24.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Echium portosanctensis





Echium portosanctensis J. A. Carvalho, Pontes, Batista-Marques & R. Jardim

Responsáveis por uma vasta mancha roxa que enfeita agora os nossos prados e terrenos baldios, as plantas do género Echium são vulgares no nosso território e resistentes a muitos dos riscos a que estão sujeitos nestes habitats. Não são especialmente bonitas, com excepção do raríssimo E. boissieri, mas em conjunto garantem uma nota colorida nos campos e são fonte importante de alimento para as abelhas.

As espécies que existem no arquipélago da Madeira destacam-se das continentais pelo porte arbustivo e pelas inflorescências cilíndricas exuberantes. Sabe-se hoje que essas espécies de Echium derivam de uma herbácea do continente europeu, conclusão fundamentada num estudo genético conduzido, em 1996, por Böhle e colaboradores. E, de facto, a um olhar desatento, as plantas de Porto Santo talvez pareçam todas iguais, e semelhantes ao endemismo madeirense E. nervosum (foto em baixo). Porém, anos antes, já havia sido notado, em obras sobre a flora da Madeira, que alguns espécimes em Porto Santo se distinguiam pela corolas branco-rosadas, com estames de cor carmim e anteras azuis, e um anel branco (que surge na 4ª foto) no topo da inflorescência, que é mais pequena que a do E. nervosum. E, decerto, também terão reparado em diferenças na forma e textura das folhas, e no tipo de pêlos que as protegem.

Foi o bastante para que uns quarenta anos depois, em 2010, alguns botânicos quisessem pôr fim às dúvidas e, após minuciosa comparação morfológica, publicassem um artigo (no Anales del Jardín Botánico de Madrid, Vol. 67 (2) : 87-96) que atesta a existência de três espécies endémicas do género Echium no arquipélago da Madeira: E. candicans, planta de montanha e de que só há registo acima dos 800 metros na ilha da Madeira; E. nervosumon, das ilhas da Madeira, Desertas e Porto Santo; e E. portosanctensis, da ilha de Porto Santo, com flores campanuladas (não em funil, como as outras espécies continentais e madeirenses) e com um matiz de azul escuro na base de cada corola (ausente nas outras espécies). Os autores estão seguros sobre o valor adaptativo de todos estes pormenores distintivos ao ambiente rochoso e, por vezes, muito seco de Porto Santo, com intenso vento e maresia. E apresentam uma chave clara para mais facilmente identificarmos cada uma das espécies.

Depois de termos visto o E. nervosum plantado em jardins e bermas de estrada em vários locais da ilha, foi o E. portosanctensis que procurámos na subida ao Pico Branco, montanha com cerca de 450 metros de altura máxima e um percurso assinalado até ao topo, protegido aqui e ali por uma balaustrada firme de madeira. A flora interessante está nas encostas mais ou menos escarpadas que ladeiam o caminho e, confirmámos, o Echium portosanctensis acompanha-nos esparsamente durante quase toda a subida. A distribuição conhecida do E. portosanctensis restringe-se a este pico e ao Pico da Gandaia, com um total de cerca de mil indivíduos. Não surpreende que conste da lista vermelha internacional de espécies em risco.


Pico Branco, ilha do Porto Santo

19.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Limonium lowei


Aeroporto do Porto Santo em dia de ventos cruzados na Madeira

Como ir. Consta que há voos directos semanais de Lisboa para o Porto Santo, mas são caros e, no regresso, os aviões entregam-se a uma sesta prolongada na Madeira. Para quem não parte de Lisboa, o mais prático e barato será voar para a Dinamarca e daí tomar uma das ligações semanais entre Billund e o Porto Santo asseguradas pela Danish Air Transport. Caso opte patrioticamente pela nossa companhia aérea de bandeira, saiba que o voo do Porto para o Funchal descola às 6h30 da madrugada, e por isso nem pense em dormir nessa noite. Apesar da hora, não terá oportunidade de admirar o nascer do Sol porque as salas de embarque estão viradas para poente. Da Madeira para o Porto Santo voam uns aviõezinhos de brinquedo, a um preço por passageiro (ida e volta por 120 euros) que é toda uma lição sobre práticas monopolistas. Nos dias, três ou quatro em cada mês, em que na Madeira sopram ventos cruzados, os aviões, depois de uma demorada valsa nos céus da ilha, desistem de aterrar e são desviados para o Porto Santo. O inesperado bónus do voo directo traduz-se numa poupança de tempo mas não de dinheiro, pois ninguém é reembolsado pelo bilhete para o tal aviãozinho em que afinal não chegou a embarcar.

