25.10.14

Um Ammi para as ocasiões




Ammi majus L.

Apesar da tristeza monocromática que aflige os jardins públicos em Portugal, obra de uns tantos arquitectos que declararam guerra ao colorido das flores, há ainda quem se guie pela ideia antiquada de que um jardim, para ser visualmente estimulante, deve combinar todas as cores do arco-íris e mais algumas. É aqui que entra o branco, soma de todas as cores, que os ingénuos desprovidos de ciência julgam estar ausente do arco-íris só porque não se vê, quando na verdade está lá mas decomposto nas suas parcelas. A incapacidade dos nossos olhos em refazer a soma leva-nos a exigir o branco que se vê, como contraponto ao garridismo insinuante das cores do círculo cromático. E para acrescentar ao jardim um branco limpo e luminoso, com um efeito que evoca laboriosos trabalhos de renda, nada melhor do que uma umbelífera como o Ammi majus, que em Portugal é planta sem eira nem beira, infestante de cultivos e ruderal de bermas de estrada, mas noutros países é muito valorizada para ornamentar canteiros floridos.

Planta anual de floração primaveril, capaz de atingir um metro de altura, o Ammi majus, alegadamente chamado âmio-maior por um povo incapaz de a reconhecer, tem fortes semelhanças com outras umbelíferas de flores brancas, em particular com a cenoura-brava (Daucus carota). Distingue-se desta pela folhagem (compare a 5.ª foto aí em cima com as desta página), por não ser áspera ao tacto (a cenoura-brava é muito rugosa), e pelas inflorescências menos compactas. Amplamente distribuído pela bacia mediterrânica, o Ammi majus ocorre em quase todas as províncias portuguesas, sendo talvez mais frequente na faixa litoral. As plantas nas fotos moravam em Cantanhede, na orla de vinhedos e de outros campos cultivados.

Por mérito da flora açoriana, o género Ammi, que contém um total de seis espécies, é um bom amigo dos botânicos portugueses. Enquanto que os outros países europeus ou mediterrânicos se contentam com duas ou no máximo três espécies de Ammi, em Portugal ocorrem nada menos que quatro, duas delas endémicas dos Açores: A. seubertianum e A. trifoliatum.

21.10.14

Sabor de hortelã


Mentha cervina L.

Há gestos que nos parecem insignificantes e que desaparecem sem darmos por isso. Ficamos mais pobres e nem notamos. Houve uma última vez em que alguém, no Alentejo, foi ao rio colher uns pés de erva-peixeira para temperar a caldeirada ou a açorda. Tão abundante era ela em rios, ribeiras e charcos, e agora só sobrava aquela mísera amostra. Para o ano nem isso haveria, porque entretanto a barragem começaria a encher. Se quisesse voltar a comer peixe com aquele fino travo de hortelã, teria de ir a Lisboa, às lojas de iguarias gourmet, para comprar a peso de ouro uma magra embalagem de folhas secas.

Mais a norte a história só não se repete porque, com as variações regionais de hábitos culinários, a erva-peixeira (ou hortelã-da-ribeira, outro nome pelo qual a Mentha cervina é conhecida) nunca teve, em Trás-os-Montes, o prestígio gastronómico de que gozou no Alentejo. Daí que na província nortenha as populações espontâneas de Mentha cervina não tenham estado sujeitas à colheita imoderada que, a par da destruição dos habitats, quase levou no Alentejo ao desaparecimento da espécie. Além disso, a degradação ambiental associada às práticas da agricultura intensiva, em especial a eutrofização dos cursos de água, é muito menos grave em Trás-os-Montes do que no sul do país. No que as duas regiões se equiparam é nos efeitos catastróficos da construção das barragens sobre a vegetação que, vivendo ao pé da água, nunca aprendeu a nadar. O enchimento da barragem de Alqueva destruiu talvez os últimos núcleos de erva-peixeira nas margens do Guadiana. E quando, até final do ano, a barragem do Sabor entrar em funcionamento, vão ser afogadas algumas das mais importantes populações da espécie em Trás-os-Montes: a que existe junto à ponte de Remondes (foto em baixo) e todas as outras que subsistiram até hoje nos últimos 60 Km do curso do rio antes de se juntar ao Douro.

