30.4.16

Orquídeas portuguesas


Em 2008, José Monteiro publicou um livrinho de 80 páginas sobre as orquídeas silvestres da Beira Litoral. Para muita gente (e para nós também) foi o primeiro contacto com essas flores misteriosas e efémeras que crescem, ignoradas por muitos, um pouco por todo o país. Embora a província sobre a qual Monteiro então se debruçou seja aquela que em Portugal apresenta maior abundância e diversidade de orquídeas, a verdade é que as há desde Trás-os-Montes ao Algarve, sem esquecer os arquipélagos atlânticos; e, ainda que se dêem melhor em substratos calcários, elas não são exclusivas desses habitats.

Faltava pois alargar o âmbito do estudo, estendendo-o ao país inteiro, e é isso que José Monteiro faz neste seu livro acabado de publicar, intitulado, com justeza, Orquídeas Silvestres de Portugal. Não é preciso ressalvas, pois é de Portugal inteiro que se trata: continente, Madeira e Açores (uma das orquídeas que aparece na capa é mesmo endémica deste arquipélago). O autor visitou e fotografou in loco todas as espécies de orquídeas alguma vez assinaladas no nosso país, incluindo algumas de que ele próprio foi o descobridor, e não deixou de fora os raríssimos híbridos que só gente como ele parece ser capaz de detectar. As fotos são excelentes, as descrições são sucintas mas úteis, e a informação adicional (ecologia, época de floração, distribuição) é tão completa quanto se pode desejar.

Em suma, uma obra obrigatória para quem já descobriu ou está em vias de descobrir os encantos da nossa flora silvestre. O livro, que é prefaciado pelo Prof. Jorge Paiva, custa 15€ e pode ser encomendado ao autor pelo endereço jbritesmonteiro@gmail.com

28.4.16

Alface dos mineiros



Montia perfoliata (Donn ex Willd.) Howell

É frequente ver-se em margens de regatos, fontes ou rochas com escorrências, por vezes mesmo parcialmente submersa, uma planta delicada, de folhas pequeninas e carnudas, a formar uns tapetes verdinhos, salpicados de pintinhas brancas na época de floração. Tal como a beldroega (Portulaca oleraceae), que é da mesma família (Portulacaceae), a meruginha (Montia fontana, herbácea anual ou vivaz a que os ingleses chamam blinks) já foi consumida em sopas e saladas, numa altura em que as hortas não resistiam a invernos tempestuosos. Perdeu o lugar à mesa quando se diversificou o mercado de alfaces e outros vegetais de maior porte ou sabor mais apurado.

Nesta história gastronómica entra outra beldroega, dita de Inverno (Montia perfoliata), que algumas Floras preferem arrumar no género Claytonia. Não há muitos registos da presença dela em Portugal ou na Península Ibérica, sinal de que esta planta anual e nativa da América do Norte (que, em inglês, se chama miner's lettuce por ter sido fonte preciosa de vitaminas para os garimpeiros nos primeiros tempos da Califórnia) se naturalizou na Europa mas não tem potencial invasor. Aprecia locais mais secos do que a sua congénere, dando-se bem em solos arenosos na orla de matos, mas as sementes precisam das chuvas de Outono para germinarem. A população que encontrámos mora perto da ribeira da Teja, no concelho de Vila Nova de Foz Côa.


ribeira da Teja, Numão, Vila Nova de Foz Côa

O aspecto da Montia perfoliata é um pouco bizarro. Ao contrário da M. fontana, que só tem folhas caulinares, na M. perfoliata as folhas são essencialmente basais, a formar uma roseta, e parecem colheres de cabo longo. No talo, que é estriado, por vezes alado, há ainda um (e um só) par de folhas caulinares, unidas numa taça que talvez funcione como bráctea a proteger a inflorescência. Nas fotos desta parte da planta, parece que o caule fura estas duas folhas geminadas -- e é a isso que o epíteto perfoliata alude. As flores reúnem-se em racimos terminais que lembram enfeites (piercings) em volta de um umbigo.

22.4.16

Filódios & cladódios


Lathyrus ochrus (L.) DC.

