17.1.12

Negro como calcário

Portugal é um país achatado, com poucas montanhas e mal repartidas. Quase todo o território se situa abaixo dos 400 metros de altitude, com orlas recentes de grandes areais sem escarpas ou com elevações pouco acima do nível do mar. O norte é antigo, da chamada zona geológica centro-ibérica, com uma história tectónica de difícil destrinça e onde predominam o granito, o xisto e o quartzo. Aqui ocorre naturalmente a flora que aprecia solos ácidos. Mas há excepções, como as formações de rochas ultrabásicas do nordeste ou os raros afloramentos de calcário no Marão.

Fomos à procura deles, com a grata lembrança da flora calcícola das serras de Aire e Candeeiros. Habituados a calcorrear o Maciço Calcário Estremenho à procura de orquídeas, deveríamos ser capazes de achar umas pedras brancas a destoar nos montes se o nevoeiro não nos viesse atrapalhar a tarefa. O destino era Campanhó, no miolo do Marão, lugar de várias pedreiras desactivadas e não longe de antigas explorações mineiras de estanho e volfrâmio. Para lá chegar, houve que enfrentar as estradas de mau piso que foram apoio destas actividades. O primeiro sinal de que estávamos perto foi dado pela abundância de Ceterach officinarum, um feto que gosta de fissuras nas rochas e muros velhos e que, sendo em geral indiferente à natureza do solo, mostra no nosso país uma preferência nítida por substratos calcários. Outra evidência surgiu logo depois com os inúmeros exemplares de Helleborus foetidus, planta também de terrenos calcários, comum precisamente nas serras de Aire e Candeeiros. Mas onde estariam os mármores rosa eivados de pérola ou o chão avermelhado como o da Fórnea? Demorámos alguns minutos a perceber que tínhamos chegado: aquelas pedras gigantescas com a textura homogénea do carvão, de cor cinza e toque macio, eram bolhas de calcário no meio do xisto.


Campanhó (Mondim de Basto)

A confirmação não se fez esperar: ali estavam, meio escondidos pelas silvas, vários tufos de Asplenium ruta-muraria, um feto escasso no sul da Europa, muito sensível à poluição amosférica e que, em Portugal, se concentra numa área restrita do centro-oeste calcário.


Asplenium ruta-muraria L.

No livro Distribuição de pteridófitos e gimnospérmicas em Portugal (1982), Franco e Rocha Afonso, a propósito deste feto, assinalam com bolinhas negras uns poucos lugares no Marão. Bolinhas que, na realidade, crescem para se transformarem em maciços calcários da mesma cor, a que voltaremos na época das orquídeas.

9.1.12

Língua-de-cobra


Reserva Ornitológica de Mindelo (Vila do Conde)

A protecção da natureza, em Portugal, nunca foi uma prioridade, mesmo quando o ambiente fazia parte de uma agenda política que a crise remeteu para segundo plano. O "ambiente" pode ser muita coisa, e de todas as suas possíveis acepções os nossos governos têm preferido aquelas que envolvam obra que se veja. É assim que, em nome das "energias renováveis", se destroem rios e se plantam ventoinhas por tudo quanto é cume; e é também assim que, na gestão de áreas ditas protegidas, se esbanja em desproporcionados centros de interpretação o dinheiro que não há para vigilantes da natureza ou para acções de conservação no terreno. Por isso "área protegida", em Portugal, pouco mais significa que um espaço onde vigoram certas restrições à construção de edifícios ou ao uso do solo. Quanto ao resto, a natureza lá saberá tomar conta de si, desde que as agressões não sejam muitas.

Consta dos anais que a Reserva Ornitológica de Mindelo (ROM), criada em 1957 por iniciativa de Santos Júnior, professor na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foi a primeira área oficialmente protegida em Portugal. Situada no concelho de Vila do Conde, logo a sul do rio Ave, e repartida entre as freguesias da Árvore e do Mindelo, ocupava 554 hectares de dunas, charcos e pinhais. Ainda que legalmente a ROM nunca tenha sido abolida, a expansão urbanística roubou-lhe boa parte da área e a Universidade do Porto deixou de a usar para trabalhos de campo. Houve extracção de areia nas dunas, secaram muitos dos charcos, a ribeira foi poluída, depositaram-se entulhos, chegaram veraneantes e veículos todo-o-terreno, a vegetação infestante de chorões, acácias e canas instalou-se e expandiu-se. Mas o ambíguo estatuto de protecção conseguiu evitar o mais sério dos atentados: o coração da antiga reserva, entre as dunas primárias e os hectares de pinhal, foi poupado às construções. Em toda a linha de costa entre Ovar e a foz do Cávado não sobrou outro pedaço de natureza com uma riqueza ecológica comparável.

