9.2.16

Jogo de cores


Prunella laciniata (L.) L.

Em grandes populações de orquídeas é frequente verem-se gradações na cor das flores e, por vezes até em percentagem elevada, plantas com flores completamente brancas ou hipocromáticas. Não se trata de plantas albinas (aquelas em que uma mudança genética impede qualquer parte de realizar a fotossíntese) pois os talos e a folhagem são verdes. Nesta família, em que há muitas espécies cujas flores não têm néctar e que atraem os polinizadores seduzindo-os ardilosamente, crê-se que as variações na cor fazem atrasar a aprendizagem dos polinizadores. É que os insectos, tal como nós, desenvolvem preferências com base em experiências anteriores e, portanto, os que são sistematicamente iludidos aprendem a evitar as flores enganadoras. No ano seguinte, as flores surgem ligeiramente diferentes, nos matizes de cor ou perfume, e o logro funciona de novo entre os polinizadores mais jovens. Todavia, para lidar com os insectos mais experientes, as orquídeas precisam de ser mais hábeis. É nesse contexto que as plantas de flores brancas são essenciais: elas criam contraste e distraem os polinizadores que estão em dúvida, levando-os a descurar o que já sabiam. Alguns estudos de campo comprovam que, nas populações com flores brancas ou com variações da quantidade de pigmento na corola, a produção de sementes é maior.

Não podemos concluir deste arrazoado que há neste procedimento um propósito, um plano prévio de evolução na natureza. O mais certo é que as mutações que dão origem ao polimorfismo cromático sejam ocasionais, ou resultado de hibridação, mantendo-se nas populações porque são benéficas em termos evolutivos - até porque tais mudanças são, em geral, geneticamente recessivas, logo os descendentes de plantas com flores brancas podem dar depois flores com a coloração padrão.

Uma população que surgiu de uma mutação e que só dá flores brancas pode isolar-se num habitat, tornar-se estável e ganhar autonomia como espécie, ainda que o processo possa levar milhares de anos a completar-se. Terá sido isso o que separou estas duas espécies de Serapias? Ou estas duas espécies de Cephalanthera? Ou a Prunella grandiflora da Prunella laciniata? Para complicar a tarefa dos cientistas, não há um só modo de se criarem espécies com flores brancas que são, em tudo o resto, semelhantes às que dão flores com outras cores. E até pode ter acontecido o contrário, ser a Prunella de flores roxas a descendente; ou terem as duas um progenitor em comum, a P. vulgaris.

A Prunella laciniata ocorre no sul e centro da Europa, norte de África e parte da Ásia. É uma planta pequena mas de base lenhosa. Os talos são penugentos e as folhas divididas, com uma a duas lacínias de cada lado (veja-se a segunda foto). A Flora Ibérica regista que a corola branca por vezes nasce púrpura. Os exemplares que vimos estavam junto a um regato em Campo de Víboras, Vimioso, um habitat notável em vegetação herbácea.


Campo de Víboras

6.2.16

Tomilhos mil



Thymus praecox subsp. britanicus (Ronniger) Holub

Três dias e duas noites na Cantábria forneceram-nos assunto florístico para quatro meses, mas tudo tem um fim e a nossa incursão espanhola termina hoje no trigésimo capítulo. O Thymus praecox é uma daquelas espécies alegadamente existentes em Portugal que encontrámos na Cantábria e nunca vimos por cá, seja por não as termos procurado com suficiente empenho, seja porque desapareceram ou estão em vias de desaparecer. De acordo com a Flora Ibérica, o tomilho-precoce deveria existir na serra da Estrela, e o mesmo se aplica ao Sedum candollei, mas ambos têm paradeiro desconhecido. O nome "tomilho-precoce", tradução à letra do nome científico, é mal justificado por uma época de floração que, estendendo-se de Maio a Setembro, não é especialmente temporã. Distribuído por grande parte da Europa central e ocidental, este tomilho é ecologicamente versátil, frequentando orlas de bosques, prados de montanha e fissuras de rochas, tanto em substratos ácidos como básicos.

Os tomilhos são perfumados, dão sabor à comida, e fazem boa figura num vaso ou no jardim. Não espanta serem muitos os tomilhos silvestres que foram domesticados pelo comércio hortícola. Entre eles conta-se o Thymus praecox - que, pelo seu porte rasteiro, abundante floração e resistência a condições atmosféricas adversas, é uma boa escolha para forrar canteiros ou para um jardim de plantas alpinas. Outro tomilho que forma tapetes rosados não menos atraentes é o Thymus caespititius, frequente na Madeira e nos Açores e nas serras xistosas da metade norte de Portugal.

