4.7.15

Salsa das vacas



Anthriscus sylvestris (L.) Hoffm.

Segundo algumas fontes, o nosso povo chamaria cicuta-dos-prados a esta herbácea. É um nome enganador para uma planta que, ao contrário da verdadeira cicuta, não é venenosa; e aliás, como sugere o nome inglês cow parsley, pode ocasionalmente ser empregue em culinária. Sendo ambas umbelíferas de porte elevado (a salsa-das-vacas atinge 1,5 metros de altura, a cicuta pode chegar aos 2 metros), que dão flores brancas e apresentam folhas tripinatissectas, é de facto grande o risco de serem confundidas por gente pouco versada em subtilezas morfológicas. Não seria com tranquilidade que consumiríamos uma refeição alegadamante condimentada com este Anthriscus, se ele tivesse sido colhido na natureza. O fraco uso que em Portugal se dá às ervas aromáticas espontâneas empobrece a nossa cozinha e é por isso de lamentar, mas podemos interpretá-lo como o instinto de defesa de quem se reconhece ignorante: é melhor não nos metermos com o que conhecemos mal, não vão as coisas dar para o torto. A mesma atitude de humilde abstinência preveniria os trágicos envenenamentos com cogumentos que ocorrem quase todos os anos.

Apesar de o Anthriscus sylvestris ser comestível, não é dos condimentos mais recomendados, havendo quem descreva o seu sabor como desagradável. Será bom talvez para vacas, mas para pessoas nem tanto. Anda longe de ter prestígio equiparável ao do seu congénere Antheriscus cerefolium: o cerefólio (em francês cerfeuil, em inglês chervil), amplamente cultivado em França, é um dos quatro componentes da mistura de ervas finas tão usada na culinária gaulesa (os outros são a salsa, o cebolinho e o estragão).

A salsa-das-vacas distribui-se por grande parte da Europa e da Ásia, e está ainda naturalizada na América do Norte, mas é pouco comum na região mediterrânica e também em Portugal, onde ocorre esporadicamente no centro e no interior norte. Quem conseguir encontrá-la nos nossos campos (ela floresce de Abril a Junho) pode, ainda assim, desejar experimentá-la nos seus cozinhados sem ter que correr risco de vida, e é para essas pessoas que aqui deixamos umas dicas breves. Notemos primeiro que a salsa-das-vacas apresenta caule hirsuto, desprovido de manchas e marcadamente estriado (ver 2.ª foto), enquanto que o caule da cicuta é glabro, comparativamento liso e com manchas púrpuras. Os frutos, se estiverem presentes, também ajudam na diferenciação: os da salsa-das-vacas são alongados (4.ª foto), os da cicuta (foto) quase esféricos. Finalmente, assinalemos as muito características brácteas pendentes (4.ª e 6.ª fotos) que a salsa-das-vacas exibe na base da cada uma das umbélulas (uma umbélula é cada um dos "cachos" de flores que constituem uma umbela; na 6.ª foto em cima vemos uma umbela composta por 8 umbélulas).

30.6.15

Uma questão de saias

Há uns anos, na revista de domingo do jornal Público, pudemos ler um artigo sobre Paredes de Coura e os seus inúmeros atractivos. Além da paisagem e da gastronomia de raiz minhota, com vários arrozes, a lampreia e o famoso leite-creme, falava-se também de uma planta, o Narcissus cyclamineus, de flores de um amarelo peculiar e de trombeta longa, que coloriria em Abril as margens do rio Coura. Talvez animados por reportagens como esta, alguns sócios da Daffodil Society, que só conheciam as variedades criadas em hortos, resolveram procurar populações silvestres deste narciso. Começaram por visitar a Galiza - onde não avistaram nem um para amostra. Seguiram esperançados para o Minho, mas não encontraram quaisquer indícios das pequenas flores amarelas a cabecear. Decepcionados, voltaram para Inglaterra convencidos de que o Narcissus cyclamineus estaria extinto na natureza.

