18.5.08

Kew Beauty


Trillium erectum

«A notícia veio nos jornais: um desempregado de 23 anos, pai de dois filhos, deitou a mão a um dos belos cisnes do lago do Parque de Basílio Teles, em Matosinhos, torceu-lhe o pescoço e levava-o para casa, para o jantar da família, quando foi apanhado por um polícia.

Os cisnes são, desde tempos imemoriais, símbolos de beleza e de perfeição e, nessa qualidade, bibelots vivos da decoração de lagos e jardins. Nos jardins suspensos da Babilónia; nos do shogun, em Kyoto; em Pequim, nos do imperador; nos lagos imensos do palácio de Kublai Khan, como nos do edénico jardim inicial, vogaram - vogam eternamente - cisnes. Sob as suas formas tranquilas e longilíneas se ocultou Zeus para seduzir Leda e desse amor nasceu Helena, por cuja beleza morreram Aquiles e Heitor, Páris e Ajax, Ifigénia e Polixena, e caiu para sempre, em chamas, a orgulhosa Tróia.

O infeliz herói desta crónica, todavia, não teve pelo seu lado nem a complacência dos deuses nem a do polícia de giro. Passeava no Parque quando topou com o cisne e, em vez de lhe dar para qualquer arroubo helénico, muito prosaicamente representou à sua frente sete ou oito quilos de carne vogando ociosos e inúteis nas águas paradas. (...)

O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.»


Manuel António Pina, Os olhos e a barriga (in O Anacronista, 1994)

17.5.08

Bandeira amarela


Iris pseudacorus - Ponte de Lima

O esbelto lírio-amarelo, habitante de zonas alagadiças por toda a Europa, emigrante de sucesso na América do Norte, é uma das plantas que na Primavera avivam a paleta de cores da reserva das Lagoas, em Ponte de Lima. Muito popular também como ornamental, este lírio foi usado medicinalmente pelas suas propriedades eméticas, graças talvez ao mesmo princípio que o torna venenoso para o gado. Mas redimem-no a beleza e outras valiosas qualidades: é importantíssimo na manutenção de habitats húmidos na Europa; e, capaz como é de absorver metais pesados através das raízes, dá uma preciosa ajuda à despoluição das águas.

Há cerca de 250 espécies de Iris espalhadas pelo hemisfério norte; dessas, só seis ou sete são espontâneas em Portugal, e uma delas, a Iris boissieri, é um raro endemismo da Serra do Gerês. (Veja nesta página uma foto do lírio-do-Gerês.)

16.5.08

Comensais


Pedicularis sylvatica subsp. sylvatica

A planta é tão rasteira que, de nariz no ar a comparar mastros de eucaliptos, quase não reparávamos nela. Os caules são delgados, as folhas reduzidas a preguiçosas escamas que há muito abdicaram do trabalho honesto da fotossíntese. As estruturas de transporte de água e as raízes, sem terem muito com que se preocupar, são também diminutas. O que sobra? Orgãos de sucção especiais que penetram na raiz duma planta hospedeira e daí retiram alimento; e belas flores a negar aos mais cruéis a coragem de as arrancar.

A Pedicularis sylvatica é erva monóica, perene, europeia a quem as flores bilabiadas dão um notório ar de mendiga. Parte da flor é um bico saliente com dois dentinhos suplicantes, apoiado em três lóbulos de mão-estendida. Tudo a fingir porque, enquanto implora uns trocos para a sopa e roga lume para um cigarro, subtrai o que pode da mesa alheia. É a versão vegetal do vizinho que se aproveita da nossa rede sem fios para navegar sem despesa na internet, talvez para saber mais sobre o descansado mundo dos parasitas.

Neste género a hibridação é frequente e existem cerca de 50 subspécies de P. sylvatica. A da foto gosta tanto do aconchego da floresta que recebeu o epíteto específico em dose dupla.

15.5.08

A pérgula do rei do sabão



The Pergola - West Heath, Hampstead

A grande mancha arborizada de Hampstead Heath, a norte de Londres, é formada por várias secções de tamanhos diversos, separadas por rodovias e áreas residenciais. A maior de todas elas, e a única que consta dos roteiros turísticos, estende-se de Hampstead a Highgate; nela encontramos Parliament Hill com os seus papagaios de papel dominicais e a famosa vista do recorte urbano da City, e os bosques e jardins da Kenwood House. Esse pedaço de natureza incrustado na cidade, de tão extenso e variado, sempre me encheu as medidas, e nunca antes me sentira tentado a espreitar os retalhos adjacentes: julgava eu que essas sobras de Hampstead Heath seriam mais do mesmo em ponto pequeno.