Não fosse tratar-se de uma planta arrumadinha e compacta, o T. praecox poderia confundir-se, na folhagem e na forma das inflorescências, com o T. pulegioides, que aparece aqui e ali em Trás-os-Montes ao longo da fronteira com a Galiza. Mas o tomilho-das-pulgas tem hastes bem mais altas (20 a 30 cm contra uns 8 cm do T. praecox) e, por culpa do ar desgrenhado e da floração mais rala, é menos vocacionado para jardins.

2.2.16

Segredos da Pipa (2)


Lamarosa, Coruche

Continuamos nas margens da represa da Pipa, cautelosos para não pisotear aquilo que as vacas, retidas pela cerca de arame, não tiveram oportunidade de estragar. A mesma cerca deveria ter-nos impedido a aproximação, mas já se sabe que isto de botanizar é um regresso aos livros de aventuras juvenis, em que uma porta fechada é um convite a entrarmos pela janela.


Cyperus flavescens L. [sinónimo: Pycreus flavescens (L.) P. Beauv. ex Rchb.]

São duas as ciperáceas hoje na montra, ambas amareladas e a primeira denunciando isso mesmo no epíteto flavescens. Incluída por Lineu no género Cyperus, foi transferida pelo naturalista Palisot de Beauvois (1752-1820) para um novo género a que chamou Pycreus, mas a proposta não teve acolhimento unânime. Ambos os géneros são caracterizados por espiguetas achatadas, com os florículos organizados em duas fiadas opostas, mas no género Pycreus, tal como delimitado por Beauvois, os aquénios não são marcados por um sulco dorsal, ao contrário do que sucede no género Cyperus sensu strictu. É uma diferença imperceptível a olho nu e que, para ser confirmada, exige a colheita da espigueta e o uso de uma boa lupa. Em todo o caso, o Pycreus (ou Cyperus) flavescens, que tem uma ampla distribuição por três continentes (Europa, África e América) e em Portugal faz o pleno do continente, Madeira e Açores, é fácil de reconhecer pelo seu pequeno porte (7 a 30 cm de altura) e pelo molho de espiguetas amarelas. Muito parecido, mas com espiguetas de um castanho quase negro, é o Cyperus fuscus, que vive também em habitats temporariamente encharcados.

Pycreus é um óbvio anagrama de Cyperus. Outros exemplos do mesmo teor que mostram como os botânicos gostam de brincar com as palavras são Mantisalca (anagrama de salmantica) e Logfia (anagrama de Filago).


Fimbristylis bisumbellata (Forssk.) Bubani

Baptizada com o polissilábico nome de Fimbristylis bisumbellata, esta ciperácea fica, com os seus 15 cm de altura máxima, muito aquém da grandeza que o nome promete. Traduzido à letra, Fimbristylis significa estilete fimbriado ou franjado, enquanto que bisumbellata se refere, presumivelmente, à nada evidente disposição das espiguetas em dupla umbela (já que estamos em maré de anagramas, bilambuzata seria um bom adjectivo para uma criança com um chupa-chupa na boca). Ainda que tenha alguma semelhanças com os Cyperus / Pycreus, a Fimbristylis diferencia-se bem pelas espiguetas arredondadas (não achatadas) com os florículos dispostos em espiral.

Em Portugal, a Fimbristylis bisumbellata é muito pouco comum (veja aqui o mapa de distribuição) e só aparece em território continental. Trata-se porém de uma espécie quase cosmopolita, presente como nativa nos dois hemisférios e, a julgar por esta página, muito disseminada pelas regiões tropicais ou subtropicas da Ásia, África e Austrália.

30.1.16

Mais iguais do que outros



Geranium subargenteum Lange

O leitor decerto concordará que o género Geranium é fácil de identificar, mais ainda se as plantas estiverem em flor. A forma da corola, os matizes de rosa, magenta e púrpura nas pétalas, a posição relativa das várias peças do perianto e a proeminência da coluna central de estames e ovário pouco diferem de uma espécie para outra neste género. E, numa mesma espécie, como a das fotos, não notamos qualquer diferença relevante entre indivíduos, ainda que comparemos plantas dessa espécie em regiões muito distantes. Essa invariância dos traços dentro de uma mesma espécie de seres vivos também se nota em alguns animais: vejam-se, por exemplo, os pardais; ou tente-se destrinçar duas abelhas-operárias. Contudo, quando procuramos essa quase coincidência da forma nas pessoas, só a vemos surgir em gémeos. Ou seja, ainda que não incluamos no guião de avaliação parâmetros mais ou menos subjectivos como a beleza, a inteligência ou o carácter de um indivíduo, somos realmente todos diferentes. Curiosamente, sobrevive na Terra uma única espécie do género Homo (H. sapiens, que alguns cientistas entendem tratar-se de uma subespécie, Homo sapiens subsp. sapiens), que, apesar de ser recente (os fósseis mais antigos datam de há 195 mil anos), exibe um acentuado grau de variação entre os indivíduos e uma diversidade genética notável nas populações. Tanto assim que a incapacidade de distinguir faces é considerada uma doença. Este é o tema explorado na peça de teatro e no filme de animação Anomalisa, de Charlie Kaufman, cujo protagonista vê todas as pessoas iguais, homens ou mulheres, não reconhecíveis nem mesmo pela voz.

