31.1.15

A árvore que sobra



Sorbus torminalis (L.) Crantz

Desde crianças que não gostamos de ser meros espectadores. Esforçamo-nos desde então por traçar rectas, caminhos mais curtos ou mais rápidos, numa azáfama transformadora que, se destrói, logo tenta consertar para que não se note o estrago. Chegamos agora facilmente a muitos lugares e neles não faltam florestas acabadas de plantar (mas por que será que elas nos lembram desertos?), albufeiras onde estrepitosas motos de água permitem a descontracção ansiada depois de uma semana de canseira citadina (mas onde está o rio bravo que ali se admirava?) e centros de interpretação com promessas de uma via privilegiada de comunicação com a natureza.

Lamentavelmente, a natureza não tem espinhos ou ganchos com que se defender, anda muito melindrada e nem sempre resiste a tanto empreendedorismo. Decerto há plantas que também aproveitam os estradões, abertos serra acima a pensar nas eólicas, para experimentarem outros habitats favoráveis ou apenas colonizarem o novo espaço disponível. E também conhecemos as que apreciam as clareiras dos novos matagais de eucaliptos com que esverdeamos o país. Mas, mais frequentemente, depois de serem maltratadas ou de lhes derrubarem o bosque de sombra, humidade, musgo e sossego em que viviam, as plantas não conseguem adaptar-se ao novo ambiente e definham. Talvez seja essa a razão dominante para a raridade desta árvore, uma das quatro do género Sorbus no nosso país. Dela há por cá poucas populações conhecidas, avisando a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, que elas se restringem às serras do Gerês, Nogueira e Gardunha, onde os carvalhais também já foram mais abundantes. Os registos da Flora On, porém, indicam outros locais onde esta sorveira resiste, na Beira Alta e em Trás-os-Montes.

O espécime que fotografámos está em Castro Vicente; ele e um companheiro mais novo parecem ser únicos numa vasta área. Encontrámo-lo graças a uma indicação do Miguel Porto, mas chegámos tarde para ver as cimeiras de flores, e os frutos não estavam ainda formados. As pétalas são brancas e rodeiam inúmeros estames, como no pilriteiro (Crataegus monogyna; em 1753, Lineu designou este Sorbus por Crataegus torminalis). As folhas ainda se mantinham frescas e pudemos verificar como são glabras (embora tenham sido meio penugentas no início da Primavera), de textura rija e contorno profundamente lobado; é esse o traço que o distingue dos restantes Sorbus portugueses.

O S. torminalis é nativo do centro e sul da Europa, norte de África e parte da região mediterrânica. A informação do portal Anthos revela que se encontra bem disseminado na Península Ibérica, mas só do lado espanhol. Ao estudarmos as referências sobre esta árvore, lemos que o epíteto latino torminalis se refere ao risco de problemas intestinais que a ingestão das bagas pode provocar. E aprendemos ainda que ela é inerme.

27.1.15

Primavera dos entulhos



Urospermum picroides (L.) Scop. ex F. W. Schmidt

Flor do entulho é uma metáfora para descrever algo que, pela beleza ou outras inesperadas qualidades, sobressai fortemente do meio em que está inserido. Quem andar com os olhos atentos, porém, encontra muitas e atraentes flores do entulho no sentido literal da expressão. Vêem-se por vezes, misturadas com restos de obras, plantas ornamentais ainda vivas de que os seus donos, inexplicavelmente, resolveram livrar-se. Os que se habituarem a respigar pacientemente tais lugares de abandono nunca precisarão de se abastecer em hortos para comporem vistosos jardins com as cores, cheiros e formas que outros desdenharam. Para além dessa incorporação directa de plantas exóticas, os entulhos deixam-se colonizar rapidamente pelas plantas nativas com gosto por habitats degradados. E, no transporte de restos de cal, cimento e tijolos de uma região para outra, há sempre muitas sementes que aproveitam a boleia. Num país desmazelado como o nosso, onde proliferam os depósitos clandestinos de materiais de construção, não deverá ser pequeno o papel que essas estruturas têm desempenhado na disseminação de certas espécies.

