24.3.15

Espinhos de São Vicente



Apesar de o sudoeste alentejano e a costa vicentina pertencerem à rede de áreas nacionais protegidas e nela ocuparem um lugar de destaque, não conhecemos nenhum guia português das plantas dessa região com chaves esclarecedoras para quem queira identificar o que observa (o livro 200 Plantas do SW Alentejano & Costa Vicentina, publicado em Dezembro de 2014, é apenas uma listagem muito incompleta e pouco criteriosa da flora da região). Há, porém, um Field guide to the wild flowers of the Algarve, elaborado por dois botânicos da Universidade de Bristol e publicado em 2014 pelos Royal Botanical Gardens, de Kew. É uma obra em inglês que dedica idêntica atenção a endemismos vicentinos ou da Península Ibérica (como o Narcissus gaditanus, que descreve como semelhante ao N. bulbocodium), a plantas que encontramos quase em qualquer esquina (como a Scabiosa atropurpurea, que aliás ilustra a página do título) ou a plantas exóticas invasoras. Contém ainda alguns erros fotográficos, mas é a ajuda que temos em papel. Se o leitor é dos que se faz sempre acompanhar por um computador com ligação à internet, tem uma opção melhor: (a) abra o Flora-On e assinale na coluna da direita o atalho de pesquisa geográfica; (b) o país aparece-lhe então em três modelos, e pode escolher o que indica as áreas da Rede Natura 2000; (c) se seleccionar a da costa vicentina, receberá informação detalhada, com imagens, sobre quase toda a flora dessa região.

A estrada que liga Sagres ao cabo de S. Vicente termina nas falésias, amarelas do material margoso compactado, meio calcário meio arenoso, que as compõe. Perto do farol a inclinação é muito acentuada, mas permite uma descida de alguns metros que nem todos os visitantes arriscam. Logo no topo podem ver-se umas almofadas densas com flores brancas de quilha (cerca de 10 mm) e estandarte (perto de 15 mm), folhas compostas cuja ráquis termina num espinho, de faces penugentas e tom verde-cinza - e nem é preciso um guia da flora para sabermos que se trata da estranha leguminosa de que, em Portugal, só há registos na Península de Sagres.



Astragalus tragacantha L.

Este Astragalus ocorre em França (e o holótipo é de Marselha, antiga Massilia, por isso já se chamou Astragalus massiliensis) e nuns poucos habitats junto ao Mediterrâneo e no nordeste de Espanha. Quanto a designações vernáculas, a Flora Ibérica regista em português a expressão alquitira-do-Algarve (ou alcatira, cuja origem os dicionários atribuem ao árabe al-kathirá), e em catalão o malicioso cuxins-de-monja. O epíteto específico, tragacanthus, é o nome latino dado às leguminosas com espinhos que produzem uma goma designada por adraganta ou tragacanta.

21.3.15

Um segredo do Barrocal



Globularia alypum L.

A menos que sejam reforçadas por obstáculos naturais difíceis de transpor, por exemplo rios de grosso caudal como o Douro ou cadeias montanhosas como os Pirenéus, as linhas de fronteira não têm grande significado para as plantas. Excepto talvez para aquelas do género Globularia, que revelam inexplicável relutância em cruzar a fronteira luso-espanhola. São nove as espécies assinaladas na Península Ibérica, mas só duas delas mantêm, e com fraco empenho, pequenas delegações em território português. A primeira é a Globularia vulgaris, que existe em dois ou três locais da serra de Aire, sempre em bermas de estrada, talvez à espera de boleia que a leve daqui para fora, e reaparece escassamente no lado português do Douro internacional, contemplando saudosa a margem oposta do rio que nunca deveria ter atravessado. A segunda é a Globularia alypum, abundante na costa mediterrânica espanhola mas limitada no nosso país a uma única e muito pequena população no Barrocal algarvio. Essas 20 ou 30 plantas ao cimo de uma encosta seca revestida por tomilhos vários foram descobertas em 1995 por Carlos Pinto Gomes, fazendo então a Globularia alypum a sua entrada oficial na flora portuguesa. A notícia, porém, não foi a tempo de ser incluída na Flora Ibérica, apesar de o vol. XIV, onde consta o capítulo sobre o género Globularia, ter visto o prelo seis ou sete anos mais tarde, em Dezembro de 2001. Agora que a vimos e fotografámos, coisa que nunca teríamos conseguido sem a amabilíssima ajuda do André Carapeto (que sobre a planta escreveu este informativo texto), acreditamos que a G. alypum, mesmo que não consiga ou não queira expandir-se no Algarve, está segura num recanto que parece a salvo de perturbações, pois não é sítio de passagem para ninguém nem é propício ao pastoreio.