Prestemos agora atenção ao gerânio das fotos, um endemismo dos prados de montanha do centro da cordilheira cantábrica. É uma planta alta (atinge uns 60 cm), com talos penugentos como é frequente em plantas perenes que têm de conviver com nevões no Inverno. As folhas, palmadas e muito divididas, com a face inferior acetinada (o que talvez justifique o epíteto subargenteum) são quase todas basais e agrupam-se em rosetas persistentes. As grandes flores nascem aos pares no topo de longas hastes. E em cada flor notam-se dez estames com anteras púrpura cheias de pólen azul. O fruto tem uma arista (como esta) a que se agarra a semente e que, no momento certo, a catapulta para bem longe da planta mãe. É parecido com o G. cinereum, de que até se desconfia que seja uma subespécie, mas esse gerânio, muito usado em jardinagem, não é espontâneo na região da Cantábria que visitámos.

26.1.16

Segredos da Pipa (1)



Lamarosa, Coruche

Há tempos, a propósito de se fazer ou não um aeroporto num certo local, um ministro que já esquecemos dizia que o país a sul do Tejo era um deserto. Não se referia à presumível aridez mas sim à falta de gente, esquecendo por momentos o poder aglutinador que, para o bem e para o mal, costumam ter certas obras "estruturantes" tais como pontes, aeroportos e auto-estradas. É contudo verdade que o Tejo marca uma fronteira: para norte temos um país de montes e vales, verde e húmido, e para sul uma extensa planície onde a chuva raramente cai. Quando no nosso país falamos em sentido literal no "risco de desertificação" é nessa planície que estamos a pensar. Mas essa simplificação a traço grosso esquece que no limite nordeste do país a falta de chuva pode também ser um problema, e que no sul há enclaves frescos e ricamente arborizados como as serras de São Mamede e de Monchique. Há também muitos rios que, por estarem mais sujeitos a grandes variações do caudal do que os rios do norte, vivem na constante incerteza do futuro, e por isso são comoventes e preciosos.

As reservas de água, naturais ou artificiais, são um seguro de vida em regiões sujeitas à secura. Um velho montado de sobreiros rodeando uma represa, cercas de arame delimitando pastagens: eis uma paisagem que, sendo embora ribatejana de Coruche, poderia fornecer um dos mais típicos postais do Alentejo. A água atrai-nos como atrai todos os outros bichos, mas a nós, que bebemos água engarrafada, interessa sobretudo inspeccionar as plantas que encontram refúgio nas margens lodosas da represa. Entre dezenas de habitats semelhantes na região, calhou-nos visitar a represa da Pipa, e não ficámos desiludidos com o que vimos: Baldellia repens, Cicendia filiformis, Exaculum pusillum, Ludwigia palustris, etc. Enfim, um pequeno catálogo de plantas higrófilas miniaturais que, num raio de vários quilómetros, não poderiam sobreviver senão ali, no curto espaço de transição entre a fartura de água e a terra ressequida.


Juncus pygmaeus Rich. ex Thuill.

Típicos de terrenos encharcados são os juncos e as ciperáceas, de que na Pipa havia uma variada amostra. Deixando duas ciperáceas para o segundo fascículo, falamos agora do Juncus pygmaeus, obrigado a ser pequeno pelo nome que lhe deram. De facto, este junco não costuma ter mais que uns 5 cm de altura, muito embora possa quadruplicar essa marca; e as flores, que são essenciais à identificação e por isso convém observar à lupa, ficam-se pelos 5 mm de comprimento. Pelo tamanho, o Juncus pygmaeus facilmente se confunde com outros juncos anuais como o J. bufonius e o J. capitatus. Contudo, as flores do J. bufonius costumam ser solitárias, enquanto que no J. pygmaeus, como se vê acima, elas aparecem aglomeradas; e no J. capitatus, ao invés do que sucede com o J. pygmaeus, cada inflorescência tem uma bráctea que claramente a ultrapassa (veja aqui).

