21.4.14

Bruco das lanças



Peucedanum lancifolium Hoffmanns. & Link

Tirando o breve período das férias de Verão, somos cada vez mais criaturas de espaços fechados. Só vemos o sol filtrado pelos vidros dos automóveis ou das janelas dos edifícios onde nos abrigamos. Habituámo-nos a viver sob iluminação artificial, e por isso é apropriado usar flash quando fotografamos pessoas: na sua instantaneidade, o relâmpago de luz concentra a essência postiça do habitat urbano que é o nosso. Já as plantas espontâneas, as que não foram domesticadas pelo comércio hortícola, ficam mal na fotografia quando tentamos compensar a luz natural com um disparo de flash. As cores ganham uma saturação postiça, há superfícies que parecem incrustadas de poalha fosforescente, as três dimensões do espaço reduzem-se a um plano achatado. A planta fica enquadrada no rectângulo da foto com um ar de espanto arregalado, como se um paparazzi a tivesse apanhado desprevenida. Sabendo de tudo isso, o fotógrafo de serviço admite haver ocasiões em que o uso da luz suplementar é imperativo. As plantas, ao contrário dos edifícios, raramente se quedam estáticas, e só é possível captar com nitidez certas minúcias morfológicas se usarmos grandes velocidades de obturação. Se a luz ambiente for fraca, isso obriga-nos a usar uma profundidade de campo curta e uma sensibilidade ISO elevada. Resultado: as fotos ficam granuladas e deixam fora de foco detalhes importantes. Assim, quando o valor informativo é prioritário face ao possível valor estético da foto, ou ao amor-próprio da planta retratada, não há que hesitar no uso do flash sempre que ele seja necessário. Mas, por uma questão de equilíbrio, e para ficarmos no arquivo com imagens que, embora menos nítidas, sejam mais realistas, não devemos deixar, na mesma ocasião, de registar algumas fotos da planta só com luz natural.

Sirva de exemplo a planta de hoje, encontrada num dia de Agosto, ao final da tarde, num bosque ribeirinho junto ao rio Coura. A hora e o local não eram os mais indicados para a sessão fotográfica, mas ainda assim ela fez-se. O contraste entre as fotos com ou sem a muleta do flash não podia ser mais elucidativo: estas têm um ar impressionista e difuso, aquelas exibem uma nitidez quase surrealista. Enquanto que umas nos dão uma imagem geral da planta, as outras debruçam-se intrusivamente nos detalhes da inflorescência. É como se, incapazes de reconhecer alguém à primeira vista, tivéssemos, para uma identificação segura, de lhe inspeccionar as orelhas à lupa.

Se a hora e local não eram os melhores para o fotógrafo, já a planta que lhe serviu de motivo estava no local que é seu por direito. O Peucedanum lancifolium, popularmente conhecido por bruco, é uma umbelífera vivaz que atinge 1,2 m de altura, de caule oco e aspecto esguio, moradora de lugares húmidos como bosques ribeirinhos e prados-juncais. As suas inflorescências, que surgem tardiamente, de Julho a Setembro, são formadas por um máximo de 12 raios com 10 a 35 mm de comprimento, rematados por umbélulas de 10 a 20 flores, cada uma delas com cerca de 2 mm de diâmetro. O epíteto lancifolium no nome científico refere-se aos folíolos em forma de lança em que as folhas (geralmente bipinadas) estão divididas. É uma daquelas plantas que, tendo a sua área de distribuição preferencial no noroeste da Península, deveriam por justiça ser exclusivamente ibéricas, mas há notícia de algumas (escassas) populações no extremo noroeste de França.

17.4.14

Família feliz


Orchis x bivonae Tod. (híbrido de O. anthropophora (L.) All. e O. italica Poir., ambas à direita)

Como se reconhece um híbrido e de que modo se podem descobrir os progenitores? A cautela justifica-se porque o olho do amador tende a valorizar pequenas diferenças, de cor, tamanho ou forma, que afinal não dão lugar ao reconhecimento de uma espécie nova. Vejamos um exemplo.

