10.2.10

Pombinhas na praia



Corrigiola littoralis L. / Corrigiola telephiifolia Pourr.

Talvez em nenhum outro país do mundo haja tantas dinastias de pechisbeque como em Portugal. Em cada uma das nossas famílias proeminentes, há aqueles que granjearam fama ou prestígio, e os outros que herdam o lustro sem nada fazerem por merecê-lo. E tal fulgor baço, em segunda mão, é suficiente para garantir uma existência confortável a esses satélites desprovidos de qualidades luminescentes. Aquele que, não sendo ele próprio ilustre, é - conforme atestam os seus sobrenomes - filho, irmão, neto ou sobrinho de «alguém», tem, para seu proveito pecuniário, lugar garantido nos conselhos de administração, e, como caução cultural, direito a destaque nos escaparates para os seus medíocres livros.

No mundo das plantas pode não haver vantagens apreciáveis em se pertencer a uma família de pergaminhos ilustres. Consideremos o caso da família Caryophyllaceae: deu-nos os cravos da revolução (género Dianthus); encanta-nos com as silenes que, nas praias ou nos montes, são das plantas mais atraentes da nossa flora espontânea; e ainda, benfazeja, nos incita à higiene com a erva-saboeira. Há, porém, membros da família de que nem notamos a existência, e que até podemos pisar sem dar por isso. Aos olhos de uma formiga, tivesse ela vagar para tais contemplações, as flores da correjola, brancas e tingidas de rubro, devem ser das mais formosas que existem. Mas nós, por nem sempre andarmos de gatas com uma lupa na mão, não lhes damos grande valor. Uma florinha de 2 mm não é coisa que deslumbre a nossa vista desarmada.

A Corrigiola littoralis, conhecida também como erva-pombinha, é, como o seu nome sugere, uma planta das dunas do litoral. Tão discreta ela é que se torna difícil dizer se ocorre ou não frequentemente no nosso país. É, em qualquer caso, muito fácil de detectar no Parque das Dunas da Aguda, em Gaia, onde até lhe puseram placa identificativa. A segunda espécie espontânea em Portugal, a Corrigiola telephiifolia, parece uma cópia exacta da primeira. Além do formato das folhas, há porém outra diferença subtil entre as duas (clique nas fotos para ver melhor): na C. littoralis, há folhas que se acumulam juntam às umbelas floridas, enquanto que na C. telephiifolia os pedúnculos das umbelas surgem bem destacados das folhas. Acresce que, quando fotografámos a segunda, ela estava refugiada como moradora clandestina em jardim muito longe da praia.

9.2.10

Sabina e o mar


Juniperus phoenicea L. subsp. turbinata (Guss.) Nyman


Como vão? Afadigados? Mas agora estão sentadinhos, não é? Então conversemos nesta esquina, desse modo descansam e eu tenho a graça da vossa companhia.

Sabem o que é um sabino? Eu nunca tinha usado esta palavra. É um cavalo de pelagem branca mesclada de vermelho e preto. Curiosamente, uma sabina não é uma égua, e até pertence a outro reino: é um junípero que tem frutos igualmente coloridos. O das fotos, acompanhado por um pinheiro moribundo, tem copa turbinata, que traz à memória um pião, aquele brinquedo de madeira em forma de pêra com uma ponta metálica.

[Hã?... E conseguiam jogá-lo para ele bailar aprumado, manipulando o fio sem o fazer tropeçar na dança? Eu não. O pião era brinquedo de meninos. Agora vendem-se em cristal, prenda desajeitada. Felizmente a ciência não é esquisita quanto ao género que a estuda, e a requintada física deste movimento está acessível a todos. Mas estou a desviar-me, onde é que eu ia?]