Mas para tudo há uma primeira vez, e no fim de contas West Heath, um dos pedaços-extra mais acessíveis, começa logo depois de Hampstead: seguindo por Heath Street, fica a poucos minutos a pé da estação de metro. O ponto exacto é assinalado por uma bifurcação na estrada e, à nossa esquerda, por um edifício volumoso, em forma de paralelipípedo, caiado em tons claros: é o Jack Straw's Castle, que se gaba de ser, de entre todas as public houses de Londres, aquela que está situada a maior altitude (pouco mais de cem metros). Não pude ver o castelo por dentro: estava fechado porque nesse dia se celebrava o 1.º de Maio com o atraso da lei (que manda os feriados na Grã-Bretanha serem às segundas). Passando adiante, mergulhei num bosque denso de faias e carvalhos, que se abria, poucas centenas de metros adiante, numa clareira surpreendente, deixando ver um serpenteante edifício de tijolo vermelho encimado por colunas e rodeado por jardins e por um muro com gradeamento.

Esse edifício é afinal uma pérgula que se ergue a 4,5 metros do chão e, embora na verdade tenha 244 metros de comprimento, aparenta ser interminável. É que, como os seus vários segmentos formam entre si ângulos rectos, não há nenhum ponto de onde a possamos abarcar na totalidade. Uma escada em caracol, a que se chega cruzando um jardim aromático, dá acesso à extremidade sul desse corredor panorâmico. O esforço da subida é recompensado pela vista elevada, embalada em silêncio, da massa compacta do bosque. Muitas e diversas trepadeiras se enrolam nas colunas - jasmins, madressilvas, glicínias (terceira foto), clematites, roseiras, vinha-virgem, botão-azul -, guarnecidas por uma profusão colorida de pequenas herbáceas (como a Corydalis lutea). À direita avista-se uma mansão apalaçada composta por várias alas e cercada por um jardim de grande efeito cénico: é a Inverforth House, que foi residência de várias fortunas colossais e hoje está dividida em apartamentos. A pérgula, com uma vegetação mais frondosa no seu troço final, é rematada por um balcão que se debruça sobre o Hill Garden (quarta foto): descemos dois lanços de escada e eis-nos chegados a essa pequena amostra do paraíso.

Como é que uma extravagância destas aparece no meio de um bosque, em jeito de ruína de uma civilização perdida? Um dos ricaços que morou na Inverforth House - e aquele que a completou na sua forma actual, embora na altura a mansão não tivesse esse nome - foi William Lever (1851-1925), primeiro visconde de Leverhulme, fabricante de sabões e detergentes, fundador da firma Lever Brothers, precursora da multinacional Unilever. A pérgula foi a solução para ligar as duas partes da propriedade sem ter o visconde de se misturar com os frequentadores do caminho público que a dividia e que ele não foi autorizado a vedar. Esse caminho, que atravessa uma arcada no edifício da pérgula, ainda hoje existe. A pérgula foi construída por fases, entre 1906 e 1925, e o seu proprietário poucos meses de vida teve para usufruir da obra já completada. Em 1960, a pérgula e o Hill Garden foram comprados pelo município de Londres - mas o restauro da estrutura, invadida que estava pela vegetação e em muito mau estado, só foi feito em 1995. Desde então, a pérgula está aberta a todos os que a queiram admirar.



The Pergola - West Heath, Hampstead

14.5.08

Norça-branca


Bryonia cretica subesp. dioica

....Sim, tudo é certo logo que o não seja.
....Amar, teimar, verificar, descrer...
....Quem me dera um sossego à beira-ser
....Como o que à beira-mar o olhar deseja.

Fernando Pessoa (1929)

13.5.08

Cotovias-de-poupa

Acreditamos que a existência de flores no mundo vegetal não se deve apenas ao talento artístico de algumas plantas. O modo vistoso, tão caro a outros seres vivos, de cortejar os polinizadores pode sair a preço de fábrica, mas em nenhuma espécie é ao preço da chuva. Infelizmente, mesmo louras, estas beldades podem passar despercebidas aos zangões. A esta indiferença, trágica para a continuação da espécie, as plantas reagem com o remédio óbvio: optam pela auto-polinização, mantendo contudo o floreado, just in case.