O chícharo (Lathyrus sativus) é o mais famoso representante do género, mas estas leguminosas que se enrolam noutras plantas para chegarem mais alto aparecem em muitas cores e feitios, especialmente em áreas de clima mediterrânico, e são um dos sinais mais firmes de que a Primavera já não volta atrás. Não fosse o prestígio de Lineu, seríamos tentados a afirmar que as flores do Lathyrus ochrus são brancas, e não amarelas como indica o epíteto por ele escolhido. Trata-se, em qualquer caso, de um amarelo muito pálido, que precisa de uma boa demão de Photoshop (inexistente à época em que viveu o patriarca da botânica) para se manifestar. Se não se destaca pela cor das flores, este chicharão vale como acepipe para o gado (é ocasionalmente cultivado como forragem) e singulariza-se pelo aspecto peculiar: o caule parece agasalhado pelas folhas, como quem se encolhe dentro da gabardina para se resguardar da intempérie. O exemplar das fotos era ainda jovem; à medida que cresce, esta planta anual liberta-se um pouco do seu ar friorento. Quanto ao agasalho em si, esclareça-se que ele não é formado por folhas normais, mas sim por filódios. Um filódio é uma folha incompleta, reduzida ao pecíolo, que para compensar a falta vai alargando até tomar o aspecto da (inexistente) lâmina foliar. Algo de semelhante se passa com a gilbardeira (Ruscus aculeatus), onde aquilo que nos parece ser uma folha é na verdade outra coisa (chamada cladódio) indevidamente inchada para se disfarçar de folha. Estas minudências taxonómicas não têm porém grande relevância para a vida da planta: desde que sejam verdes, filódios e cladódios cumprem com lealdade, como se fossem folhas, a função fotossintética que lhes é confiada.

Quando a planta está desenvolvida, as folhas superiores do Lathyrus ochrus, embora ainda apresentem os pecíolos intumescidos, dispõem já de um ou dois pares de folíolos (foto). Todas as folhas, completas ou reduzidas, são rematadas por gavinhas sempre à espreita de um pau para se agarrarem. Florescendo entre Março e Junho, com flores solitárias ou (raramente) aos pares, e com caules muito ramificados capazes de atingir 1,5 m de comprimento, o Lathyrus ochrus distribui-se por toda a Europa mediterrânica e pelo norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia); nativo de Portugal continental, está naturalizado nos Açores (ilhas de São Miguel e Santa Maria) e na Madeira.

17.4.16

À solta no Cachorro


Cachorro, Pico, Açores

Mesmo encostada ao aeroporto, de que está separada apenas por uma estrada e por uma vedação metálica, Cachorro é uma aldeia de 20 ou 30 casas de negríssimo basalto na costa norte da ilha do Pico. O nome vem-lhe da forma que tomou uma das rochas à beira-mar, lembrando um cachorro contemplativo que nunca se cansa do espectáculo das ondas. Se a aldeia em si é típica que baste para atrair turistas, e se o impassível cachorro está sempre disponível para ser fotografado, já para o botânico amador os motivos de interesse incluem uma rara população costeira de cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), um manto amarelo de cubres (Solidago azorica), e a maior concentração de camarinhas (Corema album subsp. azoricum) de que há notícia no arquipélago. Por uma vez em consonância de gostos, turistas e botânicos podem, no Verão, deliciar-se com os figos que se oferecem maduros, nas vinhas abandonadas, à gula de quem os queira apanhar.


Hylocereus undatus (Haworth) Britton & Rose

Entre as casas recuperadas para ocupação sazonal e as lojas de artesanato para turistas, sobram ainda, no Cachorro como em todas as aldeias, umas tantas casas abandonadas à espera de quem lhes dê uso. Aquela que se vê na imagem, com o telhado ainda novo, não dá mostras de ruína iminente, mas os tentáculos que por ela vão subindo, aproveitando a longa ausência dos proprietários, ameaçam furar-lhe as paredes e inundar de verde todas as divisões. Esta paciente ocupação clandestina é levada a cabo por um cacto trepador vindo das Caraíbas, de seu nome Hylocereus undatus. É bom esclarecer que este cacto não está naturalizado nos Açores, e que dificilmente terá condições de o fazer: não tolerando temperaturas inferiores a 15ºC, nunca se poderá afastar muito da linha de costa; e a ausência de polinizadores especializados deverá impedir a produção de sementes. Assim, o exemplar que ameaça sufocar a casa foi decerto plantado. Deixado entregue a si próprio, ficou fora de controle, como cão de guarda que, ignorado pelos donos, acaba por se virar contra eles.

O género Hylocereus acolhe umas vinte espécies de cactos trepadores originários da América tropical; traduzido à letra, esse nome significa cacto-dos-bosques, o que dá uma indicação precisa do habitat destas plantas, habituadas a encavalitar-se em árvores, sob generosa sombra, em vez de penarem ao sol do deserto. O Hylocereus undatus, talvez originário em cultivo por hibridação (não se conhece em estado natural), é o mais popular do seu género em jardins tropicais, e também é apreciado pelos frutos. As flores, que são grandes (30 cm de diâmetro), brancas e fragrantes, só abrem à noite. Fica a sugestão, para quem estiver no Pico em Agosto, de uma visita nocturna ao Cachorro em busca desta flor.

