19.1.10

Estrelamim


Aristolochia paucinervis Pomel

Este nariz da terra, que muitos encaram cautelosamente como orelhinhas-do-diabo, é planta vivaz rizomatosa da região Mediterrânica e Macaronésia, abundante por cá em matagais soalheiros e terrenos incultos, onde aprecia a companhia de carvalhos. Os caules chegam aos 40 cm de comprimento, parecendo crescer em ziguezague. As folhas são cordiformes e alternas, com pecíolo longo; servem de gola isabelina às flores que nascem solitárias, entre Março e Julho, nas axilas das folhas. Não têm pétalas, estão contidas num cálice tubular, inchado na base, que molda uma "espata" de cor amarelo-pardo com um capuz púrpura de interior penugento. O fruto é uma cápsula ovóide que demora cerca de três meses a amadurecer e contém numerosas sementes triangulares achatadas.

O termo latino paucinervis indica que esta planta tem poucos nervos. Não se trata aqui de uma apreciação do carácter - que, numa herbácea cujas raízes contêm um alcalóide venenoso, usado como antídoto para picadas de cobras ou de escorpiões, é certamente calmo e lúcido -, mas uma referência aos poucos canais de seiva salientes a irrigar as várias partes da planta. Aristolochia deriva do grego aristos, o melhor, e lokhía, parto. Estranho nome este, dado a uma planta que adoptou um esquema de polinização sofisticado mas revela com frequência um descaso maternal que beira o desastre. Senão vejamos.

As flores da jarrinha são hermafroditas e atraem, pelo aroma ou pelo ar aquecido do tubo, insectos polinizadores que aprisionam - com outros distraídos que atrapalham o processo - e que só libertam quando as anteras se abrem sujando-os de pólen. Elas sabem de cor a receita -

50 grãos de pólen por cada óvulo para se gerar um fruto
11 sementes por cada fruto


- e portanto estão conscientes de que são precisos cerca de 4,5 grãos de pólen para produzir uma semente. Mas, em épocas em que os tubérculos armazenaram poucos nutrientes para o ano seguinte (a planta perde a componente aérea no Verão), são altas as taxas de flores não polinizadas, por notória falta de pólen, ou de frutos abortados. Os cientistas atribuem esta baixa natalidade à opção de minimizar riscos: em anos de parcos recursos, as plantas produzem menos pólen que óvulos e, por isso, poucos frutos. A fartura de flores mantém a clientela de insectos visitantes satisfeita, mas a planta reserva-se o direito de, criticamente, eliminar rebentos de viabilidade menos provável ou restringir a reprodução, antevendo com justa preocupação o sucesso da filharada num mundo que nem os pais consegue sustentar devidamente. Esta estratégia, egoísta é certo, é útil em ecossistemas com condições ambientais variáveis, como é a região mediterrânica, e favorável a espécies que dependem de polinizadores muito especializados - ou que compram néctar noutras lojas -, cuja abundância flutua de ano para ano, como são as do género Aristolochia. Deste modo, a planta evolui para um regime mais autónomo de auto-polinização, compensando alguma ineficiência recorrente no esquema ardiloso de fecundação.

Num momento em que o país se aflige com a baixa natalidade, atenua a angústia saber que noutros mundos há iguais reacções à crise: de vez em quando, é possível sentir-se venturoso sem se precisar de um futuro.

4 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Gosto muito desta plantinha, também ela habitante da minha infância. "Não apanhes essa flor porque a sua seiva faz doer as mãos.- dizia a minha mãe, que lhe chamava "jarro bravo". Ainda sou fascinada por ela...
E hoje fiquei a conhecê-la um bocadinho melhor. Obrigado
Luz

Maria da Luz Borges disse...

Afinal não é a mesma planta. A outra tem o mesmo tipo de flor, mas as folhas são diferentes. No entanto esta também é muito bonita.
Luz

Rafael Carvalho disse...

Tive pela primeira vez contacto com esta planta na Primavera do ano passado. Despertou-me a atenção pela semelhança da sua flor com a serracenia, espécie de planta carnívora.
Fiquei posteriormente a saber que é designada popularmente por "erva-bicha", quiçá pelas ofídias semelhanças.
Cumprimentos.

Maria Carvalho disse...

Luz: Esta jarrinha também é tóxica, mas as flores têm um odor que a nós nos parece ruim (prova de que não somos insectos...), o que, felizmente, reduz o risco de se mexer nela.

Rafael: Tem razão, as espécies de Serracenia dão flores parecidas às da erva-bicha. Ou a natureza teve, momentaneamente, falta de ideias de design ou serve-se da semelhança para enganar os incautos e alimentar melhor as suas meninas.