30.8.14

Salsaparrilha açoriana



A ilha do Pico é uma montanha jovem com cerca de 2350 metros de altura que parece dividida em três camadas. O primeiro anel, junto ao mar, tem praias de rocha ainda não erodida e é um terreno de inclinação suave pintalgado de telhados vermelhos, casas brancas e vinhas plantadas em resguardos com muros de pedra vulcânica. O topo, feito de rocha escura e quase sem vegetação, com um Piquinho engraçado onde neva no Inverno e se senta no Verão, por vezes, um boné de neblina, é tão alto que, sob criteriosa autorização da Direcção Regional do Ambiente, é possível ver dele o sol a nascer ou a pôr-se, muito mar, baleias e as outras ilhas. No anel do meio, verde e fresco, distinguem-se, se o cachecol de nuvens o permite, vastos prados de solo muito fértil, matos de rapa, vassoura, faia, pau-branco, azevinho e zimbro, e floresta laurissilva muito bem preservada. É este terço médio que nos interessa: é o refúgio de quase todas as plantas que vimos no Pico, algumas em populações abundantes a contrariar o avanço das hortênsias, rocas-da-velha e pitósporos que tanto afligem quem se preocupa com a conservação da flora endémica açoriana.



Smilax azorica H. Schaef. & P. Schoenfelder

A trepadeira Smilax azorica já se chamou Smilax canariensis, espécie que se julgava endémica da Madeira, de seis das ilhas dos Açores e três das ilhas Canárias. Os herbários indicam que foi colhida pela primeira vez por Masson em 1777 na ilha de São Miguel e descrita posteriormente por Watson em 1844. Contudo, em 2009, num artigo publicado pelo Instituto de Estudios Canarios, Hanno Schaefer e Peter Schoenfelder revelaram as conclusões de um estudo genético comparativo destas duas espécies, propondo que a Smilax açoriana se tornasse uma espécie independente, com a designação Smilax azorica. Para quem procura uma ou outra espécie, convirá saber que a S. canariensis é rara mesmo na Madeira; que a S. azorica não ocorre nas ilhas Graciosa, Flores e Corvo, não é fácil de encontrar nas ilhas do grupo central (no Faial só a vimos no Jardim Botânico, mas no Pico avistámos várias populações, com muitos frutos, em bosques de incenso e também em florestas naturais), e é algo mais frequente em São Miguel e Santa Maria. Os autores desse artigo elaboraram uma chave taxonómica para que não restem dúvidas, de que destacamos o facto de os frutos da S. azorica amadurecerem vermelhos como cerejas e os da S. canariensis serem de cor preta quando maduros.

Talvez a Smilax açoriana descenda da S. canariensis, e esta de plantas asiáticas, mas essa árvore genealógica está ainda por comprovar. A única irmã destas Smilax que ocorre, aliás com uma distribuição ampla, na Península Ibérica é a S. aspera, de folhas sagitadas coriáceas com margens espinhosas, cujos frutos amadurecem negros. São todas plantas dióicas e de folhagem perene.

27.8.14

Pico dos licopódios



Nos Açores, as três ilhas mais centrais, cada uma delas perfilada à frente das outras, formam o triângulo, pois é assim que toda a gente do arquipélago as conhece. Um triângulo muito irregular, que nem isósceles consegue ser, pois as distâncias, apesar de pequenas, são variáveis, com o Pico e o Faial a esfregarem-se um no outro sob o olhar ciumento de São Jorge. O Pico e são Jorge são compridos, cerca de 50 Km de extensão cada um, com ligeira supremacia de São Jorge; Faial é uma ilha em formato de bolso e o seu diâmetro é inferior a 20 Km. E há a questão da altura, sobremaneira valorizada por quem, como nós, não aprendeu a voar. A desproporção entre a montanha do Pico e o relevo manso das demais ilhas do arquipélago faz suspeitar que o criador quis usar na ilha que deixou para fazer em último lugar todo o material que avaramente poupou na construção das restantes.