O preciso entulho onde na Primavera de 2014 vicejava esta leituga-de-burro (é esse o nome popular do Urospermum picroides) constitui o involutário contributo de um anónimo mestre de obras para o enriquecimento florístico da Reserva Ornitológica de Mindelo (actual Área Protegida do Litoral de Vila do Conde). Involuntário, entenda-se, não porque o entulho tivesse sido depositado por acidente, mas porque o mestre de obras em questão não poderia ter controle sobre as sementes com que os despojos iam guarnecidos. Certo é que a leituga-de-burro não se vê em nenhum outro local nas proximidades, e aliás nem costuma frequentar o litoral nortenho, sendo mais comum no centro e sul do país. Como confirmação adicional de que se trata de uma novidade, a espécie não consta da listagem da flora do Mindelo incluída no relatório (de 2007) que fundamentou a criação dessa área (des)protegida.

Aparentada com os dentes-de-leão e também com as verdadeiras leitugas (que é como habitualmente chamamos às asteráceas do género Tolpis), a leituga-dos-burros é uma planta anual, erecta, ramificada na metade superior do caule, que não costuma ultrapassar os 40 ou 50 cm de altura. Tal como sucede com as outras leitugas, e daí esse nome, o seu caule é oco e recheado de látex. As folhas podem ser inteiras ou recortadas e os capítulos florais são pequenos, mas o que mais ajuda a reconhecê-la são os pêlos brancos eriçados de que as brácteas involucrais estão revestidas (foto 4). O nome Urospermum, de origem grega, significa semente com cauda, e refere-se aos apêndices recurvados que nesta espécie prolongam os aquénios (visíveis nesta foto).

24.1.15

Margarida do mar





Matricaria maritima L. [sinónimo: Tripleurospermum maritimum (L.) W. D. J. Koch ]

Em várias praias do litoral atlântico, onde o mar é frio e tormentoso, encontramos perto da espuma, entre redes de pesca e barcos a descansar na areia, exemplos notáveis de estatuária: estátuas com homens de gorro e rosto sulcado, a vencer ondas bravas ou a recolher redes pesadas de peixe, numa homenagem aos pescadores e ao mar fértil; e estátuas com mulheres, mães, viúvas e orfâs, desesperadas ou incrédulas, a injuriar o destino e o mar cruel.

Pelo fim do Outono, no solo arenoso ou junto aos calhaus rolados de praia, protegida do ar salgado e da maresia por dunas ou pela vegetação mais alta, pode também ver-se uma margarida em flor, de folhas verde-claro, sem aroma, laciniadas e carnudas (ou, dado o habitat costeiro, peixudas). Trata-se de uma planta perene, de base algo lenhosa, pertencente (até há pouco tempo) ao género Matricaria, nome que alude a matriz, ou mãe, e à fama da acção medicinal da camomila (Matricaria recutita) no alívio de febres e inflamações, especialmente em parturientes, e como calmante.

O continente português contava com duas espécies de Matricaria, mas recentes revisões taxonómicas alteraram-lhes a identidade. A Matricaria recutita é agora designada por Chamomilla recutita (L.) Rauschert; a Matricaria maritima subsp. maritima, das costas do norte da Europa, chama-se agora Tripleurospermum maritimum. O que distingue estes dois géneros é essencialmente um detalhe aritmético da morfologia das sementes: na Matricaria cada semente tem quatro ou cinco nervuras salientes, no Tripleurospermum há apenas três.

20.1.15

Erva das feridas


Stachys palustris L.

Se um botânico com um conhecimento enciclopédico da flora europeia fosse largado, sem instrumentos de orientação, num bosque ou prado algures na Europa, ele deveria ser capaz, observando o mundo vegetal à sua volta, de indicar com razoável aproximação o país e a província onde se encontrava. Claro que, para o teste ser viável, teria que se tratar de uma zona pouco ou nada alterada pelo homem, sem espécies introduzidas que tivessem roubado espaço às plantas indígenas. Também conviria que as plantas observadas fossem as mais frequentes e características da região em causa, pois um nicho ecológico pejado de raridades poderia induzir conclusões erradas. Se, por exemplo, esta Stachys palustris estivesse visível, então o nosso botânico poderia deduzir, com alguma segurança, que não se encontrava em Portugal. A espécie está, de facto, presente no nosso país, mas de um modo tão escasso e residual que a probabilidade de darmos de caras com ela por acaso é ínfima. Indica Franco na Nova Flora de Portugal que ela ocorre apenas no Baixo Mondego, o que é confirmado pelo único registo da espécie no portal Flora On. Sabedor dessas circunstâncias, o nosso povo, segundo a Flora Iberica, ter-se-á apressado a chamar-lhe rabo-de-raposa-do-Baixo-Mondego. É um nome tão quilométrico que até cansa pronunciá-lo, mas felizmente são raras as oportunidades para o fazer.