15.4.16

Campainhas de Primavera

Ao contrário do Leucojum autumnale, com flores no Outono e fácil de avistar mais ou menos por todo o país, o L. tricophyllum, de floração primaveril, prefere o sul, e mesmo na Península Ibérica restringe-se à região sudoeste. Parece ter relutância em ultrapassar a barreira do rio Tejo. Por isso, fomos nós vê-lo ao Ribatejo.



Leucojum trichophyllum Schousb. [sinónimo: Acis trichophylla (Schousb.) G. Don]

Demos com ele a formar tapetes branquinhos em taludes arenosos de berma de estrada e em clareiras de pinhais, e notámos logo como as flores são bastante maiores do que as do L. autumnale. Pendentes (para a última foto foi preciso levantar-lhes o queixo), solitárias ou dispondo-se em umbelas de duas a quatro por escapo, com um pedicelo longo e seis tépalas brancas, as flores exibem uma espata escariosa tal como os narcisos e os alhos (género Allium), e que é típica da família Amaryllidaceae. A cor dos talos (avermelhados no L. autumnale) e a da estrutura reprodutora na base das tépalas (verde no L. tricophyllum) são outros pormenores que distinguem estas duas espécies. Além deles, observe-se que a folhagem, que é basal, surge no Leucojum trichophyllum antes antes da floração, quando no L. autumnale são as flores que nascem primeiro.

Em Espanha há registo de mais duas espécies de Leucojum: uma delas, L. valentinum, também de floração outonal, é endémica da região de Valencia; a outra, L. aestivum, com flores entre Fevereiro e Junho a que os ingleses chamam com graça Summer snowflakes, é nativa do sul da Europa, incluindo o sul de Inglaterra, e ilhas Baleares. Em Portugal pode ver-se (já em Fevereiro) em alguns velhos jardins.

Como já aqui antes comentámos, estudos morfológicos e genéticos publicados em 2004 fundamentam uma alteração na classificação taxonómica destas duas espécies de Leucojum, que deveriam transitar para o género Acis (um nome talvez inspirado no mito de Acis e Galatea). Esta diferenciação não é, contudo, recente. Ela é referida na obra The Paradisus Londinensis (1807), de R. Salisbury, e por Robert Sweet que, em 1829, usou oficialmente o nome Acis autumnalis para designar o Leucojum autumnale. Desde 2014, são aceites as novas denominações para três das quatro espécies de Leucojum que ocorrem na Pensínsula Ibérica (Acis autumnalis, Acis trichophylla e Acis valentina), mantendo-se inalterada a filiação do Leucojum aestivum.

10.4.16

Em louvor dos taludes


Ferula communis L.

Nas estradas sinuosas das serras da Peneda e do Gerês, não são apenas as curvas que aconselham o condutor a moderar a velocidade. Grupos de vacas ou ovelhas tresmalhadas vão debicando, na maior das calmas, e indiferentes aos automóveis que são obrigados a desviar-se ou a parar, as ervas nem sempre tenras que revestem os taludes. É sorte delas que a canafrecha não cresça nas serranias minhotas, caso contrário essa refeição colhida na berma da estrada bem poderia ser a última. Fossem elas transmontanas de Vimioso, e ao risco de atropelamento próprio de estradas mais rectilíneas somar-se-ia o da ingestão deste apetitoso veneno. A Ferula communis, assim chamou Lineu à canafrecha, é uma das maiores herbáceas da nossa flora, uma haste de mais de dois metros de altura encimada por vistosas bolas amarelas, mas não é pela beleza que um pastor lhe vai perdoar a perigosidade. Não é que seja irremediavelmente mortal como outras umbelíferas (de que se destacam a Oenanthe crocata e o Conium maculatum), mas o seu consumo continuado provoca hemorragias internas que podem ser fatais, em especial para o gado ovino.

Não sendo nós pastores, é com agrado que vemos a canafrecha contribuir para o embelezamento de um dos troços de estrada botanicamente mais ricos do país, como é a EN218 junto ao rio Maçãs, em Vimioso. Herbácea perene de crescimento rápido e com óbvia vocação ornamental, a sua floração em terras nortenhas é tardia, decorrendo numa altura, entre Junho e Julho, em que o fulgor da Primavera já se desvaneceu. A preferência desta umbelífera por lugares alterados e substratos rochosos fazem dela uma frequentadora habitual das bermas de estrada em Trás-os-Montes. Surge mais raramente marginando prados e campos de cultivo, onde, conforme pudemos testemunhar, a sua presença não é bem-vinda: em Campo de Víboras, num passeio em Junho sob um calor impiedosamente estival, encontrámos muitas hastes decepadas ao longo do caminho.