Corydalis claviculata - margem do rio Tâmega

É o que acontece no género Corydalis, que tem cerca de 400 espécies no hemisfério norte (de que conhecemos duas; como se descobrirá daqui a umas poucas linhas, nem estas duas...). Cada flor leva horas a fazer, e a fornada é de uma dezena ou mais. Para cada uma são precisas quatro pétalas - uma superior em forma de capuchinho com uma graciosa crista à-Tintin, uma inferior com formato de bote e duas laterais mais estreitas que protegem os estames e o estilete - e tinta de cor que pode variar de azul a carmim, incluindo vários tons de amarelo. Estando quase pronta, acrescenta-se uma ousada esporinha a cada base.


Corydalis lutea - Hampstead Heath

A Corydalis claviculata é anual e trepadeira; a Corydalis lutea é perene e sem gavinhas. Enfim, feitios. Em ambas, as folhas são bipinadas e de um verde-alface que as permite destacar no mato de outras herbáceas. Não, caro leitor, não aponte nem decore estas designações científicas. Amanhã teremos de mudar as etiquetas: enquanto ainda nos habituávamos a chamar-lhes coridálias, os botânicos decidiram trocá-las de género. São agora Ceratocapnos claviculata e Pseudofumaria lutea, veja lá.

12.5.08

Fim de temporada


Scilla monophyllos

As fotos foram tiradas em Março, mas - pelo menos no Tâmega - quem agora procurar estas cilas-duma-folha-só já não as encontra. Ultrapassada a floração, a planta, que não vai além dos 12 cm de altura, passa despercebida, ficando oculta pelas herbáceas mais vigorosas que entretanto foram surgindo. A sua parte aérea não tardará a desaparecer por completo (se é que já não o fez), e só em 2009, no final do Inverno, o bolbo lançará nova folha que, desenrolando-se, revelará uma haste encimada por um cacho de flores.

Esta cila, que ocorre apenas na Península Ibérica, é talvez a mais comum no norte de Portugal, e é instrutivo compará-la com a Scilla italica. Embora tenham flores quase iguais, dispõem-nas de modos distintos: em espiga, na S. italica, e em umbela, na S. monophyllos. Além disso, nesta última, as brácteas na base do pedúnculo de cada flor são muito mais curtas do que na S. italica. Por último, há o número de folhas: entre três e seis na S. italica, e uma só na S. monophyllos (como aliás denuncia o epíteto específico).

11.5.08

Glory of the sun


Leucocoryne coquimbensis

....Que fizeste das palavras?
....Que contas darás tu dessas vogais
....de um azul tão apaziguado?

....E das consoantes, que lhes dirás,
....ardendo entre o fulgor
....das laranjas e o sol dos cavalos?

....Que lhes dirás, quando
....te perguntarem pelas minúsculas
....sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, Matéria Solar (1980)

10.5.08

Sem pinta nenhuma


Cistus ladanifer

As estevas (Cistus ladanifer) fazem casa em todo o território continental português, desde o plácido litoral algarvio ao acidentado relevo transmontano. Mas será mesmo todo? Há um vazio no mapa que começa a sul do Douro e abrange boa parte do Douro Litoral e toda a província do Minho: aí não chegaram as estevas. Mesmo esta asserção, contudo, exige ser corrigida. Há estevas nos taludes das auto-estradas poucos quilómetros a sul do Porto; como a que se vê na foto, marginando o nó de Esmoriz da A29.

O fenómeno tem contornos conhecidos: as estevas nortenhas, à semelhança do que sucedeu com as populações humanas, iniciaram um movimento migratório em direcção ao litoral. Não estou certo de que o tenham feito da melhor maneira. Iludidos por algum promotor sem escrúpulos, o lugar que estes primeiros migrantes escolheram para fixar residência deixa muito a desejar, tanto no que toca às condições objectivas do presente como às perspectivas futuras. Uma habitação de sonho entre os bosques e o mar, idealmente situada com bonitas vistas e esplêndidos acessos, muito perto de Espinho com as suas praias e o seu requintado Casino, apenas a vinte minutos do Porto e dos grandes Shoppings. Foi isso que lhes venderam; porém, a realidade é outra. A vista só alcança asfalto, separadores, viadutos, postes de iluminação e matas de eucaliptos; do mar tão perto, mas tapado por cerrada cortina de árvores, não chega sequer um sopro de brisa salgada; e as plantas, agarradas ao chão, não tiram partido dos fáceis acessos nem se propagam mais velozmente na vizinhança de uma via rápida. Pior ainda: quando alargarem a auto-estrada, coisa inevitável mais tarde ou mais cedo no país do asfalto, as adventícias estevas e toda a sua hipotética descendência não só perderão a casa como serão dizimadas no processo.