Onde dormir. Se nos permite a franqueza, isso é consigo. Gastou na viagem todo o dinheiro que tinha e vê-se obrigado(a) a dormir na praia? Nada temos a dizer sobre a sua escolha.

O que ver. Sobre esta questão já temos opiniões mais assertivas. Se lhe fosse permitido atravessar a pista a pé, o que em dias normais não representa qualquer perigo, poderia iniciar as suas observações da flora endémica da ilha ainda dentro do perímetro do aeroporto. No limite norte, e de ambos os lados da vedação, concentra-se a mais acessível das populações de Limonium lowei, uma planta de caule lenhoso que forma compactas almofadas verdes contrastando com os tapetes azulados de Lotus glaucus, um simpático endemismo macaronésico muito espalhado pelo litoral da ilha.






Limonium lowei R. Jardim, M. Seq., Capelo, J. C. Costa & Rivas Mart. [sinónimo: Limonium ovalifolium subsp. pyramidatum]

Este pequeno limónio de folhas largas e onduladas, com 3,5 a 7 cm de comprimento, e inflorescências muito ramificadas, em panículas com uns 30 cm de altura, é uma versão algo reduzida do Limonium ovalifolium, uma planta comum em arribas e sapais da costa algarvia. Subordinado à espécie continental ou como espécie autónoma, a singularidade do limónio porto-santense sempre foi reconhecida desde que Lowe, em 1830, o descreveu como Statice pyramidatum. Igual sorte não teve o limónio açoriano, ainda hoje oficialmente chamado Limonium vulgare apesar de se distinguir claramente, até na ecologia, da espécie europeia com o mesmo nome.

Exclusivo de uma ilha tão pequena, e confinado a alguns pontos da costa norte, o Limonium lowei é necessariamente raro. O núcleo junto à vedação sobreviveu à expansão do aeroporto e ao asfaltamento da estrada que leva à Fonte da Areia. Com a falésia ali a poucos metros, a falta de espaço garante que não se farão novos alargamentos do aeroporto ou da estrada. A Fonte de Areia é uma duna fóssil gigante, que todos os dias vai largando grandes e pequenos calhaus de cor rosada que ao cair se desfazem em pó. É preferível que não nos caiam na cabeça, e esse justo receio acaba por abreviar a visita. Partindo de um parque de merendas ao abandono, guarnecido por araucárias e por esfarrapados guarda-sóis de palha ao jeito tropical, pode-se descer ao mar por uma vereda íngreme que, aqui e ali, vai sendo enfeitada com limónios. Eles sabem que a erosão costeira os levará a morar a uma cota cada vez mais baixa e, prudentemente, começam a adaptar-se ao seu futuro habitat.


