3.3.15

Liana das trombetas




Aristolochia baetica L.

Dizer que o Algarve não é só praia é como dizer que Las Vegas não é só jogo: ambas as afirmações estão correctas (em Las Vegas há também um deserto, e grande), mas não deixam de ser protocolares, tocadas pela cautela diplomática de quem receia ofender; ainda que trivialmente verdadeiras, são pouco sinceras. Fazer de lagarto ao sol não é actividade que nos atraia, e por isso visitar o Algarve no Verão está fora de causa. Visitá-lo no Inverno, numa pausa de uma semana entre dois períodos escolares, acaba por ser uma boa opção para (usando a gíria dos operadores turísticos) "descobrir o outro Algarve", afinal o único que nos interessa. Foi preciso este blogue completar dez anos para quebrarmos o enguiço e descermos em visita de exploração botânica ao extremo sul de Portugal. Na primeira quinzena de Fevereiro são mais as promessas do que as flores; mas, conforme atestarão este fascículo e os seguintes, não regressámos a casa de mãos a abanar.

Para reforçar o constraste entre o Algarve que buscávamos e o Algarve dos veraneantes, nem sequer espreitámos o mar no primeiro dia da estadia. Tomámos uma estrada apontando para nordeste, cheia de curvas, rodeada por sobreiros, e dirigimo-nos a Alcoutim, com paragem em dois ou três pontos para calcorrear as margens da ribeira da Foupana, afluente do Guadiana. Aqui os solos são ácidos, e a vegetação da serra, dominada por estevas, é mais pobre que a dos afloramentos calcários em redor de Loulé. Ainda assim, há amendoeiras em flor em pomares abandondados, rosetas de Cynara algarbiensis a muitos meses de florir, campos de linárias roxas que se adiantaram no calendário; e, entre as rochas junto à ribeira, festejamos o nosso primeiro encontro com a versão silvestre do tão comum loendro (Nerium oleander), o arbusto das auto-estradas.

Outra estreia feliz foi o nosso encontro com a liana-das-trombetas (como passaremos a chamar à Aristolochia baetica), uma trepadeira que reputávamos rara mas, percebêmo-lo depois, é comum na metade oriental do Algarve. Contudo, e por muito que ao vigésimo reencontro a emoção estivesse atenuada, esta planta lenhosa, de hastes longas, finas e enroladiças, com as suas extraordinárias flores trombeteiras cor de vinho, é de facto o ícone mais forte de toda a flora algarvia. Ainda que haja notícias vagas e remotas de incursões suas no Alentejo, só no Algarve é que no nosso país ela se vê facilmente, sublinhando uma vocação mediterrânica que é confirmada pela distribuição global da espécie, nativa apenas do sul da Península Ibérica e do norte de África (Argélia e Marrocos).

Para os infelizes que nunca viram a planta, alguns dados e medidas podem ajudar: as folhas, que são persistentes, têm uns 4 cm de comprimento, e as flores, bem maiores do que é comum no género, podem chegar aos 7 cm; a floração é sobretudo hibernal. Nas fotos em cima, vemos a Aristolochia baetica enredando-se num pilriteiro despido de folhagem: como trepadeira versátil que é, qualquer apoio, vegetal ou não, lhe serve, e também a observámos subindo por muros ou tacteando paredes de casas abandonadas.

À semelhança dos fradinhos e dos jarros (que pertencem porém a outra família botânica, bem afastada daquela que inclui a Aristolochia), também as flores da liana-das-trombetas são auto-incompatíveis: só quando o estigma de uma flor deixa de estar receptivo ao pólen é que as anteras dessa mesma flor libertam o pólen que, transportado por algum insecto, terá necessariamente de fecundar uma flor diferente. O esquema é complicado, envolvendo engodo olfactivo (os insectos são atraídos por cheiros putrefactos) e o aprisionamento durante largas horas dos ingénuos polinizadores, enquanto a flor opera a transição da fase feminina para a masculina.



ribeira da Foupana

28.2.15

Lembrança de África



Plantago afra L.

A vida nas cidade obriga a rotinas nem sempre agradáveis mas que se podem revelar úteis. Sendo lugar com muitos utilizadores e nem sempre devidamente asseado, tem-se vindo a notar que os que ainda nela caminham o fazem de olhos postos no chão, em permanente vigilância. Não é uma postura aconselhável, mas o corpo habitua-se e mantém essa posição mesmo quando se encontra num sítio joeirado, numa duna conservada ou num campo de flores silvestres. Aí, porém, a atenção pode desviar-se para as boas descobertas, como as plantas do género Plantago, frequentes e fáceis de reconhecer.

