1.9.15

Salada de cenouras


Daucus durieua Lange

Eis uma cenoura que não serve de refeição a ninguém e pouco nos entusiasma pela formosura, a menos que a observemos com a ajuda de lupa ou de algum outro instrumento óptico. Raramente ultrapassando os 30 cm de altura, e em geral ficando-se por bem menos, o Daucus durieua é, pelo pequeno tamanho que atinge e pela discrição das suas flores, agrupadas em frouxas umbelas, o mais humilde representante do seu género na flora portuguesa. Mas a beleza, já se sabe, é uma invenção estritamente humana que está no olhar de quem vê - um olhar que não é apenas visual, mas que é alimentado pela memória, pela cultura e pelo preconceito. É assim que o Daucus durieua, que à primeira vista impressiona tão pouco, ganha a nossos olhos a súbita formosura de o sabermos raro, em Portugal praticamente confinado ao quadrante nordeste do território continental. Por o termos apenas encontrado nas minas de Santo Adrião, em Vimioso, funciona também como postal de recordação, exortando-nos ao regresso a um local feliz. Ao deslindarmos-lhe o nome e a história, outras geografias se abrem à imaginação. Foi Pierre Boissier (1810-1885), um dos grandes estudiosos da flora ibérica, quem publicou, no seu Diagnoses Plantarum Novarum Hispanicarum (1842), uma das primeiras descrições desta planta, a que chamou Durieua hispanica. Quando em 1874 o dinamarquês Johan Lange (1861–1880) a mudou para o género Daucus, onde parece ter estacionado de vez, o nome durieua foi mantido, mas como epíteto específico. É um nome que nos transporta às Astúrias e à cordilheira cantábrica numa época em que esses lugares eram quase tão remotos como as profundezas de África. O francês Michel Charles Durieu de Maisonneuve (1796–1878), ou simplesmente Durieu, foi um militar de carreira e naturalista de vocação que durante longos anos explorou, quase sempre sozinho, as acidentadas montanhas e desfiladeiros do extremo norte da península em busca de novidades botânicas. Uma das que encontrou foi esta, justificando a homenagem de Boissier. Quem arranhar o latim pode tirar algum proveito da dedicatória original (extraída daqui): Dicatum cl. Durieu qui Asturias, variasque alias partes Hispaniae perlustravit, ibique pulchras stirpes detexit et nunc plagas Africae borealis jam a tribus annis peragrat, floram que Atlanlicam locupletat.



Daucus muricatus (L.) L.

O Daucus muricatus, que encontrámos nas faldas da serra de Alvaiázere e é o segundo ingrediente da salada que hoje servimos aos leitores, tem um porte mais robusto (pode atingir 1 m de altura) e flores mais abundantes e vistosas, com as pétalas externas bem maiores do que as restantes. Essa forma das flores, conjugada com os frutos eriçados de pêlos brancos (como é habitual no género Daucus), repete-se em algumas outras umbelíferas, em particular nas do género Torilis, e por isso não permite por si só uma identificação inequívoca. Para dissipar dúvidas, podem observar-se as folhas, que no Daucus muricatus são bastante distintivas pelo seu aspecto alongado e farfalhudo.

Distribuída pelo centro e sul do país, em especial sobre substratos calcários ou margosos, a cenoura-áspera (qualidade a que se refere o epíteto muricatus com que Lineu a baptizou) é nativa de boa parte da bacia mediterrânica, desde Portugal até à Itália e desde Marrocos até à Líbia.

29.8.15

Damas das searas



Nigella gallica Jord.

A disseminação das plantas dióicas (aquelas com flores unissexuadas, estando as masculinas e as femininas em pés diferentes) é um processo minado de riscos. Talvez por isso quase todas as plantas continentais que colonizam ilhas são monóicas, uma vez que o reencontro no novo habitat de um exemplar masculino com um feminino é uma questão de sorte. Mas as flores hermafroditas também têm uma empreitada difícil. Apesar de as estruturas masculinas e femininas estarem presentes na mesma flor, parece ser-lhes vantajoso activar cada uma no momento apropriado, poupando recursos e optimizando o procedimento que conduz à fertilização. Simplificando, digamos que a flor é sobretudo masculina no início da sua função e depois, até se formar o fruto, é a componente feminina que domina. Por isso, a polinização tem de ser regulada por um mecanismo que permita sincronizar estas fases. Enquanto apronta os sacos de pólen para que este possa ser levado eficientemente pelo polinizador, é preciso que os nectários se vão enchendo, a flor se vá aformoseando e, se possível, perfumando para que os insectos reparem nela. Depois os estames alongam-se, afastando-se da coluna central da flor onde protegeram o estigma, reduzindo desse modo a possibilidade de auto-polinização. Uma vez fertilizada, as sépalas e pétalas perdem a coloração e a flor liberta-se desses adereços, para que o que sobra passe despercebido aos predadores e o fruto se forme em segurança.