Fonte da Areia, ilha do Porto Santo

15.5.16

Flora endémica do Porto Santo: Erysimum arbuscula

Ao contrário do que anunciavam em uníssono os cartazes turísticos, raramente tivemos céu limpo durante os quatro dias que passámos no Porto Santo. Durante uma tarde e uma noite as nuvens explicaram ao que vinham, fazendo cair uma chuva comparável às melhores que temos no continente. Imaginámos que o fenómeno inaudito seria recebido como uma benção numa ilha ressequida, semidesértica, onde as ribeiras profundamente escavadas no solo arenoso são apenas memória de águas há muito passadas. Mas, ao tomarmos gradual consciência de certos estranhos sinais que vínhamos registando, percebemos que talvez a chuva não fosse bem-vinda, e não apenas por contradizer a imagem turística da ilha. É que ninguém no Porto Santo se comporta como se a água fosse um problema. No hotel, não há avisos exortando os hóspedes a poupar água. Os relvados exibem um verde brilhante, e na própria tarde em que choveu grosso a rega automática não deixou de funcionar. O campo de golfe, inaugurado em 2008, tem muitas palmeiras, uma relva verdíssima e sete lagos artificiais. Na estrada marginal, com sete quilómetros de extensão, só em curtos troços se podem ver o mar e a praia, que de resto estão tapados por um cortina de hotéis e aldeamentos turísticos em contínua e desenfreada expansão. Tais empreendimentos seriam impensáveis numa ilha tão pequena (11 Km de comprimento, 4 Km de largura máxima) se o consumo de água estivesse racionado. A explicação afinal é simples: a água que corre nas torneiras da ilha vem do mar, e o mar é inesgotável. Porto Santo tem a funcionar, desde 1979, a única central de dessalinização em território português. O processo de tornar potável a água do mar é caro, mas tem-se tornado ambientalmente menos oneroso com recurso à energia solar. Agora todos os sonhos são possíveis: queira o homem (esperemos que não, mas os sinais são ameaçadores) e o Porto Santo poderá converter-se de uma ponta à outra num resort enxameado de hotéis, enquadrados pelas mesmas palmeiras que enfeitam as Caraíbas ou as ilhas dos mares do sul.

Tirando pequenas parcelas cultivadas entre as dunas secundárias, que pouco parecem produzir e a prazo serão engolidas por construções turísticas, Porto Santo não tem agricultura ou pecuária que se veja. Nas zonas planas a paisagem é nua, sem árvores. Antes de a ilha ser habitada terão existido bosques de zambujeiros e dragoeiros e, nas encostas sombrias dos picos mais elevados, uma laurissilva de barbusano semelhante à que ainda subsiste na Madeira. Tudo isso desapareceu: o barbusano (Apollonias barbujana) e o dragoeiro (Dracaena draco) estão extintos na ilha, e do zambujeiro (Olea maderensis) sobram apenas exemplares isolados. Uma ilha assim desertificada tornar-se-ia inabitável mais tarde ou mais cedo, e só o aproveitamento da água do mar permitiu salvá-la desse destino. Mas já antes, em meados do século XX, tinha havido tentativas de suavizar as agruras da natureza, com plantações que revestiram de árvores os cumes de seis ou sete dos picos que pontuam, abruptos e dissonantes, a paisagem da ilha. As árvores, além de travarem a erosão, iriam reforçar as captações de água para alimentar ribeiros e aquíferos. Em suma, uma ideia salvadora que nos permite, sessenta ou setenta anos mais tarde, contemplar, do topo do Pico Branco, uma paisagem que só não passa por alpina porque o mar está logo ali.


Pico Branco, ilha do Porto Santo

A esta distância no tempo, podemos lamentar que essa meritória arborização tenha sido feita em exclusivo com espécies exóticas de carácter completamente alheio ao da vegetação original da ilha. Teria sido talvez possível reconstruir um arremedo de laurissilva, mas em vez disso plantaram-se coníferas: ciprestes (Cupressus macrocarpa, a espécie dominante) e várias espécies de pinheiros. À época, contudo, as árvores autóctones não eram valorizadas como, mais no discurso do que na prática, passariam entretanto a ser; e também no continente, sem o menor rebuço, se fizeram então extensas plantações de coníferas exóticas (por exemplo no Gerês e na serra da Estrela), e em lugares onde nem havia a desculpa de a floresta original ter desaparecido.

Ainda assim, é nos picos, e em especial nos afloramentos rochosos que formam a crista de muitos deles, que se concentram os melhores resquícios de vegetação nativa, maioritariamente composta por herbáceas mas contando ainda com alguns importantes arbustos. Seria um erro desprezar a flora do Porto Santo por ser uma versão empobrecida da flora da Madeira, pois nesta pequena ilha existem formações vegetais que não ocorrem na maior ilha do arquipélago (um exemplo óbvio é dado pela flora dunar) e, além disso, ela detém pelo menos uma dezena de endemismos. Falando mais claramente: no Porto Santo há umas dez espécies de plantas que não ocorrem na Madeira nem em nenhum outro lugar do mundo. Vamos mostrar seis delas numa série de fascículos de que este é o primeiro.




