1.11.14

Meia ponte para um narciso



Narcissus cavanillesii Barra & G. López

Este é um dos dois narcisos espontâneos em Portugal que floresce no Outono. A indicação das várias Floras é de que a floração decorre entre Outubro e Novembro. Por isso, no ano passado, fomos a Évora no início de Novembro para ver uma das duas únicas populações conhecidas no país. Não havia nem uma flor. Concluímos que era ainda cedo, e voltámos a fazer a longa viagem duas semanas depois, com idêntico desfecho. Terá desaparecido?, ouviu-se uma voz receosa. Prometemos iniciar este ano mais cedo a romaria, e descemos ao Alentejo nos primeiros dias de Outubro, logo que as chuvas intensas abrandaram. A ladeira que dá acesso ao rio Guadiana foi-nos enchendo de entusiasmo com as centenas de exemplares do perfumado Narcissus serotinus em flor e sinais animadores de que o Ophioglossum lusitanicum tem resistido bem ao pisoteio e voracidade do gado que por ali vai abocanhando a verdura. Ascendemos à ponte da Ajuda (quer dizer, à meia ponte) com a alegria inusitada de quem finalmente acertou, e tem o correspondente tesouro à espera. Pois sim. No topo da ponte havia de facto muitos pés de Narcissus cavanillesii, mas quase todos já em fruto ou com o repouso de Inverno iniciado, o que quer dizer que estavam invisíveis, reduzidos ao bolbo subterrâneo. Com boa vontade, lá se descobriram umas florinhas, e não nos restou mais do que imaginar o cenário colorido de amarelo-torrado das flores que teriam estado abertas duas semanas antes.

Cada plantinha tem cerca de 10 cm de altura (até já se chamou N. humilis), com uma flor no topo (às vezes mais) de tépalas grandes mas quase sem corola, aquela trombeta característica da maioria dos narcisos. Mas, apesar de residual, está lá como podem confirmar na última foto acima. Os estames nascem em duas camadas, curiosamente a alturas diferentes, parcialmente soldados ao cálice. As folhas, que parecem agulhas e que se notam na quarta foto, nascem em geral depois da frutificação. O fruto é a "azeitona" verde escura que domina nas fotos e as sementes são, como é usual neste género, pretas e brilhantes. O N. cavanillesii hibrida com o N. serotinus dando origem ao chamado Narcissus x alentejanus, que tem tépalas mais lânguidas e de tom amarelo menos intenso. O espíteto específico homenageia o famoso taxonomista espanhol Antonio José Cavanilles (1745-1804).

A Península Ibérica tem fama de ser o centro de diversidade dos narcisos, com cerca de 35 das 50 espécies silvestres conhecidas no mundo, 16 das quais endémicas (uma delas exclusivamente lusitana). O N. cavanillesii é nativo do sudoeste da Península Ibérica, Marrocos e Argélia. Aprecia solos secos, até áridos, mas parece depender da chuva para completar o seu ciclo de vida. No sul de Espanha surge em clareiras de bosques, prados e bordos de caminhos. Está incluído nos Anexos II e IV das Directivas Europeias sobre Habitats (92/43/EEC), e no Anexo 2 da lei espanhola que protege o património natural e a biodiversidade. Por cá está em risco de desaparecer.

Conta-se que um dos dois governos, português ou espanhol, quis certa vez reconstruir a ponte da Ajuda, o só não o fez porque deu ouvidos aos apelos dos botânicos para que se poupassem os narcisos. Se a história não foi bem assim, aqui fica o recado para o caso de alguma vez essa ameaça surgir.


Elvas: ponte da Ajuda sobre o rio Guadiana

28.10.14

Dueto de umbelíferas

Todos sabemos como os elogios nos fazem falta. Não nos basta o mérito se os outros não reparam nele, sendo que reparar é equivalente a expressar publicamente o apreço e contribuir para que a glória não seja esquecida. Descontadas a lisonja e a ganância, o processo nem é inteiramente pernicioso: é a opinião dos outros, e a competição entre nós, que nos espevita o talento e nos estimula a inovar. As mudanças que induzimos ou criamos em inúmeros domínios são parte dessa incessante busca de qualidade. Sem elas, talvez o tédio acabasse connosco. Nisto diferimos bastante das plantas, que parecem viver num descansado tempo sem imaginação nem anseios, apenas a cumprir ordens. De resto, se mudam, é porque a natureza, esse estranho oleiro de cujas mãos queremos também fazer parte, as vai moldando aos requisitos do mundo. Claro que, sem protagonismo, não têm capacidade de controlar o guião. Mas há que reconhecer benefícios nessa opção pela irresponsabilidade. Senão vejamos o caso destas duas herbáceas.