Amplamente distribuído pela Europa ocidental e norte de África, o Juncus pygmaeus, à semelhança de muitas plantas anuais que vivem em condições instáveis, não parece ter uma época de floração preferida. Trata de cumprir o seu ciclo de vida quando pode; e, se a água baixou e a temperatura ainda é amena, Dezembro é um mês tão bom como qualquer outro.

23.1.16

Verónica cantábrica



Veronica ponae Gouan

Com a discrição que nos é própria, celebrámos aqui, há catorze meses, a nossa primeira dúzia de verónicas, o que significa que já mostrámos quase três quintos das espécies do género que integram a flora portuguesa. Há géneros mais populosos, como Carex ou Silene, cada um deles com 40 ou mais espécies em Portugal, mas é indiscutível que as verónicas nos caíram no goto. Tanto que, alargando a nossa prospecção para lá da fronteira, avançamos sem receios supersticiosos para a décima terceira verónica, trazida esta das montanhas cantábricas.

A Veronica ponae foi baptizada por Antoine Gouan logo a abrir a sua obra Illustrationes et Observationes Botanicae, de 1773. O francês Antoine Gouan (1733-1821) correspondeu-se com Lineu e foi o primeiro botânico do seu país a publicar uma flora (Hortus Regius Monspeliensis, de 1762) seguindo o sistema taxonómico lineano. Além de descrever a espécie, Gouan fornece uma ilustração que capta o aspecto geral da planta mais fielmente do que muitas fotos. Como informação complementar, diga-se que a Veronioa ponae é perene, de base lenhosa, com hastes que não costumam ultrapassar os 40 cm de altura. As folhas, em geral cobertas de pêlos nas duas páginas, são opostas, de pecíolo curto e margens serradas, e têm um máximo de 6 ou 7 cm de comprimento. As inflorescências, em forma de cacho terminal, alongam-se significativamente na frutificação. Como quase todas as espécies de alta montanha, tem uma floração tardia, que no seu caso está concentrada em Junho-Julho mas se pode estender até Setembro.

Frequentadora de rochas e bosques húmidos e de prados junto a linhas de água, a Veronica ponae só não é um endemismo pirenaico-cantábrico porque, apesar de ausente das montanhas do sistema central ibérico, surge de surpresa no sul de Espanha, na serra Nevada.

19.1.16

Sem fruto



Lycium intricatum Boiss.

Temos tido um Inverno atípico, mais quente e com muita e por vezes furiosa chuva, ainda assim brando a julgar por aquilo de que o El Niño é capaz. Mas as plantas perenes de folha caduca, que apreciam igualmente o calor e o frio se estes as atingirem na época certa, andam confusas. Elas parecem ler os sinais da natureza, importantes para os seus ciclos de vida, nas variações da temperatura ambiente, no número de horas com exposição à luz solar, na quantidade de precipitação, etc. São dados que todas as plantas recebem em simultâneo, e por isso se comportam como se guiadas por um maestro, perfeitamente ajustadas às nossas estações do ano. Contudo, este ano não temos tido um verdadeiro inverno e, portanto, as plantas ou prolongaram o Outono (a ginkgo do Jardim das Virtudes só agora se despiu da folhagem, negando-nos em Novembro o espectáculo de a vermos coberta de folhas amarelas) ou julgam estar já na Primavera. E é ver os carvalhos ainda com folhagem, eles que daqui a um mês terão de começar a produção de folhas novas; ou reparar nas dedaleiras apressadas no florir, apesar de não haver ainda polinizadores que aproveitem tal benefício. Receia-se que tais mudanças climáticas e a inevitável falta do período de descanso acabem por debilitar as plantas e imponham depois um ano de fome às abelhas.

A cambroeira, planta arbustiva da família Solanaceae e espontânea em Portugal, não parece ter escapado às consequências da tão estranha mudança de calendário. Em geral, e apesar de ser resistente ao frio, à maresia e ao ar salgado, por esta altura deveria estar ainda a fingir-se de morta, reduzida ao feixe de ramos secos e ásperos, espinhosos nas extremidades, com que costuma iludir os rigores do Verão (como teria de fazer num habitat realmente semi-desértico em África, onde também ocorre e de onde talvez tenha vindo para a Península Ibérica). Nesse estado, cumpria-lhe aguardar as chuvas de Fevereiro-Abril para sair da hibernação. O exemplar (isolado mas de porte considerável e talvez idoso), que vimos no fim de Dezembro numa arriba da costa vicentina, estava com a folhagem carnuda e fresca, e exibia várias flores, mas nenhum fruto. Naturalmente, nesta altura não se viam abelhas ou outros insectos a polinizar as flores. Um desperdício, que, porém, muito apreciámos.