Quem vê a canafrecha em flor não a irá por certo confundir com o funcho (Foeniculum vulgare), que tem uma floração bastante mais discreta, é abundante em terrenos baldios por todo o país, e compensa a desgraciosidade com uma firme reputação culinária. As duas umbelíferas podem contudo confundir-se na fase vegetativa, pois as folhas de ambas são muito divididas, com segmentos de última ordem lineares: compare-se a nossa terceira foto com esta outra da folhagem do funcho. Para evitar enganos, convém estar atento às folhas basais: as da canafrecha (que ninguém no seu juízo há-de querer usar nos seus cozinhados) são bastante maiores e têm um aspecto plumoso muito característico (ver foto).

7.4.16

Flores da Boneca

A serra da Boneca, em Penafiel, a cerca de 25 km do Porto, parece uma extensão das de Valongo e de Paredes, com o mesmo solo xistoso, idênticas fragas de recorte acentuado e muito cascalho, os mesmos eucaliptais trepando-lhe pelas encostas. Dela se avistam alguns meandros do rio Douro e pequenas povoações que se abrigam nos vales ou aproveitam a proximidade de riachos e moinhos. A meia altura, há o aleijão de um aterro sanitário e restos de rocha escalavrada numa pedreira; no topo, assentaram um parque eólico e rasgaram os respectivos acessos. Mas sobraram uns recantos preservados com vegetação muito interessante. Além de taludes musgosos ou com escorrências permanentes de água, onde vicejam Ophioglossum lusitanicum, Cicendia filiformis, Centaurium maritimum, Erica cilliaris, Radiola linoides e Serapias cordigera, entre muitas outras herbáceas que apreciam solos húmidos, há fendas de rocha recheadas de cravos, armérias, silenes, narcisos e, no final de Março, esta asterácea em plena floração.




Leucanthemopsis flaveola (Hoffmanns. & Link) Heywood

Regalada em prados ralos, na berma dos caminhos, em clareiras de matos ou em nichos na pedra nua, a população de Leucanthemopsis flaveola na serra da Boneca é notável e uma surpresa para quem, como nós, a tinha visto apenas no Gerês e na serra da Estrela em contingentes bastante mais reduzidos. A origem do nome da serra da Boneca é controversa, mas se aludiu a algum pormenor formoso, elegante e/ou vistoso, então pode ter sido este amarelo, de trigo quase maduro, que a enfeita na Primavera.



Na Beira Alta e no nordeste do país ocorre outra espécie deste género, a L. pulverulenta, igualmente perene, com touça lenhosa mas de pequeno porte, e folhagem cinzenta acetinada; não se confunde com a L. flaveola porque as lígulas das inflorescências são brancas, embora de base amarelada.

2.4.16

Erva de espantar ratos



Euphorbia lathyris L.

Como todas as suas congéneres, esta eufórbia segrega um látex irritante quando lhe ferimos o caule. A prudência aconselha-nos a não lhe pôr a mão em cima, e talvez ratos e toupeiras, munidos de uma sabedoria instintiva, saibam igualmente manter-se à distância. Pois diz-se que a planta é tradicionalmente usada para afugentar esse bichos de hortas e jardins. Não sabemos se a sua eficácia é equiparável à do proverbial espantalho para pássaros, mas parece-nos que qualquer outra eufórbia de médio porte (como a E. characias e E. hyberna) faria o mesmo serviço. Impõe-se reconhecer, à revelia do botanicamente correcto, que há eufórbias mais bonitas do que outras, e que a Euphorbia lathyris, com as suas folhas glaucas dispostas aos pares numa simetria perfeita, é de uma elegância quase estatuesca. É provável que seja cultivada pela beleza, mas quem a semeia por gostar dela pode sempre usar o pretexto de espantar ratos para não dar parte de fraco.

Planta bienal, glabra, capaz de atingir 1,5 m de altura, de caule geralmente não ramificado, florescendo na Primavera e no Verão, a Euphorbia lathyris, que é originária da Europa mediterrânica (Córsega, Itália, Sardenha, Grécia), encontra-se hoje disseminada por quase todo o mundo, e é uma invasora confirmada em paragens longínquas como a Austrália e a América do Norte. Em Portugal é pouco comum (vimo-la apenas no Minho), mas noutros países europeus é presença assídua perto de povoações, em terrenos baldios e bermas de estrada.

29.3.16

Dança das ervilhas



Pisum sativum L.