Há dias, na serra de Sicó, encontrámos a orquídea em flor que se vê nas duas primeiras fotos. Chamou-nos a atenção o tom rosa escuro dos labelos, que lembram os rapazinhos das flores de Aceras anthropophorum embora estes sejam geralmente amarelo-esverdeados. Nesta espécie, a flor não tem esporão (o termo grego aceras alude precisamente a essa ausência), mas recompensa os polinizadores com néctar que guarda em bolsinhas situada por baixo do capuz. Por isso, só recentemente, depois de apurados testes genéticos, foi esta espécie integrada no género Orchis: chama-se agora Orchis anthropophora. Pois bem, o leitor pode confirmar na foto, junto ao pedúnculo de cada flor, que os rapazinhos cor-de-rosa têm esporão. Desconfia-se, pois, que, ainda que descendam da Orchis anthropophora, têm outro progenitor, e esse terá de ser de espécie cujas flores nasçam providas de esporão. Mas qual? Uma vistoria aos arredores sugeriu-nos um candidato: os campos e prados próximos estavam repletos de magníficos exemplares em flor de O. italica, de permeio com muitos outros de O. anthropophora. Naturalmente, os polinizadores circulam sem hesitar entre as flores das duas espécies, misturando inadvertidamente o pólen das várias plantas. E, sim, a flor de O. italica tem esporão, curto e rechonchudo como o que vemos no híbrido. As flores são rosadas com um chapéu aberto e de pontas mais longas que na Aceras; além disso, o labelo é mais dividido, formando um menino de aparência irrequieta que, além das duas pernas, tem uma cauda. Este apêndice não é herdado pelo híbrido, ou surge nele muito reduzido.

Não fomos nós os primeiros a observar este filhote de O. anthropophora e O. italica. Do arquivo de fotos Orquídeas Silvestres Portuguesas, consta uma imagem da mesma orquídea encontrada em Ansião. E aqui há menção a vários locais onde se avistaram outros exemplares deste híbrido. Porém, o primeiro registo foi feito em 1840 pelo botânico italiano Agostino Todaro (1818-1892), um estudioso das orquídeas da Sicília. Chamou-lhe Orchis x bivonae, referindo-se certamente o epíteto a Bivona, terra siciliana de pêssegos famosos, na província de Agrigento.

15.4.14

Prado lilás




Linaria incarnata (Vent.) Spreng.

Não se sabe por que opta uma planta por ter flores com simetria radial ou apenas bilateral, mas os especialistas não duvidam que de uma ou de outra morfologia as plantas retiram algum benefício. O sucesso na polinização é tão incerto que qualquer ajuste estratégico nesse processo é bem-vindo; e, naturalmente, as formas mais bem adaptadas aos polinizadores têm mais êxito a propagarem-se. Contudo, sendo a simetria das flores um detalhe controlado por genes, nem tudo se explica com este argumento.

A meio do século XVIII, um colaborador de Lineu encontrou uma forma estranha de Linaria vulgaris que, em vez de flores com a simetria bilateral usual no género Linaria e um esporão de néctar, exibia simetria radial e vários esporões. Para Lineu, um tal desvio tinha gravosas consequências científicas e doutrinárias. A planta era semelhante à Linaria mas a estrutura das flores demasiado diferente, e Lineu não dispunha de uma explicação plausível para o prodígio. O ciclo de vida que Lineu descreve para as plantas com flor é simples, axiomático e irrepreensível: cada uma floresce e produz sementes que germinam nalgum outro lugar, assim se disseminando. Segundo Lineu, não há neste plano divino lugar ao surgimento de novas espécies a somar às que havia no princípio de todas as coisas. Sim, há híbridos (ele mesmo criou híbridos férteis por cruzamento artificial), mas Lineu entendia serem apenas variedades do que já existe, com pequenas alterações morfológicas que não afectavam a componente sexual da flor e, portanto, não justificavam a independência como espécies. Afinal, ainda que a terra firme nem sempre tenha tido igual extensão, a riqueza botânica que Lineu testemunhava tinha origem na arca de Noé, e portanto todas as espécies na Terra datavam da mesma época. E, todavia, ali estava uma Linaria bizarra, cujos progenitores Lineu desconhecia (porque, pelo dogma, tudo quanto nasce se parece com os seus progenitores) e cuja existência abalava os alicerces do criacionismo. Apesar disso, colocou a aberração num novo género, Peloria, e informou os seus pares do enigma que havia a decifrar.