Como sabem, este narciso é um endemismo do noroeste da Península Ibérica que, embora protegido por lei, está ameaçado pela degradação dos cursos de água e prados vizinhos; mas ainda não está extinto. A sua distribuição conhecida restringe-se aos lameiros banhados pela água fresca do rio Coura e afluentes (onde ocorrem populações de milhares de indivíduos graças a um programa de conservação desta espécie cujo sucesso se deve sobretudo à colaboração dos donos dos prados húmidos e do gado que ali pasta), às serras do Caramulo e da Freita, e às margens do rio Ferreira em Valongo; em Espanha só há registos da sua presença na Galiza.

Tempos depois, estes incondicionais fãs ingleses do narciso-de-trombeta descobriram o engano: a floração não decorre em Março ou Abril, mas no início de Fevereiro. Curiosamente, para evitarem a desilusão, bastaria terem reparado que um dos nomes vulgares atribuídos pelos horticultores ingleses às variantes de jardim do N. cyclamineus é precisamente February Gold. Pacientemente, esperaram poder regressar anos mais tarde no mês certo, e rejubilaram com as muitas espécies de Narcissus que nascem em Portugal, tendo até encontrado exemplares de Narcissus x caramulensis, um híbrido natural entre o N. bulbocodium e o N. cyclamineus.


rio Teixeira

Pois bem, em Fevereiro deste ano, vimos uma população de N. cyclamineus numas ilhotas arenosas do rio Teixeira, perto de São Pedro do Sul. Conhecendo exemplares deste narciso de três locais tão distantes, notámos o que pode ser uma diferença morfológica constante nas flores. Talvez o leitor retire também algum divertimento em repetir connosco este exercício de comparação. Trata-se do remate da coroa (o tubo cilíndrico da flor). O rebordo deste saiote é crenado nos três exemplares das fotos que se seguem. Contudo, nos espécimes de Valongo essas indentações são irregulares, enquanto que, nos martelinhos do Minho e os da Beira Litoral, os entalhes parecem ter sido feitos por mão mais certeira. E, nos exemplares do rio Coura, esse enfeite final é bem menos acentuado do que nos do rio Teixeira, em que as coroas têm a extremidade distintamente alargada. É possível que tal divergência tenha uma componente genética, consistente com o isolamento das populações, mas terão de ser os especialistas a confirmá-lo.


Narcissus cyclamineus DC. - rio Coura, Vila Nova de Cerveira


Narcissus cyclamineus DC. - rio Ferreira, Valongo


Narcissus cyclamineus DC. - rio Teixeira, Manhouce, São Pedro do Sul

27.6.15

A rosa da Sertã


Rosa micrantha Borrer ex Sm.

Se a faculdade de nos rirmos não derrete com o calor, então podemos achar graça a quem resolveu chamar Sertã a uma das vilas mais quentes do país. A Sertã já ferve ao lume? Ah Ah Ah, pois é... E soltamos um esboço de riso enquanto enxugamos a testa com o lenço ou abanamos debilmente o jornal à frente do rosto. A piada não nos parece das mais conseguidas e nem moramos na Sertã, aconteceu-nos apenas passar por lá quando a Primavera ensaiava prematuramente para ser Verão. Quem mora na Sertã já lhe sofre as temperaturas, não precisa de juntar ao desconforto físico o embaraço de um trocadilho requentado.

É com o calor que se dá o fenómeno atávico de o homem se transformar num animal anfíbio, como que querendo regressar ao berço ancestral de onde a evolução o expulsou. As terras escaldantes do Pinhal Interior Sul são abençoadas com rios e ribeiras que serpenteiam nos seus leitos de xisto por entre montes cerradamente preenchidos com pinheiros e eucaliptos. Onde as estradas se cruzam com os cursos de água aparecem inevitavelmente as praias fluviais, que não precisam de areia para serem assim chamadas, bastando que seja fácil o acesso à água. A ribeira da Sertã (com 75 Km de extensão) e a ribeira da Isna (45 Km) têm, cada uma delas, pelo menos uma dezena desses oásis de Verão, em que a língua mais falada entre os que mergulham de chapão ou se deixam estar com água pela cintura é (oh lá lá) o francês. Não sendo função deste blogue fornecer dicas de veraneio, dispensamo-nos de listar as melhores praias fluviais da Sertã e arredores. Para quem se interessa por plantas, é nos leitos rochosos destas ribeiras ou entre o arvoredo das suas margens que se concentram as surpresas botânicas, quando já pouco sobra para ver nos montes ocupados por monoculturas florestais ou ressequidos pela estiagem. O único inconveniente é estarmos vestidos da cabeça aos pés e de máquina fotográfica em punho no meio de tanta gente que só quer ir a banhos. O melhor mesmo é fazer as duas coisas: botanizar sem esquecer de mergulhar.