Depois de uma semana de visita a São Jorge em Junho, e de outra ao Faial já em Agosto, houve ainda tempo em 2014 para completarmos o triângulo com uma estadia de uma semana no Pico, também em Agosto. Não escalámos a montanha, nem sequer tentámos, pois não somos de grandes feitos atléticos. Subimos até onde a estrada nos levou, mais uns 200 metros para tocarmos a nuvem-cachecol que sempre se enrola no pescoço da montanha. O nosso modo de andar, com os olhos a varrer cada moita e cada metro quadrado de terreno, não nos permite exceder muito a velocidade de um caracol. Quando tivéssemos explorado as encostas com o vagar que nos convém, talvez pudéssemos em consciência tranquila ascender ao topo, comprar a t-shirt celebratória da proeza, olhar, se a nuvem nos deixasse, o panorama da ilha e do mar e das outras ilhas tão pequenas, procurar as duas ou três plantas que se nos não tivessem ainda mostrado mais abaixo. Mas, para cumprir esse programa, precisaríamos de mais uma ou duas semanas de estadia, pois o Pico não se resume à montanha, e há partes da ilha mais apelativas e compensadoras para aficionados de botânica.

Entre as plantas que não se encontram no topo da montanha há várias que nos fazem sentir em casa, como se tivéssemos rompido por uma fissura do espaço-tempo e déssemos connosco, inesperadamente, nos cumes do Marão ou da serra do Gerês. O tomilho que, em Julho e Agosto, dá o tom roxo à montanha do Pico é o mesmo Thymus caespititius que vive nas serras pedregosas do noroeste de Portugal. Não fosse a incursão nos Açores, não só no Pico mas em todas as outras ilhas com excepção de Santa Maria, esse tomilho seria um endemismo ibérico de pleno direito. Outro elemento continental frequente nas faldas da montanha é a torga (Calluna vulgaris), que nas ilhas é conhecida como rapa. Há ainda, e em grande profusão, o queiró insular (Daboecia azorica), que é uma miniatura com cores mais saturadas do queiró peninsular (Daboecia cantabrica). Mais estranho foi termos deparado, a 1240 m de altitude, com uma planta que só deveria existir 1000 metros mais acima: a Silene uniflora subsp. cratericola, versão de montanha da Silene uniflora de habitats costeiros que é comum nos Açores (particularmente no Pico), no litoral minhoto e, em geral, na costa atlântica europeia. Garantiu-nos depois um guia que a planta vai aparecendo esporadicamente pela montanha acima. Esse dúbio endemismo da montanha do Pico foi baptizado por Franco com base em diferenças morfológicas nada claras e, sobretudo, na ecologia radicalmente diferente: é um grande salto migrar da costa para o topo da montanha, onde no Inverno cai neve e as temperaturas negativas são frequentes. Mas, se se concluir que a mesma Silene uniflora surge a altitudes intermédias, já a transição não nos parece tão abrupta. Ou será que a 1240 metros de altitude ainda não se trata da subsp. cratericola? A que altitude é que a mesma espécie deixa de ser uma planta vulgar para passar a ser uma subespécie rara e exclusiva?




Diphasiastrum madeirense (J. H. Wilce) Holub

Este feto, que na verdade não é feto mas um parente algo afastado, começou por chamar-se Lycopodium, e de facto o seu aspecto evoca irresistivelmente o licopódio-da-Estrela: em ambas as espécies os esporângios aparecem reunidos em estróbilos semelhantes a pinhas que surgem no topo de hastes erectas. Já na ramificação e na folhagem as duas plantas divergem marcadamente: o Diphasiastrum tem ramos achatados e muito ramificados, e as suas folhas surgem ordeiramente aos pares, comprimidas contra as hastes; o Lycopodium tem um porte bem mais rasteiro, exibindo hastes de secção circular e folhas mais compridas, numerosas e desordenadas. São estas, grosso modo, as diferenças morfológicas que levaram o botânico checo Josef Holub (1930-1999), em 1975, a criar o género Diphasiastrum, distinguindo-o do género Lycopodium. Como é normal nestes assuntos, nem todos os cientistas acataram a mudança.

