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07/01/2013

Feto fino



Cystopteris dickieana R. Sim

Embora também seja nosso hábito determo-nos junto a fontes e regatos para matar a sede com água sem desinfectante, o mais das vezes só queremos observar as plantas que vicejam sob tão copiosa rega. Uma velha pia de granito com um fio de água a escorrer é um viveiro de especialidades que só naquele nicho poderiam surgir, e não uns metros ao lado. Que artes mágicas foram as delas para que as sementes pioneiras caíssem e germinassem no sítio exacto? Aqui é preciso pôr travão na retórica, porque nem tudo quanto é verde nasce de semente. Os fetos, como é sabido, reproduzem-se por esporos. E mesmo certas plantas com flor têm recursos para se propagarem vegetativamente quando falha a sementeira: o trevo-azedo (Oxalis pes-caprae), sul-africano de origem, é dos piores invasores vegetais em Portugal apesar de não produzir sementes no nosso clima.

Falávamos porém de fontes e de fetos. Muitos fetos (nem todos) têm uma afinidade especial com a água, e por isso o ditado «não há fonte sem feto» teria plena justificação para existir. Entre os que se encontram ocasionalmente nestes locais contam-se os do género Cystopteris, com folhas bipinadas de cerca de 30 cm de comprimento, por vezes bastante menores, dispostas em tufos. A um olhar menos treinado o recorte das frondes pode levar à confusão com algum Asplenium. No entanto, as folhas do Cystopteris são finas e frágeis, de um verde pálido, em contraste com as folhas escuras e semi-coriáceas do A. billotii e do A. onopteris. E há outra diferença importante: no Cystopteris os esporângios estão protegidos por indúsios lanceolados, enquanto que no Asplenium os indúsios são lineares (sem o auxílio de lupa, ou em fotos de fraca nitidez, notar-se-á a diferença entre um ponto e um travessão).

Seria pedante propormos ao leitor que apontasse quais as diferenças entre as duas espécies de Cystopteris que hoje mostramos. O género é reconhecidamente problemático, tanto pela grande variação dentro de cada espécie enquanto tal, como pela difícil distinção entre elas. Há quem defenda que sob o nome de Cystopteris dickieana se agrupam na verdade várias espécies, divergindo tanto na morfologia como no número cromossomático; e o mesmo sucederia, embora não na Europa, com o Cystopteris viridula. Na ala oposta do espectro de opiniões, outros sustentam que C. dickieana e C. viridula são sinónimos de C. fragilis, o que diminuiria de três para um o número de espécies do género presentes em Portugal.

Aceitando a doutrina das três espécies, a mais comum no nosso país é C. viridula, presente em toda a metade norte do território continental e também nos Açores e Madeira. O C. dickieana, com preferência por lugares mais elevados, ocorre pontualmente no interior norte e centro. Uma inspecção do verso das frondes (fotos 3 e 5) revela uma das diferenças entre os dois: no C. dickieana a venação termina nos bicos das pínulas, enquanto que no C. viridula termina nas reentrâncias. Mas a distinção mais óbvia é geográfica: o C. dickieana foi fotografado na serra da Estrela, perto do Covão d'Ametade, a uma altitude inacessível ao seu congénere.


Cystopteris viridula (Desv.) Desv. [sinónimo: Cystopteris diaphana (Bory) Blasdell]

04/03/2006

Dias sem árvores em Serafão- Fafe

. «E, uma opção tão drástica e radical, com certeza que mereceu ponderação, conselhos, opiniões de experts na actividade de engenharia florestal, paisagística e até ambiental, para evitar que a coberto de boas intenções se pratiquem deslizes... »

(nanja dúvidas!)

06/01/2006

"Deitaram hoje abaixo a maior árvore do meu bairro!"

«... Não foi para passar uma estrada nova, nem para um novo edifício, nem porque estragava os passeios ou a estrada. Foi porque o projecto de requalificação não a pretendia ali. E foi mesmo abaixo. Estou a escrever-vos porque me parece que são das poucas pessoas que percebem totalmente como me sinto neste momento, e percebo também melhor o que têm sentido em relação aos Aliados e a outras situações de "requalificação". Envio fotos da infortunada árvore. Cumprimentos! Alexandre Leite (Fafe)»


Para este nosso amigo das árvores o ano não terminou bem e começou mesmo mal. E é com esta triste notícia que se inicia também no blogue a temível estação dos abates e das podas indiscriminadas das árvores. Não é suficiente estarmos alerta: eles têm a serra e a tesoura nas mãos e actuam sem avisar, impunemente, armados de uma ignorância e uma insensibilidade temíveis. Ainda hoje vi um chorão (Salix babylonia) barbaramente podado e há uma semana passei pela bela magnólia que no ano passado fora a primeira a florir nas redondezas e que agora vegeta com os seus "braços" decepados e sem flores no jardim do infantário.

Perguntamos a Alexandre Leite se alguém tinha avisado que iriam deitar abaixo o choupo. Eis a resposta: «O projecto de "requalificação" para o bairro incluiu alterações no sistema de esgotos e já que iam abrir a estrada, fizeram também uns passeios novos e um diferente ordenamento do estacionamento. Já agora, também fizeram um parque infantil no lugar de um outro que estava há muitos anos abandonado. Que eu saiba, a única informação que os moradores do bairro tiveram foi um cartaz que colocaram no início das obras. Esse cartaz, para além da indicação dos prazos e preço da obra, tinha algumas imagens feitas por computador de como iria ficar o "novo bairro". Na altura, reparei que no local onde estava este tal choupo que foi agora deitado abaixo, ele não estava representado. Via-se uma árvore de porte mais pequeno e mais centrada no espaço triangular onde ele se encontrava. Mas fiquei na dúvida se iam tirar de lá a árvore ou não. Podia ser simplesmente porque quem tivesse feito as imagens não tivesse uma imagem computorizada de uma árvore maior. Por essa altura mandei um email para a Câmara a perguntar o que estava previsto para aquele espaço. Se iam ou não deitar aquela árvore abaixo. Ninguém respondeu. Mandei depois uma carta. Podia ser que não tivessem recebido o mail... Ninguém respondeu. Uns tempos depois telefonei a perguntar se tinham recebido a minha carta e se iriam responder. Disseram que tinham recebido e que iam já tratar do assunto. Até hoje, mais nada.

Imagino que para muita gente tenha sido uma surpresa, o derrube da árvore. Da mesma forma que foram surpresa todos os outros pormenores das obras. Mas também, para alguns até terá sido uma boa surpresa. Disseram-me que um vizinho chegou a fazer um abaixo assinado para que se deitasse a árvore abaixo, já que iam mexer na zona. Parece que se sentia incomodado com o "algodão" que os choupos libertam. Mas também conversei com alguns vizinhos, antes de ela ser derrubada, que quando eu lhes dizia, que se calhar, iam deitar a árvore abaixo, consideravam uma asneira tirá-la dali.»

Publicado também no Dias sem árvores