Ao contrário das rosas de jardim, que vão agora dando início à sua temporada de glória, as rosas silvestres já não estão em flor. Nem parece crível que estas flores de cinco pétalas hesitando entre o branco e o rosado tenham algum parentesco com aquelas coisas túrgidas e farfalhudas, de cores variadíssimas, cultivadas em geométricos canteiros de buxo. Esta rosa da Sertã, fotografada junto à ribeira com o mesmo nome mas existente em muitos pontos do país e em grande parte da Europa, não é porém muito diferente das rosas espontâneas que foram domesticadas e combinadas ao longo de séculos para darem origem às milhares de variedades ornamentais que hoje se conhecem. Mas há que levar o assunto com cautela: para quem insiste em dar os nomes certos às plantas espontâneas, dizer que as rosas não são muito diferentes umas das outras é um eufemismo dos mais atrevidos. A proliferação de híbridos e de micro-espécies, as difusas fronteiras entre espécies oficialmente distintas, a subtileza dos caracteres diagnósticos - estas e outras dificuldades tornam o género Rosa praticamente inacessível aos não especialistas. É muito provável que a planta das fotos seja a Rosa micrantha, e isso vê-se não tanto pelas flores (apesar do epíteto micrantha, elas não são de menor tamanho do que as de espécies próximas) mas mais pelos espinhos (4.ª foto), que têm a ponta claramente arqueada e a base decorrente. Também os pêlos glandulosos que revestem cálices, pedúnculos e folhas parecem estar nos sítios certos. Contudo, se em vez da Rosa micrantha for outra coisa qualquer, também não teremos falhado o alvo por muito. Valeu a pena, pois há quase cinco anos que aqui não era vista uma rosa.



ponte das Cabras sobre a ribeira da Sertã

23.6.15

O veneno que se cuide

Em Outubro de 2013 falámos aqui do Vincetoxicum nigrum, uma planta de flores minúsculas com um tom incomum de vermelho. Nessa altura, especulámos sobre a possibilidade de encontrar plantas da outra espécie de Vincetoxicum que ocorre em Portugal, o V. hirundinaria. Como sugere o nome, é igualmente útil como antídoto para o veneno de cobras, sendo conhecida popularmente como erva-contraveneno; o epíteto hirundinaria (de hirundinis, andorinha em latim) recorda que os frutos desta planta parecem a cauda daqueles passarinhos em voo (e, em inglês, a designação comum da planta é precisamente swallow-wort).

Efectivamente, em Junho do ano seguinte encontrámos, no Gerês, junto ao rio Maceiras, uma planta solitária desta espécie, pequenina e sem flores. Magra recompensa para quem esperou tanto. Contudo, no mesmo local havia vários exemplares floridos de Thymelaea broteriana, além de Laserpitium eliasii, e a desilusão amainou. Ficou-nos a vontade de regressar este ano para procurar de novo, mas melhor, o segundo Vincetoxicum.


rio Minho em Monção

Mas, afinal, não foi preciso. Como sabem, temos ido passear às pesqueiras do rio Minho, seja para rever o Allium scorzonerifolium, a Spirea hypericifolia, a Veronica montana ou a Nymphoides peltata, seja para explorar mais algumas das formações rochosas que guarnecem as margens do rio. E, no topo de uma delas, a encher as fendas, encontrámos esta magnífica população de V. hirundinaria em flor.




Vincetoxicum hirundinaria subsp. lusitanicum Markgr.

É uma herbácea perene que, ao contrário do V. nigrum que aprecia nichos ensombrados, precisa de luminosidade e de solo relativamente seco. É quase glabra e as flores, que nascem no fim da Primavera ou já no Verão, surgem em cachos de 5 a 12 nas axilas das folhas ou no topo dos caules. Os frutos (penúltima foto), com uns 5 centímetros de comprimento, são fusos que terminam num pico (os chamados pimientos-do-monte); e, quando secos, abrem-se longitudinalmente para libertar as sementes que esvoaçam com a ajuda de um penacho.

