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03/03/2015

Liana das trombetas



Aristolochia baetica L.


Dizer que o Algarve não é só praia é como dizer que Las Vegas não é só jogo: ambas as afirmações estão correctas (em Las Vegas há também um deserto, e grande), mas não deixam de ser protocolares, tocadas pela cautela diplomática de quem receia ofender; ainda que trivialmente verdadeiras, são pouco sinceras. Fazer de lagarto ao sol não é actividade que nos atraia, e por isso visitar o Algarve no Verão está fora de causa. Visitá-lo no Inverno, numa pausa de uma semana entre dois períodos escolares, acaba por ser uma boa opção para (usando a gíria dos operadores turísticos) "descobrir o outro Algarve", afinal o único que nos interessa. Foi preciso este blogue completar dez anos para quebrarmos o enguiço e descermos em visita de exploração botânica ao extremo sul de Portugal. Na primeira quinzena de Fevereiro são mais as promessas do que as flores; mas, conforme atestarão este fascículo e os seguintes, não regressámos a casa de mãos a abanar.

Para reforçar o constraste entre o Algarve que buscávamos e o Algarve dos veraneantes, nem sequer espreitámos o mar no primeiro dia da estadia. Tomámos uma estrada apontando para nordeste, cheia de curvas, rodeada por sobreiros, e dirigimo-nos a Alcoutim, com paragem em dois ou três pontos para calcorrear as margens da ribeira da Foupana, afluente do Guadiana. Aqui os solos são ácidos, e a vegetação da serra, dominada por estevas, é mais pobre que a dos afloramentos calcários em redor de Loulé. Ainda assim, há amendoeiras em flor em pomares abandondados, rosetas de Cynara algarbiensis a muitos meses de florir, campos de linárias roxas que se adiantaram no calendário; e, entre as rochas junto à ribeira, festejamos o nosso primeiro encontro com a versão silvestre do tão comum loendro (Nerium oleander), o arbusto das auto-estradas.

Outra estreia feliz foi o nosso encontro com a liana-das-trombetas (como passaremos a chamar à Aristolochia baetica), uma trepadeira que reputávamos rara mas, percebêmo-lo depois, é comum na metade oriental do Algarve. Contudo, e por muito que ao vigésimo reencontro a emoção estivesse atenuada, esta planta lenhosa, de hastes longas, finas e enroladiças, com as suas extraordinárias flores trombeteiras cor de vinho, é de facto o ícone mais forte de toda a flora algarvia. Ainda que haja notícias vagas e remotas de incursões suas no Alentejo, só no Algarve é que no nosso país ela se vê facilmente, sublinhando uma vocação mediterrânica que é confirmada pela distribuição global da espécie, nativa apenas do sul da Península Ibérica e do norte de África (Argélia e Marrocos).

Para os infelizes que nunca viram a planta, alguns dados e medidas podem ajudar: as folhas, que são persistentes, têm uns 4 cm de comprimento, e as flores, bem maiores do que é comum no género, podem chegar aos 7 cm; a floração é sobretudo hibernal. Nas fotos em cima, vemos a Aristolochia baetica enredando-se num pilriteiro despido de folhagem: como trepadeira versátil que é, qualquer apoio, vegetal ou não, lhe serve, e também a observámos subindo por muros ou tacteando paredes de casas abandonadas.

À semelhança dos fradinhos e dos jarros (que pertencem porém a outra família botânica, bem afastada daquela que inclui a Aristolochia), também as flores da liana-das-trombetas são auto-incompatíveis: só quando o estigma de uma flor deixa de estar receptivo ao pólen é que as anteras dessa mesma flor libertam o pólen que, transportado por algum insecto, terá necessariamente de fecundar uma flor diferente. O esquema é complicado, envolvendo engodo olfactivo (os insectos são atraídos por cheiros putrefactos) e o aprisionamento durante largas horas dos ingénuos polinizadores, enquanto a flor opera a transição da fase feminina para a masculina.



ribeira da Foupana

14/07/2011

Erva do bom despacho


Aristolochia pistolochia L.