No resto da Península Ibérica, a Stachys palustris é pouco frequente, estando confinada ao extremo norte ou nordeste, mas se ultrapassarmos os Pirenéus o caso muda de figura: na Europa central e nas ilhas britânicas ela é ocupante habitual de bosques e terrenos húmidos, valetas, margens de rios e até orlas de campos cultivados. Observando que a planta da foto se abrigava numa mata de avelaneiras (Corylus avelana), fazendo-se acompanhar por herbáceas como Anemone nemorosa, Ajuga reptans e Lysimachia nemorum, e fetos como Dryopteris dilatata, talvez o nosso botânico apostasse que se encontrava na ilha de Sua Majestade. E foi na verdade em Loder Valley, uma área de reserva natural gerida pelos Kew Gardens, que estas imagens foram captadas em Agosto de 2009.

Não sendo macia e felpuda como a teutónica Stachys germanica, que apesar do nome é abundante nos calcários do centro e sul de Portugal, a Stachys palustris, se atentarmos nela com imparcialidade, leva clara vantagem na beleza das flores. Destoando da família que integram, e que inclui tomilhos, lavandas e oregãos, as plantas do género Stachys são pouco ou nada olorosas, falha compensada pela farta produção de néctar que as torna muito populares entre as abelhas. Marsh woundwort é como chamam os anglo-saxónicos à Stachys palustris, o que denuncia antigos usos medicinais. De floração estival, é uma herbácea perene, rizomatosa, dotada de hastes não ramificadas capazes de atingir uns 70 cm de altura.

17.1.15

O jardim na sala


O desconhecer-se as regras geraes da cultura das plantas e o seu habitat, que é um dos principaes pontos, senão o principal, a que se deve attender quando se transporta para o jardim ou para a sala um vegetal, leva as pessoas menos versadas em horticultura a praticarem operações que julgam optimas, mas que são contraproducentes.
A cultura dos Fetos exige uns certos cuidados e é preciso que o amador tome em consideração o seu habitat. Na distribuição dos vegetais vemos que os esmaltes pertencem aos prados; as plantas arrastadiças e sarmentosas ás montanhas e aos rochedos alcantilados e os Fetos ao sombrio dos arvoredos. Percorrei os umbrosos regatos e ahi os encontrareis, mostrando uma vegetação mais luxuriante do que se fossem rodeados de todos os cuidados da arte.
É extremamente curioso observar-se a maneira como vegeta a maior parte dos nossos Fetos, sahidos das estreitas fendas dos muros, onde parece que deve haver falta de condições essenciais à boa vegetação. Mas este facto da posição quase oblíqua que tomam quando estão completamente entregues nas mãos da natureza, não deve passar indifferentemente ao cultivador.
O snr. Augusto Luso, cavalheiro muito conhecido dos homens que trabalham, porque é investigador incansavel, tem-se ocupado muito dos Fetos, não só sob o ponto de vista scientifico, mas considerando-os tambem horticolamente. Suppomos até que não haverá no paiz herbario de cryptogamicas tão rico como o d'este nosso amigo.
Ora o snr. A. Luso observou que muitos dos Fetos que procurava cultivar, quer em plena terra quer em vaso, depois de serem dispostos na nova habitação que se lhes destinava, começavam a entristecer, a amuar, a crescer pouco, a reproduzir-se mal, morrendo muitas vezes, signal de que estavam sob condições pouco convenientes.
Este facto actuou por tal modo no snr. A. Luso que lhe suggeriu a ideia de fazer uns vasos com uma nova disposição, ideia que reputamos felicissima.
D'esses vasos dão ideia exacta as gravuras 30 e 31. A abertura superior serve para se poder regar a planta, e no fundo deverá haver um ou mais orificios que facilitem a sahida da agua.
Na abertura de cima poder-se-ha dispôr uma planta que não exija posição oblíqua, como se vê na fig. 30.
Em Inglaterra usa-se muito para os Fetos uma especie de rochedos de fórmas caprichosas, feitos de barro, cujos intersticios e cavidades são cheios de terra e ahi dispostas as plantas, imitando-se por meio da arte a natureza.
Damos a gravura de um d'esse rochedos artificiaes (fig. 32), que recommendamos como um magnifico objecto de ornamento para o centro de mezas.
Associadas aos Fetos de pequeno porte podem estar algumas Selaginellas, plantas que casam muito bem umas com as outras.
As condições geraes para a cultura dos Fetos são: dar-lhes sombra, luz diffusa atravez das cortinas e nunca em contacto directo com os raios do sol; uma atmosphera humida quanto seja possivel, o que se obtem por meio de regas frequentes mas parcimoniosas; um solo composto principalmente de detritos lenhosos e de terra muito negra; emfim, uma drainagem bem feita, de modo que a agua tenha a sahida completamente livre. Com estes cuidados os Fetos devem crescer ás maravilhas.
Os Fetos são plantas muito proprias para os quartos onde há quasi sempre meia luz. Accresce que a sua verdura alegra-nos e distrahe-nos: as suas fórmas infinitas e graciosas agradam a todos e fallam ao espirito, não só pelo seu lado util, como pela sua interessante historia. (...)
Não ha hoje uma só dama que não se extasie deante dos representantes d'esta familia e que não sinta desejos de ter alguns no seu boudoir.
Duarte de Oliveira, Junior - O Jardim na Sala (pp. 198-202) - Porto, 1876