Talvez pareça exagerado este lamento por uma simples erva aromática quando tantas outras coisas tidas como mais importantes, entre elas grandes maciços de Buxus sempervirens, para já não falar das árvores e dos campos agrícolas, se perderão com a subida do nível das águas. Mas é esta soma de perdas, pequenas ou grandes, que se chama "destruição da biodiversidade", e todas as parcelas contam no balanço dos prejuízos. Ainda sobram contigentes importantes de Mentha cervina noutras paragens transmontanas, e tão cedo ela não desaparecerá de Portugal, mas a circunstância de não ter qualquer prioridade em acções de conservação, assim como a vulnerabilidade dos seus habitats, indicam que o caminho de diminuição progressiva por ela iniciado não tem retrocesso possível. Em toda a sua área de distribuição, que abrange a Península Ibérica, o sul de França, Argélia e Marrocos, é a mesma má sina que a persegue, a ponto de ela ter sido incluída, como vulnerável, na lista vermelha da IUCN.

Nas inflorescências semelhantes a pompons e até no perfume intenso, a Mentha cervina lembra a sua congénere M. pulegium, popularmente conhecida como poejo, bastante comum de norte a sul do país e também nos Açores. As diferenças estão porém à vista: as folhas da M. cervina são muito mais estreitas, quase lineares, e as suas flores são em geral brancas, enquanto que as da M. pulegium são rosadas ou violáceas. As preferências ecológicas são também distintas: a M. cervina ocupa charcos temporários, margens inundáveis de rios ou leitos de cursos de água temporários; a M. pulegium, sem desdenhar tais lugares, consegue tolerar ambientes mais secos.


ponte de Remondes, rio Sabor

18.10.14

Mordendo o Verão


Valoura, Vila Pouca de Aguiar

Quando, no Verão do ano passado, vimos na serra de Aire a Odontites viscosus, reparámos, como sôfregos coleccionadores, que nos faltava ver outra espécie de Odontites. Contudo, o entusiasmo arrefeceu um pouco ao constatarmos que eram escassos os registos de populações desta planta, e todos eles em locais longínquos no extremo nordeste do país. Não é que desistíssemos de a procurar, mas a esperança de algum dia a vermos reduziu-se a uma simples espera. A meio de Setembro, porém, antes de a chuva por cá se instalar de vez, fomos passear por um souto muito bonito e acolhedor perto de Vila Pouca de Aguiar. Entre castanheiros carregados de ouriços e quase prontos a largá-los, rochedos forrados de Saxifraga fragosoi, e uma ladeira pintalgada de cor-de-rosa pelos inúmeros Colchicum multiflorum, notámos um regato de beira de caminho, na margem de campos cultivados, com a vegetação exuberante própria destes torrões húmidos; e, a espreitar entre o verde, umas espigas alongadas e penugentas de flores rosa-avermelhadas, com um capuz e uns lábios fendidos como já tínhamos visto em amarelo.



Odontites vernus (Bellardi) Dumort.

Reencontrámo-la perto de Bragança, na margens do rio Penacal, de novo apenas um pequeno número de exemplares. Sendo uma planta anual semi-parasita, talvez de paladar exigente, por certo ressente-se da destruição dos nossos rios e de outros habitats onde outrora poderá ter sido abundante, seja no Minho, no Douro Litoral ou nas Beiras.