Bupleurum lancifolium Hornem.


Bupleurum gerardi All.

O género Bupleurum é um dos que abriga maior número de espécies, cerca de 150, nativas do hemisfério norte, com uma excepção (B. mundtii, da África do Sul). Contudo, a maioria tem área de distribuição reduzida, como aliás acontece ao B. lancifolium e ao B. gerardi. São notórias as semelhanças entre estas duas espécies, em pormenores relevantes para os respectivos ciclos de vida. Ambas gostam de solo calcário, embora uma seja mais frequente em searas e terrenos incultos e a outra em sítios pedregosos. As folhas são perfoliadas e com nervuras densas e finas (daí o nome Bupleurum), o que talvez lhes permita poupar água. As inflorescências em umbelas, apostando num conjunto numeroso de flores ainda que estas tenham por isso de ser minúsculas, formam arranjos que atraem muitos polinizadores, no que constitui um exemplo engenhoso de trabalho comunitário. As flores são amarelas (a maioria das umbelíferas têm-nas brancas), cor que todos os insectos parecem apreciar, com as pétalas reviradas a expôr ao sol os potes de mel brilhante. Mas há também diferenças. E, pesando-as, provavelmente os avaliadores ousariam afirmar que a mais baixa mas de porte mais robusto (B. lancifolium), com folhagem de uma linda cor verde-alface e bractéolas grandes, é mais bonita e, numa apreciação redutora, a mais bem sucedida.

Mas por que há duas espécies em habitats tão próximos, tendo uma delas uma morfologia aparentemente tão mais vantajosa? Não há resposta que nos convença, mas é certo que as diferenças são bastantes para garantir a ambas polinizadores e nichos de solo para colonizarem com sucesso. O preço é pago em duas vias: têm uma vida curta, pois são plantas anuais; e, uma vez concedida a licença para existirem, devem assegurar farta descendência e uma dispersão eficiente. Isto não lembra o mundo populoso e bom, eternamente grato ao criador, que algumas religiões propõem como perfeito?

Há (pelo menos) dois botânicos de nome Gerard homenageados através da taxonomia. O inglês John Gerard (1545-1612) levou Lineu a criar o género Gerardia. O francês Louis Gérard (1733-1819), cuja correspondência com Lineu pode ser lida (em latim) aqui, é o referido por Carlo Allioni (1728-1804) ao nomear em 1774 o Bupleurum mais delgado. Temos a certeza deste detalhe porque, curiosamente, cabe a Allioni a prioridade nesta designação precisamente por ter citado, em vez de apenas copiar, a Flora Gallo-Provincialis de Louis Gerard ao descrever esta planta. A propósito, pelas regras de hoje, a designação correcta é Bupleurum gerardii All.

25.10.14

Um Ammi para as ocasiões




Ammi majus L.

Apesar da tristeza monocromática que aflige os jardins públicos em Portugal, obra de uns tantos arquitectos que declararam guerra ao colorido das flores, há ainda quem se guie pela ideia antiquada de que um jardim, para ser visualmente estimulante, deve combinar todas as cores do arco-íris e mais algumas. É aqui que entra o branco, soma de todas as cores, que os ingénuos desprovidos de ciência julgam estar ausente do arco-íris só porque não se vê, quando na verdade está lá mas decomposto nas suas parcelas. A incapacidade dos nossos olhos em refazer a soma leva-nos a exigir o branco que se vê, como contraponto ao garridismo insinuante das cores do círculo cromático. E para acrescentar ao jardim um branco limpo e luminoso, com um efeito que evoca laboriosos trabalhos de renda, nada melhor do que uma umbelífera como o Ammi majus, que em Portugal é planta sem eira nem beira, infestante de cultivos e ruderal de bermas de estrada, mas noutros países é muito valorizada para ornamentar canteiros floridos.

