20.5.13

Margarida floribunda




Anthemis arvensis L.

É cada vez mais frequente as nossas máquinas serem mais inteligentes do que nós. Por não nos empenharmos em estudar manuais de instruções, os brinquedos electrónicos que nos facilitam ou complicam a vida têm inúmeras potencialidades de que nunca tiramos proveito. O mesmo sucede com o software que, sem esperar pela nossa autorização, o computador actualiza com enervante assiduidade. As novas versões, dizem-nos as caixinhas que abrem espontaneamente no ecrã, têm esta e aquela vantagem relativamente às anteriores; as quais, na verdade, nunca chegámos a testar. Ainda assim, temos a vaga ideia de que as frenéticas actualizações nos deixam mais bem servidos. Seria um mundo de possibilidades sempre em expansão se não tivéssemos ultrapassado há muito a fronteira da sobrecarga informativa.

Está na altura de admitirmos a impotência, baixarmos os braços, e regressarmos a coisas simples como ler um livro em papel ou passear no campo. Esta última actividade não está, porém, a salvo da mediação tecnológica, uma vez que o único modo de darmos nome a certas plantas que vamos encontrando é fotografá-las para depois, em casa, lhes analisarmos os detalhes morfológicos. Mas há coisas que não ficam nas fotos, pois exigiriam desmembrar as plantas para deixar à vista pormenores em geral ocultos. E, como ainda não se inventou tecnologia que permita registar impressões olfactivas ou tácteis, para sentirmos o perfume e a textura de uma planta não há nada que substitua o nariz e as pontas dos dedos. Por isso é algo frustrante compreendermos que certa identificação dependeria de uma dicotomia tão simples como bom ou mau cheiro, e que nós, no momento crucial, com a planta à nossa frente, nos esquecemos de dar uso ao nariz. Trata-se de um equipamento básico com que todo o ser humano vem provido, e que acabamos por considerar meio obsoleto por não ser alvo de constantes upgrades (pelo menos no que à função de cheirar diz respeito).

Há muitas margaridas de flores brancas espontâneas em Portugal; e o número não baixa significativamente se nos restringirmos àquelas que têm folhas dividas em segmentos mais ou menos lineares. No blogue já mostrámos, dentro dessa categoria, os raros Phalacrocarpum oppositifolium e Leucanthemopsis pulverulenta e o muito comum Chamaemelum fuscatum. Depois das folhas e das flores, convém olhar as brácteas involucrais, que já permitem distinguir com segurança essas três margaridas daquela que hoje nos ocupa. O maior ou menor grau de pilosidade reduz ainda mais o rol de candidatos; e, dado que a nossa planta anda longe de ser glabra, é com alguma confiança que nos decidimos pelo género Anthemis. Falta o passo final: será A. arvensis ou A. cotula? Dizem que a primeira é bem cheirosa e que a segunda é fétida, mas não a cheirámos quando laboriosamente nos estendemos na relva para a fotografar. Há ainda uma conversa, que nada adianta, sobre as escamas interflorais, só visíveis quando desfazemos a inflorescência. Um ou outro detalhe mínimo (margens das brácteas involucrais quase transparentes, formato mais alongado das folhas) inclina-nos para a Anthemis arvensis, mas podemos estar equivocados.

Supondo então que é dela que se trata, a falsa-camomila (Anthemis arvensis) é uma planta anual de terrenos baldios ou cultivados, nativa de toda a Europa, do norte de África e da Ásia Menor, que costuma florescer a partir de Maio, ou um pouco mais cedo em climas mais cálidos. Os capítulos florais, com cerca de 3 cm de diâmetro, surgem solitários nas extremidades das hastes, que podem atingir os 50 cm de altura. O nome Anthemis, escolhido por Lineu, parece referir-se à exuberância da floração.

18.5.13

De Sintra para o mundo




Saxifraga cintrana Kuzinsky ex Willk.