Ah, sim, a copa densa deste junípero tem o formato de um pião grande, excepto se o vento exagera e a obriga a rastejar, torcendo-lhe a vontade. Como o cavalo ou o pião, a sabina (referenciada por alguns como Juniperus turbinata Guss.) tem encantos. Mora em matagais litorais, dunas fixas e areais, ou vales quentes e secos da região mediterrânica. Floresce de Fevereiro a Abril e distingue-se de outros juníperos por ter frutos ruivos quando maduros (com costuras na casca), e alguns ramos que se juntam numa ponta alargada, como uma cauda, excedendo a grossura da ramagem adjacente; além disso, as folhinhas cobrem os talos, em disposição tão justa que estes são suaves ao tacto. Como é frequente na família Cupressaceae, as folhas juvenis (três por cada nó, aciculares, de uns 15 mm de comprimento) são distintas das adultas (estreitas, escamiformes, com glândulas resinosas no dorso). Os cones masculinos e femininos nascem na mesma planta (raramente em pés distintos).

É espécie longeva e protegida em alguns habitats. O que significa isso? Pouco, para falar verdade. A madeira é compacta, de grão fino, duradoura e aromática, por muitos a preferida para as lareiras. Por isso, e porque cresce lentamente, são escassos os exemplares bem desenvolvidos.

8.2.10

Cidadã do mundo


Senecio vulgaris L.

A tasneirinha ou cardo-morto é o par ideal para a barbicha-de-bode: são duas plantas sem eira nem beira, e cada uma delas tem o que falta à outra. Enquanto que as inflorescências do Tragopogon pratensis são constituídas unicamente por florículos externos, as do Senecio vulgaris só têm florículos tubulares. Dito de modo menos rigoroso, as primeiras dispensam a almofadinha central, que é única coisa que existe nas segundas.

Quando as inflorescências da tasneirinha, muito bem arrumadas em cilindros verdes decorados com pintinhas negras, se transformam em frutos, o resultado é uma esfera pilosa daquelas que se sopram para averiguar se o pai do outro é ou não careca. Foram estes cabelos brancos - que de facto se chamam papos, e são igualmente vistosos nos dentes-de-leão - que motivaram o nome genérico Senecio, do latim senex = homem velho.

Resistindo tenazmente à perseguição que, com base em alegações em boa parte infundadas sobre a sua perigosidade, lhe é movida em todos os continentes habitados, a tasneirinha floresce o ano inteiro, e aproveita qualquer canto, nem que seja uma brecha do passeio, para fazer germinar as suas sementes. Agradecem os pássaros que delas se alimentam, e nós mesmos não deveríamos ser tão ingratos.

7.2.10

Camélias a norte

É animador o número de municípios que têm vindo a perceber que os jardins históricos, privados ou públicos, além do valor patrimonial que encerram, podem funcionar como atractivo turístico. E aqui, no canto noroeste do país, jardim sem camélias é um aleijão e um contra-senso. Celebrando a época de floração do formoso arbusto, são nada menos que quatro os municípios da região a organizar exposições de camélias, com programas que incluem igualmente visitas guiadas a jardins históricos. Eis o calendário das festividades:

  • 27 e 28 de Fevereiro: Lousada - em frente à Câmara Municipal (mais informações);
  • 6 e 7 de Março: Porto - Biblioteca Almeida Garrett (jardins do Palácio de Cristal);
  • 13 e 14 de Março: Celorico de Basto (mais informações em http://www.qualidadebasto.pt/ ou pelo telefone 255320250);
  • 20 e 21 de Março: Guimarães - Fundação Martins Sarmento.
Estas exposições decorrem sem excepção ao fim-de-semana, são inauguradas ao princípio da tarde do primeiro dia (sábado), e no domingo estão abertas ao público durante todo o dia.

6.2.10

Sociedade Portuguesa de Botânica


Centaurium erythraea Rafn

.....A sul, algo de novo.

5.2.10

Mansos de Ansião


Rio Nabão

Abandonada a A1 na saída para Pombal e percorridos breves quilómetros, quase julgamos ter entrado noutro país. Ansião e os municípios vizinhos (Penela, Alvaiázere, Pombal e Soure) prenunciam a paisagem dominante do maciço calcário estremenho, que começa mais a sul, em Leiria, e se prolonga pelo Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Bosques de carvalho-cerquinho (Quercus faginea), ainda com a última folhagem seca a desprender-se dos galhos, alternam à beira da estrada com azinhais indiferentes ao frio cortante de Janeiro. Uma ondulação mansa, onde sobressaem meia-dúzia de elevações de escassa altitude a que as populações locais chamam serras, proporciona os meandros e desníveis essenciais à diversidade do panorama. Lá nos cumes, aonde se pode chegar por estradões nem sempre asfaltados, há moinhos velhos e ventoinhas novas; e, entre afloramentos calcários, irrompe uma vegetação rasteira de tomilho e carrasco feita de encomenda para abrigar orquídeas.