Foi para proteger tal riqueza que, em Outubro de 2009, por decisão unânime da Assembleia Metropolitana do Porto, foi oficialmente criada a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde, que se estende por 380 hectares entre a foz do rio Onda, em Labruge, e a foz do rio Ave, na sede do concelho. O quinhão maior da nova área protegida, com cerca de 266 hectares, é o que resta dos 554 hectares da antiga ROM.

E que foi feito nos 27 meses decorridos desde essa feliz data? Burocraticamente, nada: não há orgãos de gestão, não há plano de ordenamento, não há sequer placas de informação para visitantes. E no terreno também nada se nota, como se a remoção do lixo, o controlo da vegetação infestante e o impedimento da circulação de veículos motorizados dependessem de aturados estudos e da benção de doutas comissões.



Ophioglossum lusitanicum L.

Neste compasso de espera a vida vai seguindo o seu curso, e a velha Reserva Ornitológica de Mindelo ainda guarda algumas surpresas para os naturalistas que a percorram de olhos bem abertos. No leito ou nas margens dos frágeis charcos temporários sobrevivem plantas que, na região do Porto, são preciosas relíquias de outras épocas: Spiranthes aestivalis, Centaurium chloodes, Samolus valerandi. Lista a que agora se acrescenta o Ophioglossum lusitanicum, um estranho feto que recebe no vernáculo o nome de língua-de-cobra-menor e que andava desaparecido do litoral nortenho. A última colheita para o herbário da FCUP data de 1912 e foi feita no lugar da Boa Nova (Leça da Palmeira). As populações por nós agora encontradas situam-se bem mais a norte, numa área onde a planta nunca havia sido detectada. Aliás, o relatório de 2007 que serviu de base à criação da paisagem protegida (texto integral - PDF) não inclui o Ophioglossum lusitanicum na listagem, que se quis completa, da flora local. (E também não inclui várias outras espécies de muito mais fácil observação, como o Samolus valerandi, o Asplenium marinum, a Vicia lutea e a Serapias parviflora.)

Morfologicamente, a língua-de-cobra-menor é a versão miniatural da (que outra coisa haveria de ser?) língua-de-cobra-maior. O tamanho exíguo da planta é aliás uma das peculiaridades que dificultam a sua detecção: as folhas, que são carnudas e surgem sozinhas ou em grupos de duas ou três, têm o pecíolo quase todo subterrâneo e ficam-se pelos 2 a 4 cm de comprimento; a haste com os esporângios (por vezes ausente) pode duplicar a altura da planta, mas raramente ultrapassa os 6 cm. Só podemos ter esperança de a ver quando a vegetação circundante é muito rala. Para dificultar ainda mais a observação, o aparecimento da planta à superfície é efémero e decorre numa época (de Outubro a Março) em que a maioria dos botânicos está recolhida na toca.

O habitat desta língua-de-cobra são os locais arenosos ou de solo magro dotados de alguma humidade e cobertos por musgos. A planta evita locais muito expostos ao vento ou ao sol, e nas dunas agradece a protecção que algum pinheiro ou sargaço lhe possa proporcionar. Na Reserva Ornitológica do Mindelo descobrimos duas populações de 20 a 30 indivíduos cada, ambas ameaçadas pelo avanço dos chorões. Apesar de ser uma planta com ampla distribuição europeia, é escassa em Portugal, e no norte do país está em risco de desaparecer de vez. Quem se preocupa com a biodiversidade não quererá que isso aconteça. Fica o alerta para quem vier a gerir a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde.

31.12.11

Se não nos virmos


Frecha da Mizarela (Arouca)

O ano que começa logo à noite com o estralejar de fogos-de-artifício, e que, se se conformar aos nossos desejos, há-de ser do melhor para todos os nossos leitores - esse ano, dizíamos, promete ser rico em dias, já que 2012 é bissexto. Noutros aspectos não será tão rico. Este blogue, por exemplo, vai ser menos prolífico: andámos a esbanjar plantas e impõe-se um racionamento antes que o filão se esgote. Não vamos embora, pois já prometemos isso uma vez e não deu resultado, mas vamos ser mais comedidos. Deixaremos o campo em pousio, só o vindo amanhar ocasionalmente para não perdermos o jeito com a enxada.