Bordeira, Carrapateira (Algarve)

Lemos que algumas experiências de campo indicam que o sucesso da germinação das sementes de Lycium é mais elevado se a dispersão for indirecta, talvez por assim se dar mais tempo à preparação das sementes. O ideal mesmo é que a baga seja comida por uma lagartixa e esta por um picanço que, sendo pássaro de patas curtas, não as pode usar para levar a comida ao bico e, por isso, espeta as presas em espinhos de arbustos para as consumir.

O outro Lycium que ocorre espontaneamente em Portugal, L. europaeum, anda desaparecido, embora a Flora Ibérica lhe atribua uma distribuição mais vasta que a do L. intrincatum. Mostrámos aqui há uns anos uma outra espécie, essa não considerada nativa de Portugal, o L. chinense, que conhecemos das dunas de Gaia entre a Aguda e Espinho.

16.1.16

Ovos com chocolate



Hypericum richeri subsp. burseri (DC.) Nyman

Se excluirmos aquelas que são cultivadas para alimentação humana, os hipericões são das plantas que ao longo dos séculos mais têm interagido com o homem. As 490 espécies actualmente reconhecidas no género Hypericum distribuem-se por todos os continentes habitados, e o seu uso tradicional na farmacopeia popular tem vindo gradualmente a ser validado pela medicina moderna. A espécie europeia mais comum, H. perforatum, conhecida em Portugal como erva-de-São-João, pode ser usada tanto no tratamento de depressões como, aplicada externamente, para sarar lesões da pele. Em maior ou menor grau, quase todos os hipericões partilham dessas qualidades medicinais. E, além dos médicos e dos seus pacientes, também os botânicos amadores ou profissionais têm razões para verem os hipericões com bons olhos. Quando chegam a alguma província ou ilha onde nunca estiveram, e se começam a familiarizar com a vegetação local, não tarda que encontrem algum hipericão que nunca antes viram, possivelmente endémico da região. É como reencontrar um velho conhecido com uma indumentária renovada.

Tivemos essa experiência nos Açores, quando travámos conhecimento com o endémico Hypericum foliosum, e voltámos a tê-la nos cumes da Cantábria, quando deparámos com um hipericão que, não ultrapassando a altura de um joelho, se destacava pelas flores grandes e abundantes. Comparado com o hipericão-do-Gerês (H. androsaemum), este hipericão cantábrico (de seu nome completo H. richeri subsp. burseri, endémico da cordilheira cantábrica e dos Pirenéus) apresenta folhas pequenas e hastes não ramificadas, mas em compensação dá flores duas vezes maiores. Habitando fissuras de rochas e ladeiras pedregosas, a sua irrepremível vocação ornamental é bem ilustrada na primeira foto, onde contracena com a dedaleira comum (Digitalis purpurea). Qual o jardineiro que não gostaria de acrescentar uma tão generosa pincelada amarela à paleta de cores do seu rock garden?

Numerosas espécies de hipericão têm as folhas, brácteas, sépalas e pétalas profusamente pontilhadas de negro. Essas glândulas negras segregam hipericina, composto responsável por muitas das propriedades medicinais destas plantas mas que, por tornar a pele anormalmente sensível à luz solar, é nocivo para o gado (e para as pessoas) quando ingerido em quantidade excessiva. O H. androsaemum e o H. foliosum são inteiramente desprovidos dessas glândulas, mas o Hypericum richeri ocupa o outro extremo da escala e, de todos os hipericões ibéricos, é talvez o mais sarapintado (atente-se na segunda foto). É pelo menos o único em que o carpelo está decorado com glândulas negras - o tal ovo com chocolate que se vê na última foto.