14.10.14

Introdução à caricologia

Carex viridula Michx. subsp. cedercreutzii (Fagerstr.) B. Schmid

As ciperáceas, tal como as gramíneas, são plantas adaptadas à polinização pelo vento. Não dependendo das boas graças dos insectos e de outros bichos, não têm que os atrair nem recompensar os seus serviços, e por isso não produzem néctar nem têm flores apelativas. O género Carex é o mais populoso da família, contando com cerca de 2000 espécies, em geral perenes; dessas, cinquenta fazem parte da flora portuguesa, duas são endémicas dos Açores, e duas outras são endémicas da Madeira. A planta que ilustra este texto, e que foi fotografada na caldeira do Faial, ocorre nos Açores e na Madeira, e é tida por alguns autores como pertencendo a uma subespécie endémica da Macaronésia. O reconhecimento de tal carácter endémico não é contudo unânime, havendo quem considere que Carex viridula subsp. cedercreutzii é sinónimo de C. viridula subsp. oedocarpa, que tem uma distribuição europeia bastante ampla. Se continuarmos a desfiar o rol de sinonímias, verificamos que outra fonte assevera que esta última é o mesmo que Carex demissa, espécie que, de acordo com a Checklist da Flora de Portugal, não ocorre nos nossos arquipélagos atlânticos. Para que a confusão fique perfeita, a mesma checklist informa que nos Açores existe uma coisa chamada Carex oederi subsp. pulchella, que segundo várias autoridades não é senão a Carex viridula.

Um tal labirinto taxonómico ilustra bem as dificuldades do estudo das Carex. Numa primeira abordagem, já ficaremos satisfeitos se pudermos afirmar com segurança que uma dada planta pertence a esse género, deixando a determinação exacta da espécie para gente mais versada na matéria. Falávamos então das flores despojadas de enfeites e de atractivos, e reduzidas àquilo que é essencial para a reprodução. As flores dos Carex são unissexuais e aparecem dispostas em espigas, sendo frequentes os casos em que cada espiga é formada exclusivamente por flores de um dos sexos: nesta foto, por exemplo, vê-se uma espiga masculina encimando duas espigas femininas. No entanto, não é incomum surgirem espigas andróginas, com flores de ambos os sexos, de que é exemplo a espiga central nesta imagem, com flores masculinas no topo e femininas na base. A mesma androginia, embora menos evidente, é ilustrada pela primeira imagem acima, em que as flores femininas já se converteram em frutos. São aliás os frutos que definem o carácter distintivo do género Carex, aparecendo envolvidos por uma cápsula (chamada utrícula) com o formato aproximado de uma garrafa de Mateus Rosé ou de um cantil militar (veja a 2.ª foto em cima e também os exemplos nesta página). Atender à forma peculiar desse «cantil» - se é mais ou menos bojudo, se tem «gargalo» curto ou comprido - é essencial para a determinação correcta da espécie observada.

Além dos frutos, que só surgem com a Primavera já avançada, devemos também prestar atenção à forma e à cor das glumas. Que quer dizer esse palavrão? Trata-se da bráctea modificada que protege cada uma das flores da espiga; em regra, as glumas são acastanhadas e têm uma banda central verde. Particularmente importantes para o diagnóstico são as glumas das flores femininas, que permanecem frescas durante mais tempo (veja exemplos de glumas masculinas na 3.ª foto ao fundo da página e de glumas femininas aqui). Finalmente, há que levar em conta as provas circunstanciais: num género tão versátil como este, a ecologia é um dado importante. As espécies de sítios húmidos ou encharcados são as mais numerosas, mas também há as que vivem em lugares secos, e dentro desta categoria algumas preferem os calcários (é o caso da C. hallerana aí em baixo, fotografada no Horst de Cantanhede) e outras não dispensam os substratos ácidos.

Estas indicações gerais de pouco servem se o leitor não tiver à mão um manual onde possa conferir, para cada espécie, todos estes detalhes. O melhor livro que conhecemos sobre o assunto - o de Francis Rose, com o título Grasses, Sedges, Rushes and Ferns of the British Isles and north-western Europe, ilustrado com desenhos primorosos - não está inteiramente adaptado à nossa flora, mas apanha a larga maioria das espécies que cá ocorrem.



Carex hallerana Asso

11.10.14

Quatro irmãs portuguesas



Cleonia lusitanica (L.) L.

