final do século XIX permitiu que em alguns montes o coberto arbóreo se regenerasse naturalmente; na Madeira, o arvoredo das vertentes viradas a sul é, nas menores altitudes, quase todo exótico, com predomínio de eucaliptos e acácias e alguns simpáticos castanheiros amenizando o panorama.

Assim, na Madeira, nem antes do povoamento havia florestas planas. O Paul da Serra, único local plano de extensão significativa, mas de clima agreste e situado a uma altitude média de 1500 metros, era apenas revestido por uma vegetação arbustiva de urzes, piornos e zimbros. Caminhar numa floresta madeirense, fosse ela exótica ou nativa, sempre obrigou a vencer desníveis de respeito, e nunca foi actividade para indolentes ou preguiçosos — até que as levadas tornaram possível caminhar pela floresta a uma altitude praticamente constante, mas sempre com a noção de acima e abaixo desse patamar haver muita floresta fora do nosso alcance.

/Ilex canariensis Poir.


A laurissilva da Madeira, ocupando boa parte do norte da ilha e algumas zonas de altitude elevada da metade sul, não é homogénea. Aquela por onde serpenteiam as levadas mais populares, por isso mais visitada por turistas, é a laurissilva do til (Ocotea foetens), muito húmida, quase sempre enevoada. Mais abaixo, e na vertente norte descendo quase até à costa, desenvolve-se, sobre solos menos profundos, a laurissilva do barbusano (Apollonias barbujana), marcada por um regime mediterrânico de secura estival. A zona de transição entre as duas ronda os 500 metros de altitude. O facto de cada uma delas ser designada pela espécie arbórea dominante não significa que nessas florestas não ocorram outras árvores. Há até grande diversidade delas, em geral lauráceas ou outras perenifólias de folhagem semelhante, que o principiante tem dificuldade em distinguir. Desse elenco arbóreo fazem parte os azevinhos, de que se contam na Madeira duas espécies: Ilex canariensis (nas fotos), endémico da Madeira e das Canárias, característico da laurissilva do barbusano; e Ilex perado subsp. perado, endémico da Madeira, semelhante ao azevinho açoriano mas de folhas maiores, morador na laurissilva do til e também, ocasionalmente, dos cumes escarpados na cordilheira central da ilha.

O Ilex canariensis é uma árvore dióica de não mais que 6 metros de altura, com flores brancas de quatro (às vezes cinco) pétalas reunidas em inflorescências axilares, e frutos que se tornam vermelhos ao amadurecer. As suas folhas são menos brilhantes e menos arredondadas do que as do seu congénere (e conterrâneo) de maiores altitudes. Floresce entre Maio e Junho e os frutos amadurecem no Inverno, razão pela qual — a exemplo do que sucedeu no continente com o azevinho comum (Ilex aquifolium) — os raminhos dos indivíduos femininos foram tradicionalmente usados como enfeite natalício.

As fotos são da freguesia do Seixal, na Madeira, onde vários trilhos florestais partem do vale da ribeira e ascendem rapidamente aos píncaros da ilha. Para quem tiver olhar instruído e fôlego que baste, é um modo de, num passeio curto, conhecer as duas principais faces da laurissilva madeirense.

30/09/2014

Caldeira do Faial



O visitante que quiser descer à caldeira do Faial não o pode fazer sem autorização, e terá que ser acompanhado por um guia pago. O trilho não é especialmente perigoso nem apresenta obstáculos inultrapassáveis, e está suficientemente calcorreado para dissipar quaisquer dúvidas sobre o caminho a seguir. Quem for ágil que baste e tiver experiência de caminhadas na natureza poucas dificuldades teria em chegar sozinho ao fundo da caldeira, mesmo naqueles dias em que o nevoeiro pudesse momentaneamente perturbar o sentido de orientação. Não foi pois a preocupação pela segurança dos visitantes que levou o Parque Natural do Faial a impor estas restrições de acesso, mas antes a crença de que uma sobrecarga de visitantes e o possível comportamente desregrado de alguns deles poderiam danificar aquele que é o mais precioso reduto de vegetação natural de toda a ilha.

Se em teoria este argumento é convincente, já a prática deixa algo a desejar. Definir um limite diário, semanal ou mesmo mensal de visitantes numa área ambientalmente sensível e sujeita a grande pressão turística é um procedimento adequado e necessário. Mas obrigar cada potencial visitante, ou grupo de visitantes, a pagar os serviços de um guia, quando tais serviços poderiam em muitos casos ser dispensados, é restringir o usufruto da natureza a quem tenha (bastante) dinheiro para isso. E é também um exemplo curioso, embora em pequeníssima escala, de como o Estado se empenha em criar e alimentar um negócio exclusivamente privado e em boa parte supérfluo.

Como acontece em várias outras áreas protegidas tanto nos Açores como em Portugal continental, parece vigorar a ideia de que para salvaguardar os valores naturais de uma certa área basta declarar que o acesso a ela é interdito ou condicionado. Livre de intrusos indesejáveis, a natureza saberá reconstituir-se sem ajuda, regressando à forma primordial que era a sua antes da chegada do bicho homem: isso a que os burocratas do ambiente chamam wilderness. Talvez a gestão pelo abandono seja adequada na caldeira de Santa Bárbara e noutros lugares da ilha Terceira onde o revestimento vegetal pode sem exagero ser descrito como floresta virgem, mas não o é na caldeira do Faial nem em qualquer outro lugar nominalmente protegido da mesma ilha.