O Diphasiastrum madeirense é endémico da Madeira e dos Açores, estatuto que só lhe foi reconhecido em 1961 por Joan Hubbell Wilce, que em 1963 defendeu uma tese de doutoramento na Universidade de Michigan com o título "Section complanata of the genus Lycopodium". Até então considerava-se que estes licopódios macaronésios pertenciam à espécie Lycodium complanatum (= Diphasiastrum complanatum), que está amplamente distribuída no norte da Europa e na metade setentrional da América do Norte. Outra espécie morfologicamente próxima que ocorre nos mesmos continentes é o Diphasiastrum tristachyum. O nosso D. madeirense combina as hastes muito achatadas do primeiro com a tendência do segundo para produzir três a seis estrolóbios por cada haste fértil. Dado que neste género é frequente ocorrerem híbridos fertéis, não é de excluir que a espécie das ilhas tenha origem num matrimónio remoto entre o D. complanatum e o D. tristachyum, e entretanto se tenha adaptado a um clima mais ameno.

Nos Açores, onde está assinalado em sete das nove ilhas (as excepções são Santa Maria e Graciosa), o D. madeirense só não é raro no Pico. Nesta ilha encontrámo-lo em altitudes entre os 600 e os 1300 metros, em habitats bastante diversificados: bosques de Juniperus e Ilex, plantações florestais, matos rasteiros de altitude dominados por Calluna. Ao contrário do que reportam alguns autores, não parece ter especial preferência por sítios húmidos, e alguns dos locais onde o vimos eram, pelo contrário, secos e pedregosos.

9.8.14

Férias


{Regressamos no final de Agosto. Entretanto estaremos desconectados,
e por isso a publicação de comentários fica suspensa.}

Bicho com raízes



Doronicum plantagineum L.

Asseguram certas fontes, entre elas o portal espanhol Anthos, que em português este malmequer se chama raiz-de-bicho, numa provável ainda que misteriosa alusão ao seu carácter estolonífero. Essa informação não é corroborada por nenhum dos livros ou portais portugueses que pudemos consultar. É de facto estranho que uma planta rara e sem usos culinários ou medicinais conhecidos tenha merecido do nosso povo a graça de um baptismo. Que seja há muito usada como ornamental em países de onde não é originária (como a Inglaterra, onde está naturalizada desde o final do século XVIII) não é argumento pertinente, pois a beleza não enche a barriga nem serve para curar maleitas, e aqueles dos nossos antepassados que tiveram posses e vagar para manter jardins preferiram recheá-los com plantas importadas.

Se o alegado nome comum em português é uma invenção bem intencionada de quem nos quer enriquecer a língua, e certamente não é usado por ninguém, já o enigmático nome em inglês, leopard's bane, é de uso corrente para as várias espécies de Doronicum com firme reputação em jardinagem. São plantas vivazes com grandes capítulos solitários a rematar compridas hastes, que florescem no início da Primavera e se recolhem ao solo quando a estiagem aperta, e são adeptas da meia sombra proporcionada por bosques de folhosas. O Doronicum plantagineum, nativo de Portugal e da metade oeste da bacia mediterrânica (Espanha, França, Itália, Tunísia, Algéria e Marrocos), é, com os seus 60 a 80 cm de altura, dos mais elegantes do género, distinguindo-se pelas folhas ovaladas maioritariamente basais, com as escassas folhas caulinares quase abraçando o caule.

Já Abril tinha ficado para trás, e com ele o pico da floração, quando encontrámos, não sem ajuda, estes poucos exemplares de D. plantagineum na margem direita do rio Côa. A pesca da truta já foi uma actividade popular no troço do Côa em Sabugal antes de as barragens e a poluição desfalcarem a vida aquática. Como compensação, existe agora um viveiro de trutas onde se pode pescar, com sucesso garantido, mediante pagamento de bilhete. Nem tudo são perdas, pois talvez a vegetação ribeirinha beneficie por não haver tanta gente a pisoteá-la. E o Doronicum plantagineum, presente embora de norte a sul do país, é tão esporádico e escasso (ver aqui um mapa de distribuição) que qualquer local de ocorrência deveria ser salvaguardado.

5.8.14

Quaresmas em Trás-os-Montes



Saxifraga carpetana Boiss. & Reut.