Segundo a Flora Ibérica, o nome vernáculo desta herbácea anual de floração efémera é o supreendente «cuatro hermanas portuguesas». A referência a quatro irmãs entende-se: a inflorescência tem um arranjo em pelourinho com quatro flores em redor, numa posição simétrica que lembra, por exemplo, a configuração da estátua que homenageia as quatro irmãs Guedes à entrada do Quinta da Aveleda. Memórias de outros tempos, em que as famílias eram numerosas. Mas o rigor do «portuguesas» deixa-nos perplexos. Tudo indica que se trata de um acrescento de cientistas influenciados pelo epíteto lusitanica que Lineu escolheu, tanto na primeira edição do Species Plantarum, em 1753 (em que a designou Prunella lusitanica), como na segunda, de 1763, em que corrigiu a mão, optando por Cleonia lusitanica (por isso o nome científico termina com a dupla menção a Lineu, (L.) L.). Pior só se alguém afirmasse que o povo a trata por cliónia. Mas não, não há qualquer menção de um nome vernáculo em português, e, de facto, em castelhano ela tem outra designação mais plausível: cañamillo, algo como cana-de-painço ou cana-de-milho-miúdo, decerto aludindo à postura erecta dos talos, ao formato da haste floral e às brácteas das inflorescências.

As flores não deixam dúvidas: esta planta, que em geral se fica pelos 20 a 30 cm de altura, pertence à família Lamiaceae e ao seu ramo mais vistoso, aquele que no início do Verão exibe corolas violáceas, com um matiz mais claro, ou mesmo branco, no interior. (Informa a Flora Ibérica que, em Málaga, há uma população onde ocorrem espécimes de flores amarelas.) Gosta de prados em clareiras de matos abertos, matagais ou azinhais, sobre solo calcário. Vimos os exemplares das fotos em Pombal, na companhia de algumas centenas mais que formavam um extensa manta lilás numa ladeira de terra argilosa, avermelhada e seca, entremeada com rochas e calhaus. Dias depois, reencontrámos a planta nas margas do Horst de Cantanhede.

De acordo com a Plant List, o género Cleonia inclui esta única espécie C. lusitanica, que é nativa do centro e sul da Península Ibérica e do norte de África.

7.10.14

Rio das ervas sem nome



Carex elata All.

Todas as nossas experiências sensoriais - o que vemos, cheiramos, ouvimos, saboreamos, tocamos - podem, acreditamos nós, ser traduzidas por palavras. Há quem leve tão longe essa crença que ache mais enriquecedor ler um relato sobre um certo lugar, em especial se o autor tiver firme reputação na bolsa de valores da cultura, do que visitá-lo com os sentidos bem abertos. Pablo Neruda chamou Confesso que Vivi ao seu livro autobiográfico. Se algum desses leitores fervorosos publicar uma autobiografia honesta, há-de intitulá-la Confesso que Li.

Essa vida em segunda mão, mediada pelas palavras dos outros, tem vários inconvenientes. O primeiro é que, se não tivermos experiência directa dos objectos ou seres que as palavras descrevem, as imagens mentais que formamos ou são lacunares ou têm fraca semelhança com aquilo que é descrito. Um pinheiro é diferente de um carvalho, um pinhal é diferente de um carvalhal, não há uma coisa indiferenciada e uniforme que se chame «floresta», há sim muitas florestas, cada uma com os seus cheiros e jogos de luz. Mas, se só tivermos uma noção vaga de floresta como uma formação mais ou menos extensa de árvores anónimas, então é o mesmo cenário que nos vem à cabeça quer estejamos a ler sobre os bosques da Noruega ou sobre a mata atlântica do Brasil. As descrições cuidadosas dos mais finos escritores deixam apenas um reflexo baço e irreconhecível no espelho do nosso cérebro.

Essas limitações do leitor podem, no entanto, ser em parte ultrapassadas se houver humildade em reconhecê-las. Passando do receptor ao emissor, um outro problema que afecta a transmissão de experiências através das palavras é a incompletude do nosso léxico. Em suma, não há palavras para tudo. Quem muito palavrosamente tentar descrever um perfume inédito, saberá que quem o ouve não fica habilitado a reconhecer tal perfume e muito menos a recriá-lo: em vez de palavras, fazem falta tubos de ensaio e fórmulas químicas. E há insuficiências que são próprias de determinadas línguas, reflectindo vivências ancestrais em que certas coisas, por não terem importância assinalável, era como se não existissem.