Como tantas vilas ou cidades portuguesas, Ansião não se distingue pelos seus monumentos nem pela singularidade arquitectónica, e só mesmo o turismo de natureza pode trazer um forasteiro a estas paragens. Mas aí o concelho joga forte, e da nossa parte já marcámos bilhete de regresso, em Março e Abril, para caçarmos orquídeas - deixando-as contudo nos exactos locais onde as detectarmos - e conhecermos melhor os carvalhais que nos namoram da estrada.

Na sede do concelho, junto ao novo posto de turismo, ficamos de olho no olho d'água do Nabão e no esmerado arranjo da envolvente. Os terrenos calcários são comprovadamente porosos, e o leito de pedras lisas por onde deveria deslizar o Nabão só no Inverno costumava ser visitado pelas águas. No resto do ano, o rio prosseguia uma sigilosa existência subterrânea. Para obstar a este esconde-esconde, a Câmara fez instalar um motor de água oculto por discreta construção cilíndrica. Agora, pelo menos ali, há rio durante o ano inteiro.

E, lá para trás, há os pinheiros-mansos da Mata Municipal que nos acenam de longe, com os troncos altos dando testemunho dos séculos já vividos. A mata pouco mais terá que um hectare, mas esta dezena de pinheiros altivos, a que se juntam carvalhos-cerquinhos e carvalhos-negrais (os únicos que vimos por estas paragens), faz dela uma jóia inestimável.


Pinus pinea L. - Mata Municipal de Ansião

4.2.10

Calcitrapa


Centranthus calcitrapae (L.) Dufresne

As flores do género Centranthus têm cinco pétalas desiguais, dando bom uso à equação 1+2+2 = 5. O nome deriva do grego kentron, espora, e anthos, flor, por isso alguns manuais não hesitam em informar que a corola destas flores, que tem uns 5 mm de comprimento, é rematada por uma espora - que lhe serve de despensa para o excesso de néctar. Sabemos agora que nem todas as espécies deste género cumprem o regulamento: a calcitrapa não tem esporas, as suas flores remedeiam-se com uma corola tubular curta (1-3 mm) de base insuflada como uma barriguinha embaraçosa.

Trata-se de uma herbácea anual baixinha (até 40 cm de altura), com dois tipos de folhas opostas - as basais liradas e com matizes avermelhados, as superiores penatipartidas - e caule oco. A inflorescência desenvolve-se em dois níveis com um topo achatado, e atrai borboletas de Fevereiro a Agosto. Em cada flor, notam-se, aumentando a foto, um estame glabro e proeminente, com uma antera na ponta, e um estilete. O fruto é uma semente com um anel de cerdas plumosas, ex-sépalas, que traz à memória um estrepe (em latim calcitrapa), antigo artefacto de guerra usado em trincheiras para dificultar a passagem ao inimigo. É uma planta frequente em terrenos incultos e em muros do sul da Europa e região mediterrânica. Precisa de solo seco e soalheiro, preparando-se talvez para o deserto que aí vem.

3.2.10

Estrelinhas a seco


Asteriscus aquaticus (L.) Less.

Diminutivo de aster, a palavra grega asteriscus, que podemos aportuguesar para asterisco, significa pequena estrela. As inflorescências desta planta, aninhadas em cálices de brácteas salientes, são uma versão penugenta e rococó do sinal gráfico que leva o mesmo nome. Asteriscos: pequenas estrelas de tinta no papel, ou pequenas estrelas floridas nos prados. Tanto umas como outras nos puxam para baixo: quando as encontramos no papel, o olhar descai para o rodapé da página; se as vemos nos prados, é no chão que os olhos se detêm.