A ervilheira, cujas vagens contêm filas de sementes esféricas muito leves, é uma planta anual que aprecia o frio e que entrou tardiamente, depois de muitos outros vegetais, na cozinha europeia. Entretanto, teve outros usos pois há mais de dois séculos que as ervilhas colaboram com a ciência. Depois de, pela mão experimentada de Mendel, terem sugerido as leis gerais da genética, ajudam agora os biólogos a entender como é que as plantas comunicam entre si e de que modo conseguem processar a informação que lhes chega do ambiente.

Neste âmbito, a discussão (e a controvérsia) centra(m)-se nas questões seguintes: os neurónios, que as plantas não têm, constituem uma solução muito engenhosa para guardar e gerir informação; mas haverá outras? As plantas têm consciência do que as rodeia, ainda que por mecanismos distintos dos dos animais? O problema é complicado porque temos, naturalmente, uma visão antropomórfica do mundo. Parece-nos que, sem um cérebro que pense, memorize, aprenda, comunique, interaja, se emocione, tenha consciência de si e dos outros, e saiba coordenar tudo isto, não se é inteligente. Repare-se que, se em vez da palavra «plantas» usarmos «computadores», estas perguntas não são novas (e as respostas resumem-se a: um computador pode ser capaz de muitas tarefas complicadas, mas não tem consciência de que as realiza nem sente satisfação por isso).

A combinação de qualidades que usámos para definir ser inteligente é discutível mas, se devidamente adaptadas ao mundo vegetal, talvez haja indícios de algumas delas entre as plantas. Nestas, aos nossos ouvidos silenciosas, que precisam de se defender, de ter sempre à mão água e nutrientes, e de um meio eficiente e controlável que transporte o pólen entre duas flores impedidas de se tocar, reconhecemos sinais de uma notável adaptação aos habitats e aos polinizadores. E vêmo-las capazes de inúmeras decisões (em que direcção crescer, quantas folhas novas devem nascer neste ramo, quando florir, como encontrar água, quando abrir os frutos e largar as sementes, etc.) que são demasiado difíceis de realizar quase em simultâneo sem algum grau de inteligência.

Mas, afinal, que provas nos apresentam os cientistas de que as plantas são capazes de comportamentos inteligentes? É aqui que intervêm as trepadeiras, como as que dão ervilhas. Elas usam gavinhas para se segurar enquanto ascendem em busca de luz e espaço. Para isso, precisam de saber localizar lugares onde se possam agarrar, mas não têm olhos para identificar postes. Contudo, neste vídeo, podemos observar como as plantas orientam a gavinha para um poste, revelando uma percepção do ambiente com que não contávamos. Além disso, repare-se como, mal uma das trepadeiras se enrola no pau, a outra planta pressente-o e, vencida, procura alternativas. Como foi possível transmitir essa informação de uma planta a outra? Que órgãos as fazem tão sensíveis a tantos estímulos? O aparato sensorial das plantas contém versões dos nossos cinco sentidos (sentem diferenças químicas no ar, na água ou no solo; reagem de modo distinto a diferentes comprimentos de onda da luz; as gavinhas sabem quando encontram um objecto em que se enrolar; e, acredite-se ou não, em alguns testes parecem saber interpretar sons), mas é muito mais completo e minucioso. Os cientistas estão convencidos de que se trata de uma comunicação química ou por sinais eléctricos, que podem ser emitidos por toda a planta. Além disso, as experiências destes neurobiólogos parecem indicar que as plantas memorizam informação, e com essa aprendizagem são capazes de resolver problemas que ponham em causa a sua sobrevivência (como se conta neste documentário).

A teoria mais bem aceite é a de que as células de cada planta funcionam como colónias de formigas ou abelhas, em que um número muito grande de indivíduos, cada um deles sem inteligência digna de nota, trabalha eficientemente em grupo, tal qual uma rede de ligações optimizada. De resto, toda a planta é feita de módulos, alguns descartáveis sem qualquer risco, e cada um coopera, seja a comunicar, a evitar ameaças ou a disseminar-se. Ora, tal como na Internet, para conseguir isto não é preciso um cérebro; basta estar vivo e pertencer a uma estrutura com tarefas bem distribuídas e devidamente coordenadas.

Mas os cientistas são teimosos, e animam-se precisamente com os desafios mais difíceis. Inspirados pela obra The power of movement in plants, de Charles Darwin, têm procurado nas plantas uma estrutura análoga a um cérebro. E, de facto, localizaram em cada raiz uma região muito mais bem oxigenada que as demais e sem a qual, embora cresça, a raiz perde a habilidade de seleccionar a direcção privilegiada em água, nutrientes e solo. É um pedaço minúsculo de raiz perto da ponta, enterrado para reduzir o risco de ser comido ou destruído, mas multiplique-se esse bocadinho pelo número de raízes e teremos, não um cérebro, mas um conjunto de células que funciona como um gigantesco sistema nervoso central, cuidadosamente empenhado na sobrevivência da planta e da espécie. Talvez o leitor aprecie ouvir mais detalhes nesta palestra (que dura cerca de 15 minutos e pode ser acompanhada por legendas em português se escolher essa língua em «Subtitles»), com o testemunho de um desses cientistas.