José Duarte de Oliveira (1848-1927) foi redactor do Jornal de Horticultura Prática e um dos heróis do nosso livro À sombra de árvores com história. Graças à amabilidade de Patxi Suarez Boada, o livro O Jardim na Sala, publicado por Duarte de Oliveira em 1876, está disponível em ficheiro PDF ao fundo desta página. O exemplar digitalizado está autografado por Alfredo Moreira da Silva (1859-1932), um dos históricos horticultores portuenses da viragem do século XIX para o século XX.

13.1.15

Leiteira de vida curta


Polygala monspeliaca L.

As cores obtidas com pastel, suaves e esbatidas, têm uma aparência aveludada que não sabemos a que atribuir. São comuns, e famosas, em lambretas, mas não é surpresa que raramente as vejamos em plantas, que parecem fazer um uso escrupuloso da cor no seu ciclo de vida. Tais matizes atenuadas (Lineu chamou-lhes cores rudimentares) são, porém, vantajosas quando olhamos o mundo querendo recolher apenas o essencial.

A foto mostra a inflorescência frouxa de uma das quatro espécies de Polygala que ocorrem em Portugal, sendo este um género populoso, com mais de setecentas espécies. Das quatro, esta herbácea pequenina é a única anual, com uma haste floral de cerca de 10 cm de altura onde as flores parecem tristemente penduradas, à excepção da do topo, e sem a companhia de folhas. Ora, não é bem assim: quase toda a flor é feita de folhas alteradas. Vejam-se as sépalas de cor verde ou rosa-pastel, com nervuras salientes e a fingirem-se de folhas para mais bem protegerem a corola; repare-se nas duas sépalas enormes como orelhas e nas três pétalas a formarem um chapéu e uma quilha, onde se resguarda a coluna de estames (como costumamos ver nas leguminosas, e está comprovada a proximidade genética entre as famílias Fabaceae e Polygalaceae). Dizem que só polinizadores espertos como as abelhas sabem invadir este refúgio. Por certo, a crista fimbriada branca que se vê na foto não é só um enfeite, mas não sabemos que benefício retira dela a flor (ou, de resto, qual a vantagem desse apêndice nos galos).

A Polygala monspeliaca deve o epíteto a Montpellier, no sul da França, mas é nativa da região mediterrânica, Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África. Em Portugal continental só há, de momento, registo dela no centro e sul. Este exemplar é de Sintra, de uma clareira de um mato de solo seco perto do mar; mas também vimos esta planta nas margas escorregadias do Horst de Cantanhede.

10.1.15

Alfazema cabeçuda


Lavandula stoechas L.

Gostar de plantas espontâneas é um passatempo solitário, tão desligado da vivência urbana como da vida ancestral das nossas aldeias. O camponês tradicional não é um naturalista nem preza especialmente as flores silvestres, sobretudo quando elas insistem em ocupar, às vezes de forma avassaladora, os terrenos cultivados de onde tira o seu sustento. Os pássaros que debicam cereais e frutos também não lhe são especialmente simpáticos. A natureza é para ser desbastada e vencida, não para ser admirada num estado de embevecimento só possível a quem não sabe o que a vida custa. Dar nome às plantas inúteis ou "daninhas" que crescem em montes e vales é uma ideia que só pode ocorrer a citadinos ociosos. E, ainda assim, a um tipo especial de citadino ocioso de que em Portugal há escassos representantes, daí a nossa solidão que esta partilha virtual não disfarça nem ameniza.