Apesar de ser endémica de Portugal, restrita, tanto quanto se sabe, às serras de Sintra, Montejunto, Aire e Candeeiros, esta planta foi primeiramente descrita por um botânico alemão, em 1889, na revista Oesterreichische Botanische Zeitschrift. Uma desatenção dos botânicos portugueses: Coutinho também a reconheceu como novidade para a flora portuguesa, que designou por Saxifraga hochstetteri, mas apenas em 1910. Heinrich Moritz Willkomm (1821-1895), que estudou a flora ibérica em duas longas visitas a Portugal (de 1844 a 45) e Espanha (em outras duas ocasiões, cerca de trinta anos mais tarde), deixou um legado notável de plantas colectadas e uma mão-cheia de cartas a Júlio Henriques (1838-1928) que podem ser consultadas na Universidade de Coimbra. No artigo da revista austríaca, Willkomm traça o retrato de uma planta que terá visto na serra de Sintra, florida em Maio, a que chama Saxifraga Cintrana Kuz., atribuindo o mérito da descoberta a P. A. Kuzinsky, cuja esposa Willkomm homenageia na designação de um outro endemismo português, o Omphalodes kuzinskyanae Willk.

Esta saxífraga é perene e rupícola, de fendas de rochas calcárias ou clareiras de matagais pouco desenvolvidos, tirando sustento das pequenas bolsas de terra rica que se acumulam entre as rochas. No aspecto geral faz lembrar a S. granulata L., a qual, porém, é mais esguia, não exige substratos calcários e tem a face superior das pétalas sem pêlos glandulosos (repare na 4ª e 6ª fotos).

A S. cintrana é uma planta baixinha (10-30 cm) de caule erecto e ramoso. As folhas na base têm pecíolo longo e são reniformes e pubescentes. As folhas caulinares são de formato parecido mas mais pequenas e quase sésseis. No topo da haste, entre Março e Junho, surge uma panícula densa de flores com sépalas ovadas e pétalas brancas com menos de 1 cm de diâmetro onde se notam três nervuras de tom lilás ou esverdeado.

Sendo tão rara e especial mal se aceita que esteja ameaçada pela extracção de inertes, pela construção de infra-estruturas e pelos veículos todo-o-terreno que sobem pelas encostas das serras sem olhar ao que esmagam.

13.5.13

Cor de rosa quando foge


Romulea rosea (L.) Eckl.

A Romulea bulbocodium, que no fim do Inverno e início da Primavera faz brotar rasteiros tapetes roxos em montes e vales de todo o país, não mereceu, apesar disso, ser popularmente agraciada com algum nome de baptismo. Não é pois de esperar que o dito povo alguma vez tenha notado as suas congéneres, nem mesmo a muito vistosa e costeira Romulea clusiana. Quanto a nós, não foi ainda na temporada de 2013 que conseguimos avistar plantinhas tão esquivas como a R. columnae e a R. ramiflora. Trata-se, como é bom de ver, de puro coleccionismo botânico, pois essas espécies de modo nenhum suplantam em beleza aquelas que já conhecemos. Houve, porém, um momento em que acreditámos que uma única florzinha num prado junto ao rio Coura era um dos cromos que faltava à nossa colecção. Mas o cor-de-rosa intenso da flor, as pétalas lanceoladas e, sobretudo, o facto de se tratar de uma planta solitária fizeram-nos desconfiar da sorte. «Uma Romulea nunca vem só»: eis o que poderia ser um ditado popular num país mais versado em botânica.

Uma consulta ao portal da benemérita Pacific Bulb Society permitiu localizar a Romulea courense nas páginas ilustrativas das espécies sul-africanas. Ficámos a saber que a província do Cabo é um verdadeiro bazar espontâneo de Romuleas multicoloridas: amarelas, vermelhas, lilases, brancas, acobreadas, cor-de-rosa. Face a tamanha diversidade, a Península Ibérica e a Europa em geral fazem figura triste. Para restaurar algum amor-próprio, temos de recapitular mentalmente as coisas que são nossas e que os sul-africanos não têm: os narcisos, o Drosophyllum, o lírio-do-Gerês.

A Romulea rosea, nativa da África do Sul, é uma planta bolbosa com folhas filiformes e haste floral com 6 a 15 cm de altura; a cor das flores é muito variável, e a haste exibe uma intumescência característica logo abaixo do cálice. A sua aptidão ornamental valeu-lhe de passaporte para outros países e continentes, e hoje está naturalizada pelo menos nos E.U.A., na América do Sul (Chile), na Europa (França e Grã-Bretanha), na Austrália e na Nova Zelândia. É pouco provável que se torne numa invasora perigosa, mas a planta avistada em Paredes de Coura talvez anuncie que a espécie está em vias de se instalar em Portugal.