Planta anual de floração primaveril, capaz de atingir um metro de altura, o Ammi majus, alegadamente chamado âmio-maior por um povo incapaz de a reconhecer, tem fortes semelhanças com outras umbelíferas de flores brancas, em particular com a cenoura-brava (Daucus carota). Distingue-se desta pela folhagem (compare a 5.ª foto aí em cima com as desta página), por não ser áspera ao tacto (a cenoura-brava é muito rugosa), e pelas inflorescências menos compactas. Amplamente distribuído pela bacia mediterrânica, o Ammi majus ocorre em quase todas as províncias portuguesas, sendo talvez mais frequente na faixa litoral. As plantas nas fotos moravam em Cantanhede, na orla de vinhedos e de outros campos cultivados.

Por mérito da flora açoriana, o género Ammi, que contém um total de seis espécies, é um bom amigo dos botânicos portugueses. Enquanto que os outros países europeus ou mediterrânicos se contentam com duas ou no máximo três espécies de Ammi, em Portugal ocorrem nada menos que quatro, duas delas endémicas dos Açores: A. seubertianum e A. trifoliatum.

21.10.14

Sabor de hortelã


Mentha cervina L.

Há gestos que nos parecem insignificantes e que desaparecem sem darmos por isso. Ficamos mais pobres e nem notamos. Houve uma última vez em que alguém, no Alentejo, foi ao rio colher uns pés de erva-peixeira para temperar a caldeirada ou a açorda. Tão abundante era ela em rios, ribeiras e charcos, e agora só sobrava aquela mísera amostra. Para o ano nem isso haveria, porque entretanto a barragem começaria a encher. Se quisesse voltar a comer peixe com aquele fino travo de hortelã, teria de ir a Lisboa, às lojas de iguarias gourmet, para comprar a peso de ouro uma magra embalagem de folhas secas.

Mais a norte a história só não se repete porque, com as variações regionais de hábitos culinários, a erva-peixeira (ou hortelã-da-ribeira, outro nome pelo qual a Mentha cervina é conhecida) nunca teve, em Trás-os-Montes, o prestígio gastronómico de que gozou no Alentejo. Daí que na província nortenha as populações espontâneas de Mentha cervina não tenham estado sujeitas à colheita imoderada que, a par da destruição dos habitats, quase levou no Alentejo ao desaparecimento da espécie. Além disso, a degradação ambiental associada às práticas da agricultura intensiva, em especial a eutrofização dos cursos de água, é muito menos grave em Trás-os-Montes do que no sul do país. No que as duas regiões se equiparam é nos efeitos catastróficos da construção das barragens sobre a vegetação que, vivendo ao pé da água, nunca aprendeu a nadar. O enchimento da barragem de Alqueva destruiu talvez os últimos núcleos de erva-peixeira nas margens do Guadiana. E quando, até final do ano, a barragem do Sabor entrar em funcionamento, vão ser afogadas algumas das mais importantes populações da espécie em Trás-os-Montes: a que existe junto à ponte de Remondes (foto em baixo) e todas as outras que subsistiram até hoje nos últimos 60 Km do curso do rio antes de se juntar ao Douro.

Talvez pareça exagerado este lamento por uma simples erva aromática quando tantas outras coisas tidas como mais importantes, entre elas grandes maciços de Buxus sempervirens, para já não falar das árvores e dos campos agrícolas, se perderão com a subida do nível das águas. Mas é esta soma de perdas, pequenas ou grandes, que se chama "destruição da biodiversidade", e todas as parcelas contam no balanço dos prejuízos. Ainda sobram contigentes importantes de Mentha cervina noutras paragens transmontanas, e tão cedo ela não desaparecerá de Portugal, mas a circunstância de não ter qualquer prioridade em acções de conservação, assim como a vulnerabilidade dos seus habitats, indicam que o caminho de diminuição progressiva por ela iniciado não tem retrocesso possível. Em toda a sua área de distribuição, que abrange a Península Ibérica, o sul de França, Argélia e Marrocos, é a mesma má sina que a persegue, a ponto de ela ter sido incluída, como vulnerável, na lista vermelha da IUCN.