23.3.16

Agulhetas


Erodium botrys (Cav.) Bertol.

Embora pouca gente tenha consciência disso, o mistério dos bicos-de-cegonha é pelo menos tão aliciante como o das girafas. Por que razão os frutos dos gerânios e aparentados são tão desmesuradamente compridos, fazendo lembrar agulhas ou os bicos de certas aves? É certo que são agulhas de ponta mole, pouco aguçadas, e por isso não funcionam como defesa contra os herbívoros. Porém, à semelhança do que sucede com as vagens de certas leguminosas, os frutos, ao secarem, abrem de forma violenta, arremessando as sementes para longe. No caso dos Erodium, essas sementes têm uma longa cauda que, além de funcionar como mola, se entrega, quando depara com alguma humidade, a um contorcionismo frenético, tentando perfurar o solo como se de um parafuso se tratasse (vídeo). Uma semente que aprendeu a ser semeadora, abrindo um buraco para nele se enfiar... Quem disse que as plantas não têm inteligência? Que processo evolutivo pôde dar origem a um mecanismo destes? No fim de contas, talvez o pescoço da girafa seja mais fácil de explicar.

Plantas oportunistas e desprestigiadas, frequentadoras de relvados, de jardins ao abandono e de bermas de caminhos, mas também de prados naturais, os Erodium dão flores bonitas que ganham em ser vistas ao perto mas valem igualmente pelo conjunto. O E. botrys distingue-se pelas flores comparativamente grandes e de formato campanulado, com as pétalas sobrepondo-se umas às outras (no E. moschatum e no E. cicutarium as pétalas são mais estreitas e estão bem separadas), mas é pelos frutos que ele mais se destaca entre os congéneres. São 13 cm bem medidos desde o cálice até à ponta do bico, o que quase duplica a melhor marca da concorrência. Longbeak stork's bill, um dos nomes que os anglo-saxónicos lhe dão, é um justo reconhecimento da sua valia atlética.

Nativo da região mediterrânica e naturalizado nos EUA, Austrália e Nova Zelândia, o Erodium botrys, ainda que seja pouco frequente no Minho e Douro Litoral, surge em quase todo o território continental e também no arquipélago da Madeira. O seu calendário oficial de floração vai de Março a Junho, mas, como acontece com muitas outras plantas ruderais, não desperdiça nenhuma ocasião, mesmo fora da época, para aparecer e cuidar da vida.

19.3.16

Analfabetismo ambiental

(Clique para aumentar - abre numa nova janela)

A nefasta peça de propaganda acima reproduzida foi publicada anteontem, dia 17 de Março de 2016, no suplemento Se7e da revista Visão. Por ela ficamos a saber, nós os continentais, que, se quisermos ter em casa uma amostra da genuína flora açoriana, devemos dirigir-nos ao viveiro mais próximo para comprar uma hortênsia - uma planta que, segunda a mesma revista, faz «parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores». É de bradar aos céus. Todos os que vivem nos Açores ou visitam o arquipélago deveriam já saber que a Hydrangea macrophylla não só não é açoriana como é uma invasora capaz de causar os maiores estragos às plantas indígenas. Acontece que essa necessária pedagogia, por muito empenhada que seja, é permanentemente boicotada por uma indústria turística que promove uma imagem estereotipada dos Açores, vendendo paisagens humanizadas com pastagens, vacas e hortênsias como se de natureza em estado puro se tratasse. Não era contudo de esperar, de uma revista como a Visão, que publica anualmente uma edição verde sobre boas práticas ambientais, tamanho grau de iliteracia. Por isso escrevi à revista a carta que a seguir transcrevo:

«No suplemento Se7e da Visão de 17/III/2016, as jornalistas Florbela Alves e Susana Lopes Faustino, ao apresentarem as hortênsias como representantes da flora açoriana e "parte da paisagem natural de todas as ilhas dos Açores", cometem um erro de palmatória capaz de descredibilizar todo o trabalho de sensibilização ambiental em que a Visão se tem regularmente empenhado.