Até que chega a altura de falar do rosmaninho, e então sentimo-nos em comunhão com o país urbano e o país rural, unindo a linda serra da neve a brilhar com a rua do Capelão cantada por Amália. O mesmo arbusto elegante e aromático que cobria, com as suas espigas de flores roxas e folhagem verde-prateada, os cerros pedregosos em volta da aldeia (à qual se jurou nunca mais voltar) acompanhou a migração para as grandes cidades, enfeitando de igual modo canteiros urbanos e quintais nos subúrbios. Nas prateleiras dos supermercados alinham-se sabonetes, detergentes e ambientadores perfumados com lavanda, rosmaninho ou alfazema: três nomes para a mesma coisa, prova de como uma língua reflecte os amores e predilecções de um povo.

No meio de tudo isto houve algumas substituições, porque nem todas as lavandas são iguais, e aquelas que são mais cultivadas em jardins e mais usadas na indústria de perfumaria, que são a Lavandula angustifolia e a L. dentata, nem sequer ocorrem naturalmente no nosso território, ficando-se a primeira pela metade leste da Península Ibérica e não indo a segunda além da costa mediterrânica. As nossas lavandas não lhes são nada inferiores em perfume ou beleza, mas não podem competir em prestígio com aquelas que o garden center importa de França ou sabe-se lá de onde. Dito isto, esclareça-se que no nosso país há quatro espécies nativas de Lavandula, duas de distribuição restrita (L. multifida na serra de Arrábida, L. viridis no Algarve e Baixo Alentejo) e duas outras, L. pedunculata e L. stoechas, que quase fazem o pleno das províncias portuguesas. Estas duas últimas são muito parecidas, a ponto de alguns autores terem considerado que a L. pedunculata não seria mais que uma subespécie da L. stoechas. Ambas correspondem à ideia tradicional de rosmaninho, com as inflorescências compactas coroadas por vistosos penachos cor-de-rosa. Ainda assim, a L. stoechas, que é a menos frequente das duas, distingue-se com facilidade por ter as folhas um pouco mais largas, a inflorescência mais comprida, e sobretudo um pedúnculo que em geral é mais curto do que a inflorescência. Por contraste, a L. pedunculata, fazendo jus ao nome, tem um pedúnculo muito comprido, nunca menos que duas vezes o comprimento da inflorescência.

A Lavandula stoechas das imagens foi fotografada no maciço calcário de Sicó, perto de Pombal, onde estava bem acompanhada pelas suas iguais. Dir-se-ia que, apesar da preferência por solos ácidos ou neutros que lhe é imputada, esta espécie de lavanda não é de grandes esquisitices quanto ao pH do solo.

6.1.15

Papoila dos picos



Papaver argemone L.

Há uns anos, numas férias de Verão na quinta dos avós no Douro, andávamos nós, ainda crianças, a apanhar cristais de quartzo que a abertura de uma estrada tinha posto a descoberto quando reparámos num terreno em pousio pintalgado por centenas de flores com quatro pétalas alaranjadas que pareciam feitas de papel enrugado. Colhemos umas tantas, tão sedosas e frágeis que receámos que chegassem a casa desfeitas. Exibindo o nosso troféu, ouvimos um estranho sermão sobre a natureza fingidamente pura e a sedução das plantas perversas. As lindas papoilas eram afinal fonte de vício, fantasia e torpor, incompatíveis com uma existência saudável. Pedimos detalhes, que foram prontamente negados; era demasiado arriscado revelarem-nos, inocentes mas prontos para a aventura, os efeitos de tais tentações do mal.

O castigo por sermos nessa altura tão ignorantes foi uma sentida desilusão com o campo e um receio paralisante de tudo o que o compunha. Hoje sabemos que há várias espécies de papoilas, que as sementes de algumas delas até são usadas em culinária e que só a Papaver somniferum, não se sabe muito bem se exótica ou nativa no nosso país, é origem da morfina, da heroína e do ópio. É da espécie P. rhoeas que derivam quase todos os cultivares ornamentais, com fantásticas corolas matizadas de rosa, cinza, azul e carmim. Em Portugal são seguramente nativas cinco espécies, das quais a P. rhoeas parece ser a mais abundante e a P. argemone a que menos vezes é avistada, e quase sempre na região nordeste do país. São polinizadas por insectos que, dizem os entendidos, gostam de comer o pólen. As várias espécies distinguem-se bem através dos frutos, uns mais longos outros mais arredondados, uns glabros outros com espinhos, embora todos encimados por uma tampinha estriada com o que restou do estigma da flor.