Anos depois, Darwin voltou ao tema para exemplificar como a selecção natural é o arquitecto da evolução, mas tinha já melhores exemplos à mão: as columbinas, plantas do género Aquilegia, exibem idêntica diversidade morfológica nos esporões para se adaptarem ao comprimento da língua dos polinizadores (abelhas, colibris, traças), parecendo os seus genes hábeis a sintonizar o mecanismo que determina a forma dos nectários. Sabe-se hoje (P. Cubas et al., An epigenetic mutation responsible for natural variation in floral symmetry, Nature, 401, (1999), 157-61) que a forma pelórica da Linaria não se propaga por semente e que a simetria radial de facto impede a polinização da planta, o que, convenhamos, não parece trazer-lhe qualquer vantagem competitiva. Além disso, tem a mesma sequência genética da Linaria normal, embora os genes que controlam a simetria bilateral estejam inactivos. A mudança é rara e instável, mas resiste pois não compromete a propagação vegetativa da planta.

A Linaria das fotos, cujos registos de observação se restringem, por agora, ao centro do país, afigura-se-nos muito semelhante a duas outras espécies que ocorrem em Portugal continental: a Linaria elegans (da metade norte, com um esporão longo e floração que se estende do início da Primavera ao fim do Verão) e a Linaria ricardoi (endemismo português, de floração primaveril breve, com umas poucas populações restritas aos olivais do Alentejo). Ainda que não sejam óbvias, haverá, por certo, razões para esta especiação. A população que vimos formava um manto roxo num olival de terra mole e cor-de-tijolo em Alvaiázere, local que nos foi gentilmente indicado por Ana Júlia Pereira e Miguel Porto.

12.4.14

Brancura breve




Bellis annua L.

Quando a moda dos herbicidas o consente, não há imagem mais clássica da Primavera do que um campo de malmequeres floridos. Mas devemos, nesse caso, interpretar o termo "Primavera" como um estado de espírito e não tanto como um período de três meses rigorosamente estabelecido pelo calendário. Há malmequeres que se mostram em abundância logo em Fevereiro ou Março, quase desaparecendo quando chega oficialmente a Primavera. Cumpriram a função de arautos. Não ficam os campos despidos (a menos que venha o herbidicida assassino), pois outros malmequeres amarelos ou brancos se ocupam agora da tarefa de florir, reforçados por uma confusão multicolorida de soagens, tremoceiros, gerânios, ranúnculos e o que mais queira aparecer.

A Bellis annua exemplifica na perfeição como os malmequeres na paisagem mudam não só com o correr dos meses mas também com a alteração da latitude. Mesmo num país curtinho como o nosso, onde a latitude não tem âmbito para grandes variações, o norte e o sul são mundos distintos, e este malmequer anual é definitivamente do sul: não quer nada com os territórios a norte de Lisboa e passeia-se alegremente pela Arrábida, Algarve e Costa Vicentina. Da sua vocação decididamente mediterrânica dá testemunho uma distribuição global repartida entre o sul da Europa, Anatólia e norte de África. Essa preferência ecológica também condiciona a fenologia de uma planta que, por apreciar um certo grau de humidade, tem de germinar, florir e e frutificar antes de virem os meses quentes e secos. Daí que a 8 de Março, quando a encontrámos na Arrábida, já levasse o serviço bem adiantado.

Há outras três representantes do género Bellis na flora portuguesa, todas elas plantas perene com folhas simples, de margens não recortadas. A mais conhecida dos citadinos, por frequentar assiduamente os relvados urbanos, sobretudo os que são aparados com insistência, é a B. perenis, vulgarmente conhecida como bonina. Em espaços naturais de norte a sul do país aparece uma versão da bonina com escapos e capítulos maiores e folhas mais estreitas: trata-se da B. sylvestris. A B. annua distingue-se bem dessas duas boninas por ter uma envergadura consideravelmente menor e por exibir folhas caulinares (3.ª foto). A mais preciosa e também a menos vistosa do género é a B. azorica, um ameaçado endemismo açoriano de que já aqui falámos.

8.4.14

Erva-toira divergente



Orobanche ramosa L.

Erva-toira é o nome que em português se dá às ervas parasitas do género Orobanche. São plantas sem clorofila que se agarram às raízes do hospedeiro para dele extraírem o necessário sustento. Certamente indesejáveis pelos agricultores quando se instalam em terrenos cultivados, o seu contributo para o ciclo da vida é apenas estético. A sua floração - as ervas-toiras só se tornam visíveis quando estão em flor - pode ser muito vistosa e atraente, atingindo o auge com a Primavera já adiantada. A planta parasitada não fica mais vigorosa por acolher tais hóspedes, mas é provável que fique mais bonita.