A hortênsia (nome popular da Hydrangea macrophylla) é uma planta originária do Japão, e é tão açoriana como o eucalipto é português. Foi introduzida em Portugal e em muitos outros países ocidentais em meados do século XIX como planta de jardim. Nos Açores ganhou popularidade não tanto pelas qualidades ornamentais mas por ser imbatível na formação das sebes impenetráveis que dividem as pastagens e marginam estradas e caminhos. O azul das hortênsias sublinhando o traçado sinuoso das estradas encantou os visitantes e, com o crescimento do turismo, acabou por se tornar símbolo dos Açores. Um símbolo equivocado e perigoso de que o arquipélago deveria ser capaz de se libertar sem que o turismo sofra com isso. Em Viana do Castelo, afinal, também deixou de se fazer (e ainda bem!) a Festa da Mimosa, e não consta que a capital do Alto Minho sofra hoje com falta de visitantes.

Bastaria a circunstância de a hortênsia não ser açoriana para ser estranho elegê-la como símbolo do arquipélago. Há muitas plantas genuinamente açorianas, e não menos bonitas, que cumpririam essa função com muito mais propriedade. Entre elas avulta a endémica vidália (Azorina vidalii), uma planta que dá flores que fazem lembrar sinos e não se parece com nenhuma outra deste mundo. Mas, além de não fazer parte da "paisagem natural" das ilhas, tratando-se em vez disso de um acrescento postiço, a hortênsia contribui activamente para a degradação dessa mesma paisagem, pondo em risco alguns dos últimos redutos da vegetação nativa ao invadir caldeiras, linhas de água e florestas naturais. A rocha dos Bordões na ilha das Flores e a Caldeira da ilha do Faial, ambas pintadas de alto a baixo no Verão com o azul das hortênsias, fornecem prova assustadora da perigosidade deste arbusto para a flora endémica do arquipélago.

O turista comum, mal informado ou desinformado, enche os olhos com o azul das hortênsias e não quer saber de mais nada. Está no seu direito. Mas um jornalista tem obrigação de saber um mínimo sobre aquilo que escreve, pois a sua função não é disseminar a ignorância mas sim informar quem o lê. Há nos Açores quem se preocupe com a educação ambiental das gerações mais novas (e também das mais velhas), ensinando-as a conhecer o genuíno e tão ameaçado património natural do arquipélago. Ao publicar este pedaço de desinformação, a Visão torpedeia o trabalho dos educadores e dá força à ignorância.»

17.3.16

Salsa-brava

O leitor vai hoje acompanhar-nos num percurso pelo rio Mente, na fronteira de Chaves com Vinhais. É Verão e o rio atravessa-se bem a pé, a água mal cobre os calcanhares. São pouco mais de seis passos largos, o riacho vai ali quase enxuto, mas as pedras limosas do leito obrigam-nos a caminhar com cautela. No lado de Chaves, a limpeza da margem foi tão metódica que quase não sobra vegetação; em contrapartida, ali se banham e petiscam animadamente muitos flavienses no seu descanso de Agosto. Regressemos, por isso, à margem de Vinhais, onde a vegetação é exuberante e nos reserva inúmeras surpresas.

No leito de cheia, que é também orla de um bosque, está esta herbácea perene:




Peucedanum gallicum Latourr.

O que acha que é? Pela inflorescência, não há dúvida de que pertence à família Umbelliferae (para alguns Apiaceae). A folhagem lembra a do Peucedanum lancifolium, embora as deste sejam em geral menos divididas. E, portanto, ousamos afirmar que também o género está encontrado: Peucedanum. E a espécie? Ainda antes de ler a chave da Flora Ibérica ou a do primeiro volume da Nova Flora de Portugal, notemos que a umbela da terceira foto é densa, airosa e simétrica, como um guarda-chuva sem defeito. Pelo contrário, a do outro Peucedanum que conhecemos de prados húmidos e sombrios, o P. lancifolioum, é mais rala e deselegante, com os raios (os pés das flores, quais varas de guarda-chuva) encavalitados e de tamanhos distintos. Há ainda dois outros pormenores que indicam que o Peucedanum que hoje aqui mostramos não é o P. lancifolium: as bractéolas (brácteas na base das umbélulas - veja na última foto) são muito longas e finas, em contraste com as do P. lancifolium; e as brácteas involucrais (na base da umbela), que aqui quase não se vêem nas fotos porque são caducas, persistem na maturação dos frutos do P. lancifolium.

São poucos indícios, é certo, e por cá há registo de cinco espécies de Peucedanum, mas a ecologia ou o tipo de solo que requerem não são idênticos. Confrontadas as tais chaves das Floras, concluímos que se trata do Peucedanum gallicum (que já foi P. parisiense), nativo do noroeste da Península Ibérica e de França.

Antes de arrumar a máquina fotográfica na mochila e de subir a encosta até à estrada, reparemos que as pétalas (em detalhe na quarta foto) lembram porta-guardanapos (aqueles utensílios de mesa em forma de anel, hoje quase esquecidos, usados para colocar guardanapos individuais de pano) cujo tom rosado resiste caprichosamente nos frutos.