Os plantagos têm em geral uma roseta basal densa de folhas (algumas largas, com nervuras que lembram a planta do pé), além de algumas folhas lineares no caule, e notam-se melhor na época da floração, que decorre entre o fim do Inverno e o Verão. Não que as flores sejam vistosas; pelo contrário, são pequenas e esverdeadas, com sépalas e pétalas transparentes. Mas reúnem-se por vezes às dezenas em espigas de pé alto, e as anteras amareladas no topo de filamentos longos formam uma nuvem ovóide muito atraente. A polinização está entregue ao vento mas é benéfico que os que se cruzam com esta planta toquem nas cápsulas de sementes, sacudindo-as de tal modo que elas se abram através de uma tampa no topo, como se fossem panelas, libertando o conteúdo. Por isso, não surpreende a abundância de plantagos em bermas de caminhos e terrenos pisoteados.

O plantago das fotos é uma planta anual débil que não segue exactamente o padrão de morfologia atrás descrito, pois falta-lhe uma roseta basal bem definida. Gosta de lugares secos, bem arejados e soalheiros, sejam eles pastagens, prados, clareiras de matos ou solos arenosos ralos que trazem à memória o norte de África. O epíteto afra refere-se precisamente a esta região africana, mas a distribuição desta herbácea é mais vasta: é nativa da região mediterrânica, parte da Ásia, ilhas Canárias e Península Ibérica (embora aqui seja rara no terço norte). As sementes desta espécie contêm uma goma que, uma vez humedecida, é utilizada medicinalmente em laxantes.

A distribuição do género Plantago é curiosa, mas coerente com o seu apreço por habitats ruderalizados ou sem forte concorrência de outras plantas. Das cerca de 270 espécies conhecidas, o maior grupo concentra-se na Europa, um conjunto um pouco menor tem origem na Austrália e na Nova Zelândia, e as restantes espécies, já poucas, espalham-se de modo avulso pelo resto do mundo. Em Portugal há registo de dezasseis espécies, duas das quais são endemismos ibéricos, mas o número subiria para dezassete e incluiria um endemismo português se o Plantago almogravensis (da costa vicentina) fosse considerado distinto, como de facto parece ser, do P. algarbiensis.

24.2.15

Um jardim assim (3.ª parte)



Euphorbia peplus L.

Quem tiver esta planta nos seu jardim talvez goste de saber que é acompanhado na sua (chamemos-lhe assim) desdita por jardineiros de todos os continentes, a ponto de os franceses lhe chamarem euphorbe des jardins. Embora a sua área de distribuição original se fique pela África, Europa e Ásia, a Euphorbia peplus está firmemente estabelecida no resto do mundo como hóspede tantas vezes indesejável de terrenos baldios, jardins, pastagens e terras cultivadas. Planta anual de porte modesto (10 a 30 cm de altura), glabra, de folhas que lembram gotas de água, caules avermelhados e inflorescências em forma de umbela, distingue-se de outras eufórbias pelas longas caudas que rematam os nectários (observáveis na 3.ª foto em cima).

A Euphorbia peplus tem registados pelo menos dois nomes comuns na nossa língua: ésula-redonda e sarmento. Embora seja improvável que alguém os use, eles não são inteiramente implausíveis, já que ésula parece aplicar-se à generalidade das eufórbias e sarmento talvez resulte de uma tresleitura de sarnento, sugerindo que a planta tem alguma utilidade em doenças dermatológicas. Como todas as eufórbias, também a E. peplus é tóxica e segrega um látex irritante para a pele. Contudo, e em obediência ao princípio de que aquilo-que-arde-ajuda-a-curar, o mesmo látex (desta eufórbia, não de outras) tem sido tradicionalmente usado contra certas lesões cutâneas. Em anos recentes, a medicina científica resolveu comprovar-lhe a eficácia, e o resultado dos testes clínicos não podia ser mais promissor. Uma molécula extraída da planta (mebutate ingenol) foi aprovada em 2013 nos EUA para o tratamento de certas formas incipientes de cancro da pele (ceratose actínica e carcinoma basocelular), comuns em pessoas de pele clara que se expõem demasiado às radiações solares. Com a generalização desse tratamento, eis que uma erva sem eira nem beira, ou daninha como alguns gostam de lhe chamar, se revela altamente benéfica para a saúde humana. Em lugar de ser perseguida com herbicidas, não tardará que ela seja cultivada em larga escala para a produção de medicamentos.

21.2.15

Um jardim assim (2.ª parte)



Erodium moschatum (L.) L'Hér.