Nas inflorescências semelhantes a pompons e até no perfume intenso, a Mentha cervina lembra a sua congénere M. pulegium, popularmente conhecida como poejo, bastante comum de norte a sul do país e também nos Açores. As diferenças estão porém à vista: as folhas da M. cervina são muito mais estreitas, quase lineares, e as suas flores são em geral brancas, enquanto que as da M. pulegium são rosadas ou violáceas. As preferências ecológicas são também distintas: a M. cervina ocupa charcos temporários, margens inundáveis de rios ou leitos de cursos de água temporários; a M. pulegium, sem desdenhar tais lugares, consegue tolerar ambientes mais secos.


ponte de Remondes, rio Sabor

18.10.14

Mordendo o Verão


Valoura, Vila Pouca de Aguiar

Quando, no Verão do ano passado, vimos na serra de Aire a Odontites viscosus, reparámos, como sôfregos coleccionadores, que nos faltava ver outra espécie de Odontites. Contudo, o entusiasmo arrefeceu um pouco ao constatarmos que eram escassos os registos de populações desta planta, e todos eles em locais longínquos no extremo nordeste do país. Não é que desistíssemos de a procurar, mas a esperança de algum dia a vermos reduziu-se a uma simples espera. A meio de Setembro, porém, antes de a chuva por cá se instalar de vez, fomos passear por um souto muito bonito e acolhedor perto de Vila Pouca de Aguiar. Entre castanheiros carregados de ouriços e quase prontos a largá-los, rochedos forrados de Saxifraga fragosoi, e uma ladeira pintalgada de cor-de-rosa pelos inúmeros Colchicum multiflorum, notámos um regato de beira de caminho, na margem de campos cultivados, com a vegetação exuberante própria destes torrões húmidos; e, a espreitar entre o verde, umas espigas alongadas e penugentas de flores rosa-avermelhadas, com um capuz e uns lábios fendidos como já tínhamos visto em amarelo.



Odontites vernus (Bellardi) Dumort.

Reencontrámo-la perto de Bragança, na margens do rio Penacal, de novo apenas um pequeno número de exemplares. Sendo uma planta anual semi-parasita, talvez de paladar exigente, por certo ressente-se da destruição dos nossos rios e de outros habitats onde outrora poderá ter sido abundante, seja no Minho, no Douro Litoral ou nas Beiras.

14.10.14

Introdução à caricologia

Carex viridula Michx. subsp. cedercreutzii (Fagerstr.) B. Schmid

As ciperáceas, tal como as gramíneas, são plantas adaptadas à polinização pelo vento. Não dependendo das boas graças dos insectos e de outros bichos, não têm que os atrair nem recompensar os seus serviços, e por isso não produzem néctar nem têm flores apelativas. O género Carex é o mais populoso da família, contando com cerca de 2000 espécies, em geral perenes; dessas, cinquenta fazem parte da flora portuguesa, duas são endémicas dos Açores, e duas outras são endémicas da Madeira. A planta que ilustra este texto, e que foi fotografada na caldeira do Faial, ocorre nos Açores e na Madeira, e é tida por alguns autores como pertencendo a uma subespécie endémica da Macaronésia. O reconhecimento de tal carácter endémico não é contudo unânime, havendo quem considere que Carex viridula subsp. cedercreutzii é sinónimo de C. viridula subsp. oedocarpa, que tem uma distribuição europeia bastante ampla. Se continuarmos a desfiar o rol de sinonímias, verificamos que outra fonte assevera que esta última é o mesmo que Carex demissa, espécie que, de acordo com a Checklist da Flora de Portugal, não ocorre nos nossos arquipélagos atlânticos. Para que a confusão fique perfeita, a mesma checklist informa que nos Açores existe uma coisa chamada Carex oederi subsp. pulchella, que segundo várias autoridades não é senão a Carex viridula.