10.5.13

Todos os minutus contam



Senecio minutus L.

A paisagem portuguesa tem sido moldada com o intuito de ajudar quem, como nós, procura conhecer exemplares raros da flora lusitana. Com efeito, os nichos onde algumas plantas (ainda) ocorrem - que se obedecessem a um programa de conservação sério seriam de muito difícil acesso - são, pelo contrário, servidos por estradões de piso suave, com margens severamente escavadas para que o progresso possa passar sem demora e se instalem eólicas, postes de alta tensão, antenas. Como diz a ministra do Ambiente, as vantagens deste avanço são de tal grandeza que já nem a destruição da fauna e flora por afogamento numa barragem é, nos tempos actuais, um evento irreversível. Na prática, a natureza não parece obedecer à ministra, e as espécies atingidas por tais excessos extinguem-se, tornam-se raras ou em vias de desaparecer, o que aumenta o seu interesse e nos oferece amplas oportunidades de regozijo por descobrir o que poucos conhecem. Como vêem, é uma opção ambiental que, além do mais, nos serve de bússula: onde a tecnologia pesada e destruidora se acomoda, está um habitat outrora notável pela biodiversidade; resta-nos olhar atentamente o que sobra, agora diminuto e, por isso, mais valioso.

Amaral Franco não cita esta planta na Nova Flora de Portugal, de 1984, apesar de António Xavier Pereira Coutinho ter registado correctamente, em 1913, a sua ocorrência em terrenos pedregosos e secos do Baixo Alentejo, Beira Baixa e Estremadura, e de ela também ter sido assinalada por Gonçalo Sampaio em 1947. Franco entendeu que Coutinho e Sampaio a teriam confundido com o Senecio leucanthemifolius Poir., e outras Floras disseminaram a asneira até que se confirmaram essas observações como sendo de Senecio minutus. Em 2005, Pinto-Gomes e Paiva-Ferreira encontram-na no Barrocal Algarvio e, em 2008, João D. Almeida publicou o registo de mais uma população, desta vez em Minde, em fendas de rocha calcária a uns 380 metros de altitude. No total, conhece-se pouco mais do que meia dúzia de populações desta planta em Portugal. Em Espanha, a julgar pelos registos da Anthos, é relativamente abundante. Porém, a sua distribuição global é escassa: Portugal, Espanha e Marrocos.

É uma planta delicada, frágil e pequenina, com capítulos solitários no topo de hastes relativamente longas, com 2.5 cm de diâmetro e 8 a 12 lígulas amarelas com a face inferior raiada de púrpura. As folhas basais são obovadas, levemente dentadas; as que se situam a meio da planta têm lóbulos fundos; as superiores são lineares de margens inteiras. A Flora Ibérica ainda não publicou o capítulo sobre o género Senecio. Quando isso acontecer, talvez esta herbácea mude oficialmente para o género Jacobaea, passando por isso a ser minuta.

Em 2011, por indicação de Miguel Porto e Ana Júlia Pereira, vimo-la pela primeira vez numa cascalheira da Ota, localidade onde iria nascer, em certa época, mais uma infraestrutura essencial ao país, dessa vez um aeroporto. Em Abril deste ano, descobrimos outra população, a preencher várias bolsas de terra de um afloramento calcário em Sicó, a cerca de 550 metros de altitude, parcialmente destruído por antenas de telecomunicações e por um antigo marco geodésico. Como é planta anual, para o ano esperamos conhecer-lhe a descendência.