Se se assemelham nos capítulos florais de um azul intenso, cada um deles reunindo dezenas de minúsculas flores, já no aspecto geral as duas globulárias portuguesas não podiam ser mais contrastantes: a G. vulgaris é uma herbácea que durante boa parte do ano fica reduzida a uma roseta de folhas basais; a G. alypum é uma planta lenhosa muito ramificada que pode atingir um metro de altura, com folhagem perene que facilmente se confunde com a do Osyris lanceolata, arbusto hemiparasita comum no Algarve. Contudo, mesmo na ausência de flores ou de frutos (os do Osyris lanceolata são drupas avermelhadas), os dois arbustos podem diferenciar-se pelo porte (o O. lanceolata é mais avantajado) e pelo facto de a G. alypum apresentar os ramos claramente estriados.

Falando de flores, eram poucas as que havia para admirar nos pés de G. alypum que pudemos observar, e de facto já sabíamos pelo André que a floração se concentrava no período de Dezembro a Janeiro. Mas, a acreditar no testemunho da Flora Ibérica, nos outros países onde a espécie se distribui as flores podem acontecer-lhe em qualquer altura do ano.

17.3.15

O ajardinamento da ria Formosa



A ria Formosa é um sapal salgado (não uma ria) bastante extenso, com inúmeros canais, salinas, ribeiras e praias, e um cordão dunar notável. Para além de ser bafejada por uma flora extraordinária, é um habitat preferido por tantas aves que se justifica plenamente um compromisso internacional de conservação. Como sabemos, por cá um tal programa de protecção significa que se aceita que é uma área protegida se isso não impedir a fruição do lugar, e consequente licença de construção de casario que se abeire de zonas sensíveis. Esse avanço sobre os areais e a pressão do turismo no Algarve talvez venham a arruinar este ecossistema que, em teoria, todos gostaríamos de preservar.

Na maré baixa, os sedimentos do fundo da zona lagunar indiciam alguma poluição, que o cheiro parece confirmar. Na ria Formosa conjugam-se as influências do oceano Atlântico e do Mediterrâneo, e isso nota-se pelos exemplares de flora mediterrânica e atlântica que ali coabitam. Em Abril, cobre-se do amarelo da elegante parasita Cistanche phelypaea, que em Fevereiro vimos a despontar. Nessa altura, as cores dominantes eram o glauco da Halimione portulacoides, o castanho-ferroso do Arthrocnemum macrostachyum e o verde-cinza dos inúmeros arbustos de Limoniastrum, que revestem as partes mais altas do sapal e começavam então a florir.



Limoniastrum monopetalum (L.) Boiss.

Esta Plumbaginaceae de folha perene é nativa de sapais e estuários da região mediterrânica, mas há quem assevere, sem todavia o provar, que é planta introduzida na ria Formosa: não sendo afinal assim tão formosa, a ria terá talvez sido ajardinada; nessa intervenção de que a história não guarda lembrança estaria a origem de algumas das plantas que agora lá vegetam; em particular, a lavanda-do-mar, de reconhecido valor ornamental, teria ali sido introduzida por ter um período de floração longo, por formar populações densas e, quem sabe, por poder actuar como despoluente. Custa a crer, mas é esta, por exemplo, a opinião da Flora Ibérica. Pelo contrário, no vol. 2 (publicado em 1984) da Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, e em obras mais recentes sobre a flora portuguesa (como o Guia de Campo - as árvores e os arbustos de Portugal continental, edição de 2007 do Público e da LPN) dá-se como certo que é nativa em Portugal. Parece, contudo, que a voz dos botânicos portugueses sobre a flora nacional é demasiado tímida. No portal Flora-On só há registos da presença desta planta na costa sul do Algarve, mas o Guia da LPN indica que também ocorre na costa Vicentina e no estuário do Sado.

Depois de admirarmos as espigas com brácteas coriáceas e flores de corola rosa-violeta, tubular e assalveada, pudemos reparar como é que estes quase-arbustos enfrentam a subida das marés: garantem que as inflorescências e os raminhos novos nascem no topo da folhagem e, como nós, arregaçam as folhas, deixando vulneráveis apenas as raízes e os talos na base. As folhas são alternadas, de um verde azulado, com uma bainha que lembra uma argola na junção ao caule, e têm as faces salpicadas de pedrinhas brancas. Julgámos tratar-se de cristais de sal, mas não é só isso: através dessas glândulas, e por um processo enzimático ainda não inteiramente entendido, a planta elimina outros excessos e toxinas que absorve em ambientes contaminados.

Não vimos frutos, mas são umas pêras pequenas e alongadas, de pé frágil, tolerantes ao sal do mar que os dissemina.

14.3.15

Cabo das cruzes

Diplotaxis vicentina (Welw. ex Samp.) Rothm.