Eis a nossa segunda planta para os jardins naturalizados, aqueles que são pedaços de terra entregues aos acasos da natureza. Os mais distraídos diriam tratar-se de um gerânio (e não é raro haver gerânios como estes a fazer-lhe companhia), mas as folhas compostas imparipinadas desmentem essa filiação, já que os verdadeiros gerânios costumam ter folhas simples, ainda que algo recortadas. Gerânios e eródios pertencem, contudo, à mesma família botânica; as flores rosadas de cinco pétalas e os frutos muito compridos (justificando nomes comuns como bico-de-cegonha, bico-de-garça ou bico-de-pomba) são evidentes traços de parentesco.

O nome Erodium, que vem do termo grego erodios, refere-se à garça ou a alguma outra ave de bico proeminente; já o epíteto moschatum, que se traduz por moscado ou almiscarado, descreve as qualidades aromáticas da planta, que haveremos de testar logo que tenhamos oportunidade. E ela não nos há-de faltar, mesmo na cidade e no trajecto diário a pé entre a casa e o emprego. Lá por Março ou Abril estarão as tiras verdes que fingem de jardins em volta dos prédios forradas com densos tapetes floridos desta planta anual, e já com os frutos a prometer que a história é para continuar na temporada seguinte. Foi de facto num lugar desses no centro do Porto que as fotos foram obtidas.

Originário da Europa e da região mediterrânica, e naturalizado na Austrália, Américas e África do Sul, o Erodium moschatum mostra grande apetite por lugares degradados como bermas de caminhos, jardins ao abandono, terras cultivadas, pomares e vinhas. É uma planta versátil, que tanto se dá na cidade como no campo, e por isso observá-la está ao alcance de qualquer um. As suas folhas são grandes, de uns 15 cm de comprimento; e, quando bem desenvolvida (coisa que raramente tem oportunidade de fazer em ambiente urbano), a planta pode atingir um metro de altura; os frutos, que tal como as flores se dispõem em cachos densos na extremidade das hastes, têm cerca de 5 cm de comprimento.

17.2.15

Um jardim assim (1.ª parte)

Cerastium glomeratum Thuill.

Dizer de uma planta que ela é daninha é um exercício, tantas vezes inconsciente, de antropocentrismo. Se as plantas falassem, não deixariam igualmente de compilar a sua lista de animais daninhos, na qual ocuparíamos, destacadíssimos, a posição cimeira. Em rigor, consideramos que uma planta é daninha quando ela interfere com os nossos interesses ou baralha as nossas expectativas. Um agricultor que semeou trigo não há-de querer uma seara de joio quando chegar a época da colheita. Um jardineiro que plantou com rigor geométrico um canteiro de vistosas plantas exóticas terá o cuidado de fazer uma monda quase diária das ervas oportunistas para evitar que elas estraguem o efeito pretendido. Deveríamos pois deixar de dizer ervas daninhas, o que é um modo de guindar o nosso interesse a valor absoluto, e passar a falar de ervas indesejáveis, entendendo-se que somos nós que não as desejamos num certo local e por razões que nos dizem respeito.

Sendo Portugal o país peculiar que é, estas picuinhices semânticas talvez sejam algo ociosas. Nas últimas dezenas de anos, com a suburbanização galopante e o desmazelo geral do espaço público, ganhou voga um novo conceito de jardim: uma tira de relva com árvores ou arbustos que parecem ter sobrevivido a uma guerra (os seus companheiros mortos não foram chorados nem substituídos), e nada de plantas floridas tirando aquelas que apareçam por sua livre vontade. Os «jardineiros» que, de tempos a tempos, se ocupam desses «espaços verdes» pós-apocalípticos não têm qualquer apreço por plantas ou flores, nem vêm equipados com pás e tesouras: em vez disso, comportam-se como se estivessem numa frente de batalha, trazendo máquinas barulhentas e destrutivas para decepar tudo à sua frente. Assim, como nesses espaços o que há de verde é obra espontânea da natureza, não é sequer apropriado falar de plantas indesejáveis, a menos que todas as plantas o sejam num espaço nominalmente a elas reservado. E, de facto, esta situação absurda vai-se tornando comum em todo o país desde que alguém descobriu que os cuidados de «jardinagem» poderiam ser dispensados se se regassem com herbicida os tais «espaços verdes», desse modo os convertendo em «espaços castanhos».