O nordeste transmontano está cada vez mais perto do litoral. Não é (ainda) porque o mar esteja a galgar a costa desenfreadamente, reduzindo a largura do país, nem é (por enquanto) resultado das ligações aéreas de baixo custo entre Porto e Bragança. Descontando o atropelo das obras do túnel do Marão, o famigerado IP4 e a meia dúzia de pontos na autoestrada A4 onde decorrem eternos melhoramentos, já é possível ir do Porto a Mogadouro em pouco mais de duas horas. Um despacho, sem dúvida, mas caro em portagens, o que dificulta para muitos o usufruto desta comodidade. Por sempre terem sido meândricas e esburacadas as vias até ao interior, só a valiosa correspondência epistolar entre naturalistas amadores e botânicos nas universidades impediu que a flora transmontana fosse ignorada por mais meio século.

A 14 de Maio de 1929, o padre J. M. Miranda Lopes, em Vimioso (hoje em dia, por estrada, a cerca de 35 Km de Mogadouro), escrevia mais uma vez ao botânico Gonçalo Sampaio, no Porto, enviando-lhe amostras de plantas que tinha observado: «debaixo d’um calor extraordinario, em direcção a Vimioso, e percorrendo montes e vales, ora a pé, ora a cavalo, cheguei por fim, às 2 da tarde, ao local onde pela 1ª. vez encontrei a Saxifraga Blanca, no dia 18 de Abril. Depois de verificar que à beira do caminho numa extensão de 200 metros aproximadamente não havia nada, entrei num lameiro proximo, e, logo ao primeiro golpe de vista dei com uma pequena colónia desta linda planta, colhendo os exemplares que por este correio lhe envio em três papeis separados.» Tratava-se da Saxifraga carpetana Boiss. & Reut. subsp. carpetana, desconhecida até então no nosso país. Os descritores desta espécie, Boissier (1810-1885) e Reuter (1805-1872), haviam publicado em 1842 a descoberta, informando em latim que a observaram na serra de Guadarrama, no sistema montanhoso central da Península Ibérica; Willkomm, porém, havia-a designado, em 1881, como Saxifraga blanca numa obra sobre a flora da Península Ibérica e as Ilhas Baleares decerto mais divulgada entre nós.

E foi num lameiro extenso em Mogadouro, colorido de azul por centenas de exemplares de Scilla ramburei, que vimos esta Saxifraga. Tem parecenças com a Saxifraga dichotoma, mas esta só aparece em afloramentos de rochas ultrabásicas. Inicialmente julgámos tratar-se de S. granulata, mas há diferenças nítidas na indentação das margens das folhas (só levemente crenadas na S. granulata), no formato da inflorescência (paniculada no caso da S. granulata) e na coroa de glândulas na base das pétalas (as pétalas da S. granulata são glabras). Tal como a S. dichotoma, em Portugal só se conhecem populações de S. carpetana em Trás-os-Montes. Mas esta planta perene é também espontânea em Espanha, Marrocos, Argélia e na parte mais ocidental da região mediterrânica.

2.8.14

O sol no Egipto



Helianthemum aegyptiacum (L.) Mill.

É um sol pálido e de vida curta aquele que estas flores representam. A exemplo do girassol (género Helianthus) e da verrucária (Heliotropium europaeum), também as plantas do género Helianthemum têm a reputação, plasmada no nome científico, de virarem as flores para a luz do sol. Mas na verdade não sabemos se o H. aegyptiacum cumpre esse tropismo, pois as suas flores são tão débeis e efémeras, deixando cair as pétalas por exaustão ao fim de duas ou três horas, que raramente as podemos ver. O hábito de descartar sem demora a produção florística de cada dia é comum a todas as cistáceas, mas nas estevas, sargaços e tuberárias as flores ainda se aguentam até ao fim da tarde, derramando-se então à volta da planta num tapete de pétalas brancas, rosadas ou amarelas.

Descrita por Lineu em 1753 como Cistus aegyptiacus, e mudada um século mais tarde por Philip Miller para o género Helianthemum, esta herbácea anual de floração primaveril e não mais que 30 cm de altura gosta de lugares secos e soalheiros, de preferência arenosos: gosta, em suma, do Egipto e dos desertos enfeitados com pirâmides. Aceita, contudo, relaxar essas exigências, e por isso frequenta os dois lados da bacia mediterrânica, alcançando o norte da Península Ibérica e, em Portugal, a Terra Quente transmontana. Mas o Egipto, terra que tantos apetites coloniais atraiu, era nos séculos XVIII e XIX mais interessante e acessível aos viajantes e estudiosos norte-europeus do que os países do sul da Europa. Talvez por isso tanto Lineu como Miller indiquem o Egipto como terra natal desta cistácea, ignorando a sua presença no continente europeu.