Esta é a época do ano em que os campos cultivados ou em pousio se enchem de crucíferas floridas em vários tons de amarelo. Assim chamadas pelas quatro pétalas formando uma cruz, as plantas desta família incluem couves, nabiças, rabanetes, mostardas, agriões e inúmeras outras espontâneas que, sendo mais ou menos comestíveis, raramente são aproveitadas como tal. Uma das mais aguerridas na tarefa sazonal de pintar de amarelo vivo a paisagem é a mostarda-branca (Sinapis alba) que o nosso vizinho mostrou há dias. Outra de flores mais pálidas é o saramago (Raphanus raphanistrum), que compensa a falta de garridismo com a omnipresença desregrada.

Seria forçado afirmar que a planta das fotos, com as suas flores de um amarelo sulforoso, sobressai entre as suas congéneres pela beleza ou pela peculiar morfologia. É uma crucífera perfeitamente normal, de porte modesto (20 a 50 cm de altura), de flores fotogénicas como é de esperar na família a que pertence, com o vermelho ténue das sépalas subtilmente avivado por um toque de Photoshop. Os frutos, de 2 a 3 cm de comprimento e dotados de longos pedúnculos, têm a forma que é comum entre as crucíferas, e chamam-se silíquas - a silíqua é um fruto estreito e comprido que se diferencia da vagem (fruto típico das leguminosas) por ter as sementes dispostas em duas fiadas (nas vagens elas dispõem-se numa fiada só). As folhas, exclusivamente basais, são pinatipartidas, com o segmento terminal bem maior do que os restantes. Quase glabra na sua parte superior, a planta é contudo hirsuta na base, apresentando aí o caule e o pecíolo das folhas revestidos por grandes pêlos brancos (foto 3).

Não sendo pois candidata ao título de Miss Planta, nem sequer a um dos vários títulos de consolação que são atribuídos às perdedoras, o que faz da Diplotaxis vicentina um caso especial é, como sugere o nome, o tratar-se de um endemismo do cabo de São Vicente e arredores, estendendo-se o seu território pelo menos até Vila Nova de Milfontes, na costa alentejana. Apesar de serem poucos os registos no portal Flora On (quatro até hoje), asseveram fontes fidedignas que a espécie é abundante entre os matos rasteiros à volta do farol de São Vicente. Não é por termos visto apenas uma planta que iremos desmentir tais fontes, pois no início de Fevereiro a época oficial de floração, que decorre de Março a Junho, ainda vinha longe, e esse exemplar solitário representou um prémio inesperado.

Certos autores, entre eles o revisor do género Diplotaxis na Flora Ibérica, têm considerado que este endemismo vicentino não é uma espécie independente, mas antes uma subespécie da Diplotaxis siifolia, que se distribui pelo sul da Península Ibérica e pelo norte de África (Árgélia e Marrocos). Face às notórias diferenças que as duas espécies exibem, tal subordinação parece-nos algo arbitrária. A D. siifolia é uma planta quase inteiramente glabra, sem pêlos evidentes na parte inferior, e as suas folhas, em vez de formarem uma roseta basal como sucede na D. vicentina, estão bem distribuídas pelo caule acima.

10.3.15

Cenoura com sal



Daucus halophilus Brot.

As cenouras do nosso dia-a-dia não são mais do que as raízes tuberosas de uma umbelífera de flores brancas, Daucus carota, que é espontânea e abundante em Portugal continental e nos arquipélagos atlânticos. Valha a verdade que a cenoura-dos-quintais (Daucus carota subsp. sativus) é de uma estirpe seleccionada, com raízes maiores e sabor menos amargo do que a cenoura silvestre, mas pode ser tentador experimentar a custo zero as plantas mais ou menos comestíveis que crescem livremente pelos campos. O risco de uma identificação errada é porém sério, pois não são poucas as umbelíferas mortalmente venenosas aparentadas com a cenoura (eis dois exemplos).

Mesmo a cenoura silvestre está sujeita a variações importantes, justificando a divisão do Daucus carota num sem-número de subespécies. Habitualmente é uma planta alta, capaz de ultrapassar um metro de altura, com caules rugosos, folhas duas a três vezes divididas e de textura fina, brácteas pinatissectas com segmentos lineares, e raios da umbela que se enrolam sobre si mesmos aquando da frutificação. No género Daucus os frutos são peculiares, com costelas longitudinais armadas de espinhos eriçados (foto aqui). Entre as umbelíferas espontâneas da nossa flora, só as dos géneros Torilis e Pseudorlaya, que em geral são muito mais débeis, produzem frutos com arquitectura semelhante.

Fotografada ainda as flores mal despontavam, a filiação da planta acima exposta ao género Daucus não é controversa, mas o seu estatuto taxonómico tem suscitado opiniões divergentes. Adoptar uma opinião ou outra não é coisa de somenos, já que a planta em causa é endémica da faixa litoral portuguesa desde a Ericeira (na Estremadura) até Faro, com o seu contingente mais numeroso albergando-se nas arribas do cabo de São Vicente. Trata-se de decidir se o que temos na costa vicentina é uma espécie endémica, claramente distinta das demais espécies de Daucus, ou apenas mais uma das quinze subespécies de Daucus carota listadas na flora europeia, algumas delas de diferenciação problemática. Uma decisão dessas não é neutra, e tem consequências na protecção legal, por enquanto inexistente, de que a planta poderá ou não vir a beneficiar.