Um tal labirinto taxonómico ilustra bem as dificuldades do estudo das Carex. Numa primeira abordagem, já ficaremos satisfeitos se pudermos afirmar com segurança que uma dada planta pertence a esse género, deixando a determinação exacta da espécie para gente mais versada na matéria. Falávamos então das flores despojadas de enfeites e de atractivos, e reduzidas àquilo que é essencial para a reprodução. As flores dos Carex são unissexuais e aparecem dispostas em espigas, sendo frequentes os casos em que cada espiga é formada exclusivamente por flores de um dos sexos: nesta foto, por exemplo, vê-se uma espiga masculina encimando duas espigas femininas. No entanto, não é incomum surgirem espigas andróginas, com flores de ambos os sexos, de que é exemplo a espiga central nesta imagem, com flores masculinas no topo e femininas na base. A mesma androginia, embora menos evidente, é ilustrada pela primeira imagem acima, em que as flores femininas já se converteram em frutos. São aliás os frutos que definem o carácter distintivo do género Carex, aparecendo envolvidos por uma cápsula (chamada utrícula) com o formato aproximado de uma garrafa de Mateus Rosé ou de um cantil militar (veja a 2.ª foto em cima e também os exemplos nesta página). Atender à forma peculiar desse «cantil» - se é mais ou menos bojudo, se tem «gargalo» curto ou comprido - é essencial para a determinação correcta da espécie observada.

Além dos frutos, que só surgem com a Primavera já avançada, devemos também prestar atenção à forma e à cor das glumas. Que quer dizer esse palavrão? Trata-se da bráctea modificada que protege cada uma das flores da espiga; em regra, as glumas são acastanhadas e têm uma banda central verde. Particularmente importantes para o diagnóstico são as glumas das flores femininas, que permanecem frescas durante mais tempo (veja exemplos de glumas masculinas na 3.ª foto ao fundo da página e de glumas femininas aqui). Finalmente, há que levar em conta as provas circunstanciais: num género tão versátil como este, a ecologia é um dado importante. As espécies de sítios húmidos ou encharcados são as mais numerosas, mas também há as que vivem em lugares secos, e dentro desta categoria algumas preferem os calcários (é o caso da C. hallerana aí em baixo, fotografada no Horst de Cantanhede) e outras não dispensam os substratos ácidos.

Estas indicações gerais de pouco servem se o leitor não tiver à mão um manual onde possa conferir, para cada espécie, todos estes detalhes. O melhor livro que conhecemos sobre o assunto - o de Francis Rose, com o título Grasses, Sedges, Rushes and Ferns of the British Isles and north-western Europe, ilustrado com desenhos primorosos - não está inteiramente adaptado à nossa flora, mas apanha a larga maioria das espécies que cá ocorrem.



Carex hallerana Asso

11.10.14

Quatro irmãs portuguesas



Cleonia lusitanica (L.) L.

Segundo a Flora Ibérica, o nome vernáculo desta herbácea anual de floração efémera é o supreendente «cuatro hermanas portuguesas». A referência a quatro irmãs entende-se: a inflorescência tem um arranjo em pelourinho com quatro flores em redor, numa posição simétrica que lembra, por exemplo, a configuração da estátua que homenageia as quatro irmãs Guedes à entrada do Quinta da Aveleda. Memórias de outros tempos, em que as famílias eram numerosas. Mas o rigor do «portuguesas» deixa-nos perplexos. Tudo indica que se trata de um acrescento de cientistas influenciados pelo epíteto lusitanica que Lineu escolheu, tanto na primeira edição do Species Plantarum, em 1753 (em que a designou Prunella lusitanica), como na segunda, de 1763, em que corrigiu a mão, optando por Cleonia lusitanica (por isso o nome científico termina com a dupla menção a Lineu, (L.) L.). Pior só se alguém afirmasse que o povo a trata por cliónia. Mas não, não há qualquer menção de um nome vernáculo em português, e, de facto, em castelhano ela tem outra designação mais plausível: cañamillo, algo como cana-de-painço ou cana-de-milho-miúdo, decerto aludindo à postura erecta dos talos, ao formato da haste floral e às brácteas das inflorescências.