É nativa da Europa e Ásia, mas as Floras europeias aludem a várias subespécies, destacando diferenças na cor das flores (mais ou menos verdes ou brancas) e no comprimento dos pedúnculos. As plantas que ocorrem no norte de Espanha e noroeste de Portugal correspondem, em alguns desses textos, à subespécie lusitanicum; tal distinção, porém, não foi acolhida pelos autores do capítulo correspondente na Flora Ibérica.

20.6.15

Encontro das águas (3.ª parte)



Schoenus nigricans L.

Ao contrário das espécies que figuraram nos capítulos anteriores da série, as ciperáceas de hoje são polivalentes, não vivendo exclusivamente à beira-mar nem tendo preferência declarada por águas salobras. A primeira delas nem sequer exige muita água: a sua presença pode simplesmente assinalar locais onde, na época das chuvas, se formam charcos que secam com a estiagem. Nos pinhais litorais do centro oeste, entre Mira e Figueira da Foz, é frequente vê-la ocupar depressões dunares e orlas de pequenas lagoas. De seu nome Schoenus nigricans (o que pode traduzir-se por junco-negro), é uma herbácea rizomatosa com caules até uns 80 cm de altura, folhas exclusivamente basais, quase cilíndricas por causa das margens enroladas, e inflorescências compactas formadas por cinco ou mais espiguetas de um castanho negrusco, envoltas por duas brácteas, uma delas muito comprida. Nas fotos acima, tiradas em meados de Março, as flores só deixam ver a sua faceta feminina, mas elas são bissexuais, contendo cada uma três estames e três estigmas. À semelhança do que acontece com outras ciperáceas, é uma planta muito viajada, cidadã de muitos países e continentes, desde a Austrália à América do Norte, passando pela Europa, Ásia e África.


Eleocharis palustris (L.) Roem. & Schult.

Não menos viajada é esta outra ciperácea, que compensa a falta de passaporte australiano por uma mais ampla cobertura do continente euro-asiático. O nome Eleocharis dá em português qualquer coisa como encanto-dos-pântanos e, não sendo o encanto visível aos olhos de todos, é um bom exemplo de como gostos não se discutem. Ou de como eles, discutindo-se (afinal que fazem os críticos de arte ou de literatura senão tentar moldá-los?), podem ser radicalmente intransmissíveis. O nosso povo, em qualquer caso, não se deixou seduzir pela planta, pois ao invés de lhe reconhecer o encanto resolveu castigá-la com o nome junco-marreco.

Não adianta explicar pela enésima vez ao dito povo que uma ciperácea não é um junco, pois é na língua comum, com as suas lacunas e os seus absurdos, que nos temos de entender. Seja, então. O junco-marreco, como todos os seus congéneres (são cinco as espécies de Eleocharis espontâneas em Portugal), não possui verdadeiras folhas, mas apenas umas bainhas que abraçam a base dos caules cilíndricos, cada um deles rematado por uma espigueta solitária. Distingue-se (com dificuldade) dos seus congéneres pelas hastes mais altas (em geral até 60 cm, mas podem atingir os 100 cm), pelas espiguetas mais compridas, com maior número de flores, e pelo carácter rizomatoso que lhe permite ocupar grandes extensões de terrenos alagados e justifica o nome creeping spike-rush que lhe foi dado pelos anglo-saxónicos. As flores são bissexuais, e a foto deixa já entrever as suas partes masculinas (estames com anteras) e femininas (estigmas).

A julgar pelo mapa de distribuição no portal Flora On, o junco-marreco faz o pleno do nosso território continental, e aliás estende-se com igual abundância pela Europa fora. Qualquer lagoa ou charco é para ele um habitat propício. Na foto em baixo, captada numa clareira do maior sobreiral de Trás-os-Montes, temos um exemplo (encantador?) dos lugares de que gosta.


charcos temporários em Romeu, Mirandela

16.6.15

Valéria & Valério




Valeriana dioica L.