Quando Brotero descreveu a planta, no tomo 2 (de 1827) do seu Phytographia Lusitaniae Selectior (texto integral disponível aqui), baptizando-a com um nome (halophilus) que reflecte a sua predilecção pelo ar salgado da beira-mar, não teve dúvidas em distingui-la das suas congéneres pelas hastes simples e atarracadas, pelas brácteas com lóbulos largos em vez de lineares, pela ornamentação dos frutos. João do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, manteve este Daucus como espécie autónoma, mencionando ainda, como pormenor distintivo, a textura algo suculenta das suas folhas. Por essa época, contudo, já a unanimidade havia sido quebrada: em 1935, em nota publicada no Boletim da Sociedade Broteriana, Gonçalo Sampaio despromovera o D. halophilus à condição de variedade do D. hispanicus (o qual, por sua vez, é tido hoje como uma subespécie do D. carota). Antonio José Pujadas Salvá, autor do capítulo sobre o género Daucus incluído no vol. X da Flora Ibérica (publicado em 2003), aproveitou a deixa de Sampaio, embora tenha desagravado o castigo: o D. halophilus, segundo ele, é uma subespécie do Daucus carota, ainda que aos olhos inocentes de um leigo as duas plantas se pareçam uma com a outra bastante menos do que um cavalo com um burro.

Como a Checklist da Flora de Portugal segue de modo mais ou menos automático as opções da Flora Ibérica, nos últimos anos tem prevalecido entre nós (e também no portal Flora On) o critério de Pujadas, apesar das reservas que Carlos Aguiar e Jorge Capelo, dois dos responsáveis da Checklist, sobre ele exprimiram.

7.3.15

Viola vicentina



Viola-arborescens L.

Nos canteiros que enfeitam algumas ruas e jardins do Porto é frequente colocarem violetas de folhagem compacta, flores grandes, dobradas (tanto que nem se nota a simetria bilateral das cinco pétalas), de coloração variada (roxas, vários tons de azul, amarelas, brancas e até bicolores ou tricolores) e bonitas riscas na pétala inferior. Formam tapetes a cuja formosura poucos ficam indiferentes - vejam-se as várias designações comuns das violas: amor-perfeito (pansy, pensée, pensamiento), violeta, benesse-das-beiras, benefes (violeta de bosc). São cultivares obtidos em hortos (quase sempre estrangeiros) por hibridação entre espécies de Viola mais apreciadas, em particular a perfumada V. odorata, as que têm ampla reputação como medicinais, ou as que se utilizam em culinária ou para aromatizar licores. Os funcionários das câmaras que cuidam do ajardinamento público mudam-nas amiúde, simulando desse modo o efeito do pastoreio nos prados e a renovação dos bosques que as violas apreciam.

Não é que não haja por cá violetas autóctones que se pudessem usar para ornamentar tais torrões: afinal, das cerca de seiscentas espécies da região de clima temperado no mundo, a Península Ibérica tem registo de 29 e em Portugal continental contam-se umas 12. Mas, de facto, as nossas violetas mais bonitas são exigentes quanto a solo, temperatura e humidade, e boa parte delas forma plantas quase rasteiras, pouco resistentes à poluição das cidades, com flores tão pequenas que parecem nascer directamente do chão.

A violeta das fotos é das mais raras que ocorrem em terras lusas e tem características peculiares: é quase um arbusto e a floração decorre essencialmente no Inverno. Como habitat, exige um mato ralo no litoral com substrato calcário ou areias de natureza básica. Dir-se-ia que não é pedir muito, mas, apesar de nativa da região mediterrânica ocidental, em Portugal restringe-se à península de Sagres. É fácil detectá-la na berma da estrada que conduz ao Cabo de São Vicente, mas estranhamente é quase só aí que ela ocorre. Em vez das folhas cordiformes que encontramos nas espécies mais vulgares, as da V. arborescens lembram (em ponto grande) as da V. kitaibeliana. As flores são de um roxo pálido, ou quase brancas, com estrias de cor lilás.

Um último reparo: as violetas de ter por casa que se vendem nas floristas, ditas violetas-africanas, não pertencem ao género Viola: são variedades de Saintpaulia ionantha, espécie de herbáceas perenes com folhas peludinhas, nativas das regiões elevadas de África.


Ponta de Sagres vista do cabo de São Vicente

3.3.15

Liana das trombetas




Aristolochia baetica L.