Se este asterisco-planta, uma das três espécies do seu género, todas elas da região mediterrânica, cumprisse a promessa do seu nome científico, o título aí cima seria estrelinhas-de-água e ficávamos todos a ganhar. Mas é um facto que ela não faz da hidrofilia uma condição de vida. Não frequenta charcos: bastam-lhe terrenos arenosos, prados ou bermas de caminho. Alegam os manuais que um pouco de humidade no Inverno lhe vem mesmo a calhar. Haverá, no entanto, alguma planta espontânea no nosso território que, nesse período, esteja a salvo de chuvas e orvalhos? O epíteto aquaticus parece, afinal, um exagero. A confirmar isso mesmo, o asterisco - a que, pelas mesmas equívocas razões, também chamam pampilho-de-água - foi encontrado na Serra dos Candeeiros, local onde, mesmo em semanas de chuva forte, o solo ultra-poroso nunca fica encharcado.

A terminar, sumariemos os sinais particulares do Asteriscus aquaticus: é uma planta anual, ramificada e erecta, de não mais que 40 cm de altura; as suas inflorescências, com pétalas de pontas dentadas dispondo-se em dupla camada, surgem de Abril a Junho, e têm de 2 a 3 cm de diâmetro.

2.2.10

Nardo-da-montanha


Valeriana tuberosa L.

Esta valeriana aprecia solos cálcários de charnecas mediterrânicas. É vivaz, alimentando-se no Inverno de um tubérculo. Acorda na Primavera, exibindo então um ramalhete de folhas basais de margens inteiras, ovado-oblongas, e um talo com mais algumas folhas a meio, desta vez penatissectas. No topo deste caule nascem, no Verão, os corimbos de flores perfumadas e melíferas.

Cada flor tem 5 a 15 sépalas em cálice - que se transformam no pappus do fruto -, cinco pétalas unidas numa corola em funil de base inchada, três estames e um estilete longo. A polinização está a cargo de borboletas e abelhas. O fruto é uma semente com um penacho no topo (o tal pappus), num arranjo que faz lembrar um paraquedas.

Segundo William T. Stearn, valeriana deriva do latim valere, são, em alusão ao uso medicinal das raízes da erva-dos-gatos, V. officinalis L., no tratamento tradicional de perturbações do foro nervoso. Nessa função, terá sido famosa em tempos medievais, mitigando a histeria das cruzadas. Cremos que bastará ver as flores para os mais achacados experimentarem melhoras imediatas.

1.2.10

Dama e vagabunda



Bellis perenis L.

Uma vez por mês lá vêm aparar o relvado à volta do edifício onde trabalho. É uma das duas únicas tarefas, ambas inúteis ou mesmo perniciosas, que estes presumíveis jardineiros sabem cumprir. A outra é pegar na motosserra e decepar todas as árvores e arbustos que lhes apareçam pela frente. O zumbido insistente do corta-relva obriga a fechar portas e janelas, o que no tempo frio não é grande incómodo. Irrita é ver um relvado espontaneamente florido transformar-se num monótono tapete verde. Mas as plantinhas são insistentes e, mal o artista acaba de desligar a máquina, já elas começam a preparar nova amostra floral, não menos colorida nem menos abundante do que a anterior.

Quem protagoniza esta vida aos solavancos, num permanente recomeço, são as boninas, ou Bellis perenis como é sua designação científica. As suas flores, que enfeitam gratuitamente prados e relvados, são o arquétipo da margarida ou malmequer, designações imprecisas que, como já aqui explicámos, podem abarcar dezenas de espécies diferentes. Por índole e também por não lhes ser concedido muito tempo para crescerem, as boninas são plantas rasteiras: as folhas dispõem-se em roseta basal, e as inflorescências, com centro amarelo e pétalas brancas por vezes tingidas de lilás, encimam hastes de não mais que 10 cm de altura.