Já se ouvem vozes desiludidas entre as estevas do nó de Esmoriz. Terão feito bem em deixar o aconchego modorrento da terra natal? Em troca de quê? Isto ainda é pior que Vila d'Este, não tem mesmo pinta nenhuma, murmuram. E as estevas, acabrunhadas pela desdita, deixaram de dar flores com pinta.

9.5.08

Malva de frutos redondos



Sphaeralcea "Hyde Hall" - Kew Gardens

Situado nas proximidades da vila de Chelmsford, no condado de Essex, a nordeste de Londres, Hyde Hall é uma propriedade de 146 hectares onde funciona um dos quatro jardins-modelo mantidos pela Royal Horticultural Society. Ocupando antigos campos agrícolas de solos empobrecidos, exposta a ventos frequentes e beneficiando de escassa precipitação, a propriedade estava longe de reunir as condições ideais para o jardim que lá começou a ser criado em 1955 - mas que hoje é a prova viva do que a persistência, o gosto e o saber podem fazer em jardinagem e paisagismo. (Para quem, como nós, nunca visitou Hyde Hall, eis o apontador para uma visita virtual.)

A Royal Horticultural Society também se dedica, nos seus jardins, ao desenvolvimento de novas plantas, e a que mostramos hoje, fotografada nos Kew Gardens em Maio de 2007, é um dos quase 300 cultivares registados pela sociedade. A sua semelhança com as malvas e os hibiscos é notória, e por isso não espanta que ela integre a família das malváceas. O nome Sphaeralcea refere-se a essa semelhança (alcea provém do nome grego para malva) e alude ainda ao frutos globulares que a planta produz.

O género Sphaeralcea, que inclui cerca de 60 espécies entre herbáceas e pequenos arbustos, é maioritariamente originário das regiões quentes da América do Norte.

8.5.08

Myosotidiflora Plus


Brunnera macrophylla

Como não são conhecidos sintomas de sobredosagem, administramos hoje mais uma flor azul. O fármaco é aconselhado a pacientes leitores que se sintam em permanente encantamento com a paisagem natural, e indicado especialmente aos que não resistem a tentar identificar plantas através da janela de uma viatura em andamento. O laboratório fabricante situa-se em bosques de coníferas do sudoeste da Ásia, tendo-se optado por nomear o princípio activo deste remédio em homenagem ao naturalista suiço Samuel Brunner (1790-1844). Apresenta-se em embalagens de exuberante folhagem basal perene, com folhas cordiformes de pecíolo longo. As cápsulas de flor, de matiz que garante um excelente efeito placebo, têm cerca de 5 cm de diâmetro e prazo de validade de Abril a Junho. Podem ocorrer interacções medicamentosas, especialmente quando prescrito em associação com bibliografia científica, tendo sido descritos casos de aumento significativo da incerteza na classificação de boragináceas. Pelas suas características, este produto tem efeito redutor sobre a capacidade de condução, mas pode ser mantido ao alcance das crianças. Se persistirem dúvidas, por favor consulte o seu blogue assistente.

7.5.08

Trevo-amarelo


Trifolium campestre

....I prefer myself liking people to myself loving mankind.
....I prefer leaves without flowers to flowers without leaves.
....I prefer the time of insects to the time of stars.
....I prefer to knock on wood.
....I prefer not to ask how much longer and when.

Wislawa Szymborska, Possibilities (trad. S. Baranczak & C. Cavanagh)

6.5.08

108 Old Brompton Road


Cistus x purpureus - The Royal British Society of Sculptors

O nome desta espécie talvez seja entendido por alguns como referência a um campeonato, sendo a equipa Cistus visitada pela Purpureus, soando esta última designação como um oportuno disfarce a uma turma que tem andado desavinda com a glória. Desengane-se o leitor. E se ainda aí está, ouça a história do cruzamento de franzidos e nervuras que deu origem ao x.

O Cistus x purpureus (orchid rock-rose) é um híbrido de Cistus creticus e Cistus ladanifer, arbustos de folha perene comuns na região mediterrânica que se propagam e hibridam facilmente. Apreciam bosques de pinheiros e montes áridos, são polinizados por abelhas e as suas flores não duram mais de um dia: abrem de manhã, a meio do dia o curto estilete, com um estigma que parece um botão branco, alonga-se, e as pétalas caem ao fim da tarde.