Porém, como o furor herbicida não chega a todos os jardins desmazelados, e há até sinais de que possa amainar, talvez seja útil aprendermos a reconhecer as plantas que neles se instalam sem pedir licença. Não prometendo nós fascículos regulares sobre o tema, surgirão pelo menos dois, dos quais este acerca do Cerastium glomeratum é o primeiro. Espécie anual, de porte geralmente rasteiro mas podendo chegar aos 50 cm de altura, é popularmente conhecido como orelhas-de-rato, tal como o seu congénere Cerastium fontanum. As duas espécies distinguem-se com dificuldade, apesar de o C. fontanum ser perene, e sendo certo que em jardins e noutros espaços ruderalizados é o C. glomeratum que costuma aparecer. Eis como fazer a destrinça: no C. glomeratum as sépalas estão revestidas por pêlos que ultrapassam claramente o ápice (veja a 3.ª foto acima e também aqui), coisa que não sucede no C. fontanum (confirme aqui). Caracteres úteis mas menos fiáveis para o diagnóstico são o tamanho das pétalas (as do C. glomeratum costumam ser menores e às vezes estão ausentes) e o facto de as inflorescências do C. glorematum serem mais compactas, com pedicelos mais curtos, e contarem com um número maior de flores.

Talvez o leitor ache que o pobre jardim do seu condomínio só serve para envergonhar os moradores com alguma ponta de brio, mas na verdade ele não é destituído de interesse florístico. Espere por Março ou Abril e vai ver que consegue lá observar coisas bonitas como esta.

14.2.15

Estrela perdida


rio Tâmega - Vilarinho da Raia, Chaves

Até há pouco tempo, o Tâmega era para nós um rio farto que galga com vigor alguns desníveis junto a Amarante, ali inspira os nomes de apetecíveis doces conventuais, e termina cansado e poluído no rio Douro, perto de Marco de Canavezes. Há dias decidimos seguir-lhe o rasto a montante, onde é o Támega, para o ver mudar de acento e tornar-se português: junto a Vilarinho da Raia toca durante uns três quilómetros o território nacional, sendo aí a nossa fronteira com Espanha, e só então decide virar à direita e entrar definitivamente em Portugal, encaminhando-se para Chaves. Nos mapas, a linha de fronteira em Vilarinho da Raia segue mais ou menos a meio do rio, assegurando metade dele para cada país; na prática, o curso de água ali é estreito o bastante para que os pescadores de um lado possam facilmente conviver com os do outro enquanto o peixe transfronteiriço não morde a isca.



Aster lanceolatus Willd. [sinónimo: Symphyotrichum lanceolatum (Willd.) G. L. Nesom]

A água e as margens dessa faixa luso-espanhola de rio não estão bem cuidadas. Por certo, como no caso de parques ou estradas partilhadas por várias freguesias, cada lado espera que o outro faça a necessária manutenção da beira-rio, e nesse entretanto aquele habitat tão promissor, onde encontrámos exemplares de Cucubalus baccifer, Humulus lupulus, Geum urbanum, Saponaria officinalis, Solanum dulcamaraSparganium erectum, Frangula alnus, Prunus spinosa, Ulmus minor, e até um pequeno bosque de Quercus pyrenaicaestá a degradar-se. Esta asterácea alta (pode atingir um metro e trinta de altura), perene e quase arbustiva, com folhas lanceoladas, glabras, de um verde intenso que contrasta harmoniosamente com as lígulas brancas, por vezes azul-violáceas, das inflorescências, tem origem norte-americana. Talvez tenha escapado de algum jardim, mas não deveria estar naquele local. Alguns dirão que, face à presença de acácias, silvas e tintureiras, uns poucos pés desta herbácea são um mal menor num ambiente tão alterado. Não nos surpreenderá, porém, que daqui a uns poucos anos ela se tenha vulgarizado nas margens do rio Douro, e além. Depois não se diga que não avisámos.

Esta margarida mudou de designação científica, pertencendo agora ao género Symphyotrichum, para onde migraram quase todas as plantas do género Aster nativas da América do Norte e com capítulos florais grandes, agrupados em panículas.

10.2.15

Agrião do rio Minho



Rorippa palustris (L.) Besser

Chamamos agrião a esta planta por ela ser aparentada com o verdadeiro agrião (Rorippa nasturtium-aquaticum). Na aparência as duas plantas pouco têm em comum, divergindo tanto na cor das flores como na morfologia das folhas; mas quem sai aos seus não degenera, e sob um disfarce tão enganador a Rorippa palustris pode, ao que consta, ser usada nos mesmos preparos culinários que deram fama à sua congénere. À pergunta que o leitor gourmet, ávido por novos sabores, não deixará de colocar, que é onde posso eu colhê-la?, respondemos com um desencorajador em Portugal não é fácil. A menos (continuando com a resposta, após pausa teatral) que o leitor viva no Minho e perto do rio com o mesmo nome, e consulte o horário das marés para não ser apanhado pela repentina subida das águas quando for, cesta na mão, abastecer-se de verduras para a salada. Há-de então notar que muitos dos rebentos mais desejáveis escolheram instalar-se em lugar que volta e meio fica submerso, apresentando-se revestidos com uma pouco apetitosa crosta de lama. E, se o rigor taxonómico não for a sua prioridade, talvez lhe aconteça colher amostras de um terceiro agrião, Rorippa sylvestris, que tem flores mais vistosas mas pouca diferença fará no sabor.