É este, em resumo, o ciclo de vida da flor de Nigella. Atentemos aos detalhes da espécie das fotos: as sépalas são grandes, de cor azulada; as pétalas menores, brancas, bilabiadas, com o lábio inferior bífido de ápices claviculados (como pontas de fósforo); os numerosos estames, que se separam na fase masculina da flor; e o estigma ao centro, inicialmente cingido pelos estames. As flores são solitárias e as mais altas são as primeiras a desabotoar, o que leva a crer que os polinizadores tendem a descer perto da haste mas a planta impede-os de encontrar mais flores viáveis, incentivando-os a mudar de pouso e assim garantindo que a polinização é cruzada. O fruto é uma cápsula grande com muitas sementes escuras (detalhe a que alude o nome latino Nigella).

Em Portugal ocorrem três espécies deste género. Todas parecem apreciar solos bem drenados e locais expostos à luz, como sejam searas e outros campos de cultivo. A N. damascena é a mais frequente, com folhas finas e muito divididas (para não perder muita água por evaporação, já que estas são herbáceas anuais de regiões quentes) a envolver a flor, dando-lhe um ar de castelo de conto de fadas ameaçado por silvas perigosas (chamam-lhe damas-entre-verde ou barbas-de-velho). Encontram-se em locais pedregosos de prados, olivais e pomares de sequeiro. A N. papillosa é um endemismo ibérico e, por cá, muito raro: no portal Flora On está registada apenas no Alentejo e nos concelhos transmontonos de Mogadouro e da Alfândega da Fé. A flor tem sépalas azul-violeta, anteras púrpura e um cabelinho denso de folhas. Em Julho, encontrámos junto ao rio Maçãs uns poucos exemplares da terceira espécie de Nigella, que se distingue das anteriores pela folhagem e pelos adornos das flores. A N. gallica é natural do sul de França e da Península Ibérica; as Floras indicam que, por cá, a sua distribuição se restringe à metade norte.

25.8.15

Juncos & sapos


Juncus bufonius L.

Chamar "bom tempo" ao sol impiedoso que nos estraga a pele e ao calor tórrido que alimenta os incêndios de Verão é uma manifestação de masoquismo e de inconsciência. O genuíno bom tempo é esta inesperada chuva de Agosto que promete reverdecer os campos. Sendo cada vez mais as férias um tempo passado à beira da água - seja a água salgada do mar, a água doce dos rios ou a água clorada das piscinas -, é paradoxal a aversão quase generalizada, no mesmo período, à água que cai do céu.

Em doses variáveis, todas as plantas precisam de água. Há aquelas que vivem em ambientes quase desérticos, armazenando com a avareza dos sobreviventes toda a água que conseguem milagrosamente captar. Habituaram-se de tal forma à aridez que uma fartura inesperada de água lhes é quase sempre mortal. No outro extremo, há as plantas que flutuam nas águas de lagos ou de rios e que desaparecem ou entram em repouso vegetativo nos períodos de seca. O junco que apresentamos hoje, sendo claramente hidrófilo, não exige grandes profundezas de água para se instalar: bastam-lhe a borda de um charco ou uma poça num caminho. Tratando-se de uma planta anual, aproveita a estação favorável para tratar da vida, e quando chega a estiagem já produziu sementes para garantir a geração seguinte.