12.1.16

Conto de Inverno



Avelaneiras (Corylus avellana L.) nas margens do rio Fílveda, Albergaria-a-Velha

A muita chuva dos últimos dias promete que, contra todos os pessimismos, a vida está para durar. O maior inconveniente, numa altura em que os rios realizam a sua vocação em plenitude, é não podermos visitá-los com as águas transbordando das margens. Regressaremos daqui a umas cinco ou seis semanas, quando eles estiverem menos impetuosos, dando tempo para que o amarelo vivo do narcisos se junte ao amarelo pálido das prímulas. Não é em todos os rios que se dá essa feliz combinação cromática, mas há rios em todas as províncias e todos os concelhos deste nosso maltratado território, e quase sempre eles nos dão muito mais do que esperamos. Consideremos, por exemplo, aquela região no centro-norte do país que faz a transição entre o Baixo-Vouga e as serras do interior: Vale de Cambra, Oliveira de Azeméis, Albergaria-a-Velha e Sever do Vouga, são esses os nomes anunciados nas placas de saída da A1 logo a norte de Aveiro. A julgar pelo que vemos ao longo da auto-estrada, todos esses concelhos estão perto de se transformarem em eucaliptais ininterruptos, num processo imparável de reconversão de antigos campos agrícolas que nem sequer poupa os olivais. Em vez de ser desmentida, essa impressão é tristemente reforçada quando nos desviamos da auto-estrada para as vias secundárias. À monotonia do eucaliptal soma-se o desordenamento da paisagem: as estradas fazem de ruas em povoações que nunca começam nem acabam, misturando vivendas, prédios, fábricas, postos de combustível, aviários, restaurantes de berma de estrada, vendas de carros usados. Não é certamente este o cenário ideal para realizar aquele cliché da "comunhão com a natureza" tão glosado em textos de promoção turística. Ainda assim, a câmara de Albergaria-a-Velha, seguindo o exemplo de muitas outras, quis atrair ao concelho praticantes de caminhadas e outros amigos da natureza, e para isso sinalizou vários percursos pedestres. Um deles (PR2) chama-se trilho dos três rios e acompanha o rio Caima e dois dos seus afluentes. Caima é também o nome da empresa de celulose pioneira em Portugal, nascida em Albergaria-a-Velha nas margens deste rio mas entretanto deslocada para outras paragens.

Porque as nossas caminhadas têm um propósito último que não é caminhar, não percorremos na nossa visita do início de Dezembro o PR2 do princípio ao fim, já que ele é extenso (14 Km) e atravessa vastas áreas de eucaliptal. Fizemos o troço do rio Caima junto ao lugar de Palhal, e em Ribeira de Fráguas seguimos durante dois ou três quilómetros o curso do rio Fílveda, partindo do chamado Parque dos Moinhos. O rio Caima pós-industrial apresenta-se despoluído, e ladeiam-no aqui e ali breves manchas de carvalhal, com o cortejo de arbustos e herbáceas habituais em terras do norte: Omphalodes nitida, Linaria triornitophora, medronheiros, folhados, gilbardeiras, fetos variados, etc. Esporádico em clareiras pedregosas, juntava-se-lhes o Anarrhinum longipedicellatum, ou samacalo-arouquense, um portugesíssimo endemismo desta região entre o Douro e o Vouga. Todos esses ingredientes foram repetidos nas margens do Fílveda ou no talude da estrada junto ao Parque dos Moinhos, mas em quantidades mais generosas e reforçados por uma galeria ripícola de altíssimas avelaneiras. Os moinhos desactivados brilhavam como a casa dos sete anões, e as duas pontes de madeira permitiram-nos acesso fácil a ambas as margens. O (impropriamente chamado) hipericão-do-Gerês (Hypericum androsaemum) estava por todo o lado, bem mais abundante do que alguma vez o víramos no Gerês. Uma prímula confundida com o calendário, ou apostada em jogada de antecipação, fazia brilhar uma única flor entre as suas irmãs ainda adormecidas pela invernia.

O rio Fílveda, como tantos outros rios da região, corre encaixado num vale como um segredo ciosamente guardado por um exército de eucaliptos. A maior surpresa de tão grata visita foi sentir que tínhamos obrigação de voltar.

9.1.16

Veneno verde


Veratrum album L.

Entre uma flor grande e colorida e outra verde e minúscula, apostamos que é a vistosa que as abelhas descobrem primeiro. A razão é simples: a folhagem, também verde, tende a encobrir as flores, tornando-as difíceis de detectar pelos insectos; e estes, a quem convém minimizar o percurso entre um abrigo seguro e a comida, guiam-se pelo contraste com a cor das folhas. Com o hábito, os polinizadores dão como certo que as flores mais adornadas são as mais recompensadoras, seja em néctar, em pólen ou noutros serviços. Mas as plantas com flores verdes polinizadas por insectos não desapareceram. O que significa que conseguiram superar essa aparente imperfeição. Realmente, as plantas com flores inconspícuas e/ou de cor parda encontraram meios eficientes para atrair polinizadores, aproveitando-se em particular do facto de que, para a orientação dos insectos, são igualmente importantes o aroma, a abundância de néctar, a altura e o porte da inflorescência. E há mesmo algumas espécies que colocam grandes porções de néctar nas suas folhas para ensinar os polinizadores a colectá-lo em partes verdes da planta. Porém, porque subsiste o risco de por este processo serem atraídos apenas insectos pouco especializados ou mal intencionados, estas plantas mantêm activa a opção de auto-fecundação e algumas são bastante venenosas.