Erysimum arbuscula (Lowe) Snogerup

Esta pequena crucífera lenhosa, com uns 30 cm de altura máxima, folhas lineares dispostas em tufos na extremidade das hastes, e vistosas flores de cor lilás, foi descrita originalmente por Richard Thomas Lowe (1802–1874), autor do indispensável "A Manual Flora of Madeira" (1868), e chamou-se então Cheiranthus arbuscula. É uma séria concorrente ao título de planta mais bonita do arquipélago, e vivêssemos nós num país dado à jardinagem seria componente obrigatória dos jardins xerófilos à beira-mar. A verdade, porém, é que a planta é desconhecida dos próprios porto-santenses, e mesmo os mais informados só lhe saberão o nome, que costuma ser recitado (desacompanhado de fotos) quando se desfia o elenco das maravilhas naturais da ilha (exemplos: 1, 2, 3). Este curioso hábito de se incentivarem os outros a "descobrir" aquilo que os autores dos textos de incentivo manifestamente nunca descobriram não se deve apenas à comprovada indiferença dos portugueses pelos seus valores naturais, mas também, num caso como este, à grande raridade do Erysimum arbuscula. Não era assim no século XIX, pois Lowe escreveu que este goivo arbustivo se encontrava com abundância nas rochas perto do topo do Pico Branco e do Pico do Concelho. Nós, que subimos aos dois picos, só o vimos no Pico Branco, duas ou três plantas debruçadas numa ravina. Que se terá passado entretanto? Será abusivo conjecturar que a arborização destas encostas (pelo menos no Pico Branco, já que o Pico do Concelho continua despido) provocou uma redução drástica do habitat da espécie?

12.5.16

O que não se vê


Minuartia hybrida (Vill.) Schischk.

Se o leitor erguer um dos seus dedos mais pequenos, terá uma ideia aproximada do tamanho desta planta. Mesmo em flor, só por mero acaso reparámos nela no chão calcário e magro de uma antiga pedreira em Vimioso. Sendo anual e tão débil, a sua sobrevivência depende de alguma estabilidade neste habitat, garantida enquanto a exploração de inertes não for mais rentável. E, quem sabe, daqui a alguns anos talvez ela atinja a bitola teórica de 22 cm de altura máxima que algumas chaves taxonómicas lhe atribuem.

Quanto ao género Minuartia, já aqui tínhamos mostrado a Minuartia recurva, herbácea perene de ambientes frios e rochosos de montanha e de que, por cá, só se conhecem populações nas serras do Gerês e da Estrela. A Península Ibérica foi favorecida por este género -- cujo nome homenageia o naturalista catalão Juan Minuart -- e conta com não menos que dezoito espécies. Se o leitor tiver tempo, detenha-se a comparar as imagens seguintes de algumas delas: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9.

Entre nós, falta encontrar plantas da terceira espécie que ocorre em Portugal, a M. mediterranea, de que, curiosamente, não há ainda imagens no portal Flora Silvestre del Mediterráneo e só são mostradas sementes no Anthos. Segundo a Flora Ibérica, deveríamos vê-la no centro e sul do país, em particular no Alto Alentejo e Ribatejo, mas há risco de confusão com a M. hybrida, com quem, homessa, até pode hibridar.

8.5.16

Erva da alergia



Parietaria judaica L.

No subúrbio onde cresci, rodeado de campos ainda lavrados por famílias de agricultores, e com uns silvados a pontuar os intervalos dos prédios, esta planta era bem conhecida da miudagem. Não que eu lhe soubesse o nome - a ideia de que as ervitas pudessem ter nome próprio, quando até as árvores eram apenas árvores, nunca então me passou pela cabeça. Mas tinha uma utilidade que a distinguia das demais ervitas: as folhas eram adesivas e, colhidas uma a uma, podiam ser coladas na roupa para formar palavras e frases. Numa época em que o "merchadising" desportivo era inexistente, podiam até ter servido, nos jogos de futebol entre a criançada, para inscrever os números dos jogadores nas camisolas. Que me lembre, isso nunca foi feito, talvez por exigir uma ideia de organização de todo estranha ao carácter espontâneo dessas futeboladas.