Houve quem pusesse os olhos na vagabunda Bellis perenis e adivinhasse nela um potencial inexplorado. Com umas lições de etiqueta e a ajuda de trajes requintados, poderia frequentar os mais selectos jardins sem destoar das outras flores com pretensões fidalgas. A metamorfose desta Eliza Doolittle vegetal, depois de ter migrado dos campos para os viveiros e de ter sido submetida a cruzamentos selectivos, está em parte documentada nas fotos acima. Mas esse é só o início da história. À medida que a vida na alta roda lhe apagava da memória a existência plebeia, foi-se enchendo de folhos e atavios a ponto de ficar irreconhecível. Tanto assim que hoje muita gente prefere, às versões postiças, a simplicidade fresca das boninas silvestres.

31.1.10

Museu com árvores


Villar d'Allen

Nunca é de mais espremer as boas notícias para equilibrar a amargura das más, mas a verdade é que esta de hoje parece uma reedição, sem tirar nem pôr, de uma outra que aqui divulgámos em Junho de 2006: a histórica Quinta de Villar d'Allen foi classificada como imóvel de interesse público. Na verdade só no passado dia 11 de Janeiro, e não em 2006, é que a classificação do conjunto formado pela casa e pela quinta foi publicada em Diário da República; no período entretanto decorrido a Quinta de Villar d'Allen estava, não propriamente classificada, mas sim em «vias de classificação».

Para assinalar a feliz ocorrência, o caderno Cidades do jornal Público de hoje, domingo, publica uma reportagem, da autoria de Abel Coentrão, onde a importância patrimonial e histórica da quinta é sintetizada de forma exemplar. O mesmo jornalista visitou outras três quintas históricas do Porto - Prelada, Serralves e Jardim Botânico - e sobre elas publicou, no mesmo caderno, três textos breves mas muito informativos (acessíveis só na versão em papel ou em PDF).

Transcrevemos de seguida na íntegra a reportagem do Público sobre Villar d'Allen.

Esta quinta é um museu da cidade... que o Porto não tem
por Abel Coentrão

A arquitecta paisagista Teresa Andresen vê-a como o museu da cidade que o Porto não tem. E entrando nesse lugar, que até já está para lá dessas fronteiras que são a VCI e a Circunvalação, multiplicam-se justificações para que a directora do Jardim Botânico do Porto assim fale sobre a casa e a Quinta de Villar D'Allen, cujo longo processo de classificação como imóvel de interesse público terminou este mês. É que nesta propriedade particular - nas mãos dos herdeiros do fundador, o comerciante inglês João Allen -, sobreviveram aos apetites do tempo marcas de um período relevante da história do Porto, o século XIX.

Villar d'Allen é o Porto dos ingleses, de cuja comunidade João Allen era figura de destaque, tendo participado na fundação da Associação Comercial e do Banco Comercial do Porto. É o Porto liberal como a Constituição assinada por D. João VI em 1822, com a pena guardada nesta mesma casa. É também o Porto romântico, visível no desenho dos jardins da quinta, aumentados e desenvolvidos pelo filho Alfredo. E culto, como o espírito coleccionista que, entre obras de arte, plantas, rochas, moedas e outros objectos estranhos aos olhos da geração da internet, constituiu um espólio que encheu o Museu João Allen (1836-1848), pioneiro no país na abertura ao público de uma colecção privada, na Rua da Restauração.

O vereador dos Jardins

O Museu João Allen viria a estar na origem, com o Museu Portuense, do Museu Municipal do Porto, «engolido» já em 1940, pelo Museu Nacional Soares dos Reis. Disperso o Espólio pelo Palácio dos Carrancas e outras instituições da cidade, a casa e a quinta sobram como marca, organizada, dos dias de João Allen e herdeiros, entre os quais há a destacar, para a história do século XIX portuense, o filho Alfredo, primeiro Visconde de Villar D'Allen, que colocou ao serviço da cidade e do país a mesma formação agronómica que o levara a completar e expandir a quinta comprada pelo pai em 1839.