Philip Miller (1691–1771), botânico e jardineiro inglês, fornece pretexto para a nossa segunda menção do Chelsea Physic Garden em poucos dias. Miller foi sucessor de Samuel Doody como jardineiro-chefe do histórico jardim londrino, mantendo-se no cargo durante 48 anos. Com início em 1741, foi publicando edições sucessivamente aumentadas do seu Gardeners Dictionary, com a oitava e última edição (um tomo de mais de 1300 páginas) a surgir em 1768. Esses Dicionários para Jardineiros, apesar de incluírem abundantes conselhos sobre o cultivo de plantas, eram genuínos tratados científicos, e asseguraram ao autor um lugar entre os grandes botânicos da história. Sobre a emancipação do género Helianthemum, que consta da derradeira edição do Gardeners Dictionary, Miller justifica-a com o facto de as cápsulas dos frutos terem apenas três segmentos, enquanto que as plantas que optou por manter no género Cistus dão em geral cápsulas com cinco segmentos. Esse critério, com alguns aditamentos que justificaram a posterior partição do género Helianthemum em géneros adicionais (entre eles Tuberaria e Fumana), é ainda hoje aceite e válido.

29.7.14

O regresso da orquídea fragrante

Há uns anos, os dados oficiais indicavam que a orquídea Gymnadenia conopsea estava extinta em Portugal. Foi essa a categoria que lhe atribuiu o Plano de Ordenamento do Parque Nacional da Peneda-Gerês de 1995. E, em 2003, Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, regista-a apenas no Borrageiro e em tão pequeno número que a considera quase extinta. Para esta avaliação decerto contribuiu o facto de o Verão ser impiedoso na serra do Gerês, de esta orquídea florescer no fim de Junho e de o seu habitat natural se situar nas zonas mais altas e remotas da montanha, de acesso difícil mesmo para os técnicos do Instituto da Conservação da Natureza e para os vigilantes do Parque.


Gerês: Borrageiro e Fichinhas

A boa notícia é que a extinção desta orquídea foi apenas burocrática, e aliás o lapso já foi corrigido no actual plano de ordenamento do PNPG. Em 2009, Ana Júlia Pereira e Miguel Porto encontraram-na num prado a cerca de 1200 metros de altitude; e, desde então, alguns membros da AOSP descobriram mais cinco núcleos, vários com dezenas de plantas em flor. Mantém, porém, o seu estatuto de orquídea rara, refugiada em urzais montanhosos a mais de vinte quilómetros da vila do Gerês, a justificar plenamente um programa de conservação em que os pastores aceitem colaborar. Tais medidas de protecção beneficiariam também outras preciosidades que a serra guarda, e o atraso em implementá-las deveria ser punido como negligência grave. Sendo uma planta de prados, a Gymnadenia requer uma gestão eficiente do desbaste natural das herbáceas rasteiras de altitude que o gado efectua: se for desmazelado, os matos invadem os pastos e sufocam as orquídeas; se exagerado, ou feito na época da floração das orquídeas, elas desaparecem. A juntar a esta ameaça, há ainda as queimadas mal vigiadas, o abandono do uso tradicional dos lameiros, o pisoteio que o pastoreio intensivo provoca em habitats frágeis, o impacto na composição dos solos que a presença maciça de gado comporta, e (talvez em menor grau) a colheita ilegal de plantas.



Gymnadenia conopsea (L.) R. Br.

Guiados por quem conhece bem a serra e as orquídeas, avistámos no início de Julho três populações desta planta. É fácil de reconhecer: exibe inflorescências cilíndricas elegantes, flores magenta muito aromáticas com esporões de cor púrpura, longos, finos e tão transparentes que (pelo menos na flor albina da foto) conseguimos ver o néctar que contêm. Reparámos que havia um número maior de plantas nos solos mais húmidos ou perto de córregos, frequentemente rodeadas de Narthecium ossifragum e Dactylorhiza maculata. Curiosamente, os dois géneros de orquídea Gymnadenia e Dactylorhiza podem hibridar, e a última foto mostra um dos vários híbridos que vimos neste passeio.