As quase 50 espécies de Carex que ocorrem em Portugal não existem na nossa língua: não há qualquer palavra em português para as designar. Outras línguas europeias são isentas dessa lacuna: os nomes «sedge» (em inglês) e «laîches» (em francês) indicam quaisquer plantas do género Carex, em geral bastante frequentes em zonas húmidas ou inundadas, mas não exclusivas desses habitats. Quem quiser traduzir para português um texto de um autor anglo-saxónico ou francófono que fale destas plantas não o pode fazer sem erro ou sem perda de informação. Se usar junco ou junça comete um erro, pois essas plantas, embora ocupem habitats semelhantes, são diferentes das Carex e, no caso dos juncos, nem pertencem à mesma família botânica. Em alternativa, pode usar um nome generalista e impreciso (como «erva» ou «capim») ou, como último recurso, não tentar sequer dar um nome a tais plantas (traduzindo por exemplo «sedge fen» por «brejo»).

Ficamos então sem palavras para descrever com rigor, e em português de lei, um rio como há muitos na metade norte do país, com o leito pontuado por grandes tufos de verdura compostos por hastes e folhas elegantemente arqueadas. Uma tal descrição impressionista poderá satisfazer alguns, mas não aqueles que prezam uma informação exacta. Assim, a planta ilustrada nas fotos tem o nome científico de Carex elata, em inglês é conhecida como tufted sedge, e os tufos por ela formados podem ultrapassar um metro de altura. Se ao habitat ribeirinho adicionarmos o aspecto geral e as espigas das inflorescências, visíveis de Março a Maio, é de admitir que a identificação da planta não ofereça dificuldades de maior. Não é esse o caso da maioria das espécies do género Carex, em que a distinção pode depender de diferenças subtis na forma dos frutos. De facto, o género Carex é tão intrincado que o seu estudo mereceu um nome à parte dentro do universo da botânica: trata-se da caricologia. Contrariando as suposições fáceis, um caricólogo não colecciona caricas nem compila estatísticas sobre campeonatos de sameirinha, mas dedica-se, em vez disso, ao estudo e classificação das Carex.

Faremos uma breve (e trapalhona) introdução à caricologia num dos próximos fascículos.


Parada de Pinhão, Sabrosa

4.10.14

Estrelas de haver


Nave de Haver

Cerca de oito quilómetros a sul de Vilar Formoso, Nave de Haver é um recanto no interior do país estranhamente plano e arenoso, não longe da ribeira de Tourões que desagua ali perto no rio Águeda. O espanto acentua-se quando avistamos uns morros cor de argila, umas formas de aluvião que parecem ter sido desenhadas por chuva intensa. O topónimo soa-nos bizarro até entendermos que nave significa, neste contexto, um lugar plano entre montanhas e que o de Haver é decerto uma variante oral de Daver, que alude a uma várzea junto a um rio. Cruzamo-nos com algum gado e cães de guarda que ladram enervados por ver gente: actualmente não moram no lugar mais do que 400 pessoas. Diz-se que por lá prossegue a exploração de volfrâmio por processo artesanal e que, estando tão perto de Espanha e sendo tão despovoado, é ainda propício ao contrabando.

É para a zona ondulada, e as famosas arcoses, que nos dirigimos em Maio. Mas a planície junto à estrada está arroxeada por tantas flores de Linaria incarnata e há lá tantas plantas que nunca vimos que a viagem se vai alongando em paragens. Quando chegamos finalmente aos arenitos, encontramos uma duna gigante feita de cascalho grosseiro e escorregadio, um enorme rochedo desfeito e depois sedimentado onde se notam veios de quartzo, xisto, granito e argila. E tudo o resto parece ter encolhido, até os carvalhos, como se ali o mundo fosse ainda jovem. No fundo dos aluviões há regatos estreitos e, dispersas, lagoas pouco fundas de margens recheadas de plantas preciosas e outras que não identificámos.


Quercus pyrenaica Willd.

No início de Setembro retornámos, desta vez para explorar essas "dunas" solidificadas, e aí ver uma pequena população desta asterácea rara que Miguel Porto e Ana Júlia Pereira encontraram meses antes e para a qual nos haviam alertado.