Na Câmara do Porto, Alfredo Allen foi entre 1866-1869 vereador dos Jardins, pelouro que, sinal dos tempos, se extinguiu entretanto da taxinomia autárquica. Ficou associado à construção dos Jardins do Palácio de Cristal e da Cordoaria. Com Alfredo Allen, o burgo ganhou muitas árvores venerandas, como a araucária da Austrália. Com os seus 130 anos, 40 metros de altura e 3,6 metros de perímetro, esta araucária, assinala Paulo Ventura Araújo, o co-autor de À sombra de Árvores com História que na quinta-feira acompanhou o Cidades numa visita a Villar D'Allen, figura na lista de árvores de classificadas do Porto.

Na quinta, seja na mata onde uma rara Agathis - outra australiana - se destaca, ou no jardim romântico, com os seus caminhos sinuosos e o rumor sempre presente da água, as marcas de Alfredo Allen são bem patentes. Foi ele que ali mandou plantar uma impressionante colecção de palmeiras e outras árvores, entre elas outra araucária como a da Cordoaria, que Paulo Araújo ajuda a identificar pelo nome próprio. Depois chega Isaura, esposa de um dos herdeiros da propriedade, José Alberto Allen, e responsável, com ele, pelo viveiro comercial que aqui funciona. E por mais de uma hora todas as atenções se viram para outro dos traços dominantes da história e dos lugares portuenses dos Allen: as camélias.

Presentes na paisagem dos Allen como na do Porto - numa botânica demonstração da importância da família e de viveiristas como Marques Loureiro ou Moreira da Silva para a cidade -, múltiplas derivações genéticas da Camellia japonica, e outras do género Camellia, pontuam o espaço. E as mais temporãs anunciam já a colorida exibição de flores que as caracteriza no final do Inverno. Várias têm o nome, no registo da Sociedade Internacional de Camélias, associado a esta família, que importou espécimes de todo o mundo e, com elas, criou novas variedades. O que talvez ajude a explicar por que motivo a quinta é mais famosa para lá das fronteiras do país do que para lá da fronteira viária que rodeia Villar d'Allen.

Com José Alberto Allen refugiado no trabalho, é Isaura quem assume a despesa de demonstrar a importância histórica da família do marido e as dificuldades enfrentadas face aos apetites que, num país pouco dado à cultura dos jardins - ou «arboricida», como diz Paulo Araújo - uma propriedade tão bem situada sempre atraiu. E para quem vem «aguentando muito», inclusive uma situação de «fogo posto», Isaura fala da conclusão do longo processo de classificação deste lugar como imóvel de interesse público como um peso que lhes «sai do coração», permitindo que os Allen se concentrem no futuro a dar a este espaço tão cheio de passado.

Abrir mais a quinta

A vontade é tornar Villar d'Allen mais frequentado pela cidade. A família pretende entregar a uma gestão profissional o viveiro - necessário para a manutenção económica da propriedade - e criar pequenas hortas para actividades de educação ambiental. Antes disto, em Maio será o Espaço Maus Hábitos a apropriar-se da vegetação, com performances que actualizam o histórico convívio dos Allen com a cultura, bem patente no recheio impressionante do solar.

Depois, há as camélias. Sempre elas. Neste momento decorre um trabalho meticuloso de identificação de todas as variedades aqui existentes, a pensar nas exposições municipais que nos últimos anos regressaram ao calendário da cidade. E a antever já as camionetas de estrangeiros que por aqui se juntarão quando o Porto organizar, em 2014, o congresso mundial dedicado a esta planta ornamental de origem asiática que Alfredo Allen exportou para o Buçaco e para o Bom Jesus, e que os descendentes «exportam» hoje para os parques de Sintra e outros lugares por esse mundo fora.

Esta actividade perpetua uma paixão que, sobrevivente em alguns jardins da cidade, fez dos anos de 1800 o século das camélias no Porto. Mas Teresa Andresen avisa que Villar D'Allen é muito mais do que as camélias. «É uma montra do século XIX, de uma forma de estar, de governar a cidade.» A mesma cidade que, assinala, «não se apercebe hoje da importância do que está ali», para lá dos muros da Rua do Freixo.


30.1.10

Sementes de vento



Serra do Anjo da Guarda, Ansião

.....We are such stuff
.....As dreams are made on, and our little life
.....Is rounded with a sleep.

.....Shakespeare (The Tempest)

29.1.10

Pedreiras devoradoras



Quercus rotundifolia Lam.