A espécie Cistus creticus, que pode atingir 1m de altura, tem folhas cobertas de penugem branca, margens onduladas e nervação vincada; as flores são grandes (6cm de diâmetro), com pétalas enrugadas de cor magenta, e nascem em grupos de 3 a 5. Os espécimes de Cistus ladanifer são em geral mais altos, têm folhas lanceoladas e viscosas de resina que rescende a montes quentes; as flores são solitárias, grandes (10cm), num aparente desalinho de pétalas amarrotadas e brancas com uma manchinha púrpura na base, destacando-se no conjunto um centro amarelo com numerosos estames. O ládano, substância usada em farmácia e perfumaria, é obtido das folhas desta planta.

O resultado deste encontro feliz é a média esperada: um cultivar de jardim com porte majestoso, folhagem aromática, folhas lanceoladas mas de margens levemente onduladas e flores grandes (7cm) de pétalas enrugadas, magenta com manchas de cor púrpura, que se agrupam em trios na ponta dos ramos. Um triunfo de criação que inspira artistas e suscita justa inveja divina.

5.5.08

Amarelo, véspera de azul

One of the most comically enchanting of Nikolai Leskov's Appropriate Stories tells how a life-size steel flea is presented by an English master-smith from Sheffield to the Emperor Alexander. Not to be outdone, the smiths of Tula accept the challenge of the Emperor and shoe the flea's steel feet.

Russian Short Stories (The Folio Society, 1997)


Myosotis discolor

No mundo de pequeno formato a vida cumpre-se sem vertigens e são vãs as comparações. Mas não faltam os caprichos. Na espécie Myosotis discolor a corola tem diâmetro que não excede 1.5mm, mas a flor dá-se ao luxo de duas roupagens: recém-aberta, carnuda e graciosa, exibe um sedutor amarelo; dias depois, as pétalas vestem um azul discreto, e o decote central esconde-se no recato de um cachecol penugento.

Tal como a Trigonotis peduncularis, cujas flores se contentam com o azul, a M. discolor é uma herbácea anual de caule esguio, que não sobe além de uns minguados 8cm, com folhagem híspida de folhas sésseis e alternadas (opostas, em geral, na T. peduncularis). As flores destas duas espécies são semelhantes, mas a inflorescência permite-nos distingui-las: a da M. discolor forma uma bela espiral de cálices arroxeados, agrupando-se as flores em cimeiras que justificam a designação inglesa yellow-blue scorpion-grass.

4.5.08

Azalea Garden at Kew


Rhododendron sp.

....It's only the first song that brings a blush to the cheek.

Nikolai Leskov, Lady Macbeth of the Mtsensk District (trad. David Magarshack)

2.5.08

Lagoa dos Salgados

Crime ambiental na Lagoa dos Salgados, «um desastre ecológico que está "ultrapassado"»!?
Ver álbuns de fotografias da lagoa cheia, dos painéis dos percursos interpretativos, das dunas da Praia Grande aqui.

Em cima fotos Agosto 2006 e 2007; em baixo Abril 2008

Fotos recentes daqui
  • «Lagoa dos Salgados, uma importante zona húmida situada nos concelho de Silves e Albufeira, foi esvaziada na semana passada, criando uma situação que está a provocar a indignação de ambientalistas e estudiosos das aves aquáticas.» Notícia no Público (16 de Abril)

  • «Segundo a SPEA, a acção autorizada pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve "deixou a seco uma das mais importantes zonas húmidas do litoral algarvio e deitou a perder dezenas de ninhos de espécies protegidas e raras que na altura nidificavam nas ilhas e sapais da lagoa, entre os quais o único casal nidificante de Pêrra em Portugal (uma das espécies de aves mais ameaçadas na Europa)".
    Para além disso, diz a SPEA, ficaram ameaçados cerca de 40 casais de Perna-longa, 45 casais de Alfaiate, 3 casais de Caimão, 2 casais de Zarrocomum, 3 casais de Pato-colhereiro (os Salgados são um dos raros locais de nidificação destas duas espécies em Portugal), 5 casais de Frisada, 7 casais de Borrelho-de coleira-interrompida e 4 casais de Andorinha-do-mar-anã.
    Em comunicado, a SPEA acusa a CCDR-Alg de violar um compromisso, por razões difíceis de compreender: "A Almargem e outros grupos de conservação da natureza acordaram com a CCDRA uma regulação das operações de abertura da lagoa ao mar, que permitia a abertura regular durante o período de Inverno (até 1 de Março), quando as chuvas são mais frequentes e as aves mais móveis, mas impedia qualquer abertura durante a Primavera, quando as aves utilizam as ilhas e sapais da Lagoa para construir os seus ninhos", afirma.
    "Esta acção, ignorando outras soluções possíveis, causou um desastre ambiental com sérias consequências a nível da biodiversidade e da imagem do país", conclui. » in
    Observatório do Algarve

  • CCDR confirma ter autorizado abertura da Lagoa dos Salgados

  • Lagoa dos Salgados: desastre ecológico «está ultrapassado» (!!!)