A espécie Veratrum album teve de recorrer a alguns destes expedientes. Perenes e robustas, as plantas desta espécie exibem no Verão inflorescências densas, aromáticas e altas (podem subir a um metro e meio), que se destacam bem nos habitats húmidos de montanha, com vegetação rala, que preferem. Além disso, têm flores estreladas, algumas hermafroditas e outras só masculinas, colocando estas no topo da haste floral e oferecendo em cada uma seis anteras gordinhas de pólen. Desse modo, garantem que mais insectos as procuram -- algumas experiências, como as descritas no artigo The color sense of the honey-bee: the pollination of green flowers, de John H. Lovell (The American Naturalist 46, No. 542 (1912) pp. 83-107), sugerem que, frequentemente, as flores com pólen são as mais visitadas de uma inflorescência -- e pela ordem certa, uma vez que convém à planta que um insecto só visite uma flor feminina depois de recolher pólen numa masculina. Para aumentar as suas chances, são generosas no néctar que servem e formam colónias tão vastas quanto o habitat permite. Apesar do tom geral esverdeado, notamos nas tépalas uns veios de tonalidade verde mais escuro, que garantem algum contraste com a folhagem e guiam o polinizador para o nectário (a estrutura brilhante em forma de "V" da flor no centro da terceira foto). Observamos também como a planta se protege do frio: as tépalas são ciliadas, o talo é penugento na parte superior e as folhas basais, sésseis e enormes, agasalham-no como um casaco de golas altas bem ajustadas.

O género Veratrum contém cerca de 40 espécies nativas de lugares frios ou temperados da Europa, Ásia e América do Norte. Na Europa, ocorrem espontaneamente apenas duas, o V. album e o V. nigrum. Curiosamente, este último tem as mesmas características morfológicas do V. album mas as flores são de cor púrpura. Na serra da Estrela pode ver-se facilmente a única espécie presente na Península Ibérica, no bordo de lagoas perto da estrada da torre; as plantas fotografadas são de uma população muito numerosa da Cantábria.

5.1.16

O regresso da memória

Não somos apenas o nosso corpo, e cada vez mais delegamos em artefactos a construção da nossa identidade mais íntima. A memória interna, aquela que carregamos no cérebro, enferruja por falta de uso, e parece que a sua capacidade de armazenamento diminui à mesma velocidade a que aumenta a dos periféricos onde vamos arrumando as nossas lembranças. Mensagens trocadas, contactos, fotos, o itinerário das férias, efemérides pessoais ou alheias, mapas e indicações de percursos, o nome desta planta, o nome daquela cara, a cidade onde havia este jardim, a praia sem rede e sem nadador-salvador: tudo o que estava dentro de nós e transferimos para a máquina, e que só ressuscita quando a ela nos ligamos. Para não notarmos o vazio, estamos sempre ligados.

E se a máquina se apagasse por acidente, e não existisse cópia de segurança? Foi essa amnésia tecnológica que nos atingiu faz agora seis semanas, quando uma actualização não solicitada do sistema operativo do computador limpou o disco externo onde guardávamos as fotos. Onze anos de passeios, de lugares, de nomes: milhares de memórias que de um instante para o outro deixaram de existir, consumidas por um incêndio sem chamas. Que fazer? Pedir uma indemnização à Microsoft? Solicitar os serviços de um mago das novas tecnologias? A solução foi usar um programa que por cem dólares nos pareceu uma pechincha e que, depois de escavar durante 12 horas em busca dos MB desaparecidos, trouxe à superfície, mais ou menos intactas, todas as fotos que alguma vez tiráramos e quem sabe se mais algumas. O óbice é que os nomes das fotos se tinham em grande parte perdido, e da meticulosa organização por pastas só sobrava um esqueleto sumário. Mas a matéria-prima estava lá, e à tarefa de reconstruir a memória nos entregámos neste Dezembro de 2015. Plantas, lugares, pessoas e bichos voltaram a ter nome. Ficaram de fora algumas pedras do Gerês que só conseguiremos nomear quando as reencontrarmos.

Esta nossa estreia em 2016 faz-se pois dessas memórias resgatadas, com duas plantas do género Stachys, ambas com fama medicinal e ambas presentes no nosso país, mas uma delas fotografada na Cantábria. Muito a propósito, a Stachys officinalis foi outrora usada para tratamento de problemas nervosos e de dores de cabeça e como tónico para avivar a memória.