Ao transitar da infância no subúrbio para a vida adulta na cidade, a erva-das-letras acompanhou-me, surgindo em paredes velhas e em jardins, mas perdi o hábito de a usar para juntar palavras. Ganhou um nome, como ganharam as árvores e quase todas as coisas verdes à minha volta: parietária, nome vulgar que é também nome científico e que significa, com alguma dose de inevitabiblidade, erva-dos-muros. O nome erva-da-alergia que aparece em título foi agora inventado, mas nem por isso deixa de ser merecido. O pólen da Parietaria judaica, uma espécie perene que floresce durante quase todo o ano, mais intensamente em Abril e Maio, é dos mais alergénicos que se conhecem. Juntamente com as omnipresentes gramíneas que colonizam todos os pedaços de terra livre, é ela que faz com que nem a cidade seja abrigo seguro para quem sofre de febre dos fenos. As árvores que a vox populi costuma apontar como culpadas das reacções alérgicas (choupos, plátanos) têm em geral pouquíssima responsabilidade na matéria.

Presente em quase todo o país, incluindo continente, Madeira e Açores, a Parietaria judaica é, como indica o mapa no portal Flora-On, mais frequente a norte do Tejo. Prefere habitats urbanos ou ruderalizados, em lugares mais ou menos soalheiros, e a sua presença acaba por ser um subproduto da presença humana. É curioso notar que, no cada vez mais despovoado nordeste do país, ela se vê em parte substituída por uma congénere anual, a P. lusitanica, com apetites também ruderais mas mais amiga da sombra e da humidade.

3.5.16

Sobre os pés



Plantago serraria L.

Quem sabe latim - ou não sabe mas vai aprendendo umas migalhas à custa dos nomes botânicos - por certo não desconhece que planta e têm quase o mesmo significado, como aliás denuncia a expressão planta do pé. Dir-se-ia até, falseando a etimologia, que as duas palavras têm a mesma raiz, mas enquanto que nós, os donos dos pés, podemos ter raízes metafóricas, as plantas têm-nas de verdade. É porém um facto indesmentível que tanto plantas como pés foram feitos, de um modo geral, para assentar no chão. Daí que a palavra latina planta se aplique de igual modo ao vegetal (em especial na fase de rebento) e a essa parte basilar da anatomia humana.

Se, por via do latim, todas as plantas têm alguma coisa a ver com os pés, já as do género Plantago se destacam por manter com eles uma relação mais íntima. Plantago, dizem os entendidos, traduz-se justamente por planta do pé - o que, como agora sabemos, é uma expressão algo pleonástica. Tal designação dever-se-á à forma das folhas de certas espécies: as do Plantago major fazem lembrar chinelos dispostos em círculo, com os calcalhares virados para dentro. Em espécies de folha mais estreita, como P. lanceolata ou P. maritima, a semelhança pedestre é bem menos vincada. Há porém outra afinidade entre estas plantas e os nossos pés: são várias as espécies de Plantago que se dão muito bem em lugares pisoteados tais como caminhos ou parques de estacionamento. Quanto mais calcamos os rebentos de P. coronopus e P. major que espreitam entre as pedras mais eles ganham forças para se reproduzirem. E à mesma escola masoquista pertence de pleno direito o Plantago serraria, o primeiro dos dois que hoje aqui mostramos.

A roseta basal do Plantago serraria, formada por folhas grandes, por vezes com mais de 20 cm de comprimento, é inconfundível (ver 1.ª foto) e permite identificá-lo em qualquer altura do ano. Preferindo substratos calcários e solos argilosos, vive no centro e sul de Portugal continental e na metade oeste da bacia mediterrânica. É presença habitual nas clareiras dos matos de zimbro que revestem o litoral de Sintra e Cascais.


Plantago bellardii All.