Planta anual ou mais raramente bienal, costumando ficar-se pelos 20 a 30 cm de altura mas capaz de duplicar esse valor, florindo ao longo da Primavera e do Verão, o agrião-das-marés (nome inventado agora mesmo para a Rorippa palustris) é nativo de uma vasta porção do hemisfério norte, incluindo Europa, Ásia e América, e está naturalizado na Austrália e na América do Sul. Em território português a sua presença é residual: no rio Minho sobrevive em abundância graças à ausência de barragens no troço internacional do rio, mas nos rios Tejo, Douro e Tâmega, onde também terá existido, não é certo que ainda se mantenha.

3.2.15

Espadas verdes




Antinoria agrostidea (DC.) Parl.

As folhas flutuando à tona de água parecem outras tantas alpondras que nos convidam a pôr o pé e a atravessar para a outra margem, coisa que faríamos de bom grado se fôssemos pequenos e leves como os bichos aquáticos. As mais seguras e convidativas são as folhas redondas dos nenúfares e aparentados, mas também as há compridas e pontiagudas, que lembram as espadas inofensivas das brincadeiras infantis. Nos lagoachos da serra da Estrela são duas as espécies de plantas aquáticas que estendem tapetes de espadas verdes: o Sparganium angustifolium e esta Antinoria agrostidea. Uma e outra têm efeito cénico semelhante, mas pertencem a famílias botânicas distintas, distinguindo-se facilmente pelas inflorescências: as do Sparganium são globulosas, dispostas numa haste curta, enquanto que as da Antinoria aparecem em panícula, e são formadas por espiguetas tingidas de roxo. Na ausência de frutos ou flores, a diferenciação também não é difícil, pois as folhas do Sparganium são em regra bem mais compridas, e as da Antinoria são percorridas por sulcos longitudinais profundamente marcados. Em qualquer caso, só mesmo na serra da Estrela, único lugar de Portugal onde ocorre o Sparganium angustifolium, é que pode pôr-se a dúvida. Já a Antinoria agrostidea vai aparecendo aqui e ali, sobretudo nas zonas montanhosas, em charcos ou lagoas de águas límpidas, ou em rios pouco profundos e de fraca corrente.

Esta Antinoria é uma gramínea versátil, e dela se conhecem várias formas. A versão aquática (a mais comum no nosso país) é uma planta perene, enraizante nos nós, e goza de reconhecimento taxonómico (não unânime) como A. agostidea subsp. natans (Hack.) Rivas Mart. A subespécie nominal, por seu turno, gosta de sítios húmidos mas não de estar mergulhada na água, tem folhas e caules erectos, e inclui tanto plantas perenes como plantas anuais, havendo porém quem separe as formas anuais numa terceira subespécie, chamada annua. Apesar de alguns autores, entre eles Franco & Rocha Afonso no vol. III da Nova Flora de Portugal, entenderem que não se justifica qualquer diferenciação a nível de subespécie, não é essa a opinião que tem prevalecido recentemente.

31.1.15

A árvore que sobra



Sorbus torminalis (L.) Crantz

Desde crianças que não gostamos de ser meros espectadores. Esforçamo-nos desde então por traçar rectas, caminhos mais curtos ou mais rápidos, numa azáfama transformadora que, se destrói, logo tenta consertar para que não se note o estrago. Chegamos agora facilmente a muitos lugares e neles não faltam florestas acabadas de plantar (mas por que será que elas nos lembram desertos?), albufeiras onde estrepitosas motos de água permitem a descontracção ansiada depois de uma semana de canseira citadina (mas onde está o rio bravo que ali se admirava?) e centros de interpretação com promessas de uma via privilegiada de comunicação com a natureza.