Na verdade não foi por ela que visitámos a pequena mata de sobreiros e carvalhos-cerquinhos algures na Serra dos Candeeiros. Tratou-se de um prémio de consolação, pois a desejada mais uma vez se esquivou. E a Aristolochia pistolochia, a planta que rima (este Lineu tinha arroubos de poeta), não é descoberta de se deitar fora. Ainda que a Flora Ibérica garanta que ela ocorre em todo o centro e sul de Portugal e também em Trás-os-Montes, a verdade é que nunca a tínhamos visto. Frequentando bosques e clareiras de matos secos desde o sul de França às regiões de clima mediterrânico na Península Ibérica, é muito menos comum do que a sua congénere Aristolochia paucinervis, da qual se distingue pelas folhas triangulares, pelo amarelo-torrado das flores, e pelos capuzes mais proeminentes.

Depois de uma planta que, se não ajuda a evitar a gravidez, pelo menos tem semelhanças com outra a que a superstição atribuiu tal qualidade, é boa política reforçar a nossa postura neutral dando voz à facção pró-vida. Acreditavam os antigos, por a forma da flor lembrar um útero, que a Aristolochia tinha virtudes obstétricas, e daí o nome que Lineu lhe atribuiu, e que significa excelente parto. A mesma crença inspirou a designação inglesa birthwort para todas as plantas do género. Contudo, a medicina moderna desaconselha qualquer uso terapêutico destas plantas, que são tóxicas e potencialmente cancerígenas.

19/01/2010

Estrelamim


Aristolochia paucinervis Pomel

Este nariz da terra, que muitos encaram cautelosamente como orelhinhas-do-diabo, é planta vivaz rizomatosa da região Mediterrânica e Macaronésia, abundante por cá em matagais soalheiros e terrenos incultos, onde aprecia a companhia de carvalhos. Os caules chegam aos 40 cm de comprimento, parecendo crescer em ziguezague. As folhas são cordiformes e alternas, com pecíolo longo; servem de gola isabelina às flores que nascem solitárias, entre Março e Julho, nas axilas das folhas. Não têm pétalas, estão contidas num cálice tubular, inchado na base, que molda uma "espata" de cor amarelo-pardo com um capuz púrpura de interior penugento. O fruto é uma cápsula ovóide que demora cerca de três meses a amadurecer e contém numerosas sementes triangulares achatadas.

O termo latino paucinervis indica que esta planta tem poucos nervos. Não se trata aqui de uma apreciação do carácter - que, numa herbácea cujas raízes contêm um alcalóide venenoso, usado como antídoto para picadas de cobras ou de escorpiões, é certamente calmo e lúcido -, mas uma referência aos poucos canais de seiva salientes a irrigar as várias partes da planta. Aristolochia deriva do grego aristos, o melhor, e lokhía, parto. Estranho nome este, dado a uma planta que adoptou um esquema de polinização sofisticado mas revela com frequência um descaso maternal que beira o desastre. Senão vejamos.

As flores da jarrinha são hermafroditas e atraem, pelo aroma ou pelo ar aquecido do tubo, insectos polinizadores que aprisionam - com outros distraídos que atrapalham o processo - e que só libertam quando as anteras se abrem sujando-os de pólen. Elas sabem de cor a receita -

50 grãos de pólen por cada óvulo para se gerar um fruto
11 sementes por cada fruto


- e portanto estão conscientes de que são precisos cerca de 4,5 grãos de pólen para produzir uma semente. Mas, em épocas em que os tubérculos armazenaram poucos nutrientes para o ano seguinte (a planta perde a componente aérea no Verão), são altas as taxas de flores não polinizadas, por notória falta de pólen, ou de frutos abortados. Os cientistas atribuem esta baixa natalidade à opção de minimizar riscos: em anos de parcos recursos, as plantas produzem menos pólen que óvulos e, por isso, poucos frutos. A fartura de flores mantém a clientela de insectos visitantes satisfeita, mas a planta reserva-se o direito de, criticamente, eliminar rebentos de viabilidade menos provável ou restringir a reprodução, antevendo com justa preocupação o sucesso da filharada num mundo que nem os pais consegue sustentar devidamente. Esta estratégia, egoísta é certo, é útil em ecossistemas com condições ambientais variáveis, como é a região mediterrânica, e favorável a espécies que dependem de polinizadores muito especializados - ou que compram néctar noutras lojas -, cuja abundância flutua de ano para ano, como são as do género Aristolochia. Deste modo, a planta evolui para um regime mais autónomo de auto-polinização, compensando alguma ineficiência recorrente no esquema ardiloso de fecundação.

Num momento em que o país se aflige com a baixa natalidade, atenua a angústia saber que noutros mundos há iguais reacções à crise: de vez em quando, é possível sentir-se venturoso sem se precisar de um futuro.