A Orobanche de hoje leva muito apropriadamente o epíteto ramosa no seu nome científico. O mesmo adjectivo é usado no nome comum, ficando ela a ser a erva-toira-ramosa. Muito mais do que a forma e coloração das flores, que são algo variáveis e a um olhar menos treinado se confundem com as de outras espécies como a O. arenaria e a O. rosmarina, é a presença frequente de caules ramificados (como o que se vê na segunda foto) que singulariza esta planta entre as suas congéneres. A O. ramosa apresenta hastes pouco robustas mas pode atingir um porte considerável, chegando aos 50 cm de altura, embora certas formas da espécie se fiquem pelos 10 ou 20 cm. Amplamente distribuída por quatro continentes (Europa, Ásia, África e América), o seu cosmopolitismo ensinou-a a não ser esquisita nos hábitos alimentares, e qualquer planta espontânea ou cultivada lhe serve de hospedeira. Em contraste, muitas outras espécies de Orobanche exigem dieta específica: a O. arenaria é parasita exclusiva da madorneira, a O. hederae só gosta de hera, a O. latisquama e a O. rosmarina são ambas fiéis ao alecrim.

Além dos caules ramificados ou divergentes, uma outra divergência, esta envolvendo botânicos de nomeada, está ligada à Orobanche ramosa. A publicação em 2001, no vol. XIV da Flora Ibérica, da revisão do género Orobanche, preparada pelo botânico inglês Michael J. Y. Foley, suscitou controvérsia pelas lacunas corológicas e várias outras imprecisões de que enfermava. Tanto assim foi que Manuel Laínz, um dos grandes botânicos espanhóis, publicou em 2002, em conjunto com outros autores, uma monografia de 27 páginas (disponível aqui) denunciando e corrigindo os erros. O primeiro ponto de discórdia foi precisamente a distribuição da O. ramosa, que Foley, desvalorizando informação corológica publicada pelos seus predecessores, afirmava erradamente não existir no noroeste da Península Ibérica.

Foi contudo bastante mais a sul, no litoral de Cascais, numa visita que por prematura não nos permitiu encontrar o que queríamos, que fotografámos esta erva-toira-ramosa, já florida no início de Março.


Cascais, perto da praia do Abano

5.4.14

Potências de dois


Moenchia erecta (L.) G. Gaertn., B. Mey. & Schreb. subsp. erecta

Conrad Moench (1744-1805), botânico alemão, elaborou, nos intervalos das suas tarefas académicas, uma lista da flora local presente nos campos e jardins da região onde vivia. Se tivesse um blogue, por certo nos teria legado pequenos trechos descrevendo as plantas que ia encontrando, nomeando inclusive algumas até então desconhecidas. A designação genérica da planta que hoje aqui mostramos foi criada em sua homenagem.

O género Moenchia abriga três espécies de herbáceas anuais, nativas da região mediterrânica, centro e sul da Europa. São plantas frágeis e pequeninas, de folhas opostas e sésseis; as flores de quatro pétalas brancas, cada uma com cerca de 5 milímetros de comprimento por 2 de largura, nascem protegidas por sépalas verdes pontiagudas e de margens hialinas. Apreciam relvados, campos cultivados e, em geral, terrenos arenosos bem irrigados. Como florescem cedo, logo em Fevereiro, é fácil não as vermos quando os dias soalheiros chegam e com eles recomeçam os passeios pelo campo.

Na Península Ibérica ocorre apenas uma espécie de Moenchia, de talos erguidos e pouco ramosa, mas, para compensar, tem uma distribuição ampla e surge em duas formas, que diferem essencialmente no número de estames: 4 na subespécie erecta, a mais frequente por cá, e 8 na subespécie octandra, de que se conhecem populações apenas na metade sul do país. Quanto aos estiletes, o número é igual, 4, em ambas. Como a natureza não tem de se pôr em harmonia com o que nos parece um padrão matemático, o tema não é tão simples como parece: há registo de populações com algumas plantas que dão flores de 4 estames e outras de 8. Resta saber que vantagem retira a planta desta oscilação, ou se ela é resultado de uma mutação fortuita que ainda não estabilizou.