O Plantago bellardii é anual e de porte discreto, e por isso mais difícil de observar, embora não seja menos frequente e beneficie até de uma distribuição mediterrânica mais ampla. Ao contrário do seu congénere, não consta que fique grato quando lhe põem um pé em cima. A sua haste raramente atinge os 10 cm de altura, e as folhas ficam-se pelos 5 cm de comprimento; a sua espiga é compacta, contrastando com a espiga alongada do P. serraria. Vimo-lo nos pinhais da Tocha, mas, exigindo sempre solos ácidos, é suficientemente versátil para aparecer também em montados longe da costa.

30.4.16

Orquídeas portuguesas


Em 2008, José Monteiro publicou um livrinho de 80 páginas sobre as orquídeas silvestres da Beira Litoral. Para muita gente (e para nós também) foi o primeiro contacto com essas flores misteriosas e efémeras que crescem, ignoradas por muitos, um pouco por todo o país. Embora a província sobre a qual Monteiro então se debruçou seja aquela que em Portugal apresenta maior abundância e diversidade de orquídeas, a verdade é que as há desde Trás-os-Montes ao Algarve, sem esquecer os arquipélagos atlânticos; e, ainda que se dêem melhor em substratos calcários, elas não são exclusivas desses habitats.

Faltava pois alargar o âmbito do estudo, estendendo-o ao país inteiro, e é isso que José Monteiro faz neste seu livro acabado de publicar, intitulado, com justeza, Orquídeas Silvestres de Portugal. Não é preciso ressalvas, pois é de Portugal inteiro que se trata: continente, Madeira e Açores (uma das orquídeas que aparece na capa é mesmo endémica deste arquipélago). O autor visitou e fotografou in loco todas as espécies de orquídeas alguma vez assinaladas no nosso país, incluindo algumas de que ele próprio foi o descobridor, e não deixou de fora os raríssimos híbridos que só gente como ele parece ser capaz de detectar. As fotos são excelentes, as descrições são sucintas mas úteis, e a informação adicional (ecologia, época de floração, distribuição) é tão completa quanto se pode desejar.

Em suma, uma obra obrigatória para quem já descobriu ou está em vias de descobrir os encantos da nossa flora silvestre. O livro, que é prefaciado pelo Prof. Jorge Paiva, custa 15€ e pode ser encomendado ao autor pelo endereço jbritesmonteiro@gmail.com

28.4.16

Alface dos mineiros



Montia perfoliata (Donn ex Willd.) Howell

É frequente ver-se em margens de regatos, fontes ou rochas com escorrências, por vezes mesmo parcialmente submersa, uma planta delicada, de folhas pequeninas e carnudas, a formar uns tapetes verdinhos, salpicados de pintinhas brancas na época de floração. Tal como a beldroega (Portulaca oleraceae), que é da mesma família (Portulacaceae), a meruginha (Montia fontana, herbácea anual ou vivaz a que os ingleses chamam blinks) já foi consumida em sopas e saladas, numa altura em que as hortas não resistiam a invernos tempestuosos. Perdeu o lugar à mesa quando se diversificou o mercado de alfaces e outros vegetais de maior porte ou sabor mais apurado.

Nesta história gastronómica entra outra beldroega, dita de Inverno (Montia perfoliata), que algumas Floras preferem arrumar no género Claytonia. Não há muitos registos da presença dela em Portugal ou na Península Ibérica, sinal de que esta planta anual e nativa da América do Norte (que, em inglês, se chama miner's lettuce por ter sido fonte preciosa de vitaminas para os garimpeiros nos primeiros tempos da Califórnia) se naturalizou na Europa mas não tem potencial invasor. Aprecia locais mais secos do que a sua congénere, dando-se bem em solos arenosos na orla de matos, mas as sementes precisam das chuvas de Outono para germinarem. A população que encontrámos mora perto da ribeira da Teja, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.


ribeira da Teja, Numão, Vila Nova de Foz Côa

O aspecto da Montia perfoliata é um pouco bizarro. Ao contrário da M. fontana, que só tem folhas caulinares, na M. perfoliata as folhas são essencialmente basais, a formar uma roseta, e parecem colheres de cabo longo. No talo, que é estriado, por vezes alado, há ainda um (e um só) par de folhas caulinares, unidas numa taça que talvez funcione como bráctea a proteger a inflorescência. Nas fotos desta parte da planta, parece que o caule fura estas duas folhas geminadas -- e é a isso que o epíteto perfoliata alude. As flores reúnem-se em racimos terminais que lembram enfeites (piercings) em volta de um umbigo.