30.12.11

Champanhe sem borbulhas

Orchis champagneuxii Barn.
[Anacamptis morio subsp. champagneuxii (Barn.) Camus]

The coil of rope which is necessary to hold in the hand, before and whilst raising a bell, always puzzles a learner.

Charles A. W. Troyte, Change-Ringing (1869)

29.12.11

Rosa Maria


Helianthemum marifolium (L.) Mill.

Os ingleses chamam rock roses às plantas da família Cistaceae, que nós tratamos por esteva, estevinha, estevão, sargaço, sargaça ou sargacinha. Por serem plantas nativas do nosso território, e não das ilhas britâncias, os nomes que lhes damos deveriam gozar de primazia. Sucede que a nomenclatura popular é altamente confusa, chamando a mesma coisa a plantas muito diferentes ou, pelo avesso, atribuindo nomes díspares a plantas claramente aparentadas. Quem poderia adivinhar, só pelos nomes, que a esteva e o sargaço são plantas da mesma família? Ou quem diria que o sargacinho (Lithodora prostrata) e a sargacinha (Halimium calycinum ) nada têm a ver um com o outro?

Rock rose tem pois a vantagem da simplicidade e da transparência: sabemos de imediato de que tipo de planta estamos a falar, e ainda ficamos com a ideia - em geral correcta, apesar de admitir excepções - de que ela prefere terrenos secos e pedregosos. Para quem quiser compor um jardim de plantas xerófilas, com cascalho e blocos de pedra (ou seja, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam rock garden), as rock roses são a escolha óbvia para fazer companhia às suculentas. Pena é que o conceito e as próprias plantas que lhe dariam forma sejam quase ignorados em jardins portugueses.

A rosa-das-rochas que hoje nos visita tem um epíteto misterioso: marifolium. É pois, na opinião de Lineu, uma rosa com folhas de Maria, ou mais simplesmente uma Rosa Maria. Desde quando Maria é vegetal? Um mergulho nos poeirentos arquivos da taxonomia botânica revela-nos a existência de uma Maria-antonia orientalis Parl., leguminosa baptizada em 1844 de que entretanto se perdeu o rasto. Mas a Maria de Lineu terá que ser outra, pois a descrição original do Helianthemum marifolium (como Cistus marifolius) é de 1753.

O Helianthemum marifolium é um arbusto peludo, muito ramificado e de caules prostrados, que atinge um máximo de 30 cm de altura mas em regra é bem mais rasteiro; as suas folhas têm de 3 a 15 mm de comprimento, e as flores de 10 a 15 mm de diâmetro. Distribui-se pela Península Ibérica, sul de França, Baleares e norte de África, e em Portugal ocorre apenas na serra da Arrábida e no litoral algarvio.

Adenda. Uma leitora perspicaz sugeriu que marifolium não remete a Maria nenhuma, mas sim ao Teucrium marum, arbusto mediterrânico muito atraente para gatos que vive em França, Itália, Sardenha e Córsega.

A cervina também mora aqui


Ribeira do Espírito Santo, Miramar, Gaia / Asplenium scolopendrium L.

Agora que está prestes a cair a última folha do calendário de 2011, é altura de encerrarmos oficialmente o Grande Concurso Dias com Árvores, que decorreu sem interrupções, embora com uma actividade algo letárgica, desde o passado dia 10 de Janeiro. O objectivo era descobrir, em algum concelho do Grande Porto, um dos mais notáveis fetos da nossa flora, a língua-cervina (Asplenium scolopendrium). Quem encontrasse a planta na natureza e nos reportasse a descoberta seria contemplado com um ou mais livros. Inicialmente o concurso abrangia apenas os concelhos de Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar e Valongo, mas optámos por alargá-lo a Ovar e a Estarreja para que o rol dos premiados não ficasse vazio. Balanço do concurso? Graças a Rui Soares, nosso único vencedor, encaramos hoje com optimismo moderado a situação da língua-cervina no noroeste do país. As populações de Ovar e Estarreja são vigorosas e abundantes, e também há bons núcleos em Vale de Cambra e em Macieira de Cambra, o principal deles igualmente descoberto por Rui Soares. Como todas as plantas que vivem junto a linhas de água, a língua-cervina corre risco de erradicação sumária no âmbito de requalificações ou limpezas abrutalhadas de margens de rios e de ribeiras. Mas há sempre a esperança de que algum rio escape à fúria higienizante, ou de que alguma planta sobreviva quando as margens são rapadas à escovinha.