Dizer que o Algarve não é só praia é como dizer que Las Vegas não é só jogo: ambas as afirmações estão correctas (em Las Vegas há também um deserto, e grande), mas não deixam de ser protocolares, tocadas pela cautela diplomática de quem receia ofender; ainda que trivialmente verdadeiras, são pouco sinceras. Fazer de lagarto ao sol não é actividade que nos atraia, e por isso visitar o Algarve no Verão está fora de causa. Visitá-lo no Inverno, numa pausa de uma semana entre dois períodos escolares, acaba por ser uma boa opção para (usando a gíria dos operadores turísticos) "descobrir o outro Algarve", afinal o único que nos interessa. Foi preciso este blogue completar dez anos para quebrarmos o enguiço e descermos em visita de exploração botânica ao extremo sul de Portugal. Na primeira quinzena de Fevereiro são mais as promessas do que as flores; mas, conforme atestarão este fascículo e os seguintes, não regressámos a casa de mãos a abanar.

Para reforçar o constraste entre o Algarve que buscávamos e o Algarve dos veraneantes, nem sequer espreitámos o mar no primeiro dia da estadia. Tomámos uma estrada apontando para nordeste, cheia de curvas, rodeada por sobreiros, e dirigimo-nos a Alcoutim, com paragem em dois ou três pontos para calcorrear as margens da ribeira da Foupana, afluente do Guadiana. Aqui os solos são ácidos, e a vegetação da serra, dominada por estevas, é mais pobre que a dos afloramentos calcários em redor de Loulé. Ainda assim, há amendoeiras em flor em pomares abandondados, rosetas de Cynara algarbiensis a muitos meses de florir, campos de linárias roxas que se adiantaram no calendário; e, entre as rochas junto à ribeira, festejamos o nosso primeiro encontro com a versão silvestre do tão comum loendro (Nerium oleander), o arbusto das auto-estradas.

Outra estreia feliz foi o nosso encontro com a liana-das-trombetas (como passaremos a chamar à Aristolochia baetica), uma trepadeira que reputávamos rara mas, percebêmo-lo depois, é comum na metade oriental do Algarve. Contudo, e por muito que ao vigésimo reencontro a emoção estivesse atenuada, esta planta lenhosa, de hastes longas, finas e enroladiças, com as suas extraordinárias flores trombeteiras cor de vinho, é de facto o ícone mais forte de toda a flora algarvia. Ainda que haja notícias vagas e remotas de incursões suas no Alentejo, só no Algarve é que no nosso país ela se vê facilmente, sublinhando uma vocação mediterrânica que é confirmada pela distribuição global da espécie, nativa apenas do sul da Península Ibérica e do norte de África (Argélia e Marrocos).

Para os infelizes que nunca viram a planta, alguns dados e medidas podem ajudar: as folhas, que são persistentes, têm uns 4 cm de comprimento, e as flores, bem maiores do que é comum no género, podem chegar aos 7 cm; a floração é sobretudo hibernal. Nas fotos em cima, vemos a Aristolochia baetica enredando-se num pilriteiro despido de folhagem: como trepadeira versátil que é, qualquer apoio, vegetal ou não, lhe serve, e também a observámos subindo por muros ou tacteando paredes de casas abandonadas.

À semelhança dos fradinhos e dos jarros (que pertencem porém a outra família botânica, bem afastada daquela que inclui a Aristolochia), também as flores da liana-das-trombetas são auto-incompatíveis: só quando o estigma de uma flor deixa de estar receptivo ao pólen é que as anteras dessa mesma flor libertam o pólen que, transportado por algum insecto, terá necessariamente de fecundar uma flor diferente. O esquema é complicado, envolvendo engodo olfactivo (os insectos são atraídos por cheiros putrefactos) e o aprisionamento durante largas horas dos ingénuos polinizadores, enquanto a flor opera a transição da fase feminina para a masculina.



ribeira da Foupana

28.2.15

Lembrança de África



Plantago afra L.

A vida nas cidade obriga a rotinas nem sempre agradáveis mas que se podem revelar úteis. Sendo lugar com muitos utilizadores e nem sempre devidamente asseado, tem-se vindo a notar que os que ainda nela caminham o fazem de olhos postos no chão, em permanente vigilância. Não é uma postura aconselhável, mas o corpo habitua-se e mantém essa posição mesmo quando se encontra num sítio joeirado, numa duna conservada ou num campo de flores silvestres. Aí, porém, a atenção pode desviar-se para as boas descobertas, como as plantas do género Plantago, frequentes e fáceis de reconhecer.