Stachys officinalis (L.) R.Trevis. (fotografada em Cantanhede)

Lineu chamou-lhe Betonica officinalis, querendo com a escolha do epíteto assinalar-lhe a utilidade nas artes do boticário. Florindo entre Maio e Julho, a betónica (o nome lineano sobreviveu no vernáculo em várias línguas europeias) aparece aqui e ali de norte a sul do continente português, em clareiras de matos ou orlas de bosques sobre solos siliciosos. Mesmo no estado vegetativo, é facil de reconhecer pelas folhas de margens crenadas, formando uma roseta basal algo caótica. As suas hastes são finas e altas (até 90 cm), não ramificadas, com as flores reunidas em espiga na extremidade ou dispostas mais abaixo em verticilos esparsos.


Stachys sylvatica L. (fotografada na Cantábria)

A S. sylvatica, que em Portugal só parece ocorrer em Trás-os-Montes, prefere lugares abrigados e húmidos, e tem flores maiores e mais vistosas do que a sua congénere, resultado da necessidade de dar nas vistas e atrair polinizadores entre a competição cerrada das plantas de sub-bosque. Não tão versátil como planta curandeira, era usada e cultivada para tratar feridas, e por isso os britânicos lhe chamam woundwort.

26.12.15

Linho rosa, linho branco


Linum viscosum L.

Num artigo de 1862, publicado no Journal of the Proceedings of the Linnean Society, Charles Darwin descreve um pormenor morfológico intrigante das flores do Linum flavum (e também da Primula acaulis): apesar de serem hermafroditas (isto é, com componentes feminina e masculina numa mesma flor), dentro de cada população encontram-se, em números aproximadamente iguais, flores de dois tipos no que diz respeito ao tamanho do pistilo (a parte feminina da flor) e dos estames (a parte masculina). Mais precisamente, em cada planta, todas as flores têm a mesma forma; porém, cerca de metade das plantas da população dá flores com pistilo longo e estames curtos, enquanto as outras dão flores em que estes tamanhos estão trocados, é o pistilo que não se vê no centro da flor por ter estilete curto e os estames que são salientes. Além disso, as flores de um mesmo tipo são geneticamente incompatíveis (ou seja, o pólen de uma flor de um tipo não fertiliza nenhuma flor do mesmo tipo), e portanto é preciso que na polinização intervenham duas flores de formas distintas. O que justifica este requinte?

Primeiro, Darwin julgou tratar-se de uma variação sem significado. Apercebeu-se, porém, de que não havia versões intermédias e de que a presença das duas formas era demasiado regular para ser irrelevante. Conjecturou então que estas espécies estariam a caminho de se tornarem dióicas (isto é, com flores femininas e masculinas em plantas distintas), através de um mecanismo simples: o pistilo curto e os estames de pé pequeno tornar-se-iam cada vez menores até desaparecerem, restando uma flor masculina e uma flor feminina perfeitamente diferenciadas. Contudo, nas experiências que então conduziu, as flores com pistilos curtos polinizadas por plantas com estames também curtos produziam muito mais sementes do que as outras três combinações possíveis. Pouco depois, Darwin concluiu maravilhado que a dupla forma das flores, aliada à auto-incompatibilidade, seria um modo de forçar a polinização cruzada, o esquema de reprodução mais benéfico para quase todas as espécies.

Estarão a pensar, como nós, que essa opção pelo dimorfismo não está isenta de risco: e se os polinizadores não fizerem bem a sua parte da tarefa, levando pólen de estames altos para pistilos curtos, gastando assim o pólen em flores incompatíveis? É verdade que a barreira genética que impede a autogamia é uma aposta arriscada, mas no caso do Linum ou da Primula o processo funciona na perfeição: na fertilização de um ou de outro tipo de flor, a parte do corpo do polinizador que actua é distinta e devidamente ajustada a cada forma de flor.

O género Linum abriga cerca de duzentas espécies nativas de climas temperados. É da espécie L. usitatissimum que se faz a fibra para a fiação (a partir dos talos) e o óleo de linhaça (retirado das sementes). Se se pretende fabricar fibras, os talos não devem ter ramificações e, por isso, o cultivo de linho faz-se em semeadura compacta; se o interesse está no óleo das sementes, então privilegiam-se as plantas mais baixas e ramificadas, que originam mais flores e garantem mais sementes. As espécies que vimos na Cantábria são herbáceas frágeis, mas maiores e de flores mais vistosas do que aquelas que aparecem por cá; usa-se delas apenas a formosura.


Linum suffruticosum L.