Da nossa lista inicial, Gaia foi o único concelho que não ficou em branco; mas, como não nos podemos premiar a nós próprios (apesar de o regulamento ser omisso a esse respeito), a descoberta não tem relevância para o concurso. A solitária língua-cervina gaiense foi a única e milagrosa sobrevivente da limpeza sem critério das margens da ribeira do Espírito Santo, em Miramar. Aparenta saúde débil, mas se a deixarem sossegada por uns anos talvez revigore e se multiplique.

28.12.11

Favas contadas

Orobanche foetida Poir.

Nome vulgar: erva-toira-denegrida
Ecologia: parasita de diversas plantas leguminosas, vive em matos, pastagens, zonas arenosas e lugares ruderalizados
Distribuição global: Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia)
Distribuição em Portugal: ainda que não seja comum, ocorre em todas as províncias do continente
Época de floração: Abril-Junho
Data e local das fotos: Maio de 2011, serra da Boa Viagem (Quiaios, Figueira da Foz)
Informações adicionais: planta com hastes robustas que podem ultrapassar os 70 cm de altura; semelhante à Orobanche sanguinea C. Presl. que, embora mais rara, também ocorre em Portugal

27.12.11

Salsa-para-cavalos



Smyrnium olusatrum L.

Smyrnium perfoliatum L.

Ouro, incenso e mirra - a lista de oferendas é sempre recitada por esta ordem. Primeiro o ouro, marca de realeza e poder; segue-se-lhe o incenso perfumado e espiritual, de plantas do gênero Boswellia; e só depois a mirra. Engano nosso, ao julgarmos que é a prenda de menor valor: esta resina fragrante, extraída de árvores do género Commiphora, tem propriedades balsâmicas, anti-sépticas e anti-bacterianas; é por isso o símbolo da imortalidade.

As umbelíferas das fotos, a que os ingleses chamam alexanders (em alusão a Alexandria), não têm a mesma fama, embora o S. olusatrum também se sirva em infusões aromáticas (e se tenha cultivado como verdura de Inverno), o S. perfoliatum tenha uso ornamental por causa das folhas douradas na Primavera, e o nome Smyrnium se refira explicitamente ao aroma a mirra das sementes. Que são ovóides, rugosas e escuras quando maduras no caso da primeira planta (olusatrum deriva do latim olus, erva, e ater, negro), e pardas as do S. perfoliatum. Este distingue-se do anterior por ter menor porte e pelas folhas caulinares não divididas ou menos recortadas; contudo, as duas espécies têm-nas sésseis e de aurículas grandes, de base cordiforme e adunada, parecendo que o caule as atravessa. Pelo contrário, as folhas basais são divididas e de pecíolo longo, tão diferentes que, quando as vimos, julgámos que fossem de outra planta que por ali se tinha esgueirado.

São herbáceas bienais, com hastes florais que podem atingir os 2 metros de altura. As flores hermafroditas, sem sépalas, de cinco pétalas amarelas com cerca de 1 mm de diâmetro, dispõem-se em umbelas compostas (como um guarda-chuva cujos raios terminassem em sombrinhas menores) de 8 a 20 umbélulas, mas em cada uma cerca de metade das flores abortam. A raiz parece um nabinho comprido. Apreciam sombra, lugares frescos, relvados húmidos e solos ricos em azoto.

O género Smyrnium abriga sete espécies, cinco da Europa (das quais só duas ocorrem na Península Ibérica) e as outras da Ásia e África. São mais abundantes na metade sul do país. O S. olusatrum é espontâneo no oeste e sul da Europa, Macaronésia e norte de África; o S. perfoliatum é calcícola, nativo do centro e sul da Europa e região mediterrânica e, parece, mais raro por cá.

26.12.11

Mercúrio na cidade


Mercurialis ambigua L. f.