8.5.13

Assobio à beira Tua



Silene psammitis Link ex Spreng. subsp. psammitis

Nome comum: não tem
Ecologia: herbácea anual de sítios secos e arenosos (talvez psammo, que significa areia, seja a origem do epíteto da espécie), com solos onde predomina o granito ou o xisto
Distribuição global: endemismo ibérico, do centro e oeste da Península. Está naturalizada na ilha de Santa Maria, Açores
Distribuição em Portugal: Alentejo, Beiras Alta e Baixa, Estremadura e Trás-os-Montes
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: 30 de Março de 2013, perto das Caldas de S. Lourenço, no vale do Tua
Informações adicionais: planta ramosa, levemente penugenta, de hábito ascendente e que ronda os 40 cm de altura. Os cálices têm cerca de 18 mm de comprimento. As pétalas são obcordadas e cor-de-rosa, raramente brancas. Além da subespécie típica, exclusivamente peninsular, a Flora Ibérica distingue a subespécie lasiostyla, do sudeste da Península Ibérica e noroeste de Marrocos, de que não há registo em Portugal

6.5.13

Rebolar na areia



Cerastium diffusum Pers.

As plantas que vivem nas dunas nunca estão seguras: foge-lhes o chão debaixo dos pés deixando a raiz a descoberto, ou um golpe de vento as faz soterrar num monte de areia. Às vicissitudes naturais juntam-se os estragos do pisoteio, em especial no Verão; e, mais grave ainda, a destruição irreversível causada por construções ao arrepio de todo o bom senso. Sabe-se que as dunas bem formadas são a nossa primeira linha de defesa contra o avanço do mar; e que são as plantas no seu habitat dançarino que, enquanto rebolam de cá para lá e de lá para cá, ajudam a dar um mínimo de estabilidade e permanência ao cordão dunar. Nos lugares onde as dunas foram obliteradas por vivendas, prédios e hotéis, tenta-se deter o estrago das marés com barreiras caríssimas que afinal se revelam frágeis e efémeras. Muito mais barato e eficaz é respeitar as dunas e as plantas que nelas se acolhem: não escolheram uma vida fácil e ainda assim trabalham para a nossa protecção.

Há plantas exclusivamente dunares e outras, mais versáteis, que tanto aparecem à beira-mar como em lugares secos no interior. Esta orelha-de-rato (nome que pode ser aplicado com propriedade a todas as espécies do género Cerastium) integra o segundo grupo, embora seja bem mais frequente em areais costeiros do que noutros habitats. Distingue-se de congéneres muito comuns como o C. fontanum e o C. glomeratum por ser uma planta mais esguia, com pedúnculos florais bem mais compridos, e pelo número de estames em cada flor, que são 10 nas duas últimas espécies e 4 ou 5 no C. diffusum. O C. diffusum tem um carácter marcado pela indecisão, pois cada planta tanto dá flores com 4 pétalas (e 4 sépalas e 4 estames) como outras com 5 (pétalas, sépalas e estames). No quadrante superior esquerdo da 1.ª foto, pode ver-se, com alguma dificuldade, uma flor do tipo quatro.

O Cerastium diffusum é uma planta anual, coberta por pêlos glandulosos, com flores de cerca de 5 mm de diâmetro, exibindo pétalas brancas fendidas nas pontas, em geral mais curtas do que as sépalas. Floresce de Março a Julho e é nativa de grande parte da Europa e ainda da Turquia e do norte de África. A acreditar na Flora Ibérica, de toda a linha costeira do Minho ao Algarve ela só está ausente do litoral alentejano.


29.4.13

Erva mamilar



Lapsana communis L. subsp. communis

Terá sido alguma Liga para a Prevenção da Brejeirice, nos bons tempos em que vigoravam o Respeito e o Pudor, que impôs para esta planta nomes vernáculos tão anódinos como lâmpsana e labresto, quando noutras línguas lhe chamam nipplewort, hierba de las mamas e coisas afins. Explica-se tal fixação nessa parte da anatomia feminina pelo formato dos botões florais, que lembrariam mamilos. O leitor pode julgar da pertinência da comparação observando a quarta foto aí em cima. Estabelecida a analogia morfológica, logo a medicina popular deduziu que a erva se usaria com proveito no tratamento de úlceras mamárias e de outras lesões provocadas pela amamentação. A ideia parece ser a de que o criador, como boticário atento às nossas conveniências, teve o cuidado de dar a cada planta uma forma ou embalagem que anunciasse claramente a sua utilidade. Assim, certas orquídeas, como a Orchis mascula, devem à forma sugestiva dos tubérculos o seu uso tradicional no tratamento da disfunção eréctil. Para um exemplo mais inocente, é algo inexplicável que o feto-pente (Blechnum spicant) nunca tenha sido receitado contra a caspa, queda de cabelo e demais anomalias do couro cabeludo.