Casal Velho, serra dos Candeeiros

Os exemplares da foto estavam num anfiteatro magnífico em Casal Velho, na serra dos Candeeiros, em companhia de Asplenium ruta-muraria, Arabis sadina e uma população invulgarmente numerosa de Narcissus calcicola, além de uns poucos pés de Barlia robertiana e Orchis mascula (para as restantes orquídeas, todavia, era ainda cedo e teremos de voltar a este monte branco em breve).

1.4.14

Sandálias no caminho




Crepis lampsanoides (Gouan) Tausch

Um relvado não é um jardim, pois está proibido de ter flores. Há países onde essa proibição é escrupulosamente respeitada, felizmente os mesmos onde a jardinagem não passou de moda: cada coisa está no seu lugar, e não falta, em qualquer cidade, um canteiro florido para regalar a vista, como não falta a relva para estender a toalha em dias de sol. Em Portugal, onde não há jardineiros e os jardins deixaram de ter flores, funciona a lei das compensações, e os relvados, que não são jardins, assumem de tempos a tempos, graças ao nosso providencial desmazelo, o aspecto de prados floridos. As boninas, os dentes-de-leão e os gerânios revelam um desrespeito bem português pela lei e pela ordem, ignorando ostensivamente a proibição de frequentarem relvados.

Em sentido estrito, dente-de-leão é o nome que se dá às asteráceas do género Taraxacum, caracterizadas pelas hastes singelas encimadas por vistosos capítulos amarelos, com brácteas involucrais externas muito recurvadas (veja nesta foto), e pelas folhas profundamente recortadas, todas elas dispostas em roseta basal (como se mostra aqui). A planta com que ilustramos o texto diverge vincadamente desta descrição - e, de facto, pertence a um género botânico distinto, embora se filie, tal como os verdadeiros dentes-de-leão, na tribo Cichorieae da família Asteraceae. Os capítulos florais das plantas desta tribo distinguem-se por só terem florículos ligulados, em contraste com os malmequeres, em que os florículos externos (os que dão as "pétalas") são bem diferentes dos do disco central (veja aqui). Com a penúria de nomes comums que aflige quem quer falar de plantas em português, não é inapropriado, a exemplo do que se faz nesta página do portal Flora-On, incluir todas as plantas da tribo num conceito alargado de dente-de-leão.

Informa quem sabe (ou não) que o nome genérico Crepis provém do grego krepis, que significa sandália ou chinelo, e alude talvez à forma dos frutos. A explicação é pouco convincente: os frutos são aquelas coisas com penachos brancos que as crianças sopravam para decidir se os pais (delas ou das outras) seriam carecas; chamam-se cipselas, e têm fraca semelhança com qualquer tipo de calçado.

O Crepis lampsanoides, que leva esse nome por ter folhagem parecida com a da Lapsana communis, é uma herbácea perene, rizomatosa, com hastes pubescentes e ramificadas de não mais que 90 cm de altura, que floresce entre Maio e Julho em lugares frescos e algo sombrios. Os capítulos florais, com cerca de 2 cm de diâmetro e brácteas revestidas de pêlos glandulosos, são dotados de longos pedúnculos e surgem agrupados em corimbos. Em Portugal, o C. lampsanoides só ocorre na metade norte do país. Não é um endemismo ibérico porque conseguiu atravessar os Pirenéus e chegar ao sul de França, mas faltou-lhe fôlego para ir mais longe.

29.3.14

H, II ou X

Ophrys incubacea Bianca

Orquídeas silvestres outra vez?, pergunta o leitor de testa franzida. Pois, ainda não falámos desta. Só recentemente a vimos no Parque Natural da Arrábida, em sítios soalheiros ou a meia sombra, e estava no início da floração. Não ocorre no norte do país, embora haja populações no norte da Península Ibérica. É uma planta mediterrânica e, mau grado os poucos registos da sua presença em Portugal, não será assim tão rara no Alentejo e na Estremadura. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, garante que também ocorre no maciço calcário do centro do país. O botânico italiano Giuseppe Bianca (1801-1883), que a nomeou em 1842, terá avistado exemplares diminutos na Sicília (o nome incubacea alude precisamente a essa pequenez), mas os caules erectos podem chegar aos 60 cm de altura.