A natureza na cidade é uma história de guerrilha e de infiltrações, de recuos e de avanços. Em países como o nosso, onde se tenta à força excluir o convívio entre o que é artificial e o que é espontâneo, não é em jardins e parques que cidade e natureza se reconciliam. A tira de relva enfeitada com magras árvores onde os cães levam os donos a passear é muito mais postiça do que um muro velho forrado de verdura. É na cidade roída pelo tempo, e não nos tristes jardins geométricos, que o naturalista citadino com mais proveito emprega o seu labor.

Para ilustrar cabalmente esse preceito, nada melhor que a mercurial ou erva-mercúrio (Mercurialis ambigua). Trata-se de uma erva com grande tradição na medicina popular, usada como purgante, vermífuga e diurética; é espontânea no nosso país, chegando a ser abundante em zonas nitrificadas e húmidas; e também no Porto se pode encontrar, mas nunca em jardins. Basta, porém, uma incursão às vielas e escadarias de Miragaia, da Sé ou da Vitória para a vermos despontar ocasionalmente entre tufos de erva-das-paredes (Parietaria judaica), fetos e cimbalárias.

As plantas do género Mercurialis são, por regra, dióicas: há indivíduos de cada um dos sexos, masculino ou feminino, com funções claramente atribuídas na missão de perpetuar a espécie. A Mercurialis ambigua, contudo, veio pôr em causa a ordem estabelecida ao optar por um modelo sexual caótico e fracturante. Ao masculino e feminino acrescentou um terceiro sexo, o das plantas hermafroditas, que combinam flores dos dois tipos. De resto, nem a M. ambigua nem qualquer uma das suas congéres exibem floração vistosa: as flores, além de minúsculas, não têm pétalas, reduzindo-se ao cálice esverdeado e a dezena e meia de estames (as masculinas) ou a dois estiletes (as femininas). As flores masculinas dispõem-se em glomérulos de 8 a 10 unidades ao longo de espigas, tal como se observa nas fotos; as femininas são menos numerosas, e juntam-se em grupos de duas ou três nas axilas das folhas. O fotógrafo, por inadvertência, não registou flores femininas nem indivíduos hermafroditas. Remediar o lapso dá-lhe bom pretexto para revisitar os becos esquecidos da cidade.

24.12.11

De braços abertos


Orchis langei K. Richt.

....Se Deus existe, tem afinal uma educação
....tão francesa e tão de guardanapo de linho
....que nenhuma acção Dele
....se torna aqui em baixo visível
....– tal a delicadeza.
....Mas se alguém tem poder,
....para quê ser delicado?


....Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

23.12.11

Frio Olimpo



Dizia-me hoje alguém que lhe parecia que eu exagerava as virtudes do transmontano. Respondi-lhe que talvez. E acrescentei:
— À semelhança dos Gregos, pinto deuses, a ver se ao menos consigo ter homens...


Miguel Torga, Diário (D. Quixote, 2010)

22.12.11

Margaridetas

Valerianella discoidea (L.) Loisel.


Valerianella locusta (L.) Laterr

São como as valerianas, mas com talos ramificados e fascículos de flores muito mais pequenas (1-2 mm de diâmetro), como sublinha o diminutivo latino ella. Apesar de as flores, com a forma tubular da corola, parecerem ser adaptadas a borboletas, plantas anuais de dimensões tão reduzidas têm fraca chance de serem polinizadas. Por isso é escasso o investimento nas flores, que não têm perfume nem néctar e se auto-fecundam, e reduzida a produção de pólen. Uma planta condenada. Ou não?

Na verdade, estas herbáceas concentraram-se no essencial: uma produção suficiente de frutos, sem desperdícios nem excedentes, e um processo eficiente de a escoar. O polimorfismo dos frutos é o maior encanto das valerianelas. Os frutos são nozes com três cavidades desiguais, uma delas com uma semente e as outras duas ocas ou recheadas de um material esponjoso como cortiça, talvez para protecção ou alimento da semente. Mas eles podem ser mais ou menos hirsutos, com ganchos mais ou menos aduncos, com um maior ou menor desenvolvimento das cavidades estéreis, com ou sem membranas aladas, etc, etc, características importantes que resultam da adaptação ao habitat - que pode ser uma escarpa rochosa, um terreno cultivado ou um muro velho - e, sobretudo, aos dispersores das sementes. As variações em cada espécie podem ocorrer numa mesma população e até numa mesma planta. O que naturalmente complica a tarefa de arrumação taxonómica se baseada na morfologia do fruto. Os apêndices dentados que se notam nas fotos são parte dos cálices que rodeiam as corolas (azuladas ou rosadas, com cinco lóbulos) e persistem nos frutos.