Nas espécies dióicas há indivíduos masculinos, cujas flores têm estames e produzem pólen, e femininos, os que dão sementes. Esta estratégia reprodutiva, que impede a endogamia, serve apenas para a fertilização cruzada. Todavia, é precisamente este o modo de reprodução que favorece a diversidade genética, que promove a combinações de traços mais bem adaptados à competição e sobrevivência da espécie numa dada ecologia, e que melhor distribui o esforço que as plantas têm de despender para se disseminarem. Por exemplo, sendo o custo de produzir sementes elevado para as plantas femininas, em algumas espécies dióicas cabe às masculinas a tarefa de atrair mais polinizadores. Para isso, são mais altas, a floração ocorre mais cedo e com flores mais vistosas e perfumadas (lembrando as artes de sedução de alguns pássaros que Darwin estudou). Contudo, seja por tais flores grandes ensombrarem as componentes verdes e a planta, sem a fotossíntese necessária, enfraquecer, seja porque a folhagem avantajada aguça o apetite dos predadores herbívoros (assim se poupando as plantas femininas), as plantas masculinas têm um ciclo de vida mais curto. Noutras espécies, porém, sobretudo as lenhosas (como as araucárias, os teixos, os salgueiros, os freixos, os choupos, as amoreiras, as ginkgo, os azevinhos ou os juníperos), as flores masculinas são pequenas, ou mesmo inconspícuas, a polinização está muitas vezes a cargo de polinizadores generalistas ou do vento, e são as plantas masculinas que têm de garantir, com boas raízes para a eficiente extracção de azoto do solo, a vitalidade das novas gerações. Nestes casos, cabe às plantas femininas, com flores maiores, a produção de nutrientes suficientes para as sementes.

Estranhamente, apesar desta útil divisão de tarefas na maternidade e das vantagens enunciadas, as espécies com flores hermafroditas e as espécies monóicas (com flores masculinas e femininas distintas mas convivendo na mesma planta) são mais frequentes, representando em conjunto mais de 90% das espécies conhecidas. É que a reprodução de plantas dióicas exige a proximidade dos dois sexos e, se a polinização for feita por insectos, que eles sejam igualmente atraídos por ambos. Uma mudança genética persistente nas plantas masculinas tem de ser compatível com o genótipo, ou com o interesse evolutivo, das femininas, ou não podem mais acasalar. Pelo contrário, a fertilização em espécies sem diferenciação sexual está garantida, uma vez que o pólen e o estigma estão disponíveis na mesma planta; mas, apesar de os clones ajudarem a manter os efectivos de uma população se a polinização cruzada não for bem sucedida, a insistência na auto-fertilização comporta riscos a longo prazo face aos mecanismos selectivos. É também por a balança de benefícios e prejuízos de um ou outro sistema reprodutivo estar demasiado equilibrada que as espécies dióicas investem em diferenças morfológicas ou fisiológicas que permitam diversificar as recompensas aos polinizadores. Por exemplo, em alguns habitats muito chuvosos, as plantas masculinas e as femininas têm flores drasticamente diferentes para que uma das estirpes ofereça ao polinizador vários nichos para depositar as suas larvas-bebés, além de néctar para os alimentar, enquanto a outra, sem néctar, tem uma forma que funciona como abrigo da chuva.

Em geral, e ao contrário do que acontece nos animais, só após a floração podemos com um mero olhar ter a certeza do sexo da planta numa espécie dióica. Mas nem sempre a morfologia das flores masculinas é notoriamente distinta da das masculinas, pois podem ambas ter as estruturas reprodutivas dos dois sexos (embora só uma delas funcione em cada flor, como quando as flores femininas têm, além do estigma, estames estéreis). Por indicação de Paulo Alves, vimos esta Valeriana no Alto Minho, na margem de um riacho junto a um bosque de solo bem irrigado. Havia que procurar plantas masculinas e femininas vizinhas, e seria necessário realçar as diferenças. Comparemo-las pelas fotos. Ambas são plantas frágeis, embora perenes, com hastes florais de cerca de meio metro de altura e inflorescências atraentes. As folhas são opostas, tendo as basais um pé longo. As flores são brancas, algumas levemente rosadas, as masculinas de uns 5 milímetros de diâmetro, as femininas com cerca de metade desse tamanho. Nas masculinas (última foto) notam-se as anteras com o pólen; nas femininas (penúltima foto) nota-se ao centro o estigma. Como é usual em plantas dióicas, a Valeriana dioica também tem um plano B: dissemina-se por multiplicação vegetativa, largando pedaços de rizoma que se espalham eficientemente pelo solo.