Dactylorhiza maculata, Gymnadenia conopsea e um híbrido das duas

Como sabemos que é um híbrido? Porque parece uma Dactylorhiza, pela pigmentação no labelo, o esporão curto e o arranjo denso das flores, mas estas têm as sépalas laterais largas, estendidas e quase horizontais, tal como as da Gymandenia, e rescendem a baunilha, sendo a Dactylorhiza praticamente inodora.

26.7.14

Breve tratado das fajãs



São Jorge: Fajã da Penedia (em baixo, ermida de Santa Filomena; as flores brancas em 1.º plano são de Silene uniflora)

Em vez de descerem suavemente para o mar, as ilhas dos Açores são cortadas a pique, como se fossem fatias de um bolo que já foi muito maior mas entretanto o Atlântico mordiscou. As falésias quase verticais desprendem-se de tempos a tempos, e os detritos que assim se acumulam na costa vão juntar-se às lavas e escórias vulcânicas que as ilhas foram cuspindo ao longo dos milénios. Assim se formam as fajãs, pequenas bolsas de terra plana e fértil encravadas entre o mar e as encostas vertiginosas, e de que São Jorge, muito mais do que as restantes ilhas do arquipélago, está copiosamente fornecida. Ainda que decorra a uma escala temporal que nos ultrapassa, este processo de formação de fajãs nunca está concluído. Em Outubro de 2012, uma derrocada no Corvo provocou o surgimento de uma fajã embrionária, que se persistir obrigará a alterar os mapas da ilha. E, quando visitámos São Jorge, em Junho passado, não pudemos descer À Fajã da Ribeira da Areia porque um deslizamento de terras tinha cortado a estrada durante a noite. O acerto com que o acaso escolheu a hora poupou vítimas humanas, pois ninguém mora nas fajãs nem a elas desce durante a noite, enquanto que de dia há sempre alguém a amanhar um campo ou a colher couves no quintal.

Na costa norte de São Jorge há talvez duas dezenas de fajãs com campos cultivados; dessas, cerca de metade têm casas de habitação, mas só em três delas (Fajã do Ouvidor, Fajã dos Cubres e Fajã de Santo Cristo) parece viver gente. A razão do fenómeno não está tanto na dificuldade dos acessos, embora à Fajã de Santo Cristo, a mais famosa da ilha, não seja possível chegar de automóvel. Explicação mais plausível talvez seja a oposta: uma vez que com uma robusta carrinha de caixa aberta os donos das fajãs se põem lá em baixo em três tempos, é com igual facilidade que fazem o caminho inverso uma vez cumpridas as tarefas do dia; não precisam de pernoitar numa aldeia fantasma que, apesar de arrumadinha, não terá as comodidades (electricidade, etc.) a que a civilização nos habituou.


São Jorge: Fajã da Caldeira de Santo Cristo

Na Fajã de Santo Cristo, ligada à Fajã dos Cubres por um caminho de terra batida pelo qual pode passar uma moto-quatro mas não um veículo mais volumoso, há um restaurante que só abre no Verão ou quando os astros se conjugam em alinhamento favorável. O mesmo estabelecimento promete excursões de barco às fajãs inacessíveis por terra, programa aliciante para quem, como nós, gostaria de ser como as gaivotas para ver que plantas se escondem nos recantos onde só chegam as aves. E assim ficou apalavrado que num dos nossos dias em São Jorge nos faríamos ao mar numa lancha, não sem antes enfardarmos um almoço de peixe, marisco e queijo da ilha. Dia de chuva mansa, mais refrescante do que incómoda, lá nos metemos a caminho, mas por prudência, faltando 2 ou 3 Km para a meta, telefonámos ao restaurante para saber se o programa se mantinha. Pois que não: nem passeio de barco às fajãs secretas, nem almoço, nem nada. Sem farnel e sem alternativa, avançámos o suficiente para saudar de longe a Caldeira de Santo Cristo, e toca de inverter a marcha. Coitados, que perda de tempo, há gente que não tem palavra - dirá o leitor num assomo de solidariedade. Agredecendo a simpatia, permitimo-nos discordar da perda de tempo. Posto que adulterada pela invasão do incenso (Pittosporum undulatum), a vegetação deste pedaço de costa apresenta-se ainda em estado razoável, com a Myrica faya e a Erica azorica a escoltarem-nos durante boa parte do trajecto, acompanhadas aqui e ali por Pericallis malvifolia, Scabiosa nitens, Lysimachia azorica e até (num único local) pela raríssima Tolpis succulenta. Como ingrediente inesperado, encontrámos um feto que nunca tínhamos visto, com frondes erectas de uns 20 cm de altura, textura rugosa e margens aculeadas. Sendo obviamente exótico, tinha indisfarçáveis semelhanças com o vulgar feto-pente (Blechnum spicant).