Em algumas flores nota-se, na ponta do labelo, um apêndice amarelo redondinho cuja função desconhecemos. Para outros detalhes há, porém, explicação. As flores têm um estigma escuro e o labelo é peludo, em tom castanho avermelhado, próximo da cor do vinho tinto, no centro do qual se destaca uma mancha violácea brilhante que, para mais bem contrastar, tem por vezes um rebordo ocre ou esverdeado. A alguns, a flor lembra uma aranha, a outros uma vespa ou um moscardo. No polinizador (Andrena morio) suscita a grata memória de uma mosquinha-fêmea de tamanho aproximado ao do labelo, igualmente escura e com asas estreitas que, juntas, parecem formar um X. O desenho no labelo da flor imita quase perfeitamente este formato, embora a letra saia por vezes mal desenhada, lembrando antes um H ou um duplo I.

Alguns naturalistas, botânicos e especialistas em orquídeas evocam várias diferenças morfológicas para não seguirem a norma da Flora Ibérica (e, portanto, do Flora-On) de designar esta orquídea como Ophrys sphegodes Mill., nome atribuído em 1768 a uma planta que, se aceitarmos essa opinião, não existe por cá. É certo que as variações morfológicas aleatórias numa mesma população de orquídeas podem ser muito benéficas à espécie, mas algumas das que observamos hoje têm por ventura ainda um carácter efémero. Entende-se, assim, a hesitação em formalizar esses cambiantes em múltiplas espécies sem o apoio de estudos genéticos aprofundados. Contudo, o género Ophrys hibrida com frequência, o que complica consideravelmente a tarefa da ciência mas é fonte de legítimo regozijo para quem descobre tais híbridos.


Castelo de Palmela

25.3.14

Pirilampos selvagens



Luzula sylvatica (Huds.) Gaudin subsp. henriquesii (Degen) P. Silva

A relação entre a Luzula e os pirilampos já foi sobejamente explicada em fascículos anteriores. Detemo-nos agora no adjectivo que completa o título. Se o leitor quiser mostrar que acha a natureza muito gira mas de facto só a conhece da televisão, então deve usar, em todas as possíveis ocasiões, o termo "selvagem" em vez do mais apropriado "silvestre". Fale das nossas "flores selvagens", arregalando muito os olhos para sublinhar o susto, e nunca admita que aquilo que é espontâneo em bosques e prados se chama "silvestre". Selvagem é um lugar cheio de ameaças e rugidos, como os que aparecem nos documentários rodados na Amazónia ou nas profundezas de África. Não é termo adequado à natureza residual e domesticada que nos cabe por herança neste século XXI europeu. Quem já teve oportunidade de contemplar as nossas orquídeas espontâneas não ficou transido de medo mas apenas fascinado, e entendeu bem como seria descabido qualificá-las de selvagens.

De modo que os pirilampos selvagens, que não são pirilampos nem selvagens, pousaram no título apenas como pretexto para uma diatribe lexical. Regressando à temática botânica, sobre a Luzula sylvatica, que é frequente em bosques húmidos e margens de rios na metade norte do país, dir-se-á que a discrição em tons de castanho das suas inflorescências é amplamente compensada pelos tufos de folhas brilhantes que se mantêm verdes durante todo o Inverno. Revela um esforço meritório que floresça durante longos meses, de Março a Agosto, lançando panículas difusas sustentadas por hastes que podem atingir os 80 cm de altura, mas é pelas folhas planas e ciliadas, e não pelas flores, que gostamos dela.

A botânica não é uma ciência exacta, e por isso nela convivem sem desprestígio as opiniões mais desencontradas. Esta Luzula sylvatica é foco de divergências taxonómicas baseadas em certos pormenores morfológicos. Assim, muitos autores sustentam que em Portugal e na Galiza ocorre apenas a L. sylvatica subsp. henriquesii, endémica do noroeste peninsular, caracterizada por ter flores com tépalas mais pequenas do que a subespécie típica. A Flora Ibérica, na revisão do género Luzula publicada em 2010, recorre ao habitual argumento da existência de formas de transição para decretar que a alegada subespécie galaico-portuguesa é indistinguível da subespécie nominal, comum por essa Europa fora. Há sinais de que nem portugueses nem galegos estão dispostos a abdicar de mais este endemismo: por cá, tanto a Checklist da Flora de Portugal como o Flora-On mantêm como válida a subespécie henriquesii, e parece-nos de bom tom alinhar com tão distinta companhia.