Olhos azuis de gato


Pentaglottis sempervirens

Eis uma daquelas plantas que, juntamente com a Omphalodes nitida, podemos incluir na categoria dos miosótis-para-principiantes: não são miósótis, mas pertencem à mesma família e têm flores muito semelhantes; quem as confunde com eles é porque já tem uma ideia muito aceitável de como devem ser as flores de miosótis. A diferença mais óbvia é que estas têm em geral centro amarelo, enquanto que as flores da Pentaglottis e da Omphalodes têm centro branco. Ultrapassada essa etapa, só falta fazer a distinção entre as duas últimas plantas, ambas muito comuns em Portugal; e isso até uma criança consegue se prestar atenção às folhas: as da Pentaglottis são peludas, baças e de margens dentadas; as da Omphalodes são lustrosas e de margens lisas.

A Pentaglottis sempervirens, que em português recebeu o simpático nome de olhos-de-gato, é a única espécie do seu género: herbácea robusta, de raízes profundas, pode atingir um metro de altura. Originária da Península Ibérica e do sudoeste de França, naturalizou-se em boa parte do continente europeu e também nas regiões costeiras da América do Norte. O nome Pentaglottis refere-se às cinco saliências (ou línguas) à volta do tubo central da flor.

1.5.08

Moda italiana


Scilla italica

Talvez com esta Scilla se passe o mesmo que no pronto-a-vestir: para melhor se posicionar face a um público que valoriza a moda transalpina e desdenha tudo o que é nacional, ela adoptou para imagem de marca um nome italiano - quando na verdade é nascida e criada no nosso luso-torrão. Aqui chegados, contudo, é melhor fazermos algumas ressalvas: a S. italica distribui-se pela faixa do continente Europeu que vai de Portugal aos Balcãs, incluindo França e Itália; e é natural que neste último país ela seja bem mais abundante do que em Portugal. Por cá só a encontrámos, e em escassíssimo número, nas margens do Tâmega, em Amarante - naquela que é a nossa melhor zona de caça para flores silvestres. Tão rara é entre nós esta espécie que não aparece sequer listada na Flora Digital de Portugal, e o livro Portugal Botânico de A a Z não lhe atribui qualquer nome vernáculo. Em compensação, encontrámos em abundância, neste e noutros locais, a Scilla monophyllos, espécie de que aqui falaremos em breve.

Sendo a S. italica de ocorrência tão incerta, como podemos afirmar que os exemplares de Amarante pertencem a essa espécie? O segredo está na inflorescência: o seu formato cónico é peculiar, e os «ganchos» azuis (na verdade brácteas) que se vêem a abraçar cada botão são inconfundíveis.

De entre as vinte e poucas espécies europeias de Scilla - o género está igualmente representado em África e na Ásia -, a mais apreciada em jardinagem é a S. peruviana, a que já demos a devida atenção. E talvez tenha interesse para o leitor comparar a planta de hoje com a Muscari comosum, também da família Hyacinthaceae.

30.4.08

Flor com estacionamento


Macfadyena unguis-cati

Como é usual entre os grandes abastecedores de bens essenciais, as flores encomendam estudos de mercado para conhecer o perfil e as necessidades dos seus fregueses, e investem sobretudo nos acessos às suas lojas e no espaço onde os clientes comprovam, lambendo gulosamente as pontas dos dedos, a qualidade dos produtos. As instalações florais desta trepadeira lenhosa da América tropical são amarelas, com amplo espaço para os polinizadores aterrarem, seguindo depois por baias bem vincadas até às caves onde se guarda o néctar - assinaladas a laranja para que não haja clientes mal estacionados à entrada da loja.

As folhas da Macfadyena unguis-cati são pinadas, com um folíolo terminal transformado em gavinha (veja a foto da direita) que lembrou, a quem nomeou a espécie, três unhas de gato. O que revela que essa pessoa não tinha gato, ou não lhe consultou as patas sobre o assunto. Nós, e os gatos que se comovem com estes agrados, preferimos chamar-lhe pé-de-canário.