22.4.16

Filódios & cladódios


Lathyrus ochrus (L.) DC.

O chícharo (Lathyrus sativus) é o mais famoso representante do género, mas estas leguminosas que se enrolam noutras plantas para chegarem mais alto aparecem em muitas cores e feitios, especialmente em áreas de clima mediterrânico, e são um dos sinais mais firmes de que a Primavera já não volta atrás. Não fosse o prestígio de Lineu, seríamos tentados a afirmar que as flores do Lathyrus ochrus são brancas, e não amarelas como indica o epíteto por ele escolhido. Trata-se, em qualquer caso, de um amarelo muito pálido, que precisa de uma boa demão de Photoshop (inexistente à época em que viveu o patriarca da botânica) para se manifestar. Se não se destaca pela cor das flores, este chicharão vale como acepipe para o gado (é ocasionalmente cultivado como forragem) e singulariza-se pelo aspecto peculiar: o caule parece agasalhado pelas folhas, como quem se encolhe dentro da gabardina para se resguardar da intempérie. O exemplar das fotos era ainda jovem; à medida que cresce, esta planta anual liberta-se um pouco do seu ar friorento. Quanto ao agasalho em si, esclareça-se que ele não é formado por folhas normais, mas sim por filódios. Um filódio é uma folha incompleta, reduzida ao pecíolo, que para compensar a falta vai alargando até tomar o aspecto da (inexistente) lâmina foliar. Algo de semelhante se passa com a gilbardeira (Ruscus aculeatus), onde aquilo que nos parece ser uma folha é na verdade outra coisa (chamada cladódio) indevidamente inchada para se disfarçar de folha. Estas minudências taxonómicas não têm porém grande relevância para a vida da planta: desde que sejam verdes, filódios e cladódios cumprem com lealdade, como se fossem folhas, a função fotossintética que lhes é confiada.

Quando a planta está desenvolvida, as folhas superiores do Lathyrus ochrus, embora ainda apresentem os pecíolos intumescidos, dispõem já de um ou dois pares de folíolos (foto). Todas as folhas, completas ou reduzidas, são rematadas por gavinhas sempre à espreita de um pau para se agarrarem. Florescendo entre Março e Junho, com flores solitárias ou (raramente) aos pares, e com caules muito ramificados capazes de atingir 1,5 m de comprimento, o Lathyrus ochrus distribui-se por toda a Europa mediterrânica e pelo norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia); nativo de Portugal continental, está naturalizado nos Açores (ilhas de São Miguel e Santa Maria) e na Madeira.

17.4.16

À solta no Cachorro


Cachorro, Pico, Açores

Mesmo encostada ao aeroporto, de que está separada apenas por uma estrada e por uma vedação metálica, Cachorro é uma aldeia de 20 ou 30 casas de negríssimo basalto na costa norte da ilha do Pico. O nome vem-lhe da forma que tomou uma das rochas à beira-mar, lembrando um cachorro contemplativo que nunca se cansa do espectáculo das ondas. Se a aldeia em si é típica que baste para atrair turistas, e se o impassível cachorro está sempre disponível para ser fotografado, já para o botânico amador os motivos de interesse incluem uma rara população costeira de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), um manto amarelo de cubres (Solidago azorica), e a maior concentração de camarinhas (Corema album subsp. azoricum) de que há notícia no arquipélago. Por uma vez em consonância de gostos, turistas e botânicos podem, no Verão, deliciar-se com os figos que se oferecem maduros, nas vinhas abandonadas, à gula de quem os queira apanhar.