L. sylvatica nas margens do rio Bestança

22.3.14

Novas do Minho



Potentilla sterilis (L.) Garcke

Íamos com os olhos treinados para o amarelo. O rio Coura e afluentes pareciam saber disso e ter combinado encantar-nos com narcisos a perder de vista. A chuva insistente dos últimos quatro meses, que pôs o país à beira de uma crise nervosa, teve afinal um propósito.

Foi precisamente por destoar dessa tendência amarela, ao exibir diminutas flores brancas, que reparámos nesta Potentilla. Pela floração hibernal, julgámos tratar-se de mais uma população de P. montana, mas a ecologia e o recorte das margens das folhas confirmaram tratar-se de uma outra espécie. As plantas que vimos estavam nas margens de um riacho, com o chão amaciado por folhas caídas de um bosque ribeirinho que deve oferecer uma sombra fresca e confortável no Verão. Para o leitor ter uma ideia das dimensões desta planta, note que as pétalas têm cerca de 5 milímetros de comprimento por 4 de largura.

Esta Potentilla é uma planta vivaz que por cá é rara, havendo uns poucos registos antigos dela no Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes mas não um nome comum que se lhe conheça. Na Península Ibérica, prefere a metade norte. Há, porém, regiões do centro e sul da Europa onde ela não está em perigo de desaparecer. Das nove espécies do género Potentilla que ocorrem em Portugal continental, entre as quais predominam as de flores amarelas, falta-nos ver uma outra espécie que também dá flores brancas, a P. rupestris, que a Flora Ibérica garante existir em Trás-os-Montes. Deve andar, de facto, a jogar ao esconde-esconde por trás das montanhas.

17.3.14

Redonda vezes quatro




Galium rotundifolium L.

Não é sintoma de chauvinismo, e muito menos conversa de operador turístico, reconhecer que às vezes o que é só nosso é melhor do que aquilo que partilhamos com muitos outros países. Na maioria dos casos, essa supremacia é puramente fortuita e não fizemos nada para a merecer. Além disso, e como sucede com quase tudo do que tratamos no blogue, o assunto interessa a tão pouca gente que não será com ele que se fortalecerá o depauperado orgulho nacional. Falando das plantas do género Galium, a que os ingleses chamam bedstraw e nós não chamamos nada, as mais arrumadinhas, simétricas e elegantes que encontramos no nosso país distinguem-se por ter quatro folhas em cada nó, cada uma delas com três veios longitudinais bem vincados. É esse o figurino tanto do Galium broterianum como do Galium rotundifolium, que aqui trazemos hoje. O primeiro é frequentador assíduo de margens de cursos de água no interior norte e centro do país; o segundo, que mora no mesmo território mas prefere matas caducifólias, é muito menos comum. O primeiro tem uma inflorescência abundante e vistosa, composta por dezenas de pequeninas flores brancas; o segundo tem uma inflorescência rala, como se tivesse sido podado fora de época por um jardineiro inconsciente. Finalmente, o primeiro é só nosso ou quase (tratando-se de um endemismo ibérico, somos obrigados a partilhá-lo com os espanhóis), enquanto o segundo tem uma distribuição vastíssima, que vai desde a Península Ibérica e o Mediterrâneo até à Escandinávia e ao sudoeste da Ásia. Por uma vez, temos em abundância o que é melhor e mais bonito, e que os outros não têm, embora, por compulsão coleccionista, não abdiquemos de ter igualmente, mas em quantidades moderadas, o produto de menor qualidade que os outros também têm.

O G. rotundifolium é uma planta perene, estolhosa, capaz por isso de revestir largos metros quadrados de terreno no sub-bosque de carvalhais ou de soutos. Tem folhas arredondadas (daí o epíteto atribuído por Lineu) com cerca de 1,5 cm de comprimento e pecíolo muito curto, e caules de 30 ou 40 cm de altura encimados por inflorescências esparsas, corimbiformes, compostas por flores brancas com 3 a 4 mm de diâmetro. Floresce de Junho a Julho. A quem quiser vê-lo de perto aconselha-se uma visita ao Souto do Concelho, em Manteigas, ou à Mata da Margaraça, na serra do Açor, local onde as fotos foram obtidas e que justifica muitas visitas pelas razões aqui detalhadas.