Aster aragonensis Asso

Como floresce no Verão, quando quase tudo o resto já perdeu a cor, pensámos que não teríamos dificuldade em avistá-la, mas é planta tão delgada, de inflorescências em corimbo tão frouxo e, quando a vimos, de folhas secas e hastes de cor tão próxima da do solo, que quase nos passou despercebida. (Curiosamente, Brotero designou-a Aster fugax, aludindo desse modo à maturação rápida da planta.) Foram as lígulas violáceas, que contrastam com o amarelo das pétalas num arranjo admirável, que nos ajudaram a descobri-la. A estrela miúda, como a designam em castelhano, é um endemismo ibérico de que em Portugal só se conhecem núcleos nos arenitos de Nave de Haver, em afloramentos ultrabásicos, xistos verdes e leitos de cheia de Bragança e Vinhais, em fendas de rocha xistosa na serra do Açor e num urzal na Serra da Carregueira. Na Catalunha, consta do Livro Vermelho (das plantas endémicas ameaçadas) como espécie vulnerável.

Lemos que Ignacio Jordán de Asso y del Rio (1742-1814), naturalista espanhol que nomeou esta planta, foi autor de um inventário quase exaustivo da flora e fauna de Aragão.

30.9.14

Caldeira do Faial



O visitante que quiser descer à caldeira do Faial não o pode fazer sem autorização, e terá que ser acompanhado por um guia pago. O trilho não é especialmente perigoso nem apresenta obstáculos inultrapassáveis, e está suficientemente calcorreado para dissipar quaisquer dúvidas sobre o caminho a seguir. Quem for ágil que baste e tiver experiência de caminhadas na natureza poucas dificuldades teria em chegar sozinho ao fundo da caldeira, mesmo naqueles dias em que o nevoeiro pudesse momentaneamente perturbar o sentido de orientação. Não foi pois a preocupação pela segurança dos visitantes que levou o Parque Natural do Faial a impor estas restrições de acesso, mas antes a crença de que uma sobrecarga de visitantes e o possível comportamente desregrado de alguns deles poderiam danificar aquele que é o mais precioso reduto de vegetação natural de toda a ilha.

Se em teoria este argumento é convincente, já a prática deixa algo a desejar. Definir um limite diário, semanal ou mesmo mensal de visitantes numa área ambientalmente sensível e sujeita a grande pressão turística é um procedimento adequado e necessário. Mas obrigar cada potencial visitante, ou grupo de visitantes, a pagar os serviços de um guia, quando tais serviços poderiam em muitos casos ser dispensados, é restringir o usufruto da natureza a quem tenha (bastante) dinheiro para isso. E é também um exemplo curioso, embora em pequeníssima escala, de como o Estado se empenha em criar e alimentar um negócio exclusivamente privado e em boa parte supérfluo.

Como acontece em várias outras áreas protegidas tanto nos Açores como em Portugal continental, parece vigorar a ideia de que para salvaguardar os valores naturais de uma certa área basta declarar que o acesso a ela é interdito ou condicionado. Livre de intrusos indesejáveis, a natureza saberá reconstituir-se sem ajuda, regressando à forma primordial que era a sua antes da chegada do bicho homem: isso a que os burocratas do ambiente chamam wilderness. Talvez a gestão pelo abandono seja adequada na caldeira de Santa Bárbara e noutros lugares da ilha Terceira onde o revestimento vegetal pode sem exagero ser descrito como floresta virgem, mas não o é na caldeira do Faial nem em qualquer outro lugar nominalmente protegido da mesma ilha.

Até há trinta ou quarenta anos, o interior da caldeira era usado intensamente para pastoreio de cabras, ovelhas e até de vacas. Nas vertentes mais suaves, a vegetação arbórea está por isso bastante reduzida. O fim do pastoreio vai ditando o adensamento do coberto vegetal, mas a presença de elementos espúrios como as hortênsias (Hydrangea macrophylla), rocas-da-velha (Hedychium gardneranum) e silvas (Rubus ulmifolius) inviabiliza a regeneração da floresta original. É causa de desgosto e de perplexidade que nem aqui, num local que deveria funcionar como símbolo da conservação da natureza no arquipélago, tenha sido feito qualquer esforço para erradicar as hortênsias. E o fundo da caldeira, antes coberto por um lago que ficou muito diminuído por altura da erupção dos Capelinhos, ameaça agora transformar-se num silvado contínuo.