A Lapsana communis, única espécie do seu género, nativa de quase toda a Europa, de parte da Ásia e do norte de África, é uma planta anual que prefere solos nitrificados, aparecendo em terras cultivados e baldios, bermas de caminhos e jardins, e por vezes junto a cursos de água. Ao contrário do que sucedeu a outras plantas mais delicadas, a ocupação humana do território só parece tê-la beneficiado, embora em Portugal ela não seja demasiado comum. Atinge mais de um metro de altura quando em pleno desenvolvimento, e a época oficial de floração, nem sempre respeitada, vai de Maio a Outubro. Como é regra na subfamília Cichorioideae das asteráceas (que inclui também os dentes-de-leão e a chicória), os capítulos florais, que têm 1 a 2 cm de diâmetro, são constituídos apenas por flores liguladas. As folhas na base do caule têm pecíolo longo e são pinatífidas, com o segmento terminal muito maior que os restantes; as folhas superiores são lanceoladas e vão tendo pecíolo progressivamente mais curto.

27.4.13

Assobio à beira Douro



Silene colorata Poir.

Nome comum: a Flora Digital de Portugal atribui-lhe a designação silene-rosada, o que parece ser uma mera tradução do nome científico; assobio-rosado soaria mais convincente
Ecologia: herbácea anual de campos cultivados ou incultos, prados e bermas de caminhos
Distribuição global: região mediterrânica, Irão, Arábia e Canárias
Distribuição em Portugal: bacia do Douro, centro e sul do país
Época de floração: Janeiro a Julho
Data e local das fotos: Março de 2013, na margem portuguesa do Douro internacional, junto a uma vinha
Informações adicionais: planta sedosa com caules que podem altear-se a uns 50 cm e flores vistosas raramente solitárias, em geral dispostas na haste viradas para um mesmo lado. Os cálices, cilindros com umas 10 riscas-de-pijama, têm cerca de 2 cm de comprimento; as pétalas, de limbo fendido, são esguias na base como pás de ventoinha. Embora as flores possam ser brancas, o nome colorata sublinha que é frequente exibirem um matiz de rosa próximo do carmim

22.4.13

O veneno de Sócrates



Conium maculatum L.

Em breve todas as escolas do país terão que pedir ao ministro das finanças autorização para comprar giz, papel, artigos de higiene e víveres para as cantinas; e o ministro, se os pedidos lhe chegarem com todas as vénias e protestos de humilde consideração, talvez vá libertando às pinguinhas, como quem sofre de retenção urinária, as míseras verbas necessárias. Quem sabe se o giz não é a gota de água que faria transbordar de vez o equilíbrio orçamental? Atrevemo-nos, porém, a sugerir outros cortes, não em alternativa, mas como complemento. Cortes esses que poderiam assumir carácter permanente, sem com isso querermos insinuar (longe de nós tal ideia) que o corte no giz deva ser temporário.

Há muito que em Portugal, pelo menos nas maiores cidades, deixou de haver jardinagem em espaços públicos. Os recintos universitários não são alheios a esse mal: os (impropriamente denominados) jardins que rodeiam os edifícios são na verdade extensos relvados, com meia dúzia de árvores proibidas de crescer plantadas aqui e ali com manifesta relutância. Em vez de jardineiros, há empresas de manutenção de espaços verdes que vêm aparar a relva duas vezes por mês e, uma vez por ano, podar as árvores para as fazer regressar às dimensões que tinham um ano atrás. É uma "jardinagem" toda subtractiva: poda, arranca, limpa, apara; nunca acrescenta uma flor, um arbusto, um canteiro. Para quê pagar um serviço tão triste, tão destrutivo e tão desqualificado? Se não há jardins nem gosto em mantê-los, então o orçamento em jardinagem deveria ser próximo de zero. Para evitar que o relvado se transformasse num mato eriçado, bastaria cortá-lo quatro ou cinco vezes por ano. Além da poupança orçamental, ganhar-se-ia um jardim com flores silvestres; e as árvores, livres do ritual da poda, poderiam finalmente fazer-se adultas.