29.4.08

Não parece quem é



Cornus controversa - Kew Gardens

Talvez o epíteto controversa se deva à vincada diferença no tipo de floração entre esta pequena árvore asiática e as suas congéneres mais famosas, como a Cornus florida e a C. kousa. Nas duas últimas, as flores são minúsculas, agrupando-se em inflorescências rodeadas por quatro brácteas vistosas; na C. controversa, as flores são mais convencionais, com pétalas e estames perfeitamente visíveis, e dispõem-se em umbelas parecidas com as do folhado (Viburnum tinus), muito embora as duas plantas não tenham qualquer relação entre si. Ressalve-se, porém, que há outras espécies de Cornus, como a C. kas, com floração em umbela semelhante à da C. controversa. A divergência na floração reflecte-se na morfologia dos frutos: as espécies mais tradicionalistas, como a C. florida, a C. kousa e a C. capitata, dão frutos carnudos e avermelhados que lembram morangos, ao passo que a C. controversa se contenta em produzir pequenas bagas pretas.

As fotos foram tiradas há um ano, na última visita que fizemos aos Kew Gardens, em Londres.

28.4.08

Beco do Paço



O beco do Paço é uma curta viela sem saída que desemboca na rua de Clemente Menéres, mesmo ao lado do Jardim do Carregal. É um lugar sem dignidade suficiente para homenagear algum ilustre falecido, e por isso nunca nenhuma comissão de toponímica lhe quis mudar o nome. Ninguém lá mora: a ilha que lá existia foi demolida em 1999, e sobram, à face do beco, duas casas de dois pisos, desocupadas e em ruínas. A única utilidade da viela é servir de estacionamento gratuito a meia-dúzia de habitués que trabalham nas redondezas. Há também os gatos, moradores dos pardieiros, que vêm apanhar sol nos tejadilhos dos carros ou, em dias de chuva, abrigar-se debaixo deles. Logo à entrada do beco, vedada por desengonçado portão de chapas de zinco, há uma rampa de acesso a um terreno semi-arborizado que se estende até às traseiras da rua de Miguel Bombarda. O terreno já foi estaleiro de obras, e dessa sua ocupação sobraram materiais de construção, vários montes de entulho, e duas placas de cimento que a vegetacão espontânea vem metodicamente rompendo. Enquanto durar este fértil abandono, poderão vegetar tranquilamente as árvores que vejo da minha janela: palmeira-das-Canárias, sequóia, nespereira, plátano, ácer, figueira, ligustros, sabugueiros. À lista devo juntar a casuarina de que aqui falei vai para quatro anos (foto da esquerda) e que, entretanto, para orgulho de quem a apadrinhou, mais que duplicou de envergadura.

27.4.08

Bandeira azul


Lathyrus sativus - vale do Tua

....O calor, como uma roupa invisível, dá vontade de o tirar.

Fernando Pessoa

26.4.08

Tremoceiro-azul


Lupinus angustifolius - vale do Tua

É com um tremoceiro, o nosso segundo, que encerramos em pleno azul uma semana fotograficamente preenchida com a ameaçada flora do vale do Tua. Talvez não valha a pena explicar em detalhe como o tremoceiro-azul é diferente do seu congénere amarelo: nem quem desdenhe as nossas explicações correrá o risco de os confundir. Mas pode dar gosto a alguns fazer as coisas do modo mais difícil - e é para esses que, de seguida, ensinamos como distinguir as duas plantas sem olhar à cor das flores.

As folhas de ambas são compostas digitadas, mas, como indica o epíteto angustifolius, os folíolos do tremoceiro-azul são notoriamente mais estreitos. Além disso, este último dispõe as flores na haste alternadamente, enquanto que as flores do tremoceiro amarelo se agrupam em andares sucessivos, com as flores de cada piso formando varandas circulares em torno da haste.

No que respeita à vida em sociedade, a atitude destes dois tremoceiros não podia ser mais constrastante. O tremoceiro-amarelo é por natureza gregário e reivindicativo: todos os anos, pela Primavera, haja ou não motivo para protesto, organiza grandes manifestações onde insiste em agitar as bandeiras amarelas de sempre. O tremoceiro-azul, pelo contrário, é de carácter reservado e individualista, odeia multidões, e pouco ou nada faz para ser notado. A sua distribuição em território português é escassa e irregular: perto do Tua, vimos alguns indivíduos marginando a estrada; atentos à raridade, tivemos que nos apear para o registo fotográfico. Antes disso, só o tínhamos visto, mirrado pelos maus ares da vizinhança, junto a uma das ribeiras (ou esgotos) que desaguam na poluidíssima Lagoa de Paramos, a sul de Espinho.

25.4.08

25/IV/74


Lavandula pedunculata - vale do Tua

....Tinha a língua de sabão.
....Lavou as palavras e calou-se.