O epíteto argemone deriva da palavra grega que designa «uma mancha branca ao centro», que alguns lêem como aludindo às cataratas que esta planta supostamente cura. Por causa dessa fama e da existência do género Argemone, terá havido confusão, no uso em farmacopeia popular, entre a Papaver argemone e a Argemone mexicana, esta realmente tóxica. Dessa vez, a culpada do desastre não foi a papoila.

3.1.15

O regresso dos limónios



Limonium vulgare Mill. [ou talvez não]

Dizem que os Açores hão-de ser dos destinos turísticos mais badalados em 2015. Para aumentar a atracção invocam-se chavões equivocados como «sustentabilidade» e «natureza em estado puro», tudo isto ilustrado com plantações de criptomérias, pastagens verdejantes onde ruminam vacas, estradas sublinhadas pelo azul das hortênsias, bordos de cratera invadidos por conteiras floridas. Promoção equivalente em Portugal continental seria celebrar a natureza pura e intocada dos eucaliptais e das matas de acácias. Por cá tal aldrabice ver-se-ia rapidamente desmascarada, mas os açorianos levam décadas de atraso no reconhecimento e valorização das suas plantas autóctones e da sua floresta ancestral. Que motivos haverá para mudar de atitude quando o status quo conquista prestigiosos galardões internacionais? E nós próprios, invariavelmente resmungões, havemos em 2015 de voltar, encantados, às mesmas ilhas que sabemos terem sido adulteradas além de qualquer esperança de recuperação. É como um casamento em que os defeitos do parceiro são cada vez mais evidentes sem que isso diminua o afecto recíproco.

Enquanto vamos contando os meses, ficamo-nos por um regresso virtual ao arquipélago, para mostrar uma das plantas de lá que ainda aqui não tinha marcado o ponto. Ou talvez já o tenha feito, mas através de exemplares fotografados nesta banda. O que se passa é que o limónio açoriano tem uma ecologia completamente distinta da dos limónios continentais que alegadamente pertencem à mesma espécie: nos Açores é uma planta de falésias costeiras, ao passo que por cá vive obrigatoriamente em sapais e prados halófilos periodicamente inundados pelas marés. Ou seja, nas ilhas, com tanto mar à volta, a planta recusa molhar o pé, admitindo apenas refrescar-se com uns salpicos de água salgada. Seria demasiado atrevimento para botânicos amadores como nós afirmar que as duas estirpes, a continental e a insular, se distinguem igualmente pela morfologia, mas vai sendo tempo de os especialistas tirarem o assunto a limpo. De facto, já houve uma tentativa de elevar o limónio açoriano à categoria de endemismo do arquipélago, sob o nome de Limonium eduardi-diasii, mas a dita combinação (referida na 2.ª edição, de 2005, do livro Flora of the Azores - A Field Guide de Hanno Schäffer, e também na Lista de Referência da Flora dos Açores, publicada em 2010 pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores) não parece ter sido objecto de publicação válida.

O limónio açoriano tem folhas grandes, de uns 15 cm de comprimento, e floresce vistosamente de Maio a Setembro. Não o faz com igual intensidade em todas as ilhas, e só parece ser fácil de encontrar em Santa Maria, onde de facto é muito comum ao longo de todo o perímetro costeiro. Está contudo referenciado em quatro ilhas mais: São Miguel, Terceira, Pico e Corvo.

Para complicar o estudo dos limónios em território português, um estudo de 2012 (Estudio de los taxa afines a Limonium vulgare Miller de marismas de Portugal continental, tese de mestrado de Ana Cortinhas defendida na Universidade de Valência) estabeleceu que, além do Limonium vulgare propriamente dito, ocorrem por cá dois outros limónios de aspecto semelhante e com as mesmas apetências ecológicas: são eles o L. humile e o L. narbonense, o último não menos abundante que o L. vulgare e com ele coexistindo amiúde. Parece que nisto dos limónios a Flora Iberica (o volume em causa é de 1993) se esforçou por empobrecer a flora portuguesa, pois a existência por cá de pelo menos duas espécies de limónios de folhas grandes já tinha sido referida no 1.º volume (de 1971) da Nova Flora de Portugal (ainda que Franco tenha usado o nome L. serotinum, sinónimo de L. narbonense).




Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O Limonium binervosum, de que já aqui falámos, fornece outro exemplo de como a Flora Iberica representou um retrocesso no conhecimento da distribuição deste género em Portugal. Excluído dessa obra de referência mas incluído, muito acertadamente, na Nova Flora de Portugal, o L. binervosum está de boa saúde no nosso país, ocorrendo em areias e falésias costeiras desde (pelo menos) São Jacinto (Aveiro) até Salir do Porto (Caldas da Rainha), como se verifica no mapa de distribuição que consta desta recente tese de doutoramento1 (PDF). As plantas das fotos viviam na Gafanha da Boa Hora, na ria de Aveiro, mas parte da população poderá entretanto ter sido destruída com a recente construção de uma "ecopista" no local.


1 Ana Sofia Róis - Strategies for Conservation of Rare and Endemic Species: Characterization of Genetic and Epigenetic Variation and Unusual Reproductive Biology of Coastal Species from Limonium ovalifolium and Limonium binervosum Complexes (Plumbaginaceae) - Instituto Superior de Agronomia, 2014

30.12.14

Saveirinho-com-foice


Astragalus hamosus L.

Na nossa versão fantasiada da natureza, por vezes despimos o campo do que ele tem de hostil. Noutras, pelo contrário, fazemos uma leitura contaminada pelos nossos receios, interpretando aspectos da morfologia das plantas como traços premeditados de defesa ou ataque. Veja-se o exemplo dos espinhos. Para nós são armas espetadas em riste, prontas para nos furar a ousadia e a pele. Para a planta são talvez resultado da adaptação a um habitat seco, a uma brisa persistente, a um polinizador que precisa de disfarce, ou ao pêlo dos animais de que os frutos apanham boleia.

No género Astragalus, da família das leguminosas, as flores têm, em geral, cores intensas e porte avantajado, ou nascem agrupadas em cachos densos de forte impacto. Se juntarmos a isso a folhagem vistosa, de folhas pinadas compostas por uma dezena de pares de folíolos (completadas, em algumas espécies, por um folíolo terminal), dispostos harmoniosamente numa ráquis longa, somos levados a considerar este género como um dos mais formosos da família. Mas, dando atenção aos detalhes, começamos a torcer o nariz. A espécie das fotos é bastante penugenta, com pêlos que se espetam facilmente nos dedos e lhe dão um ar descabelado. Temos até a impressão de que os cálices campanulados estão a magoar as pétalas frágeis, e de que os frutos, curvados como ganchos, jamais atrairão um bicho que lhes disperse depois as sementes.

Engano nosso. O anzuelo (ou gancho, como é conhecida esta planta em espanhol) é espécie anual de distribuição ampla na região mediterrânica, e está presente em quase toda a Península Ibérica. Por cá, há registos dele no nordeste e na metade sul. Começa a florir em Março, mas em Julho ainda se encontram flores, nessa altura misturadas com as tais vagens cilíndricas, curvadas em semi-circunferência, de uns 4 cm de comprimento. Este exemplar, que vimos em Vimioso, num torrão seco e arenoso das minas de Sto. Adrião, não está inteiramente conforme à descrição do Astragalus hamosus nas várias Floras, ou, de resto, à de alguma outra das 13 espécies de Astragalus listadas para a flora lusitana. Não é pela corola, aqui de cor creme e ali com veios azuis, mas pelo aspecto dos cálices. Contudo, a identificação aqui proposta parece ser a que mais bem se lhe ajusta.

27.12.14

Andaluza à portuguesa



Klasea baetica (DC.) Boiss. & Reut. subsp. lusitanica (Cantó) Cantó & Rivas Mart.

Foi notícia nos jornais que as crianças finlandeses deixarão em breve de aprender caligrafia. Mesmo o acto de anotar pequenos lembretes em papel lhes estará vedado, e cairá aos poucos em desuso: no futuro, toda a escrita será intermediada por aparelhos electrónicos. Os responsáveis por tal medida ficarão na história como visionários e pioneiros - ou então, quem sabe, como idiotas deslumbrados pela tecnologia. É o nosso próprio corpo que se vai tornando obsoleto, à medida que as máquinas se vão apropriando das tarefas que ele poderia realizar. As pernas não são para andar, mas apenas para vencer a curta distância entre a casa e o automóvel. Em vez de usarmos os olhos para ver a paisagem à nossa volta, ficamos debruçados sobre o pobre sucedâneo bidimensional que o smartphone regista. Entupimos os ouvidos com um ruído personalizado a que chamamos música, reduzindo a cidade a um filme mudo a que acoplamos uma banda sonora postiça. Chega a ser estranho que uma tarefa tão morosa e repetitiva como a mastigação ainda tenha que ser realizada pelos nossos próprios maxilares.