Lamentavelmente, a natureza não tem espinhos ou ganchos com que se defender, anda muito melindrada e nem sempre resiste a tanto empreendedorismo. Decerto há plantas que também aproveitam os estradões, abertos serra acima a pensar nas eólicas, para experimentarem outros habitats favoráveis ou apenas colonizarem o novo espaço disponível. E também conhecemos as que apreciam as clareiras dos novos matagais de eucaliptos com que esverdeamos o país. Mas, mais frequentemente, depois de serem maltratadas ou de lhes derrubarem o bosque de sombra, humidade, musgo e sossego em que viviam, as plantas não conseguem adaptar-se ao novo ambiente e definham. Talvez seja essa a razão dominante para a raridade desta árvore, uma das quatro do género Sorbus no nosso país. Dela há por cá poucas populações conhecidas, avisando a Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, que elas se restringem às serras do Gerês, Nogueira e Gardunha, onde os carvalhais também já foram mais abundantes. Os registos da Flora On, porém, indicam outros locais onde a espécie resiste, na Beira Alta e em Trás-os-Montes.

O espécime que fotografámos está em Castro Vicente; ele e um companheiro mais novo parecem ser únicos numa vasta área. Encontrámo-lo graças a uma indicação do Miguel Porto, mas chegámos tarde para ver as cimeiras de flores, e os frutos não estavam ainda formados. As pétalas são brancas e rodeiam inúmeros estames, como no pilriteiro (Crataegus monogyna), e em 1753 Lineu até lhe chamou Crataegus torminalis. As folhas ainda se mantinham frescas e pudemos verificar como são glabras (embora tenham sido meio penugentas no início da Primavera), de textura rija e contorno profundamente lobado; é esse o traço que o distingue das restantes sorveiras portuguesas.

Esta sorveira (S. torminalis) é nativa do centro e sul da Europa, norte de África e parte da região mediterrânica. A informação do portal Anthos diz-nos que ela se encontra bem disseminada na Península Ibérica, mas só do lado espanhol. Ao estudarmos as referências sobre ela, lemos que o epíteto latino torminalis se refere ao risco de problemas intestinais que a ingestão das bagas pode provocar. E aprendemos ainda que esta árvore é inerme.

27.1.15

Primavera dos entulhos



Urospermum picroides (L.) Scop. ex F. W. Schmidt

Flor do entulho é uma metáfora para descrever algo que, pela beleza ou outras inesperadas qualidades, sobressai fortemente do meio em que está inserido. Quem andar com os olhos atentos, porém, encontra muitas e atraentes flores do entulho no sentido literal da expressão. Vêem-se por vezes, misturadas com restos de obras, plantas ornamentais ainda vivas de que os seus donos, inexplicavelmente, resolveram livrar-se. Os que se habituarem a respigar pacientemente tais lugares de abandono nunca precisarão de se abastecer em hortos para comporem vistosos jardins com as cores, cheiros e formas que outros desdenharam. Para além dessa incorporação directa de plantas exóticas, os entulhos deixam-se colonizar rapidamente pelas plantas nativas com gosto por habitats degradados. E, no transporte de restos de cal, cimento e tijolos de uma região para outra, há sempre muitas sementes que aproveitam a boleia. Num país desmazelado como o nosso, onde proliferam os depósitos clandestinos de materiais de construção, não deverá ser pequeno o papel que essas estruturas têm desempenhado na disseminação de certas espécies.

O preciso entulho onde na Primavera de 2014 vicejava esta leituga-de-burro (é esse o nome popular do Urospermum picroides) constitui o involutário contributo de um anónimo mestre de obras para o enriquecimento florístico da Reserva Ornitológica de Mindelo (actual Área Protegida do Litoral de Vila do Conde). Involuntário, entenda-se, não porque o entulho tivesse sido depositado por acidente, mas porque o mestre de obras em questão não poderia ter controle sobre as sementes com que os despojos iam guarnecidos. Certo é que a leituga-de-burro não se vê em nenhum outro local nas proximidades, e aliás nem costuma frequentar o litoral nortenho, sendo mais comum no centro e sul do país. Como confirmação adicional de que se trata de uma novidade, a espécie não consta da listagem da flora do Mindelo incluída no relatório (de 2007) que fundamentou a criação dessa área (des)protegida.

Aparentada com os dentes-de-leão e também com as verdadeiras leitugas (que é como habitualmente chamamos às asteráceas do género Tolpis), a leituga-dos-burros é uma planta anual, erecta, ramificada na metade superior do caule, que não costuma ultrapassar os 40 ou 50 cm de altura. Tal como sucede com as outras leitugas, e daí esse nome, o seu caule é oco e recheado de látex. As folhas podem ser inteiras ou recortadas e os capítulos florais são pequenos, mas o que mais ajuda a reconhecê-la são os pêlos brancos eriçados de que as brácteas involucrais estão revestidas (foto 4). O nome Urospermum, de origem grega, significa semente com cauda, e refere-se aos apêndices recurvados que nesta espécie prolongam os aquénios (visíveis nesta foto).