Frederico García Lorca, Canções para terminar

24.4.08

Ansarina-dos-campos


Linaria spartea - vale do Tua

Esta é a quarta linária que figura neste blogue - e, depois da Linaria amethystea, a segunda que trazemos do vale do Tua. Sobre o género Linaria, nada há a acrescentar ao que a Maria aqui escreveu; mas, sobre a espécie de hoje, diga-se que, apesar de a termos encontrado perto de um rio, ela prefere terrenos abertos e secos, encontrando-se espalhada por boa parte do sul da Europa. O epiteto spartea refere-se à sua semelhança com a giesta-dos-jardins (Spartium junceum): ambas as plantas têm folhagem escassa e, com as suas numerosas hastes, formam maciços salpicados pelo amarelo vivo das flores. Como acontece na maioria de tais casos, a semelhança é apenas superficial, pois as duas plantas pertencem a famílias botânicas muito distintas.

23.4.08

Posições no mundo


Amendoeira (Prunus dulcis) - vale do Tua

«No fundo, havia a sensação de que depois de muito se andar, depois das espantosas invenções técnicas, o homem continuava a depender de a árvore dar ou não frutos, apesar de já não haver árvores e de os frutos já não serem arrancados ou apanhados do chão, mas simplesmente negociados. Onde estava então a nova árvore? E que árvore era essa que fazia, subitamente, os preços subirem e a fome instalar-se em vários pontos do país, para depois, passados alguns anos, começar, sem justificação, a dar frutos em excesso?»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (2007)

22.4.08

Noite da Terra

Nunca estivemos no vale do Tua à noite. Imaginamos que o silêncio que ouvimos lá de dia, enrugado por conversas de passarinhos, se ri, nessas horas longas, do rio arrepiado e galopa com ele a contar estrelas num céu de ardósia. Nas margens, a terra descansa perfumada pelos jacintos-das-searas que lembram candelabros de palácio a convocar fantasmas de histórias de embalar.


Muscari comosum

As inflorescências desta planta que aprecia solos cultivados, sobretudo olivais, são encimadas por um tufo (comosum) vistoso de flores globosas, azuis-violeta e estéreis, que atraem as abelhas para o perfume almiscarado e os potes de néctar das flores tubulares castanhas situadas mais abaixo na ráquis. Neste eixo com cerca de 30 cm, os sinos, com brácteas minúsculas e corolas de seis dentinhos, dobram em sequência a partir da base.

Os bolbos, cebolinhos-de-flor-azul, são apreciados na culinária grega. A que saberão?

21.4.08

As árvores não sabem nadar


Choupos - Abreiro, rio Tua

aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.

«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.

Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?

A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.

É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.



Freixos - rio Tinhela

19.4.08

Pequenos vícios

«"Dá-me a tua mão". A mão (explica-me Daniel) era o prolongamento da intimidade, a memória dum corpo retido em cinco dedos esguios e trémulos. Mas a dele, pela prontidão com que respondia à de Cecília, era o nó sensível com que a rapariga podia medir o cansaço, a indiferença, a idade, em suma, do amor, tal como o perfeito marceneiro, medindo de facto um nó de madeira, premindo-o e afagando-o, sabe avaliar os anos duma árvore e a sua resistência.»

José Cardoso Pires, Lavagante (2008)


Vicia hirsuta

Os dotes de trepadeira da Vicia hirsuta superam a fadiga de ser tão pequenina. A foto da esquerda mostra-a decidida a içar alto a bandeira, de gavinhas enliçadas a tudo o que lhe está ao alcance da mão.

As flores em cachos são como cabeças de alfinete (~4 mm), de tom branco com sombras roxas, mas semelhantes às que vimos nas espécies V. angustifolia e V. sativa. Apesar de ser uma ervilhaca em miniatura, a folhagem é densa e pode criar um tapete espesso. A designação comum cizirão, do latim cicer, eris, grão-de-bico, é sugerida pelo formato das sementes.

Temíamos chegar a este ponto. Prevemos mesmo o risco de, abandonados pelas árvores em descanso de Inverno, baixarmos os olhos e nos encantarmos com as plantas miúdas, de curta e ávida vida. Por este caminho não tardaremos a ser dançarinos-de-prado, calcorreando os campos sempre em bicos-de-pés para poupar o veludo das ervas tenras. E um dia repararemos nos saiotes dos musgos, iniciando outro capítulo de descoberta, cedendo a mais um vício da curiosidade. Ou talvez cruzemos uma estreita porta da floresta sem retorno.