13.6.15

Casa na aldeia



Scrophularia herminii Hoffmanns. & Link

Já aqui comentámos o caso singular da Scrophularia grandiflora, um endemismo de Coimbra e arredores que prospera em ambientes ruderalizados como terrenos baldios e bermas de estrada. Ao contrário de outras espécies de distribuição restrita a que o progresso roubou espaço vital, a Scrophularia grandiflora parece ter adivinhado o que aí vinha, adaptando as suas preferências ecológicas em conformidade. A única estranheza é que, estando tão bem equipada para este novo mundo suburbano de estradas em profusão, não tenha conseguido expandir-se para lá da sua terra natal. Mas ainda vai a tempo.

Quem talvez já tenha perdido a boleia do século XXI é a sua congénere Scrophularia herminii, que por viver dos dois lados da fronteira luso-espanhola teve que se contentar com o título de endemismo ibérico. Apesar disso, é listada no Anexo V da Directiva Habitats, integrando assim o clube selecto das espécies legalmente protegidas no nosso país. Uma dificuldade quando se pretende proteger alguma coisa é saber onde ela mora e conseguir reconhecê-la. A S. herminii é muito semelhante à S. scorodonia, bastante vulgar no norte e centro do país em ambientes nitrófilos frescos. Ambas as espécies têm caules ramificados e podem atingir os 1,7 m de altura, mas apresentam diferenças subtis na folhagem (compare a foto aí em cima com a desta página), na indumentação (a S. herminii tem pêlos glandulosos ao longo de todo o caule, a S. scorodonia só os tem nas inflorescências) e sobretudo nas flores: as da S. scorodonia têm o cálice peludo, as da S. herminii têm-no glabro (5.ª foto acima).

Resolvido o problema do reconhecimento, falta saber onde encontrar a Scrophularia herminii. Também gosta dos ambientes a que nós chamamos nitrófilos, onde a actividade humana exacerbou a presença de nutrientes no solo, mas prefere ares de montanha e é rara abaixo dos 500 m de altitude. As tradicionais aldeias serranas do norte do país parecem ter sido feitas de encomenda para lhe servirem de morada. Enquanto pessoas, bichos e plantas puderem viver em equilíbrio em aldeias como Porto Cova, em Arcos de Valdevez, onde as pedras dos muros florescem não menos do que os campos cultivados e não há brigadas de limpeza a aspergir herbicida pelos cantos - enquanto tudo assim se mantiver, a S. herminii irá sobrevivendo alegremente. Mas o progresso destrutivo é imparável, e Porto Cova, tal como a vizinha aldeia de Sistelo, tem o seu modo de vida ameaçado pela prevista construção de uma mini-hídrica no rio Vez, que corre no fundo do vale para o qual descem socalcos moldados pelo trabalho de muitas gerações. Continua a fazer escola a frase, dita à vista do rio Tua, «agora o que falta aqui é cimento», apesar de quem a proferiu se ter mudado contra a sua vontade para Évora. Mesmo que os promotores garantam ser este «o projecto de uma hídrica mais ecológico que já se fez em Portugal», com um muro de apenas dois metros de altura revestido com «pedra da região», é por certo muito mais ecológico não construir uma albufeira que nenhum dos habitantes de Sistelo ou Porto Cova deseja e que, além de deturpar a paisagem, irá inviabilizar, pelo desvio da água, o cultivo dos prados de lima que preenchem os socalcos. A curto prazo, os agricultores que ainda resistem ver-se-ão forçados a abandonar uma prática quase milenar, e as aldeias ainda mais se esvaziarão - para proveito e por ordem de uns senhores de Lisboa, paus-mandados de multinacionais sem rosto.


Porto Cova, Arcos de Valdevez