Doodia caudata (Cav.) R. Br.

Consultada a bibliografia, depressa lhe desvendámos a identidade: trata-se da Doodia caudata, um feto australiano da família Blechnaceae que no seu país de origem é conhecido como small raspfern - havendo por lá, além deste, outros e maiores raspferns, todos eles ásperos ao tacto e pertencentes ao género Doodia, que inclui umas 15 a 20 espécies distribuídas pela Austrália, Nova Zelândia e sudeste da Ásia. O nome Doodia refere-se a Samuel Doody (1656-1706), boticário londrino que se interessou particularmente por pteridófitas e foi, a partir de 1693 e até à sua morte, responsável pelo Chelsea Physic Garden. Já o epíteto caudata tem como explicação evidente a longa cauda com que as folhas do feto são rematadas.

Não menos do que Portugal continental, as ilhas atlânticas já suportam uma dose mortífera de invasoras vegetais australianas, e por isso a ocorrência de mais uma espécie exótica com essa origem não é motivo para festejos. Acontece, contudo, que a Doodia caudata está assinalada nos Açores desde os anos 50 do séc. XX, e tem-se mantido bastante rara no arquipélago. Em São Jorge vimo-la apenas em dois pequeníssimos núcleos. Talvez ela - que, devemos admitir, até é bonita - não tenha a índole agressiva que é indispensável para uma invasão bem sucedida.

22.7.14

Queiró insular




Daboecia azorica Tutin & Warb.

A distribuição do género Daboecia, que alberga apenas duas espécies, subordina-se à exigência de uma elevada acidez do solo, mas ainda assim é curiosa: estas plantas são espontâneas apenas no sudoeste de França, norte de Espanha, noroeste de Portugal, ponta sudoeste da Irlanda, e Açores. A espécie das ilhas açorianas dá flores mais pequenas, com corolas glabras, mas igualmente caducas, num tom de carmim quase púrpura, que se dispõem em cachos de 3 a 7 flores e se detectam facilmente em matos ralos no fim da Primavera (a D. cantabrica floresce mais tarde, de Junho a Outubro). Há registos da presença deste queiró em quatro das nove ilhas, mas parece ser frequente apenas no Faial e na montanha do Pico. Tal como a versão europeia, de que por certo descende, é um arbusto baixo, perene, de base lenhosa e caules decumbentes; as duas apreciam urzais (embora nos Açores a urze em causa seja a endémica Erica azorica), mas a açoriana adaptou-se à intensa humidade atmosférica das ilhas e aparece também em encostas vulcânicas cascalhentas (geralmente acima dos 500 metros).

Há mais diferenças que justifiquem a independência da D. azorica como espécie? Os descritores desta planta, os britânicos Thomas Gaskell Tutin (1908-1987) e Edmund Frederic Warburg (1908-1966), co-autores da Flora of the British Isles e da Flora Europaea, assim o entenderam depois de uma visita de exploração botânica às ilhas do Faial e do Pico em 1929. Anunciaram a descoberta três anos depois, no Journal of Botany, British and Foreign. Publicaram dois artigos com o que viram nos Açores, e tempos depois receberam mais financiamento para novas expedições, algumas delas notáveis pelo contributo que trouxeram à salvaguarda da biodiversidade no mundo.