24.1.15

Margarida do mar





Matricaria maritima L. [sinónimo: Tripleurospermum maritimum (L.) W. D. J. Koch ]

Em várias praias do litoral atlântico, onde o mar é frio e tormentoso, encontramos perto da espuma, entre redes de pesca e barcos a descansar na areia, exemplos notáveis de estatuária: estátuas com homens de gorro e rosto sulcado, a vencer ondas bravas ou a recolher redes pesadas de peixe, numa homenagem aos pescadores e ao mar fértil; e estátuas com mulheres, mães, viúvas e orfâs, desesperadas ou incrédulas, a injuriar o destino e o mar cruel.

Pelo fim do Outono, no solo arenoso ou junto aos calhaus rolados de praia, protegida do ar salgado e da maresia por dunas ou pela vegetação mais alta, pode também ver-se uma margarida em flor, de folhas verde-claro, sem aroma, laciniadas e carnudas (ou, dado o habitat costeiro, peixudas). Trata-se de uma planta perene, de base algo lenhosa, pertencente (até há pouco tempo) ao género Matricaria, nome que alude a matriz, ou mãe, e à fama da acção medicinal da camomila (Matricaria recutita) no alívio de febres e inflamações, especialmente em parturientes, e como calmante.

O continente português contava com duas espécies de Matricaria, mas recentes revisões taxonómicas alteraram-lhes a identidade. A Matricaria recutita é agora designada por Chamomilla recutita (L.) Rauschert; a Matricaria maritima subsp. maritima, das costas do norte da Europa, chama-se agora Tripleurospermum maritimum. O que distingue estes dois géneros é essencialmente um detalhe aritmético da morfologia das sementes: na Matricaria cada semente tem quatro ou cinco nervuras salientes, no Tripleurospermum há apenas três.

20.1.15

Erva das feridas


Stachys palustris L.

Se um botânico com um conhecimento enciclopédico da flora europeia fosse largado, sem instrumentos de orientação, num bosque ou prado algures na Europa, ele deveria ser capaz, observando o mundo vegetal à sua volta, de indicar com razoável aproximação o país e a província onde se encontrava. Claro que, para o teste ser viável, teria que se tratar de uma zona pouco ou nada alterada pelo homem, sem espécies introduzidas que tivessem roubado espaço às plantas indígenas. Também conviria que as plantas observadas fossem as mais frequentes e características da região em causa, pois um nicho ecológico pejado de raridades poderia induzir conclusões erradas. Se, por exemplo, esta Stachys palustris estivesse visível, então o nosso botânico poderia deduzir, com alguma segurança, que não se encontrava em Portugal. A espécie está, de facto, presente no nosso país, mas de um modo tão escasso e residual que a probabilidade de darmos de caras com ela por acaso é ínfima. Indica Franco na Nova Flora de Portugal que ela ocorre apenas no Baixo Mondego, o que é confirmado pelo único registo da espécie no portal Flora On. Sabedor dessas circunstâncias, o nosso povo, segundo a Flora Iberica, ter-se-á apressado a chamar-lhe rabo-de-raposa-do-Baixo-Mondego. É um nome tão quilométrico que até cansa pronunciá-lo, mas felizmente são raras as oportunidades para o fazer.

No resto da Península Ibérica, a Stachys palustris é pouco frequente, estando confinada ao extremo norte ou nordeste, mas se ultrapassarmos os Pirenéus o caso muda de figura: na Europa central e nas ilhas britânicas ela é ocupante habitual de bosques e terrenos húmidos, valetas, margens de rios e até orlas de campos cultivados. Observando que a planta da foto se abrigava numa mata de avelaneiras (Corylus avelana), fazendo-se acompanhar por herbáceas como Anemone nemorosa, Ajuga reptans e Lysimachia nemorum, e fetos como Dryopteris dilatata, talvez o nosso botânico apostasse que se encontrava na ilha de Sua Majestade. E foi na verdade em Loder Valley, uma área de reserva natural gerida pelos Kew Gardens, que estas imagens foram captadas em Agosto de 2009.

Não sendo macia e felpuda como a teutónica Stachys germanica, que apesar do nome é abundante nos calcários do centro e sul de Portugal, a Stachys palustris, se atentarmos nela com imparcialidade, leva clara vantagem na beleza das flores. Destoando da família que integram, e que inclui tomilhos, lavandas e oregãos, as plantas do género Stachys são pouco ou nada olorosas, falha compensada pela farta produção de néctar que as torna muito populares entre as abelhas. Marsh woundwort é como chamam os anglo-saxónicos à Stachys palustris, o que denuncia antigos usos medicinais. De floração estival, é uma herbácea perene, rizomatosa, dotada de hastes não ramificadas capazes de atingir uns 70 cm de altura.