As flores não deixam dúvidas: esta planta, que em geral se fica pelos 20 a 30 cm de altura, pertence à família Lamiaceae e ao seu ramo mais vistoso, aquele que no início do Verão exibe corolas violáceas, com um matiz mais claro, ou mesmo branco, no interior. (Informa a Flora Ibérica que, em Málaga, há uma população onde ocorrem espécimes de flores amarelas.) Gosta de prados em clareiras de matos abertos, matagais ou azinhais, sobre solo calcário. Vimos os exemplares das fotos em Pombal, na companhia de algumas centenas mais que formavam um extensa manta lilás numa ladeira de terra argilosa, avermelhada e seca, entremeada com rochas e calhaus. Dias depois, reencontrámos a planta nas margas do Horst de Cantanhede.

De acordo com a Plant List, o género Cleonia inclui esta única espécie C. lusitanica, que é nativa do centro e sul da Península Ibérica e do norte de África.

7.10.14

Rio das ervas sem nome



Carex elata All.

Todas as nossas experiências sensoriais - o que vemos, cheiramos, ouvimos, saboreamos, tocamos - podem, acreditamos nós, ser traduzidas por palavras. Há quem leve tão longe essa crença que ache mais enriquecedor ler um relato sobre um certo lugar, em especial se o autor tiver firme reputação na bolsa de valores da cultura, do que visitá-lo com os sentidos bem abertos. Pablo Neruda chamou Confesso que Vivi ao seu livro autobiográfico. Se algum desses leitores fervorosos publicar uma autobiografia honesta, há-de intitulá-la Confesso que Li.

Essa vida em segunda mão, mediada pelas palavras dos outros, tem vários inconvenientes. O primeiro é que, se não tivermos experiência directa dos objectos ou seres que as palavras descrevem, as imagens mentais que formamos ou são lacunares ou têm fraca semelhança com aquilo que é descrito. Um pinheiro é diferente de um carvalho, um pinhal é diferente de um carvalhal, não há uma coisa indiferenciada e uniforme que se chame «floresta», há sim muitas florestas, cada uma com os seus cheiros e jogos de luz. Mas, se só tivermos uma noção vaga de floresta como uma formação mais ou menos extensa de árvores anónimas, então é o mesmo cenário que nos vem à cabeça quer estejamos a ler sobre os bosques da Noruega ou sobre a mata atlântica do Brasil. As descrições cuidadosas dos mais finos escritores deixam apenas um reflexo baço e irreconhecível no espelho do nosso cérebro.

Essas limitações do leitor podem, no entanto, ser em parte ultrapassadas se houver humildade em reconhecê-las. Passando do receptor ao emissor, um outro problema que afecta a transmissão de experiências através das palavras é a incompletude do nosso léxico. Em suma, não há palavras para tudo. Quem muito palavrosamente tentar descrever um perfume inédito, saberá que quem o ouve não fica habilitado a reconhecer tal perfume e muito menos a recriá-lo: em vez de palavras, fazem falta tubos de ensaio e fórmulas químicas. E há insuficiências que são próprias de determinadas línguas, reflectindo vivências ancestrais em que certas coisas, por não terem importância assinalável, era como se não existissem.

As quase 50 espécies de Carex que ocorrem em Portugal não existem na nossa língua: não há qualquer palavra em português para as designar. Outras línguas europeias são isentas dessa lacuna: os nomes «sedge» (em inglês) e «laîches» (em francês) indicam quaisquer plantas do género Carex, em geral bastante frequentes em zonas húmidas ou inundadas, mas não exclusivas desses habitats. Quem quiser traduzir para português um texto de um autor anglo-saxónico ou francófono que fale destas plantas não o pode fazer sem erro ou sem perda de informação. Se usar junco ou junça comete um erro, pois essas plantas, embora ocupem habitats semelhantes, são diferentes das Carex e, no caso dos juncos, nem pertencem à mesma família botânica. Em alternativa, pode usar um nome generalista e impreciso (como «erva» ou «capim») ou, como último recurso, não tentar sequer dar um nome a tais plantas (traduzindo por exemplo «sedge fen» por «brejo»).