A importância da caldeira do Faial explica-se de modo simples: nas suas vertentes, que vencem um desnível superior a 300 metros, e também ao longo do seu perímetro, que tem cerca de 7 Km de extensão, encontra-se uma representação quase completa da flora nativa açoriana, com as excepções óbvias daquelas espécies que vivem exclusivamente a baixas altitudes e de outras que não existem no grupo central no arquipélago. Para além dos habituais juníperos, azevinhos, folhados, loureiros, mirtilos e urzes, das multidões de fetos e de musgos, e das grandes asteráceas de floração estival como o patalugo e a leituga, pudemos ver trovisco-macho em abundância e ainda reencontrámos, para grande regozijo nosso, a raríssima alfacinha (Lactuca watsoniana) que só conhecíamos da ilha Terceira.



Ilex perado Aiton subsp. azorica (Loes.) Tutin

Eis uma boa ocasião para remediar uma grave lacuna: apesar de referirmos muitas vezes o azevinho açoriano, nunca aqui o mostrámos, talvez por nunca lhe termos fotografado as bagas maduras, já pintadas de vermelho. Tendo a espera ultrapassado os limites do razoável, contentar-nos-emos com as bagas verdes, e como bónus juntamos uma imagem das flores, que são brancas, pequenas e discretas, mas revelam-se compatíveis com o calendário das nossas estadias nos Açores. O azevinho açoriano, endémico do arquipélago e componente essencial das florestas húmidas de altitude, é uma árvore perenifólia, de copa larga, que pode ultrapassar os cinco metros de altura. Nas zonas de maior humidade, em que as nuvens só se ausentam a custo e por períodos muito curtos, os azevinhos rivalizam com os juníperos na quantidade e qualidade da flora epífita de musgos e fetos a que dão acolhimento. Um dos inquilinos habituais dessas árvores é a língua-de-vaca, um feto endémico dos Açores e da Madeira.


Pico: floresta de junípero (à esquerda), loureiro (ao centro) e azevinho (à direita)

27.9.14

Lembrando o não-me-esqueças



Myosotis azorica H. C.Watson

Poucas vezes nos referimos aqui aos miosótis, aquelas plantas mimosas de flores azuis, brancas ou amarelas, e folhas cor de alface que lembram orelhitas de rato. É que há muitas espécies parecidas que ocupam habitats semelhantes, e que mal se distinguem; logo o risco de errar na etiquetagem é elevado, apesar da chave detalhada que os redatores da Flora Ibérica prepararam. Porém, o das fotos de hoje, que é endémico dos Açores, não deixa dúvidas: como é muito raro, havendo registo de populações apenas nas ilhas das Flores e Corvo, dificilmente nos deparamos com o problema de o identificar; além disso, tem um porte e folhagem invulgares, muito diferentes dos demais.

Trata-se de uma herbácea perene de montanha, que ocorre em crateras, taludes próximos de cascatas e rochas húmidas entre os 400 e os 600 metros de altitude. Como podem notar nas fotos, é erecta, com as folhas basais em patamares horizontais, as superiores patentes, e uma inflorescência densa no topo da planta, formando uma umbela de flores azuis escuras (cor de indigo; infelizmente as plantas foram fotografadas num dia quente de Agosto, em fim de floração, por isso não mostram bem este detalhe).

Este não é o único miosótis endémico dos Açores: o Myosotis maritima também só existe nessas ilhas. Floresce mais cedo (em geral, até Junho), é muito ramoso mas tem folhas e flores menores do que o M. azorica, e aprecia as reentrâncias das falésias, as rochas costeiras até 50 metros de altitude e a maresia. Ocorre em todas as ilhas e a designação foi-lhe atribuída por Hochstetter (pai) em 1840. Quatro anos depois, H. C. Watson publicou uma descrição do M. azorica, com uma ilustração, na Curtis's Botanical Magazine (página 4122), notando como é diferente das espécies europeias. Para quem já teve o privilégio de observar os dois miosótis açorianos, eles não se confundem, até porque não têm a mesma ecologia. Estranha-se, portanto, que nas páginas da Plant List, portal da responsabilidade dos Kew Gardens, se afirme que Myosotis maritima é sinónimo de Myosotis azorica. Sugerimos que contactem o Jardim Botânico do Faial, onde há exemplares das duas plantas, venturosamente a florir e a frutificar. E, quem sabe, haverá sementes para partilhar.