O género tem cerca de 50 espécies nas regiões temperadas da Europa e da Ásia, mais de trinta nativas da Turquia. Na Península Ibérica há registo de doze, cerca de metade das quais ocorrem em Portugal. A V. locusta é comestível e até popular em saladas suíças: é a nossa alface-de-cordeirinho (ou, como nos informou Carlos Aguiar, canónigos) e a nüsslisalad deles, com um sabor acentuado a avelã.

21.12.11

Suspiros e arrulhos




Scabiosa columbaria L.

Nomes vulgares: nenhum em português; pigeon scabious, pincushion flower ou small scabious
Ecologia: clareiras de bosques e de matos, sítios pedregosos em substrato calcário ou granítico
Distribuição global: grande parte da África e da Europa, estendendo-se até à Ásia central e ao sudoeste asiático
Distribuição em Portugal: centro e norte do país, algo descontínua (Estremadura, Ribatejo, Beira Litoral, Beira Baixa, Minho e Trás-os-Montes)
Época de floração: Julho-Setembro
Data e local das fotos: Agosto de 2011, serra do Gerês, a norte de Pitões das Júnias
Informações adicionais: herbácea perene com hastes florais até 80 cm; provável antepassada da açoriana Scabiosa nitens, da qual se distingue pela menor envergadura, por ter as flores arroxeadas em vez de rosadas, e pelas folhas caulinares penatissectas

20.12.11

Diabelhas do mar e da serra



Plantago coronopus L.

Eis uma planta a quem a revolução filogenética liderada pelo Angiosperm Philogeny Group expandiu desmesuradamente o clã familiar. Antes, a família das plantagináceas era formada por três únicos géneros, Bougueria, Littorella e Plantago, os dois primeiros com uma a três espécies cada, o terceiro com um expressivo contigente de mais de duzentas espécies distribuídas por todos os continentes habitados. A verdade é que as tanchagens (nome português para os plantagos) não são modelos de formosura nem se fazem cobiçadas pela raridade. Não esperavam por certo ser postas à cabeça de uma família onde se incluíssem plantas tão apreciadas como as verónicas, as bocas-de-lobo, as linárias e as dedaleiras. A sua predilecção pelo anonimato é tão vincada que até hoje não tinham querido mostrar-se no Dias com Árvores, falha que hoje remediamos em dose dupla.

(Diga-se que o alargamento da família Plantaginaceae tem os seus detractores: a Flora Ibérica, por exemplo, não a reconhece. E, mesmo entre os que aceitam a nova circunscrição da família, há quem defenda que ela deve ter como líder uma planta mais vistosa, preferindo assim designá-la por Veronicaceae ou Antirrhinaceae.)

As tanchagens são ervas anuais ou perenes formadas por uma roseta de folhas basais e por características hastes florais rematadas por espigas. As flores, minúsculas e discretas, embora dotadas de todas as componentes prescritas pelos manuais de morfologia vegetal, abrem de baixo para cima e secam rapidamente; cada espiga não costuma ter mais que uma pequena franja florida. Depois há que dosear os ingredientes - folhas mais ou menos largas, número de hastes, comprimento das espigas - para os combinar em diferentes espécies. As que hoje aqui trazemos são pequenas e têm folhas estreitas; a primeira é conhecida nos Açores por diabelha; a segunda, não sendo muito diferente, merece o mesmo nome.

O Plantago coronopus, que forma bonitas rosetas perfeitamente circulares, é uma planta euro-asiática que gosta de dunas e de maresia mas é suficientemente versátil para quase fazer o pleno das províncias portuguesas; só a Beira Alta lhe escapa. Nos Açores, onde a fotografámos, é uma planta nativa que surge esporadicamente nas falésias negras de lava à beira-mar.



Plantago holosteum Scop.

A diabelha-da-serra (nome inventado agora mesmo para o Plantago holosteum) é uma planta muito mais desgrenhada, restrita às zonas montanhosas da Península Ibérica e da bacia mediterrânica, e em Portugal ao extremo norte (Beira Alta, Douro Litoral, Minho e Trás-os-Montes). Aprecia os ares frescos da serra e os solos ruins e pedregosos - e, menos bisonha do que as suas congéneres, consegue dar nas vistas pelo amarelo vivo das suas flores.