Ficamos então sem palavras para descrever com rigor, e em português de lei, um rio como há muitos na metade norte do país, com o leito pontuado por grandes tufos de verdura compostos por hastes e folhas elegantemente arqueadas. Uma tal descrição impressionista poderá satisfazer alguns, mas não aqueles que prezam uma informação exacta. Assim, a planta ilustrada nas fotos tem o nome científico de Carex elata, em inglês é conhecida como tufted sedge, e os tufos por ela formados podem ultrapassar um metro de altura. Se ao habitat ribeirinho adicionarmos o aspecto geral e as espigas das inflorescências, visíveis de Março a Maio, é de admitir que a identificação da planta não ofereça dificuldades de maior. Não é esse o caso da maioria das espécies do género Carex, em que a distinção pode depender de diferenças subtis na forma dos frutos. De facto, o género Carex é tão intrincado que o seu estudo mereceu um nome à parte dentro do universo da botânica: trata-se da caricologia. Contrariando as suposições fáceis, um caricólogo não colecciona caricas nem compila estatísticas sobre campeonatos de sameirinha, mas dedica-se, em vez disso, ao estudo e classificação das Carex.

Faremos uma breve (e trapalhona) introdução à caricologia num dos próximos fascículos.


Parada de Pinhão, Sabrosa

4.10.14

Estrelas de haver


Nave de Haver

Cerca de oito quilómetros a sul de Vilar Formoso, Nave de Haver é um recanto no interior do país estranhamente plano e arenoso, não longe da ribeira de Tourões que desagua ali perto no rio Águeda. O espanto acentua-se quando avistamos uns morros cor de argila, umas formas de aluvião que parecem ter sido desenhadas por chuva intensa. O topónimo soa-nos bizarro até entendermos que nave significa, neste contexto, um lugar plano entre montanhas e que o de Haver é decerto uma variante oral de Daver, que alude a uma várzea junto a um rio. Cruzamo-nos com algum gado e cães de guarda que ladram enervados por ver gente: actualmente não moram no lugar mais do que 400 pessoas. Diz-se que por lá prossegue a exploração de volfrâmio por processo artesanal e que, estando tão perto de Espanha e sendo tão despovoado, é ainda propício ao contrabando.

É para a zona ondulada, e as famosas arcoses, que nos dirigimos em Maio. Mas a planície junto à estrada está arroxeada por tantas flores de Linaria incarnata e há lá tantas plantas que nunca vimos que a viagem se vai alongando em paragens. Quando chegamos finalmente aos arenitos, encontramos uma duna gigante feita de cascalho grosseiro e escorregadio, um enorme rochedo desfeito e depois sedimentado onde se notam veios de quartzo, xisto, granito e argila. E tudo o resto parece ter encolhido, até os carvalhos, como se ali o mundo fosse ainda jovem. No fundo dos aluviões há regatos estreitos e, dispersas, lagoas pouco fundas de margens recheadas de plantas preciosas e outras que não identificámos.


Quercus pyrenaica Willd.

No início de Setembro retornámos, desta vez para explorar essas "dunas" solidificadas, e aí ver uma pequena população desta asterácea rara que Miguel Porto e Ana Júlia Pereira encontraram meses antes e para a qual nos haviam alertado.



Aster aragonensis Asso

Como floresce no Verão, quando quase tudo o resto já perdeu a cor, pensámos que não teríamos dificuldade em avistá-la, mas é planta tão delgada, de inflorescências em corimbo tão frouxo e, quando a vimos, de folhas secas e hastes de cor tão próxima da do solo, que quase nos passou despercebida. (Curiosamente, Brotero designou-a Aster fugax, aludindo desse modo à maturação rápida da planta.) Foram as lígulas violáceas, que contrastam com o amarelo das pétalas num arranjo admirável, que nos ajudaram a descobri-la. A estrela miúda, como a designam em castelhano, é um endemismo ibérico de que em Portugal só se conhecem núcleos nos arenitos de Nave de Haver, em afloramentos ultrabásicos, xistos verdes e leitos de cheia de Bragança e Vinhais, em fendas de rocha xistosa na serra do Açor e num urzal na Serra da Carregueira. Na Catalunha, consta do Livro Vermelho (das plantas endémicas ameaçadas) como espécie vulnerável.

Lemos que Ignacio Jordán de Asso y del Rio (1742-1814), naturalista espanhol que nomeou esta planta, foi autor de um inventário quase exaustivo da flora e fauna de Aragão.