O Juncus bufonius, cujo nome alude aos sapos ou aos lugares paludosos por eles frequentados, é uma planta de poucos centímetros de altura que forma tufos densos e se distingue das suas congéneres pelas flores quase sempre solitárias (foto 3), dotadas de sépalas e pétalas muito pontiagudas (foto 2). Convém aqui ressalvar que, embora tal uso seja correcto, os especialistas não gostam de empregar os termos "sépala" e "pétala" para descrever as peças florais de um junco, preferindo falar dos "segmentos do perianto": há assim três segmentos externos (as sépalas que envolvem a flor antes de ela abrir) e três internos (as pétalas). Quando a flor está aberta, os dois tipos de segmento não são muito diferentes, ao contrário do que sucede com as flores mais "clássicas", onde é clara a distinção entre cálice (formado pelas sépalas) e corola (formada pelas pétalas). Os juncos não são as únicas plantas em que é pequena a diferença entre pétalas e sépalas: as tulipas (e, de um modo geral, todas as liliáceas) sofrem da mesma indiferenciação. As flores dos juncos e das tulipas têm de facto estrutura quase idêntica: seis segmentos do perianto (três externos e três internos, mas de resto pouco diferenciados tanto na forma como na cor), seis estames, ovário súpero equipado com três estigmas. Os juncos, que são polinizados pelo vento, ficaram-se por essa arquitectura básica, despojada de enfeites e atractivos e reduzida ao tamanho mínimo; as tulipas, obrigadas a atrair insectos, engrandeceram as flores, pintaram-nas de cores vistosas e rechearam-nas de néctar.

Talvez não houvesse necessidade de escolher as Flores (Açores) para fotografar esta espécie tão comum em todo o território nacional. Mas foi isso mesmo que fizemos, aproveitando o facto de o Juncus bufonius, em Junho, graças ao clima hiper-húmido da ilha, se apresentar exuberante, com as flores todas abertas criando a ilusão de que ele até se esforça por ser bonito.


Flores: ribeira da Badanela

4.8.15

O charco na pedra



Isolepis setacea (L.) R.Br.

As ciperáceas, como as gramíneas, são feitas para não serem notadas. Mesmo quando cobrem vastas superfícies, a nossa ignorância e desatenção fazem delas uma esbatida imagem de fundo que designamos por nomes imprecisos como "ervas", "juncos" ou "canas". Além de serem pouco chamativas, algumas destas plantas anónimas, em especial os "juncos" (verdadeiros ou falsos), ocupam habitats aquáticos ou paludosos nos quais só com dificuldade conseguimos mover-nos. A planta de hoje até vegeta em lugares acessíveis, mas, pelo seu tamanho diminuto, faz da discrição um ponto de honra. As espiguetas florais, solitárias ou aglomeradas em grupos de duas ou três, têm uns 5 mm de comprimento, e surgem em hastes finas, não ramificadas, de 5 a 20 cm de altura; as folhas, que parecem ausentes, estão reduzidas a bainhas na base dos caules. De entre as três espécies do género que ocorrem nos Açores (todas de ampla distribuição europeia ou até mundial), a Isolepis setacea singulariza-se por as espiguetas parecerem emergir da parte lateral da haste em vez de saírem da extremidade. Contudo, aquilo que parece ser o prolongamento da haste é na verdade uma bráctea, que nesta espécie é muito comprida (pode chegar aos 3 cm) e, quando a planta já está bem desenvolvida (não é esse o caso dos exemplares fotografados), ultrapassa claramente as espiguetas.

As Flores, que são uma esponja em forma de ilha, proporcionam inúmeros recantos favoráveis à instalação da Isolepis setacea. Além do mais, o tamanho exíguo da planta permite-lhe vegetar onde quer que a água se acumule, nem que seja uma poça numa cavidade da rocha. Foi numa pia escavada na pedra, visível na 1.ª foto mas impossível de adivinhar para quem contempla da estrada o maciço erecto da rocha dos Frades, que tivemos ocasião de a observar. Por perto, e aproveitando o abrigo das escarpas para fugir à voracidade de vacas e cabras, havia algumas das especialidades da flora endémica açoriana: Cardamine caldeirarum, Centaurium scilloides, Leontodon hochstetteri, Platanthera micrantha, Ranunculus cortusifolius, Scabiosa nitens. Por muito gratificante que seja encontrar reunidas tantas preciosidades, a sua presença era perfeitamente normal. O que surpreende é o modo como as plantas certas conseguem colonizar micro-habitats isolados como este de dois ou três metros quadrados, em que a acumulação fortuita de água cria uma descontinuidade absoluta com o habitat envolvente. Quem lhes deu (às plantas) notícia de que o lugar lhes convinha, e como chegaram elas até lá?


rocha dos Frades, ilha das Flores

FÉRIAS

Regessamos na última semana de Agosto. Até lá, sugerimos a quem habitualmente nos visita que vá espreitar o recente Wild Iberia.