Os plantagos têm em geral uma roseta basal densa de folhas (algumas largas, com nervuras que lembram a planta do pé), além de algumas folhas lineares no caule, e notam-se melhor na época da floração, que decorre entre o fim do Inverno e o Verão. Não que as flores sejam vistosas; pelo contrário, são pequenas e esverdeadas, com sépalas e pétalas transparentes. Mas reúnem-se por vezes às dezenas em espigas de pé alto, e as anteras amareladas no topo de filamentos longos formam uma nuvem ovóide muito atraente. A polinização está entregue ao vento mas é benéfico que os que se cruzam com esta planta toquem nas cápsulas de sementes, sacudindo-as de tal modo que elas se abram através de uma tampa no topo, como se fossem panelas, libertando o conteúdo. Por isso, não surpreende a abundância de plantagos em bermas de caminhos e terrenos pisoteados.

O plantago das fotos é uma planta anual débil que não segue exactamente o padrão de morfologia atrás descrito, pois falta-lhe uma roseta basal bem definida. Gosta de lugares secos, bem arejados e soalheiros, sejam eles pastagens, prados, clareiras de matos ou solos arenosos ralos que trazem à memória o norte de África. O epíteto afra refere-se precisamente a esta região africana, mas a distribuição desta herbácea é mais vasta: é nativa da região mediterrânica, parte da Ásia, ilhas Canárias e Península Ibérica (embora aqui seja rara no terço norte). As sementes desta espécie contêm uma goma que, uma vez humedecida, é utilizada medicinalmente em laxantes.

A distribuição do género Plantago é curiosa, mas coerente com o seu apreço por habitats ruderalizados ou sem forte concorrência de outras plantas. Das cerca de 270 espécies conhecidas, o maior grupo concentra-se na Europa, um conjunto um pouco menor tem origem na Austrália e na Nova Zelândia, e as restantes espécies, já poucas, espalham-se de modo avulso pelo resto do mundo. Em Portugal há registo de dezasseis espécies, duas das quais são endemismos ibéricos, mas o número subiria para dezassete e incluiria um endemismo português se o Plantago almogravensis (da costa vicentina) fosse considerado distinto, como de facto parece ser, do P. algarbiensis.

24.2.15

Um jardim assim (3.ª parte)



Euphorbia peplus L.

Quem tiver esta planta nos seu jardim talvez goste de saber que é acompanhado na sua (chamemos-lhe assim) desdita por jardineiros de todos os continentes, a ponto de os franceses lhe chamarem euphorbe des jardins. Embora a sua área de distribuição original se fique pela África, Europa e Ásia, a Euphorbia peplus está firmemente estabelecida no resto do mundo como hóspede tantas vezes indesejável de terrenos baldios, jardins, pastagens e terras cultivadas. Planta anual de porte modesto (10 a 30 cm de altura), glabra, de folhas que lembram gotas de água, caules avermelhados e inflorescências em forma de umbela, distingue-se de outras eufórbias pelas longas caudas que rematam os nectários (observáveis na 3.ª foto em cima).

A Euphorbia peplus tem registados pelo menos dois nomes comuns na nossa língua: ésula-redonda e sarmento. Embora seja improvável que alguém os use, eles não são inteiramente implausíveis, já que ésula parece aplicar-se à generalidade das eufórbias e sarmento talvez resulte de uma tresleitura de sarnento, sugerindo que a planta tem alguma utilidade em doenças dermatológicas. Como todas as eufórbias, também a E. peplus é tóxica e segrega um látex irritante para a pele. Contudo, e em obediência ao princípio de que aquilo-que-arde-ajuda-a-curar, o mesmo látex (desta eufórbia, não de outras) tem sido tradicionalmente usado contra certas lesões cutâneas. Em anos recentes, a medicina científica resolveu comprovar-lhe a eficácia, e o resultado dos testes clínicos não podia ser mais promissor. Uma molécula extraída da planta (mebutate ingenol) foi aprovada em 2013 nos EUA para o tratamento de certas formas incipientes de cancro da pele (ceratose actínica e carcinoma basocelular), comuns em pessoas de pele clara que se expõem demasiado às radiações solares. Com a generalização desse tratamento, eis que uma erva sem eira nem beira, ou daninha como alguns gostam de lhe chamar, se revela altamente benéfica para a saúde humana. Em lugar de ser perseguida com herbicidas, não tardará que ela seja cultivada em larga escala para a produção de medicamentos.

21.2.15

Um jardim assim (2.ª parte)



Erodium moschatum (L.) L'Hér.

Eis a nossa segunda planta para os jardins naturalizados, aqueles que são pedaços de terra entregues aos acasos da natureza. Os mais distraídos diriam tratar-se de um gerânio (e não é raro haver gerânios como estes a fazer-lhe companhia), mas as folhas compostas imparipinadas desmentem essa filiação, já que os verdadeiros gerânios costumam ter folhas simples, ainda que algo recortadas. Gerânios e eródios pertencem, contudo, à mesma família botânica; as flores rosadas de cinco pétalas e os frutos muito compridos (justificando nomes comuns como bico-de-cegonha, bico-de-garça ou bico-de-pomba) são evidentes traços de parentesco.