17.1.15

O jardim na sala


O desconhecer-se as regras geraes da cultura das plantas e o seu habitat, que é um dos principaes pontos, senão o principal, a que se deve attender quando se transporta para o jardim ou para a sala um vegetal, leva as pessoas menos versadas em horticultura a praticarem operações que julgam optimas, mas que são contraproducentes.
A cultura dos Fetos exige uns certos cuidados e é preciso que o amador tome em consideração o seu habitat. Na distribuição dos vegetais vemos que os esmaltes pertencem aos prados; as plantas arrastadiças e sarmentosas ás montanhas e aos rochedos alcantilados e os Fetos ao sombrio dos arvoredos. Percorrei os umbrosos regatos e ahi os encontrareis, mostrando uma vegetação mais luxuriante do que se fossem rodeados de todos os cuidados da arte.
É extremamente curioso observar-se a maneira como vegeta a maior parte dos nossos Fetos, sahidos das estreitas fendas dos muros, onde parece que deve haver falta de condições essenciais à boa vegetação. Mas este facto da posição quase oblíqua que tomam quando estão completamente entregues nas mãos da natureza, não deve passar indifferentemente ao cultivador.
O snr. Augusto Luso, cavalheiro muito conhecido dos homens que trabalham, porque é investigador incansavel, tem-se ocupado muito dos Fetos, não só sob o ponto de vista scientifico, mas considerando-os tambem horticolamente. Suppomos até que não haverá no paiz herbario de cryptogamicas tão rico como o d'este nosso amigo.
Ora o snr. A. Luso observou que muitos dos Fetos que procurava cultivar, quer em plena terra quer em vaso, depois de serem dispostos na nova habitação que se lhes destinava, começavam a entristecer, a amuar, a crescer pouco, a reproduzir-se mal, morrendo muitas vezes, signal de que estavam sob condições pouco convenientes.
Este facto actuou por tal modo no snr. A. Luso que lhe suggeriu a ideia de fazer uns vasos com uma nova disposição, ideia que reputamos felicissima.
D'esses vasos dão ideia exacta as gravuras 30 e 31. A abertura superior serve para se poder regar a planta, e no fundo deverá haver um ou mais orificios que facilitem a sahida da agua.
Na abertura de cima poder-se-ha dispôr uma planta que não exija posição oblíqua, como se vê na fig. 30.
Em Inglaterra usa-se muito para os Fetos uma especie de rochedos de fórmas caprichosas, feitos de barro, cujos intersticios e cavidades são cheios de terra e ahi dispostas as plantas, imitando-se por meio da arte a natureza.
Damos a gravura de um d'esse rochedos artificiaes (fig. 32), que recommendamos como um magnifico objecto de ornamento para o centro de mezas.
Associadas aos Fetos de pequeno porte podem estar algumas Selaginellas, plantas que casam muito bem umas com as outras.
As condições geraes para a cultura dos Fetos são: dar-lhes sombra, luz diffusa atravez das cortinas e nunca em contacto directo com os raios do sol; uma atmosphera humida quanto seja possivel, o que se obtem por meio de regas frequentes mas parcimoniosas; um solo composto principalmente de detritos lenhosos e de terra muito negra; emfim, uma drainagem bem feita, de modo que a agua tenha a sahida completamente livre. Com estes cuidados os Fetos devem crescer ás maravilhas.
Os Fetos são plantas muito proprias para os quartos onde há quasi sempre meia luz. Accresce que a sua verdura alegra-nos e distrahe-nos: as suas fórmas infinitas e graciosas agradam a todos e fallam ao espirito, não só pelo seu lado util, como pela sua interessante historia. (...)
Não ha hoje uma só dama que não se extasie deante dos representantes d'esta familia e que não sinta desejos de ter alguns no seu boudoir.
Duarte de Oliveira, Junior - O Jardim na Sala (pp. 198-202) - Porto, 1876



José Duarte de Oliveira (1848-1927) foi redactor do Jornal de Horticultura Prática e um dos heróis do nosso livro À sombra de árvores com história. Graças à amabilidade de Patxi Suarez Boada, o livro O Jardim na Sala, publicado por Duarte de Oliveira em 1876, está disponível em ficheiro PDF ao fundo desta página. O exemplar digitalizado está autografado por Alfredo Moreira da Silva (1859-1932), um dos históricos horticultores portuenses da viragem do século XIX para o século XX.