Numa das entradas menos usadas da Faculdade de Letras do Porto, à rua da Pena, vicejavam há dias umas exuberantes umbelíferas com cerca de dois metros de altura. Distracção do "jardineiro", entretanto já corrigida, que se terá esquecido durante algumas semanas de submeter esse recanto do relvado à carecada regulamentar. Nem ele que removeu a anomalia, nem talvez os professores e alunos da instituição chegaram alguma vez a perceber que tinham ali uma lição viva, rica em interdisciplinaridade, que convocava em simultâneo a história, a literatura, a filosofia, a botânica e a medicina. Pois a planta não era outra senão a cicuta, de onde se extrai o famoso veneno com que, como relatou Platão, as autoridades de Atenas obrigaram Sócrates a matar-se. Ao contrário de outras umbelíferas peçonhentas, a cicuta não provoca uma morte convulsiva e dolorosa, mas sim uma paralisia gradual, sem perda de lucidez, que começa nas extremidades dos membros e termina fatalmente nos músculos respiratórios.

A cicuta (Conium maculatum) é adaptável e prolífera. Frequentadora de entulhos e baldios, de preferência sombrios e algo húmidos, tem a retaguarda protegida, e se desaparece de um local reaparece logo ao lado. Não vamos dizer onde para não suscitar mais perseguições, mas no mesmo perímetro universitário ainda sobram umas quantas cicutas altaneiras que acederam de bom grado, sob garantia de anonimato, a ser fotografadas. Planta anual ou bienal nativa da Europa, Ásia e norte de África, a cicuta floresce de Abril a Agosto. Se na cor branca das flores e na sua disposição ela se confunde com muitas outras umbelíferas, já o caule oco com manchas vermelhas (3.ª foto) é distintivo e permite uma identificação segura. Como sucede com certos cogumelos, as manchas funcionam como um sinal de alerta para a toxicidade da planta.

20.4.13

Goivo grisalho



Cynoglossum cheirifolium L.

Nome comum: língua maldizente, língua-de-cachorro
Ecologia: é planta ruderal, de lugares descampados com solos secos ou pedregosos
Distribuição global: oeste da região mediterrânica. De acordo com os registos da Anthos, ocorre em quase toda a Península Ibérica mas é rara a noroeste.
Distribuição em Portugal: Amaral Franco e a Flora Ibérica indicam que ocorre no Algarve, Alentejo, Beira Alta e Trás-os-Montes, mas o portal Flora-On tem poucos registos da sua presença
Época de floração: Fevereiro a Julho
Data e local das fotos: Março de 2013, em clareiras de matos e bermas de estrada no Alto Douro, entre Freixo de Espada à Cinta e Almendra
Informações adicionais: herbácea bienal aveludada, com caules de até 40 cm de altura e folhas esbranquiçadas em ambas as faces. As flores têm corolas de cerca de 8 mm de diâmetro e são cor-de-vinho. O género está presente em Portugal continental com mais duas espécies, C. clandestinum Desf. e C. creticum Mill., esta naturalizada em algumas ilhas dos Açores.

15.4.13

Candeeiros das ribeiras



Narcissus jonquilla L.

As corolas deste narciso lembram, ainda que sejam mais curtas, as do N. calcicola, do N. scaberelus, do N. rupicola e de mais alguns (raros, de ecologia distinta e que nunca vimos) que se abrigam na secção Jonquillae. O junquilho tem folhas longas, flores grandes e é dos mais altos: os exemplares que encontrámos na margem do Douro junto a Freixo-de-Espada-à-Cinta tinham escapos que ultrapassavam os 50 cm de altura. Justificam-se tais medidas. Enquanto os três primos são apreciadores de habitats rochosos e secos, o N. jonquilha vive em prados húmidos de zonas ribeirinhas e em leitos das cheias de rios. Nos anos em que o Inverno é chuvoso, este narciso, de floração primaveril, pode ficar parcialmente mergulhado. Porém, sendo alta, a haste com as flores consegue ficar à tona e assegurar que o perfume delas não se agúe. É, contudo, um estratagema arriscado: para que o pedúnculo, que é uma coluna fininha, seja suficientemente robusto e não vergue com o peso dele e das flores, tem de respeitar certa proporção entre o diâmetro e a altura, ou desabaria sem elegância, condenando a inflorescência.