Até há trinta ou quarenta anos, o interior da caldeira era usado intensamente para pastoreio de cabras, ovelhas e até de vacas. Nas vertentes mais suaves, a vegetação arbórea está por isso bastante reduzida. O fim do pastoreio vai ditando o adensamento do coberto vegetal, mas a presença de elementos espúrios como as hortênsias (Hydrangea macrophylla), rocas-da-velha (Hedychium gardnerianum) e silvas (Rubus ulmifolius) inviabiliza a regeneração da floresta original. É causa de desgosto e de perplexidade que nem aqui, num local que deveria funcionar como símbolo da conservação da natureza no arquipélago, tenha sido feito qualquer esforço para erradicar as hortênsias. E o fundo da caldeira, antes coberto por um lago que ficou muito diminuído por altura da erupção dos Capelinhos, ameaça agora transformar-se num silvado contínuo.

A importância da caldeira do Faial explica-se de modo simples: nas suas vertentes, que vencem um desnível superior a 300 metros, e também ao longo do seu perímetro, que tem cerca de 7 Km de extensão, encontra-se uma representação quase completa da flora nativa açoriana, com as excepções óbvias daquelas espécies que vivem exclusivamente a baixas altitudes e de outras que não existem no grupo central no arquipélago. Para além dos habituais juníperos, azevinhos, folhados, loureiros, mirtilos e urzes, das multidões de fetos e de musgos, e das grandes asteráceas de floração estival como o patalugo e a leituga, pudemos ver trovisco-macho em abundância e ainda reencontrámos, para grande regozijo nosso, a raríssima alfacinha (Lactuca watsoniana) que só conhecíamos da ilha Terceira.


Ilex perado Aiton subsp. azorica (Loes.) Tutin


Eis uma boa ocasião para remediar uma grave lacuna: apesar de referirmos muitas vezes o azevinho açoriano, nunca aqui o mostrámos, talvez por nunca lhe termos fotografado as bagas maduras, já pintadas de vermelho. Tendo a espera ultrapassado os limites do razoável, contentar-nos-emos com as bagas verdes, e como bónus juntamos uma imagem das flores, que são brancas, pequenas e discretas, mas revelam-se compatíveis com o calendário das nossas estadias nos Açores. O azevinho açoriano, endémico do arquipélago e componente essencial das florestas húmidas de altitude, é uma árvore perenifólia, de copa larga, que pode ultrapassar os cinco metros de altura. Nas zonas de maior humidade, em que as nuvens só se ausentam a custo e por períodos muito curtos, os azevinhos rivalizam com os juníperos na quantidade e qualidade da flora epífita de musgos e fetos a que dão acolhimento. Um dos inquilinos habituais dessas árvores é a língua-de-vaca, um feto endémico dos Açores e da Madeira.


Pico: floresta de junípero (à esquerda), loureiro (ao centro) e azevinho (à direita)

11/02/2010

Flor de azevinho

Ilex aquifolium L.
Antes dos nomes binários, o azevinho chamou-se Ilex aculeata baccifera, que é como quem diz, azinheira espinhosa e com bagas. Os espinhos tendem a desaparecer com a idade, como o amansar na velhice do temperamento de um avô, e as margens das folhas tornam-se então inteiras. Os frutos, carnudos e tóxicos, mantêm-se muito tempo na árvore e são a sua faceta mais vistosa e mais bem conhecida. Atentemos por isso nas flores.

Este arbusto é dióico. Mais ou menos. As flores são funcionalmente unissexuais, e há pés masculinos e femininos, mas pouco se distinguem na forma e conteúdo. São brancas ou levemente coradas, nascem nas axilas das folhas, e cada tipo tem vestígios do outro sexo: nas masculinas há um ovário rudimentar; nas femininas, estames com anteras estéreis. Estranha-se esta criação mal amanhada da natureza, que não costuma ser tão perdulária. Mas quem sabe se não é afinal esta uma opção ponderada; se tais apêndices — como o nosso — não tiveram outrora algum uso e estão a ser desligados com prudência; ou se os orgãos aparentemente supérfluos não estão apenas adormecidos, prontos para um aperto imprevisto.

A madeira do azevinho é alva, de textura fina mas muito dura (boa, portanto, para cabos de ferramentas) e pesada (não flutua na água). Usava-se, tingida de negro para imitar o ébano, em móveis de luxo, baquetas de tambor ou varetas de espingardas. Isso antes do decreto-lei de 1989 que reconhece a situação vulnerável da espécie e a protege do declínio. Essa proibição foi, curiosamente, publicada no início de Dezembro, recriminando com diplomacia o excessivo uso natalício do arbusto. Mas a receada fome logo deu em fartura, com os horticultores, sob a benção da Holly Society, a produzirem rapidamente inúmeros cultivares de jardim, alguns de folhagem variegada ou dourada.