O nome Erodium, que vem do termo grego erodios, refere-se à garça ou a alguma outra ave de bico proeminente; já o epíteto moschatum, que se traduz por moscado ou almiscarado, descreve as qualidades aromáticas da planta, que haveremos de testar logo que tenhamos oportunidade. E ela não nos há-de faltar, mesmo na cidade e no trajecto diário a pé entre a casa e o emprego. Lá por Março ou Abril estarão as tiras verdes que fingem de jardins em volta dos prédios forradas com densos tapetes floridos desta planta anual, e já com os frutos a prometer que a história é para continuar na temporada seguinte. Foi de facto num lugar desses no centro do Porto que as fotos foram obtidas.

Originário da Europa e da região mediterrânica, e naturalizado na Austrália, Américas e África do Sul, o Erodium moschatum mostra grande apetite por lugares degradados como bermas de caminhos, jardins ao abandono, terras cultivadas, pomares e vinhas. É uma planta versátil, que tanto se dá na cidade como no campo, e por isso observá-la está ao alcance de qualquer um. As suas folhas são grandes, de uns 15 cm de comprimento; e, quando bem desenvolvida (coisa que raramente tem oportunidade de fazer em ambiente urbano), a planta pode atingir um metro de altura; os frutos, que tal como as flores se dispõem em cachos densos na extremidade das hastes, têm cerca de 5 cm de comprimento.

17.2.15

Um jardim assim (1.ª parte)

Cerastium glomeratum Thuill.

Dizer de uma planta que ela é daninha é um exercício, tantas vezes inconsciente, de antropocentrismo. Se as plantas falassem, não deixariam igualmente de compilar a sua lista de animais daninhos, na qual ocuparíamos, destacadíssimos, a posição cimeira. Em rigor, consideramos que uma planta é daninha quando ela interfere com os nossos interesses ou baralha as nossas expectativas. Um agricultor que semeou trigo não há-de querer uma seara de joio quando chegar a época da colheita. Um jardineiro que plantou com rigor geométrico um canteiro de vistosas plantas exóticas terá o cuidado de fazer uma monda quase diária das ervas oportunistas para evitar que elas estraguem o efeito pretendido. Deveríamos pois deixar de dizer ervas daninhas, o que é um modo de guindar o nosso interesse a valor absoluto, e passar a falar de ervas indesejáveis, entendendo-se que somos nós que não as desejamos num certo local e por razões que nos dizem respeito.

Sendo Portugal o país peculiar que é, estas picuinhices semânticas talvez sejam algo ociosas. Nas últimas dezenas de anos, com a suburbanização galopante e o desmazelo geral do espaço público, ganhou voga um novo conceito de jardim: uma tira de relva com árvores ou arbustos que parecem ter sobrevivido a uma guerra (os seus companheiros mortos não foram chorados nem substituídos), e nada de plantas floridas tirando aquelas que apareçam por sua livre vontade. Os «jardineiros» que, de tempos a tempos, se ocupam desses «espaços verdes» pós-apocalípticos não têm qualquer apreço por plantas ou flores, nem vêm equipados com pás e tesouras: em vez disso, comportam-se como se estivessem numa frente de batalha, trazendo máquinas barulhentas e destrutivas para decepar tudo à sua frente. Assim, como nesses espaços o que há de verde é obra espontânea da natureza, não é sequer apropriado falar de plantas indesejáveis, a menos que todas as plantas o sejam num espaço nominalmente a elas reservado. E, de facto, esta situação absurda vai-se tornando comum em todo o país desde que alguém descobriu que os cuidados de «jardinagem» poderiam ser dispensados se se regassem com herbicida os tais «espaços verdes», desse modo os convertendo em «espaços castanhos».

Porém, como o furor herbicida não chega a todos os jardins desmazelados, e há até sinais de que possa amainar, talvez seja útil aprendermos a reconhecer as plantas que neles se instalam sem pedir licença. Não prometendo nós fascículos regulares sobre o tema, surgirão pelo menos dois, dos quais este acerca do Cerastium glomeratum é o primeiro. Espécie anual, de porte geralmente rasteiro mas podendo chegar aos 50 cm de altura, é popularmente conhecido como orelhas-de-rato, tal como o seu congénere Cerastium fontanum. As duas espécies distinguem-se com dificuldade, apesar de o C. fontanum ser perene, e sendo certo que em jardins e noutros espaços ruderalizados é o C. glomeratum que costuma aparecer. Eis como fazer a destrinça: no C. glomeratum as sépalas estão revestidas por pêlos que ultrapassam claramente o ápice (veja a 3.ª foto acima e também aqui), coisa que não sucede no C. fontanum (confirme aqui). Caracteres úteis mas menos fiáveis para o diagnóstico são o tamanho das pétalas (as do C. glomeratum costumam ser menores e às vezes estão ausentes) e o facto de as inflorescências do C. glorematum serem mais compactas, com pedicelos mais curtos, e contarem com um número maior de flores.