1.8.15

Ervilhaca-miúda


confluência dos rios Sabor e Maçãs

Desde o fim da Primavera, é junto aos rios e ribeiras nas terras quentes de Trás-os-Montes que a vegetação se aguenta. E, apesar da impressão de secura e aridez que nos aflige quando circulamos pelas estradas, a região tem muitos cursos de água. De caudal magro no Verão, contrastam com o avantajado das pontes, mas ainda assim são refrescantes e têm nas suas margens, ou nos taludes a cotas mais altas, plantas que só ali se dão bem.

O problema é que estes riachos correm por vales cavados, a que só acedemos por descidas acentuadas de alguns quilómetros, sacolejando em caminhos poeirentos onde as covas alternam com pedregulhos. Sem um jipe alto e robusto, ou uma viatura de rali, temos optado por conduzir com um co-piloto-apeado: enquanto um de nós dirige devagarinho o carro pelo piso traiçoeiro, o outro vai à frente para jogar fora do caminho as pedras maiores ou mais aguçadas. Se nos cruzamos com um pastor que empurra ladeira acima uma onda esbranquiçada e peluda (eram ovelhas), fingimos um interesse absorvente pela paisagem até que o grupo desapareça de vista, e só então retomamos a descida cautelosa mas que a outros pode parecer cómica. Na volta, ao fim da tarde, ainda não surgiram pedras novas no caminho, e subimos ambos jovialmente de carro, recompensados pelas novidades botânicas que trazemos lá do fundo.

As novas barragens, porém, têm vindo a resolver eficientemente este nosso problema de percurso. Com a subida das águas, simplesmente afogam os habitats, e já não há nada para procurar nem estradas de terra que valha a pena percorrer. Por exemplo, a nossa lista de lugares formidáveis mas de acesso complicado junto ao rio Sabor era longa e andava sempre com atrasos. Pois bem, o rio engordou recentemente, afogando as margens até mais de quarenta quilómetros a montante da sua foz, e, pronto, o rol de tarefas está quase cumprido. O impacto é, naturalmente, menor a norte da albufeira, em particular no ponto onde ao Sabor se junta o rio Maçãs, em Sampaio, Mogadouro. Foi aí que vimos uma leguminosa pequenina, cuja altura não ultrapassava os 12 cm, e que, soubemos depois, já se designou Vicia minima.


Vicia lathyroides L.

Confirmemos nas fotos alguns detalhes morfológicos. As flores são solitárias, uma ou duas por planta, de estandarte azul-violeta, quilha mais clara e cerca de meio centímetro de largura; surgem entre Abril e Junho (os ingleses chamam-lhe, por isso, Spring vetch). As folhas são alternadas e compostas, de folíolos penugentos com margem inteira, nervura central bem vincada e um ápice que parece o início de uma gavinha que afinal desiste de nascer. A junção da folha ao talo é apoiada por estípulas lanceoladas minúsculas.

Lemos que, embora a flor certamente atraia insectos, a auto-polinização é o esquema reprodutivo que prevalece. A planta, que é anual, produz assim cerca de uma dúzia de sementes comparativamente grandes e com um prazo de validade longo, que guarda dentro de uma vagem glabra e verrugosa. Contudo, não parece possuir um esquema de dispersão eficiente, e é talvez por isso que, em algumas regiões europeias, está no livro vermelho de espécies em perigo. Por cá, parece ter uma distribuição restrita, só havendo registos dela em Trás-os-Montes.

É nativa da Europa, parte da Ásia e Noroeste de África, e dá-se bem em prados (desde que tenham relvado ralo), orlas de matos, solos arenosos húmidos junto à costa, e até em bermas de estrada e muros antigos. O que a ameaça? O seu ciclo, que é curto, o que comporta muitos riscos como já sabemos; as inúmeras alterações do habitat, principalmente no litoral; e, também, a redução das actividades de pastoreio que permitem manter pastos com vegetação rasteira, condição essencial para a Vicia lathyroides sobreviver. Afinal aquelas ovelhas, que balindo pareciam rir do nosso modo receoso de descer a encosta, estavam a trabalhar em benefício dos nossos passeios.