23.9.14

Ao sol no basalto



Cheilanthes guanchica Bolle

Os anglo-saxónicos chamam lip fern aos fetos do género Cheilanthes, o que etimologicamente se justifica notando que esta palavra de origem grega é composta por cheilos (= lábio) e anthos (= flor). Até os mais distraídos sabem que os fetos não dão flor, mas neste contexto o termo faz referência aos esporos, que são o modo que estas plantas ditas primitivas têm de se reproduzir. Os esporos aparecem resguardados por uma dobra na margem das pínulas que, podemos concedê-lo, são algo semelhantes a lábios humanos. E tal como há lábios grossos ou finos, uns mais rectilíneos e outros mais arredondados, também nos Cheilanthes essa parte da anatomia (ou, mais propriamente, da morfologia) varia consideravelmente, permitindo distinguir espécies que de outro modo se confundiriam. Verdade seja dita que, no trato entre humanos, o expediente de reconhecer as pessoas apenas pelos lábios causaria estranheza. Na verdade, o que as pessoas têm de mais individual (o código genético, a impressão digital) não é usado no quotidiano para nos reconhecermos uns aos outros. As caras são facilmente falsificáveis pela habilidade de um cirurgião plástico ou, muito mais prosaicamente, pelo talento de um actor. Se alguma espécie mais avançada fizesse da nossa objecto de estudo, certamente não se deixaria guiar pelas caras ao catalogar os espécimes estudados.

É então pelos lábios, neste caso algo ressequidos pela estiagem que acontece em Agosto mesmo nas ilhas (as fotos são do Pico), que podemos identificar com segurança este feto como Cheilanthes guanchica, diferente dos seus congéneres que costumamos encontrar em habitats rochosos de diversa natureza (granítica, xistosa, calcária) no continente português. Tal diferença entende-se melhor comparando a terceira foto de hoje com as da última coluna desta página. Os lábios têm uma membrana branca e transparente que os prolonga: chama-se pseudo-indúsio. No C. guanchica o pseudo-indúsio é alongado e praticamente contínuo; no C. maderensis ele é fragmentado em pequenos segmentos; no C. acrosticha é fimbriado; e no C. tinaei ele quase não existe. Só com vista muito apurada, ou com o auxílio de lupa ou de macro-fotografia, é que este receituário se pode usar na prática. E só na presença de frondes férteis, frescas e bem desenvolvidas ele se revela inequívoco. Por isso a melhor altura para destrinçar estes fetos, e para os observar em boas condições, é entre o final do Inverno e o início da Primavera. Ainda que tenham a fama de gostar de sol e de procurar os lugares mais secos e expostos, o certo é que as frondes estiolam e desaparecem durante os meses secos e quentes - podendo no entanto algumas delas reverdecer com o regresso das chuvas.

O Cheilanthes guanchica, que terá origem no cruzamento de dois dos seus congéneres (C. maderensis e C. pulchella, este último endémico das Canárias), é um feto com frondes de 8 a 15 cm de comprimento, dispostas em tufos, que nos Açores surge, e muito raramente, no Pico e em São Jorge, preferindo altitudes baixas e fendas de muros ou rochas basálticas com boa exposição solar. Parece ser a única espécie de Cheilanthes que ocorre no arquipélago, pois as referências à presença do C. maderensis (que já se chamou C. pterioides) dever-se-ão a erros de identificação. Foi originalmente descrito, em 1859, a partir de exemplares colhidos em Tenerife, pelo botânico alemão Carl August Bolle (1821-1909), aludindo o epíteto guanchica aos Guanches, povo que ocupava as Canárias antes da conquista do arquipélago pelos castelhanos. Também há notícia do C. guanchica na Madeira, no norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia), na Grécia, em algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sicília), no sul de Espanha e, em Portugal continental, nas serras de Monchique e de Sintra. Seria um feito assinalável, a merecer recompensa, que o leitor encontrasse o feto nalgum desses lugares e nos enviasse um comprovativo da descoberta.