Desde o advento dos estudos genéticos que aquilo que se vê, toca ou cheira deixou de ser a principal bitola na classificação das plantas. Contudo, ainda que obrigando a uma grande reorganização das famílias botânicas, os estudos moleculares confirmaram a validade da maior parte dos géneros e espécies estabelecidos pelos métodos tradicionais. Aquilo que os nossos olhos reconhecem de imeadiato como uma Silene ou uma Veronica (só para citar dois dos géneros mais populosos da flora portuguesa) continua a ser uma Silene ou uma Veronica mesmo depois de passar pelo crivo do laboratório. Neste frívolo passatempo de botanizar, ainda vamos podendo confiar na informação fornecida pelos sentidos, até porque, por enquanto, não dispomos de alternativas viáveis, nem no campo nem (no caso de amadores como nós) fora dele. Virá porém o tempo em que existirão máquinas portáteis para ler o código genético de uma planta com a mesma facilidade e rapidez com que numa loja se lêem os códigos de barras dos produtos. Dar nome às plantas num passeio pelo campo será então tão excitante como ver desfilar as compras na caixa de um supermercado. E é garantido que, tendo acesso instantâneo ao nome de todas as plantas, não saberemos de facto o nome de nenhuma, tal como hoje não sabemos de cor o número de telefone de ninguém, nem dos amigos mais chegados. A memória é das coisas mais fáceis de desaprender a usar.

Até 2005, o género Serratula incluía umas sete espécies em território nacional, mas agora só inclui uma, a S. tinctoria, de prados higrófilos de montanha no norte e centro do país. Também por culpa dos estudos moleculares, as restantes seis espécies foram arrumadas no novo género Klasea. De facto, os géneros Klasea e Serratula distinguem-se não apenas geneticamente (têm números cromossómicos diferentes) mas também, para nosso alívio, a olho nu: no primeiro, as hastes são simples, encimadas por capítulos solitários, e as brácteas involucrais são espinhentas; na S. tinctoria, as hastes são ramificadas na parte superior, e os capítulos, que são inermes, aparecem reunidos em corimbos.

A Klasea baetica, que antes se chamava Serratula baetica, está restrita aos calcários do centro e sul de Portugal, à Andaluzia (a que se refere o epíteto baetica) e ao norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). Apresentando a espécie um alto grau de variabilidade, foram descritas várias subespécies, tendo-nos calhado em sorte uma subespécie que é endémica do nosso país, apropriadamente chamada lusitanica. A distinção entre as subespécies é subtil, e parece ter sobretudo a ver com os espinhos que prolongam as brácteas involucrais. Mesmo a subespécie lusitanica não é isenta de variações, aliás ilustradas nas fotos: as folhas caulinares tanto podem ser pinatífidas (1.ª foto) como inteiras (2.ª foto). Essas oscilações levaram João do Amaral Franco a descrever, no vol. 2 (de 1984) da Nova Flora de Portugal, três taxónes novos (Serratula estremadurensis, S. acanthocoma e S. alcalae subsp. aristata) de validade discutível, que a Flora Ibérica considera sinónimos de K. baetica subsp lusitanica.

Seja qual for o nome correcto, este endemismo português, que é perene, floresce entre Maio e Junho, e tem caules de uns 70 cm de altura, é abundante e fácil de observar em vários locais das serras de Aire e Candeeiros.

23.12.14

Areias de Sintra



Andryala arenaria (DC.) Boiss. & Reut.


Andryala integrifolia L.

Na cadeia biológica, ou mais concretamente no curso da Humanidade, somos um resplendor, nem sequer isso, um sobressalto, menos ainda, uma pedra que se afunda num poço, talvez algo ainda mais insignificante, um reflexo, um sopro, um grão de areia, nada que saia da mediania ou da indiferença. Nesta perspectiva o indivíduo não conta, mas sim a espécie, único agente activo da História. Esta deverá escrever-se um dia sem que se cite um único nome, quer seja o de um imperador, artista ou inventor, pois cada um deles é o produto de todos quantos o antecederam e o germe dos que lhe sucederão. A noção de indivíduo é uma noção moderna, que pertence à cultura ocidental e que se exacerbou depois do Renascimento. As grandes obras da criação humana, sejam livros sagrados, poemas épicos, catedrais ou cidades, são anónimas. O importante não é que Leonardo tenha produzido La Gioconda mas que a espécie tenha produzido Leonardo.

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, Ahab, 2011