28.7.15

Creme de cenoura





Daucus carota L. subsp. azoricus Franco

Com a globalização galopante, vão-se perdendo as marcas da identidade nacional. Qualquer dia os restaurantes portugueses só se distinguirão dos espanhóis por terem o menu traduzido em mau inglês e por os garçons se exprimirem, perante os estrangeiros, numa língua de circo a que caridosamente chamaríamos portunhol. Move-os (aos garçons) a ideia de que, seja qual for a nacionalidade dos clientes, eles os entenderão melhor se disserem pêzzcáda ou criémê de zênôra (palavras que não existem em língua nenhuma) em vez de pronunciarem correctamente pescada e creme de cenoura. O dito creme de cenoura, porém, configura um abastardamento dos costumes em comparação com o qual a questão linguística não passa de um fait divers. A tragédia é que os portugueses estão a deixar de comer sopa. Quando se senta à mesa em clima de festa uma família numerosa, a sopa é um castigo reservado às crianças. Talvez se julgue que ela faz bem até certa idade (13 ou 14 anos) mas para um adulto é sinal de fraqueza ingerir um caldo de legumes. E a sopa-enquanto-alimento-infantil deve previamente ser convertida em creme, não vá a dentição frágil quebrar-se ao mastigar um talo de couve mal cozida. Constatando que a sopa não tem saída ou, quando tem, só é servida depois de "passada", os restaurantes que ainda a incluem na ementa ficam-se pela versão "creme de legumes". E se é para desfazer os legumes, misturando-os indistintamente, escusado será usar uma grande variedade deles. Com isto chegamos ao malfadado creme de cenoura, que é a sopa à beira da extinção.

Cumprido o desabafo, aqui vai a primeira informação paracientífica do dia: o que há de mais estranho no creme de cenoura é a cor. É natural que o creme assuma a cor do ingrediente (neste caso a cenoura) que foi triturado para o produzir, mas o que já não é natural é que a cenoura tenha a cor que tem. Aquilo que consumimos sob o nome de cenoura é a raiz intumescida de uma umbelífera, Daucus carota subsp. sativus. Acontece que os antepassados silvestres dessa planta têm raízes brancas ou amareladas, e a versão cor-de-laranja a que estamos habituados só surgiu no século XVII, provavelmente na Holanda. Nos países com um mercado gourmet mais diversificado, encontram-se ainda à venda essas cenouras pálidas que, parecendo curiosidades, são afinal menos artificiais do que as cenouras comuns. Creme de cenoura branco? Seria uma novidade, mesmo que não fosse menos insípido.

A versão silvestre da cenoura tem em geral raízes minguadas e pouco comestíveis (são-no apenas quando muito tenras) - caso contrário, sendo ela tão abundante por toda a Europa e também na Ásia, nunca teria havido necessidade de a domesticar. Para os botânicos, a variabilidade da espécie Daucus carota é motivo de estudo, discussão e controvérsia. A Flora Ibérica considera existirem na Península oito subespécies de cenoura silvestre, mas o critério usado nessa divisão não é universalmente aceite e, ao desvalorizar como subespécie um endemismo lusitano distintivo como o Daucus halophilus, não parece isento de pendor nacionalista. Não menos discutível será a subordinação da subespécie maritimus, formada por plantas quase glabras, débeis, de umbelas pequenas, à subespécie carota, que integra plantas mais hirsutas e espigadas, de umbelas maiores. A única vantagem da simplificação proposta pela Flora Ibérica é que a cenoura que vemos em quase em todo o continente pertence à subespécie carota, tendo as outras três subespécies por cá assinaladas uma presença muito pontual. Mas se dermos dois passos do lado de lá da fronteira já tudo se complica.

