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28/04/2008

Beco do Paço



O beco do Paço é uma curta viela sem saída que desemboca na rua de Clemente Menéres, mesmo ao lado do Jardim do Carregal. É um lugar sem dignidade suficiente para homenagear algum ilustre falecido, e por isso nunca nenhuma comissão de toponímica lhe quis mudar o nome. Ninguém lá mora: a ilha que lá existia foi demolida em 1999, e sobram, à face do beco, duas casas de dois pisos, desocupadas e em ruínas. A única utilidade da viela é servir de estacionamento gratuito a meia-dúzia de habitués que trabalham nas redondezas. Há também os gatos, moradores dos pardieiros, que vêm apanhar sol nos tejadilhos dos carros ou, em dias de chuva, abrigar-se debaixo deles. Logo à entrada do beco, vedada por desengonçado portão de chapas de zinco, há uma rampa de acesso a um terreno semi-arborizado que se estende até às traseiras da rua de Miguel Bombarda. O terreno já foi estaleiro de obras, e dessa sua ocupação sobraram materiais de construção, vários montes de entulho, e duas placas de cimento que a vegetacão espontânea vem metodicamente rompendo. Enquanto durar este fértil abandono, poderão vegetar tranquilamente as árvores que vejo da minha janela: palmeira-das-Canárias, sequóia, nespereira, plátano, ácer, figueira, ligustros, sabugueiros. À lista devo juntar a casuarina de que aqui falei vai para quatro anos (foto da esquerda) e que, entretanto, para orgulho de quem a apadrinhou, mais que duplicou de envergadura.

06/09/2007

Rose she-oak


Allocasuarina torulosa

Quando aqui falámos da árvore-da-tristeza (Casuarina equisetifolia), não sabíamos que as árvores do jardim da Casa Burmester já tinham sido realojadas noutro género da família Casuarinaceae. Estão agora classificadas como Allocasuarina torulosa, referindo-se o epíteto específico às verrugas (do latim torulus) que os cones, pequenos barris, exibem.

Ao contrário da C. equisetifolia, esta é uma espécie dióica (há árvores dos dois sexos); e, no Verão, a parte mais bonita deste conjunto de três é a árvore masculina, coroada de inflorescências que pintam a copa com um tom acobreado, que logo se dissolve copiosamente em pólen. Igualmente vistoso é o tronco, cujas fissuras lembram, na textura e na cor, o dos sobreiros. Os cones das fotos ainda não abriram; libertarão em breve sâmaras lustrosas com uma asinha transparente.

O jardim da Casa Burmester, que pode ser visitado em qualquer dia da semana, pertence à Universidade do Porto, e forma, na rua do Campo Alegre, um contínuo verde com o jardim do Círculo Universitário (Casa de Primo Madeira) e o Jardim Botânico.

05/10/2006

Árvores do Jardim do Carregal #11


Casuarina equisetifolia

Num dos bordos do Jardim do Carregal estão agora em flor um grupo de casuarinas (Casuarina equisetifolia) de belo porte. Não são coníferas como a maioria das suas vizinhas no Jardim, mas são australianas como elas. A copa piramidal verde-alface ganha no Outono o tom acastanhado das inflorescências masculinas, espigas terminais alongadas só com brácteas pequenas. As flores femininas, que se formam nas axilas das folhas, são conjuntos de estiletes avermelhados e também não têm pétalas. As brácteas quando maduras soldam-se e criam pinhas cilíndricas que contêm samaróides, cada um com uma semente alada e achatada.

Esta árvore, da família Casuarinaceae, é de crescimento rápido e tolerante a solos salinos; adequa-se por isso como quebra-vento e como revestimento de zonas costeiras. Diz-se que a sua madeira de cerne vermelho é a melhor das lenhas. A ramagem pendente, num hábito que faz lembrar a plumagem dos casuares (do malaio kasuari) - grandes aves pernaltas mas não voadoras, com uma crista óssea e pescoço azul ou púrpura - é feita de tubinhos ocos, finos, rijos, estriados longitudinalmente, articulados com nós em redor dos quais se encaixam as folhas diminutas como dentinhos triangulares brancos. Parece-se com a folhagem da cavalinha (Equisetum sp., nome que tem origem no latim equus, cavalo, e seta, cerda ou crina), daí o epíteto específico. Em dias de vento, os numerosos tubos produzem um silvo característico, que lhe deu a designação comum Whistling-Pine e árvore-da-tristeza.

No jardim da Casa Burmester, na Rua do Campo Alegre, há três exemplares de outra espécie de casuarina, também de origem australiana, que tem inflorescências mais vistosas e frutos maiores.

Anterior desta série: #10

15/09/2004

A minha casuarina



Conheço-a desde que começou a arrebitar a flecha acima da vegetação rasteira que forrava o local. No terreno onde despontou havia, até há poucos anos, uma ilha e algumas hortas cultivadas. A ilha foi demolida e sobraram, à face da rua (ou melhor, à face do beco), duas casas abandonadas que vão servindo de abrigo e infantário a sucessivas gerações de gatos. As hortas foram terraplanadas, mas preservaram-se as árvores: plátano, sequóia, palmeira-das-canárias, ligustros, ácer, figueira, nespereira. Desde 1999 que o local serve de estaleiro para a construção do túnel rodoviário Ceuta/Carregal - mas, nos dois ou três anos em que a obra foi interrompida, o terreno esteve desocupado: foi nessa altura que ela nasceu.

Não veio ao mundo em berço de ouro, e os seus pais, moradores no desprezado Jardim do Carregal, viviam (e vivem) tempos difíceis. O vento arrastou a semente para o terreno temporariamente abandonado, onde ninguém passou para calcar o rebento. Quando as máquinas regressaram para limpar a vegetação e reconstruir o estaleiro, eu já a conhecia e saudava todas as manhãs. E não tive dúvidas, nessa manhã de Julho de 2003, de que a escavadora iria trucidá-la tal como fez ao mato rasteiro. Tomei banho à pressa e corri até ao local. Disse aos trabalhadores que estava ali uma jovem árvore, muito bonita, que quando crescesse ficaria como as do Jardim do Carregal. E não é que eles a pouparam? Gente boa, afinal.

Passaram-se catorze meses, e vejam como ela está crescida: tem quase a altura de dois homens, endireitou a espinha, e dispensou a muleta. (É verdade: os trabalhadores até tiveram a delicadeza de a apoiar com um tutor.) Não vegeta num jardim requintado: em vez de um palácio, tem atrás de si um dos barracos do estaleiro; nasceu sem eira nem beira, e o seu futuro é incerto. Mas, numa cidade quase toda betonizada e asfaltada, a sua existência é pouco menos do que milagrosa: uma lembrança do poder regenerador de uma natureza que temos feito regredir quase até à extinção.

Nota. A Casuarina equisetifolia é uma árvore australiana, de folhagem peculiar (folhas reduzidas a escamas, que cobrem como uma bainha verde os raminhos cilíndricos, filiformes), usada entre nós como árvore ornamental. É resistente aos ventos marítimos e por isso apropriada para regiões costeiras.