12.3.16

Salada de espinhos




Onopordum acanthium L.

Há frutos e verduras que, tradicionalmente, só eram comidos pelos bichos, até que alguns citadinos tocados pela nostalgia do campo descobriram que também podem comê-los com gosto. As bolotas da azinheira doce (Quercus rotundifolia) são, ao que dizem os convertidos, tão saborosas como as castanhas, não se justificando, alegam eles, que tal acepipe seja reservado aos porcos. E são inúmeras as ervas espontâneas (como a chicória, a beldroega e as urtigas) que, usadas em sopas ou saladas, são um condimento pelo menos tão agradável como as couves e alfaces cultivadas em hortas. Mesmo alguns cardos de porte avantajado podem (como nos ensina o João Gomes) servir de refeição, embora apenas quando as folhas são ainda tenras.

O aspecto agressivo do cardo que hoje trazemos ao escaparate desencoraja qualquer apetite; e, de facto, embora tenha aplicações medicinais, não consta que ele seja normalmente usado na dieta humana. O nome Onopordum diz-nos porém que é comido pelos burros, seja porque lhes agrada, seja por não terem nada mais palatável em que pôr o dente. Não é impossível que, em Portugal, a dieta asinina obedeça ainda a essa tradição: os burros já são poucos, mas em Trás-os-Montes ainda se vão vendo, e é também no nordeste do país que se concentra a distribuição nacional deste cardo. Que, de resto, é nativo de quase toda a Europa (a excepção é a Escandinávia) desde a Península Ibérica até à Rússia, e está naturalizado - e até assinalado como invasor - nos EUA, Austrália e Nova Zelândia.

O cardo-dos-burros é, noutras paragens, conhecido como cotton thistle graças à lanugem branca que recobre folhas e caules. Com um ciclo de vida bienal, desenvolve uma roseta basal de folhas no primeiro ano e floresce no segundo, produzindo então uma quantidade assombrosa de sementes (diz-se que até 40000 por indivíduo). Atinge os dois metros de altura, as hastes estão guarnecidas por membranas espinhentas, e as folhas caulinares, que são decurrentes, têm os dentes também rematados por compridos espinhos. Os capítulos florais, que têm uns 3 a 5 cm de diâmetro, apresentam forma achatada e, entre Maio e Julho, surgem solitários ou em grupos de 2 ou 3 na extremidade das hastes.

Como tantos outros cardos, o Onopordum acanthium prefere lugares perturbados como bermas de estrada e terrenos baldios. É algo surpreendente que uma espécie tão prolífera e de ecologia tão pouco exigente se mantenha confinada a uma área restrita do nosso território.

9.3.16

Pseudocenoura de Sicó



Orlaya daucoides (L.) Greuter

As umbelíferas com inflorescências como as da cenoura (Daucus carota) são difíceis de destrinçar, e esse problema não deve ser só nosso. Decerto também os polinizadores se apercebem de que as umbelas são semelhantes, e hesitam na planta a escolher. A menos que o néctar (que, quando provámos, sabia a água com açúcar) tenha variações de sabor, aroma e nutrientes que os insectos detectem, ajudando-os a seleccionar as flores que mais apreciam. Na eventual falta destes pormenores que sinalizem as flores mais apetecíveis, e de cuja existência não conhecemos qualquer prova, há ainda as espécies que, além de investirem numa inflorescência repleta de flores, a aumentam alterando as pétalas das flores externas para que fiquem mais vistosas.

É precisamente esse o estratagema da planta que está hoje na montra, fotografada num bosque de azinheiras e carvalhos em Sicó: exibe airosas pétalas bilobadas no bordo da umbela, como orelhas de cachorro, que nenhum polinizador minimamente atento deixará de avistar, mesmo de longe. Trata-se da única espécie do género Orlaya nativa em Portugal, apesar de em Espanha ocorrer outra, a O. grandiflora. O nome do género homenageia Ivan Semenovych Orlay (1771-1829), médico e botânico ucraniano.

É uma planta anual, de distribuição ampla na região mediterrânica e na Ásia, que se distingue bem de alguns parentes pela folhagem. Sugerimos ao leitor que observe os talos estriados e as umbelas terminais, recheadas de flores masculinas além de umas poucas hermafroditas. (Pode tentar localizá-las na 3ª foto -- onde também se vê emboscada uma ameaçadora aranha-caranguejo, Thomisus onustus -- ou nesta imagem.) Os frutos têm uma forma bizarra, lembrando espigas verdes com ganchos no lugar dos grãos de milho.

Sicó