Esta população, cuja localização nos foi gentilmente revelada por Carlos Aguiar, não consta da distribuição listada na Flora Ibérica (ainda em rascunho), mas não cremos que haja controvérsia quanto à sua identificação nem que ela esteja em risco, embora não seja numerosa. Trata-se de um endemismo ibérico, do centro e sudoeste da Península. Em Portugal ocorre também no Alentejo e Algarve e está naturalizado na ilha Graciosa.

12.4.13

Vida ultrabásica



Notholaena marantae (L.) Desv. [sinónimo: Cheilanthes marantae (L.) Domin]

Daqui de cima avista-se o rio Sabor. Gostaríamos de dizer que a paisagem permanece intocada, mutável apenas em obediência às estações: o caudal do rio, que já vimos diminuído, é agora farto, os salgueiros com um pé na água ainda não deram folhas novas. Mas muitos quilómetros a sul cresce a barragem que vai domesticar o ímpeto das águas, e logo aqui abaixo, na margem esquerda, abre-se um aterro como uma grande ferida cor de terra. É possível enquadrar a foto mentirosa para mostrar que nada mudou. Sabemos porém que não é verdade, e desistimos do gesto fútil.

O remédio está em adoptar a atitude de defesa que é necessária noutros pontos do país, mas aqui julgaríamos dispensável. Viemos para ver plantas, coisas pequenas, rentes ao chão, que exigem apenas um olhar de curto alcance; não para olharmos em volta com a voracidade de quem chega a território estrangeiro. E o feto com que marcámos encontro encabeça há longo tempo a nossa lista de plantas-a-ver. No ano passado, confiantes na nossa estrelinha, vagueámos pela margem direita do Sabor em busca dos afloramentos ultrabásicos que o fiel Alyssum serpyllifolium não deixaria de assinalar, mas da Notholaena marantae nem sinais. Este ano, para não repetirmos a excursão mal sucedida, pedimos ajuda a quem sabe, que nos indicou uma localização na margem oposta. Parece óbvio, não é? Se não é de um lado do rio, é do outro. Mas, na impossibilidade de atravessar o rio a salto, uma distância de poucas centenas de metros converte-se num desvio de dezena e meia de quilómetros, boa parte deles por trepidantes estradas de terra batida. Sem a certeza do prémio no final, é pouco provável que alguma vez aqui viéssemos, por muito que nos seduzissem as encostas revestidas de sobreiros.

À hora e no local previstos, deparámos com a Notholaena marantae, feto que em Portugal continental é exclusivo dos ultrabásicos transmontanos, embora noutros pontos da sua distribuição (que inclui a região mediterrânica, a Macaronésia e os Himalaias) possa ocupar rochas vulcânicas e substratos mais ácidos. A excitação do encontro foi algo atenuada por serem poucas as folhas em bom estado: quase todas se apresentavam encarquilhadas, e só uma ou outra folha nova começava a desenrolar-se [foto 4]; um mês depois o panorama seria bem mais alegre. Em comum com outros fetos xerófilos, as folhas da Notholaena marantae ficam engelhadas em períodos de seca prolongada, mas basta um regresso da chuva para reverdecerem. Não duram, contudo, mais que um ano, e as plantas que vimos aprontavam-se ainda para a renovação anual do vestuário.

Meia dúzia de frondes hirtas, com pínulas lisas e de contorno arredondado, pintadas de um verde glauco, davam, aqui e ali, bom testemunho da beleza elegante deste feto. No auge da Primavera elas deverão mostrar-se em formação cerrada, quase militar. Têm de 20 a 30 cm de altura, e exibem um pecíolo longo, pontuado por escamas brancas; na face inferior, iguais escamas deixam entrever os esporângios [foto 5]. É esse revestimento escamoso fazendo as vezes do indúsio que explica o nome do género, derivado das palavras gregas nothos (= falsa) e chlaina (= manta); em floras antigas era usada a forma Nothochlaena. O epíteto marantae atribuído por Lineu vem de Bartolomeo Maranta, médico e botânico veneziano do século XVI que primeiro descreveu a espécie.