A chuva acompanha-nos desde que de manhã nos metemos à estrada, e não dá sinais de acalmar mesmo depois do almoço na Mendiga, muitos quilómetros a sul. É para andar a pé que viemos à Serra dos Candeeiros, mas não é muito aprazível fazê-lo de guarda-chuva em punho. Resta-nos pôr em prática o plano de emergência preparado para estas ocasiões: se o céu se revela ingrato, substituímo-lo pelo tecto de uma gruta. E são muitas, ao que consta, as grutas visitáveis nestas paragens. Uma rápida consulta ao mapa esclarece-nos que a gruta mais à mão é o Algar do Pena, onde há até um centro interpretativo que, além de garantir uma descida sem aventuras (não temos vocação para espeleólogos), deverá enquadrar a visita com explicações enriquecedoras.

Dirigimo-nos pois ao Vale da Trave, mas algumas das tabuletas indicativas desapareceram, e só com ajuda é que acertamos no caminho para a gruta. São cinco ou seis quilómetros por um estradão de terra batida que se bifurca várias vezes e atravessa pedreiras de dimensões gigantescas. Diz o livro-guia dos percursos pedestres do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC) que o bordo sul do planalto de Santo António é «caracterizado por intensa actividade extractiva». O que o livro deveria dizer é que esta porção do PNSAC no concelho de Santarém está a ser devorada por pedreiras, e corre o risco de desaparecer por completo num prazo de poucos anos. O novo Plano de Ordenamento do PNSAC, que esteve em discussão pública até Novembro de 2009, prevê aliás a expansão de tais explorações. Ainda assim, os autarcas da região, com o mediático presidente da Câmara de Santarém à cabeça, acham que esse plano foi engendrado pelos «beatos do fundamentalismo ambiental».

Entendamo-nos: o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida.

Mas regressemos ao caminho de que esta conversa nos desviou. Caminho esse que, aliás, não tarda terá ele próprio de ser desviado (quantas vezes já não o foi no passado?) por força do avanço das escavações. Os carrascos (Quercus coccifera) que aqui formavam densa cobertura vão sendo arrancados a golpes de escavadora, sobrando uma cabeleira rala à beira do precipício. Mais adiante, depois da gruta, na base de uma encosta que começou já, também ela, a ser retalhada pelas máquinas, desenvolve-se o mais bonito azinhal que alguma vez nos foi dado ver (primeira foto em cima): azinheiras pequeninas, de três ou quatro metros de altura, mas perfeitamente formadas, abrigando a seus pés inúmeras plantas herbáceas que dará gosto reencontrar esta Primavera. Azinheiras (Quercus rotundifolia) e carrascos são, recorde-se, os pais do Quercus x airensis, que aqui se encontra em abundância na zona de transição entre as duas espécies.

E a gruta? É que entretanto parou de chover e distraímo-nos com outras coisas, mas foi ela que aqui nos trouxe. O Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta Algar do Pena (CISGAP) é, segundo reza o livro-guia, o primeiro do seu género em todo o país e um dos «ex-libris deste Parque Natural». Nada se perde em espreitar, mas o CISGAP está fechado e a gruta, por isso, fica-nos vedada. Será que fecha aos sábados? Não há horário nem qualquer informação à porta. Por conversa com gente da terra, ficamos a saber que o CISGAP e a gruta estão em regra fechados e só são acessíveis por marcação prévia. Na Ecoteca de Porto de Mós, além de confirmarem essa informação, dizem-nos que apenas podemos visitar a gruta integrando um grupo mínimo de doze pessoas.

Não foi certamente para uma (não) utilização destas que se construiu um centro interpretativo com tão quilométrica designação. Este mini-roteiro do PNSAC deixa entender que a gruta teria um horário regular de funcionamento na altura em que o texto foi escrito (2001), e o mesmo aliás se depreende do livro-guia que temos usado, publicado cinco anos mais tarde.

O abandono e o descaso por parte da tutela, tão ostensivos neste episódio, são decerto responsáveis por boa parte da desilusão sentida pelas populações deste e de outros parques naturais do nosso país. Então «esses do ambiente» têm tamanha maravilha à sua guarda e fazem tudo para repelir visitantes? Realmente não se percebe.