E nos Açores? Graças à circunstância de a Flora Ibérica não se ter ocupado das ilhas, ainda hoje ocorrem oficialmente duas subespécies de Daucus carota no arquipélago. A mais comum das duas, ilustrada nas fotos, é tida como endemismo açoriano, ocupando em todas as ilhas habitats muito diversos desde falésias costeiras até terrenos baldios, pastagens e bermas de estrada. A segunda, presente apenas em quatro ilhas (São Miguel, Graciosa, São Jorge e Faial), é a subespécie maritimus. Há uma clara diferença de tamanho entre as duas subespécies, com a subespécie azoricus a vencer por larga margem, e há diferenças também na pilosidade e no formato das folhas: na subespécie azoricus os segmentos de última ordem das folhas são curtos e arredondados (4.ª foto), enquanto que na subespécie maritimus são longos e estreitos, quase lineares. Talvez estas diferenças não passassem no crivo de quem gosta de amalgamar coisas díspares, mas enquanto isso não sucede este Daucus carota subsp. azoricus vai segurando o seu incerto galardão de endemismo açoriano.

26.7.15

Flor-aranha

Ao contrário de nós, que podemos viver por várias dezenas de anos e ultrapassar inúmeras estações, morrendo por doença, velhice ou acidente sem saber previamente quando, algumas plantas têm o poder de decidir por quanto tempo querem existir. As espécies anuais têm um único ciclo de vida, igual para todas as plantas dessa espécie, que pode durar umas poucas semanas ou alguns meses, e que se resume a desenvolver raízes, talos, folhas, flores e sementes; uma vez terminadas estas tarefas, a planta morre. O que implica que, durante meses, estas espécies não existem no planeta, restando delas apenas sementes, se as conseguirem produzir. Correndo tudo bem, as sementes dormem até uma altura oportuna do ano, momento em que se inicia a geração de novas plantas.

Esta estratégia de existência (que alguns descreveriam erradamente como live fast and die young), apagando-se e recomeçando quase do zero, é muito arriscada. Então por que optam algumas plantas por um tal esquema? Bem, pode não ser uma escolha mas resultado de condicionalismos que lhes são alheios, como a temperatura ou a quantidade de água e luz disponíveis no habitat. Não há, por agora, certezas sobre que processo leva à existência de plantas anuais. O que se sabe é que estas herbáceas têm de investir na reprodução, criando flores sofisticadas para atrair muitos polinizadores e gerando uma quantidade generosa de sementes fáceis de disseminar e com longo prazo de validade. É nestes pormenores que a planta gasta toda a sua energia, ao contrário das plantas perenes. Estas podem levar anos até dar a primeira flor, durante os quais se empenham em ganhar raízes fundas, gavinhas eficientes ou uma forma lenhosa; depois, resistentes, conseguem florir no ano antes de outras espécies e não ser tão exigentes com o tipo de solo, porque afinal têm bastantes nutrientes armazenados. Sem dúvida, desse modo garantem alguma superioridade na competição natural no seu habitat. Mas o regime anual não comporta só desvantagens. As plantas anuais são em geral mais versáteis, crescem mais depressa e têm flores ou folhas muito formosas. São, por isso, frequentemente usadas em jardins. Ou seja, têm nos apreciadores de jardins um aliado poderoso com que não contavam. Além disso, a reprodução por semente favorece a diversidade genética, o que, com uma produção abundante, protege as plantas anuais da extinção por mudanças bruscas e nocivas no ambiente. Finalmente, há a estação de clima mais agreste (seja o Inverno nas terras frias ou o Verão inclemente nas outras) com que as plantas anuais não têm de se preocupar. Pelo contrário, as perenes precisam muitas vezes de se auto-podar, como um barco que larga lastro para não se afundar, para se livrarem de folhas ou ramos que já não são eficientes na recolha de nutrientes ou estão a gastar numa estação recursos que serão essenciais no futuro a outras componentes da planta.




Cleome violacea L.

Por certo o leitor já adivinhou: as folhas trifoliadas, as flores púrpura e as vagens longas carregadas de sementes que hoje aqui mostramos são de uma herbácea anual. A distribuição global desta espécie restringe-se ao Norte de África e à Península Ibérica. Por cá, há registos da presença dela de norte a sul do continente. Em espanhol, chamam-lhe mostarda louca; os portugueses designam por flor-aranha as plantas do género Cleome. As folhas, com glândulas e pelinhos vários, foram o que primeiro conhecemos dela quando a vimos numa escarpa pedregosa de rocha ácida junto à ribeira da Foupana, em Alcoutim, no Algarve. Depois reencontrámo-las, também ainda jovens, num afloramento ultrabásico na margem esquerda do rio Sabor, em Mogadouro. Julgámos então que já não seria este ano que conheceríamos o resto da planta. Mas numa visita às margens do rio Mente, na fronteira de Chaves com Vinhais, vimos uma população com centenas de exemplares em flor, alguns com meio metro de altura.