Hylocereus undatus (Haworth) Britton & Rose

Entre as casas recuperadas para ocupação sazonal e as lojas de artesanato para turistas, sobram ainda, no Cachorro como em todas as aldeias, umas tantas casas abandonadas à espera de quem lhes dê uso. Aquela que se vê na imagem, com o telhado ainda novo, não dá mostras de ruína iminente, mas os tentáculos que por ela vão subindo, aproveitando a longa ausência dos proprietários, ameaçam furar-lhe as paredes e inundar de verde todas as divisões. Esta paciente ocupação clandestina é levada a cabo por um cacto trepador vindo das Caraíbas, de seu nome Hylocereus undatus. É bom esclarecer que este cacto não está naturalizado nos Açores, e que dificilmente terá condições de o fazer: não tolerando temperaturas inferiores a 15ºC, nunca se poderá afastar muito da linha de costa; e a ausência de polinizadores especializados deverá impedir a produção de sementes. Assim, o exemplar que ameaça sufocar a casa foi decerto plantado. Deixado entregue a si próprio, ficou fora de controle, como cão de guarda que, ignorado pelos donos, acaba por se virar contra eles.

O género Hylocereus acolhe umas vinte espécies de cactos trepadores originários da América tropical; traduzido à letra, esse nome significa cacto-dos-bosques, o que dá uma indicação precisa do habitat destas plantas, habituadas a encavalitar-se em árvores, sob generosa sombra, em vez de penarem ao sol do deserto. O Hylocereus undatus, talvez originário em cultivo por hibridação (não se conhece em estado natural), é o mais popular do seu género em jardins tropicais, e também é apreciado pelos frutos. As flores, que são grandes (30 cm de diâmetro), brancas e fragrantes, só abrem à noite. Fica a sugestão, para quem estiver no Pico em Agosto, de uma visita nocturna ao Cachorro em busca desta flor.

15.4.16

Campainhas de Primavera

Ao contrário do Leucojum autumnale, com flores no Outono e fácil de avistar mais ou menos por todo o país, o L. tricophyllum, de floração primaveril, prefere o sul, e mesmo na Península Ibérica restringe-se à região sudoeste. Parece ter relutância em ultrapassar a barreira do rio Tejo. Por isso, fomos nós vê-lo ao Ribatejo.



Leucojum trichophyllum Schousb. [sinónimo: Acis trichophylla (Schousb.) G. Don]

Demos com ele a formar tapetes branquinhos em taludes arenosos de berma de estrada e em clareiras de pinhais, e notámos logo como as flores são bastante maiores do que as do L. autumnale. Pendentes (para a última foto foi preciso levantar-lhes o queixo), solitárias ou dispondo-se em umbelas de duas a quatro por escapo, com um pedicelo longo e seis tépalas brancas, as flores exibem uma espata escariosa tal como os narcisos e os alhos (género Allium), e que é típica da família Amaryllidaceae. A cor dos talos (avermelhados no L. autumnale) e a da estrutura reprodutora na base das tépalas (verde no L. tricophyllum) são outros pormenores que distinguem estas duas espécies. Além deles, observe-se que a folhagem, que é basal, surge no Leucojum trichophyllum antes antes da floração, quando no L. autumnale são as flores que nascem primeiro.

Em Espanha há registo de mais duas espécies de Leucojum: uma delas, L. valentinum, também de floração outonal, é endémica da região de Valencia; a outra, L. aestivum, com flores entre Fevereiro e Junho a que os ingleses chamam com graça Summer snowflakes, é nativa do sul da Europa, incluindo o sul de Inglaterra, e ilhas Baleares. Em Portugal pode ver-se (já em Fevereiro) em alguns velhos jardins.

Como já aqui antes comentámos, estudos morfológicos e genéticos publicados em 2004 fundamentam uma alteração na classificação taxonómica destas duas espécies de Leucojum, que deveriam transitar para o género Acis (um nome talvez inspirado no mito de Acis e Galatea). Esta diferenciação não é, contudo, recente. Ela é referida na obra The Paradisus Londinensis (1807), de R. Salisbury, e por Robert Sweet que, em 1829, usou oficialmente o nome Acis autumnalis para designar o Leucojum autumnale. Desde 2014, são aceites as novas denominações para três das quatro espécies de Leucojum que ocorrem na Pensínsula Ibérica (Acis autumnalis, Acis trichophylla e Acis valentina), mantendo-se inalterada a filiação do Leucojum aestivum.