Talvez o leitor ache que o pobre jardim do seu condomínio só serve para envergonhar os moradores com alguma ponta de brio, mas na verdade ele não é destituído de interesse florístico. Espere por Março ou Abril e vai ver que consegue lá observar coisas bonitas como esta.

14.2.15

Estrela perdida


rio Tâmega - Vilarinho da Raia, Chaves

Até há pouco tempo, o Tâmega era para nós um rio farto que galga com vigor alguns desníveis junto a Amarante, ali inspira os nomes de apetecíveis doces conventuais, e termina cansado e poluído no rio Douro, perto de Marco de Canavezes. Há dias decidimos seguir-lhe o rasto a montante, onde é o Támega, para o ver mudar de acento e tornar-se português: junto a Vilarinho da Raia toca durante uns três quilómetros o território nacional, sendo aí a nossa fronteira com Espanha, e só então decide virar à direita e entrar definitivamente em Portugal, encaminhando-se para Chaves. Nos mapas, a linha de fronteira em Vilarinho da Raia segue mais ou menos a meio do rio, assegurando metade dele para cada país; na prática, o curso de água ali é estreito o bastante para que os pescadores de um lado possam facilmente conviver com os do outro enquanto o peixe transfronteiriço não morde a isca.



Aster lanceolatus Willd. [sinónimo: Symphyotrichum lanceolatum (Willd.) G. L. Nesom]

A água e as margens dessa faixa luso-espanhola de rio não estão bem cuidadas. Por certo, como no caso de parques ou estradas partilhadas por várias freguesias, cada lado espera que o outro faça a necessária manutenção da beira-rio, e nesse entretanto aquele habitat tão promissor, onde encontrámos exemplares de Cucubalus baccifer, Humulus lupulus, Geum urbanum, Saponaria officinalis, Solanum dulcamaraSparganium erectum, Frangula alnus, Prunus spinosa, Ulmus minor, e até um pequeno bosque de Quercus pyrenaicaestá a degradar-se. Esta asterácea alta (pode atingir um metro e trinta de altura), perene e quase arbustiva, com folhas lanceoladas, glabras, de um verde intenso que contrasta harmoniosamente com as lígulas brancas, por vezes azul-violáceas, das inflorescências, tem origem norte-americana. Talvez tenha escapado de algum jardim, mas não deveria estar naquele local. Alguns dirão que, face à presença de acácias, silvas e tintureiras, uns poucos pés desta herbácea são um mal menor num ambiente tão alterado. Não nos surpreenderá, porém, que daqui a uns poucos anos ela se tenha vulgarizado nas margens do rio Douro, e além. Depois não se diga que não avisámos.

Esta margarida mudou de designação científica, pertencendo agora ao género Symphyotrichum, para onde migraram quase todas as plantas do género Aster nativas da América do Norte e com capítulos florais grandes, agrupados em panículas.

10.2.15

Agrião do rio Minho



Rorippa palustris (L.) Besser

Chamamos agrião a esta planta por ela ser aparentada com o verdadeiro agrião (Rorippa nasturtium-aquaticum). Na aparência as duas plantas pouco têm em comum, divergindo tanto na cor das flores como na morfologia das folhas; mas quem sai aos seus não degenera, e sob um disfarce tão enganador a Rorippa palustris pode, ao que consta, ser usada nos mesmos preparos culinários que deram fama à sua congénere. À pergunta que o leitor gourmet, ávido por novos sabores, não deixará de colocar, que é onde posso eu colhê-la?, respondemos com um desencorajador em Portugal não é fácil. A menos (continuando com a resposta, após pausa teatral) que o leitor viva no Minho e perto do rio com o mesmo nome, e consulte o horário das marés para não ser apanhado pela repentina subida das águas quando for, cesta na mão, abastecer-se de verduras para a salada. Há-de então notar que muitos dos rebentos mais desejáveis escolheram instalar-se em lugar que volta e meio fica submerso, apresentando-se revestidos com uma pouco apetitosa crosta de lama. E, se o rigor taxonómico não for a sua prioridade, talvez lhe aconteça colher amostras de um terceiro agrião, Rorippa sylvestris, que tem flores mais vistosas mas pouca diferença fará no sabor.

Planta anual ou mais raramente bienal, costumando ficar-se pelos 20 a 30 cm de altura mas capaz de duplicar esse valor, florindo ao longo da Primavera e do Verão, o agrião-das-marés (nome inventado agora mesmo para a Rorippa palustris) é nativo de uma vasta porção do hemisfério norte, incluindo Europa, Ásia e América, e está naturalizado na Austrália e na América do Sul. Em território português a sua presença é residual: no rio Minho sobrevive em abundância graças à ausência de barragens no troço internacional do rio, mas nos rios Tejo, Douro e Tâmega, onde também terá existido, não é certo que ainda se mantenha.