Desconfiamos que o leitor já não nos está a prestar atenção, tendo ficado embevecido pelos detalhes violáceos, amarelos ou brancos que as fotos mostram. Esteja à vontade, demore-se quanto quiser, faça de conta que tem o seu tempo sob controle, como esta Cleome.

21.7.15

Falésia dourada




Festuca petraea Seub.

Nos Açores, é em Junho que nas falésias brilha o amarelo do bracel contra o fundo negro das rochas, o azul do mar e a espuma branca das ondas. Nos outros meses estão lá os mesmos ingredientes, mas o dourado converteu-se em verde ou degenerou num castanho de palha ressequida. Não são só o negrume e a porosidade das rochas vulcânicas que diferenciam as escarpas insulares das do continente: esta gramínea sacudida pelos ventos salgados, tão comum nos Açores, é destas ilhas e de mais sítio nenhum no mundo. Mesmo que os visitantes que se passeiam à beira-mar não se apercebam disso, têm ali o que tantas vezes não têm nos lugares que são cartaz turístico do arquipélago: uma amostra genuína do antigo coberto vegetal das ilhas, anterior à ocupação humana. Com jeito, podem enquadrar nas suas fotos imagens que os primeiros povoadores facilmente reconheceriam.

As gramíneas, pese embora a sua importância crucial na nossa alimentação, não são plantas que entusiasmem muito o comum botânico amador. É verdade que têm flores, mas elas, não tendo a função de atrair polinizadores, são em geral pouco vistosas. Para aprender a distinguir gramíneas, há que estudar chaves de identificação repletas de termos especializados e estar atento a pormenores subtis como o número de estrias em cada folha, o seu ponto de inserção no caule, as glumas que protegem os florículos, a forma e o comprimento das anteras. O género Festuca é dos mais complexos da família, com mais de 400 espécies distribuídas por todos os continentes à excepção da Antárctida. As festucas são plantas perenes que formam tufos de folhas finas, muitas vezes azuladas; várias delas (com destaque para a europeia Festuca glauca) são usadas em jardinagem para fornecer contraste com plantas mais coloridas ou como alternativa aos tristonhos relvados. Esta Festuca petraea açoriana, ou bracel-da-rocha, parece fácil de reconhecer pelo habitat e pelo aspecto geral, mas há que ter cautela. O habitat costeiro é um dado importante, pois há nos Açores outra Festuca endémica (F. francoi, conhecida como bracel-do-mato), que prefere rochas e taludes enevoados no interior das ilhas. Nas Flores, onde o excesso de pluviosidade faz com que os dois habitats tenham uma extensa sobreposição, acaba por ser incerto, em muitos lugares situados a altitudes intermédias (entre os 100 e os 300 m), qual das duas espécies estamos a observar, a menos que tenhamos a lição bem estudada.

A Festuca petraea foi uma das espécies descritas por Moritz August Seubert na sua pioneira Flora Azorica (1844). Por contraste, a Festuca francoi teve que esperar até 2008 para ser reconhecida como endemismo açoriano: foi nesse ano que, em artigo publicado no Botanical Journal of the Linnean Society, os botânicos J. A. Fernández Prieto, Carlos Aguiar, Eduardo Dias e M. Isabel Gutiérrez Villarías mostraram que a espécie açoriana era diferente, em especial na morfologia foliar (caráctar decisivo para destrinçar as espécies do género), da madeirense F. jubata, com a qual até então tinha sido confundida. Porque a flora madeirense sempre foi a mais bem conhecida das duas, outros casos houve (Angelica lignescens, Lotus azoricus, etc.) em que as espécies açorianas foram erradamente assimiladas a espécies madeirenses. Ainda hoje há equívocos semelhantes por desfazer: é duvidoso que os Ranunculus cortusifolius açorianos e madeirenses pertençam à mesma espécie (os dos Açores são bem mais robustos), e acumulam-se indícios de que o nome Tolpis succulenta designa indevidamente duas espécies distintas, uma endémica dos Açores e outra da Madeira.