P.S. Sobre o conflito (ou convivência) entre as pedreiras e a conservação da natureza no PNSAC, leia-se o longo comentário que Henrique Pereira dos Santos aqui escreveu a propósito do texto acima.

28.1.10

Cinquefoil


Ribeira da Fórnea

Este riacho dir-se-ia nómada, se esta não fosse expressão inadequada para uma ribeira já de certa idade. O facto é que nem sempre se vê ali, onde o fotografámos, preferindo, com acanhamento de menino, esconder-se quando o caudal se reduz e ele não tem fôlego para um galope honrado. Ouvimo-lo gatinhar no subsolo e, apesar do desconforto, ansiamos pela chuva.


Potentilla reptans L.


Potentilla erecta (L.) Raeusch.

Assim pequeninas, as plantas das fotos não parecem ter o poder a que o seu nome alude, mas os fitoterapeutas não lhes poupam vénias. A P. reptans tem flores de cinco pétalas entalhadas, com um epicálice de brácteas que alternam com as sépalas, e folhas de cinco folíolos serrados. Esta é a morfologia típica no género Potentilla, que alberga cerca de 500 espécies em regiões de clima temperado e é próximo de Fragaria, onde se inclui o morangueiro. A P. erecta, contudo, é uma excepção: tem folhas trifoliadas, que no entanto parecem ter cinco folíolos pela presença de dois apêndices minúsculos na base; e as suas flores são de quatro pétalas, coisa rara na família Rosacea. Mas, numa notável excepção à excepção, em alguns exemplares, como o da foto, nascem flores de cinco pétalas. Atitude que alguns poderão aplaudir como um sensato retorno à norma.

27.1.10

Barbicha de bode


Tragopogon pratensis L.

Cheguei ao cemitério bem cedo pela manhã, caso contrário não lhe teria visto as flores abertas. O nome por que é conhecida, Jack-go-to-bed-at-noon, é quase um eufemismo, pois ela não se faz rogada em ir para a cama ainda antes do meio-dia, e pode nem chegar a acordar se o dia estiver com má cara. Mas a sua presença, tal como a das suas companheiras silvestres, é um daqueles bónus que se ganham só por deixar a natureza cumprir o seu papel. E os parques, ou neste caso um cemitério, são dos raros lugares da metrópole onde a natureza não foi por completo domesticada ou mesmo aniquilada. As flores espontâneas na cidade não são uma praga, nem devem ser tratadas como «ervas daninhas»: são uma dádiva e uma lembrança de outras paisagens e de outros horizontes.

Esta nossa planta preguiçosa é uma asterácea peculiar. Atingindo os 80 cm de altura, começa por chamar a atenção pela sua envergadura e pelo formato das folhas, longas e finas como as da relva. Quando estão fechadas - que é a maior parte do tempo -, as inflorescências, apertadas numa armadura composta por oito sépalas pontiaguadas, são inconfundíveis, como o leitor pode confirmar na foto em cima. Uma vez abertas, constatamos que elas são formadas apenas pelos florículos externos (aqueles que dão as pétalas), estando ausentes os florículos tubulares centrais. (Talvez não seja mau o leitor recapitular a lição que aqui demos sobre as «flores» das asteráceas.) Uma outra asterácea com o mesmo défice, essa sim espontânea em Portugal, é a chicória.

Barbicha-de-bode (ou goat's beard), outro nome comum da planta, é tradução à letra do seu nome científico: em grego tragos significa bode, e pogon, barba. Refere-se ele aos filamentos sedosos que estão na base dos florículos (chamados pappus em latim - veja nesta imagem) mas que só são visíveis quando as pétalas caem e se formam os frutos. Para concluir, eis outras verdades que não saltam à vista: a planta é comestível (raízes e folhas aproveitam-se para saladas); tem uma raiz vertical profunda; o seu caule derrama, quando cortado, um látex leitoso; e, ausente embora de Portugal, ela encontra-se por quase toda a Europa.