O estudo da flora açoriana, desde o século XIX até meados do século XX, deve-se sobretudo a cientistas estrangeiros. Na verdade, naquela época não havia universidade ou centros de investigação nos Açores, e no continente os botânicos (os que não andavam entretidos nas colónias) cuidavam de recuperar o atraso na descrição da flora local, para logo depois se começarem a preocupar com a dimensão das ameaças à natureza e com a necessidade de medidas de protecção. Além disso, desde a época dos descobrimentos que o apoio à pesquisa científica, sobretudo àquela que exige demorados trabalhos de campo, tecnologia avançada e redes alargadas de cooperação, tem o tamanho da pobreza do país. Que continua a ignorar para que serve a investigação em ciências naturais, ou não quer dar-lhe uso porque são outros os interesses que nos governam. É decerto por isso que ainda hoje são os cientistas estrangeiros que nos avaliam, que decidem qual o conhecimento que o país deve incentivar, que ditam o futuro da nossa ciência e, portanto, do nosso território.

19.7.14

Ruiva das ilhas




Rubia agostinhoi Dans. & P. Silva

A ruiva-brava, ou Rubia peregrina de seu nome científico, é uma das plantas da flora portuguesa que se encontra amiúde de norte a sul do país, em lugares onde ainda subsiste alguma vegetação natural. Outra é a gilbardeira (Ruscus aculeatus), misteriosamente protegida por lei apesar da sua óbvia abundância. Que do Minho ao Algarve haja traços constantes é uma evidência da pequenez do nosso território e só pode reforçar a ideia da unidade nacional. Voltando à ruiva-brava, que é esse o nosso assunto, trata-se de uma trepadeira algo lenhosa na base, muito ramificada, reconhecível pelos seus verticilos de quatro a oito folhas por nó e pelos cachos de bagas pretas. Ainda que a ruiva-brava não tenha usos tradicionais, uma das suas congéneres, a asiática Rubia tinctoria, a que poderíamos chamar ruiva-mansa, foi amplamente cultivada na Europa pelo corante vermelho extraído das raízes.

Se do continente saltarmos para os arquipélagos atlânticos da Madeira e dos Açores, continuamos a ver a ruiva, embora, olhando bem (fotos acima), a planta tenha feito alguns ajustes na sua indumentária: os saiotes dos nós são agora formados por folhas mais estreitas e numerosas (em geral 8, mas podem ir de 6 a 10), e as flores são mais diminutas e escassas, em cachos mais discretos. Esta ruiva-das-ilhas, que porém também existe no sul de Espanha (Cádiz e Málaga) e em Marrocos, é assaz distintiva para merecer dos taxonomistas a graça de um nome só seu. Justiça feita em 1973, quando o português Pinto da Silva e o francês P. M. Dansereau publicaram na Agronomia Lusitana a descrição da nova espécie, a que chamaram Rubia agostinhoi. Não sendo talvez tão comum nos Açores como a sua congénere é no continente, a ruiva-das-ilhas encontra-se com alguma facilidade, ocupando habitats variados desde florestas e matos naturais até muros e plantações de criptomérias. Contudo, nunca lhe vimos os frutos, ou porque eles são poucos, ou porque os pássaros os comem todos, ou porque o nosso calendário de visitas ao arquipélago não o permitiu.

Pinto da Silva e Dansereau descreveram a Rubia agostinhoi a partir de exemplares colhidos em São Miguel, na lagoa das Sete Cidades, e o epíteto escolhido sublinha a ligação aos Açores, prestando homenagem ao tenente-coronel José Agostinho (1888–1978). Nascido em Angra do Heroísmo, onde também morreu, José Agostinho combateu na 1.ª guerra mundial como militar de carreira, mas regressou aos Açores (a São Miguel) em 1918 para trabalhar nos serviços metereológicos locais, que dirigiu durante mais de 30 anos, até se aposentar em 1958. Distinguiu-se como cientista na sua área de especialidade, mas também se interessou por múltiplos outros temas, como a sismologia, o estudo das aves, a conservação da natureza, a história e a etnologia. Foi um naturalista versátil e, em vocação exercida ao longo de vinte anos de palestras radiofónicas na Rádio Clube de Angra, um pedagogo que muito teria honrado a universidade açoriana se ela tivesse existido à época em que esteve activo.