18.7.15

Saúde com árvores



Sorbus latifolia (Lam.) Pers. - Parque da Saúde, Guarda

Entre as muitas criações humanas, há uma que distingue povos e eras pelo modo inventivo como é interpretada e pela evolução que a tem vindo a moldar: trata-se da estrutura arquitectónica, urbanística e paisagística a que chamamos «cidade», guardiã de uma vivência colectiva inestimável. Opõe-se ao «campo», também artificial, essencialmente por ter quase todo o solo impermeabilizado em vez de terrenos de cultivo, bosques ou matos. Todavia, mesmo nas cidades há recantos que a vegetação espontânea consegue colonizar, sejam eles cemitérios, parques, envolventes ajardinadas de escolas ou taludes de estrada, embora a biodiversidade seja pequena. Dirão que tem de ser assim, que é o preço que o uso dos lugares e o conforto que apreciamos comportam, mas a verdade é que algumas cidades (inglesas, mas não só) mostram que a incompatibilidade entre a vida urbana e a vida silvestre pode não ser tão grande como se imagina. Entre nós, parte da culpa da desertificação dos nossos habitats é da limpeza excessiva, com roçadeiras mas também (o que é muito pior) com herbicidas, dos relvados, jardins, parques ou margens de ribeiros que os municípios não entubaram. A pedido, os agentes dessa limpeza podem (raramente) poupar a vegetação de umas poucas manchas, mas têm de as rodear de uma sebe elegante para que não haja queixas pelo aparente desleixo. É que, para muitos, vegetação espontânea é ainda sinónimo de erva daninha, e o que é valioso num jardim ou parque citadino é a planta dita ornamental, de preferência vinda do estrangeiro.

Mas há excepções, e são elas que merecem atenção. Quando entramos no Parque da Saúde da Guarda (classificado como “conjunto de interesse público” no ano passado), somos recebidos por um bosquete denso e tranquilo de sequóias (Sequoiadendron giganteum) cuja penumbra mal permite a sobrevivência de umas poucas herbáceas rasteiras, mantidas com saúde pelos zeladores do Parque. Os edifícios, de 1907, onde funcionou um sanatório para tratamento de doentes com tuberculose, têm janelas altas, varandas com vista ampla para as montanhas e gradeamentos primorosos. Em volta, persistem caminhos por bosques frondosos, assentos para o descanso de quem ali convalesce, e alegres pipilares de muita passarada. Mais acima, há uma zona rochosa onde viceja vegetação da serra. Estranha-se tanto verde: não é este o modelo mais recente de hospital, com fachadas em esquadria, gigantescos parques de estacionamento, entradas de hotel, corredores sem luz directa a cheirar a cloro, e umas magras floreiras onde a natureza domada parece feita de plástico.

É precisamente nessa elevação granítica, num pinhal ralo, que moram alguns exemplares de Sorbus latifolia. Esta é uma árvore caducifólia que aprecia bosques frescos, soutos e principalmente carvalhais, em zonas de montanha perto de linhas de água. Entre os exemplares que vimos no Parque da Guarda, um é uma árvore adulta de copa bonita e os outros têm ainda porte arbustivo. Em Junho, estavam todos profusamente enfeitados com corimbos densos de flores brancas pequeninas, com cálice e pedicelo forrados por lã branca. O fruto é um pomo alaranjado que parece uma pêra anã. As folhas são simples, arredondadas, de margens duplamente serradas, com lóbulos triangulares pouco profundos separados por indentações mais vincadas e face inferior penugenta de cor cinza. Estas características das folhas lembram outras espécies de Sorbus, e crê-se que a S. latifolia resulte de uma hibridação da S. torminalis com a S. aria (que nunca vimos).

Esta Sorbus é nativa da metade norte da Península Ibérica, centro e sul da Europa. Por cá a distribuição é preocupante, pois só parece ocorrer no centro-leste do país, e no portal Flora-On são ainda poucos os registos. Consta também do catálogo das espécies ameaçadas em alguns locais da Europa.