30.5.15

Encontro das águas (1.ª parte)



Bolboschoenus maritimus (L.) Palla

Como criaturas terrestres, incapazes de sobreviver debaixo de água sem equipamento apropriado por mais que dois ou três minutos, a nossa atracção pelo mar talvez seja explicada pela inveja. Afinal, os bichos e plantas do mar têm à sua disposição um mundo muito mais vasto do que o nosso. E assim passamos as nossas férias, de olhos postos na grandeza inacessível do oceano, ignorando os mistérios banais da terra firme nas nossas costas. Recusamos o que nos é natural em favor daquilo que não podemos alcançar, e ficamos encravados na fronteira entre dois mundos, mais limitados nos nossos movimentos do que todas as descomplexadas criaturas do mar e da terra.

Embora, por certo, sejamos únicos no modo voluntário como a ele nos submetemos, não estamos sozinhos nesse aperto. Iniciamos aqui uma curta (e intermitente) série sobre as plantas que vivem no encontro das águas, naquela fronteira movediça onde a água doce dos rios que terminam o seu curso é temperada pelo sal das marés. Essas areias lodosas, ricas em nutrientes, são bem diferentes das areias limpas e enxutas que os veraneantes gostam de pisar com os pés descalços; se atraem gente, são pescadores à cata de marisco. A vegetação cerrada e algo agressiva, dominada por aquilo a que, sem grande precisão, chamamos juncos, não sobressai pelo colorido, ainda que possa haver excepções. Aos juncos e afins, o vento basta-lhes como polinizador, por isso não há flores recheadas com néctar, e os insectos que se entretenham noutras paragens.

É quase inevitável que o nosso primeiro «junco», fotografado no (chamemos-lhe assim) juncal da foz do Coura, em Caminha, não o seja de verdade. Contudo, se traduzirmos do grego o nome genérico Bolboschoenus, obtemos qualquer coisa como junco-bolboso, o que se explica por a planta apresentar rizomas intumescidos semelhantes a bolbos. Em contraste com as flores claramente individualizadas dos legítmos juncos, o Bolboschoenus tem as flores (ou florículos) dispostos em espigueta: são as estruturas sésseis, de formato elipsoidal e de um tom castanho carregado, que se podem observar na terceira foto aí em cima. Herbácea vivaz que por vezes ultrapassa 1 m de altura e que floresce desde a Primavera até ao Outono, o junco-bolboso está presente em regiões temperadas de todos os continentes e em boa parte do litoral da Península Ibérica. Acontece-lhe por vezes optar por uma dieta sem sal, seguindo então por algum rio acima até se instalar longe da costa. As suas ligações familiares, se o afastam dos juncos, aproximam-no dos cárices (género Carex) de que há tempos aqui falámos.

26.5.15

Cegonha na praia



Erodium cicutarium (L.) L'Hér. subsp. bipinnatum (Cav.) Tourlet

Depois de termos encontrado os bicos-de-cegonha (ou, mais correctamente, bicos-de-garça) em quintais e jardins, ou em espaços que foram essas coisas noutras épocas, o leitor já a sonhar com férias de Verão ficará talvez contente em saber que também na praia se encontram dessas plantas. Enfim, não exactamente as mesmas plantas, mas uma versão delas adaptada às difíceis condições de vida nas dunas. Tão difíceis, aliás, que quando apertam os calores de Agosto e se abrem os guarda-sóis dos veraneantes já este Erodium cicutarium, como planta anual que é, desapareceu de vista, tendo entretanto assegurado descendência pela abundante produção de sementes.

A forma dunar do E. circutarium é uma planta rasteira, glandulosa, com pétalas arredondadas e quase brancas. Se nos afastarmos da costa podemos ver, tanto em calcários como em lugares xistosos ou graníticos, diversas formas da mesma espécie, mas em geral mais altas, com pétalas cor-de-rosa alongadas e assimétricas, às vezes maculadas na base. É provável que o nome Erodium cicutarium seja apenas uma maneira preguiçosa de arrumar um agregado de espécies afins que não há pachorra para deslindar. Essa suspeita é reforçada pela existência de grandes variações genéticas dentro da espécie: há plantas diplóides (com 20 cromossomas), outras tetraplóides (40 cromossomas) e ainda outras hexaplóides (60); para agravar a confusão, também se encontram plantas com números cromossómicos estranhos como 36, 42, 48 e 54. Talvez o conceito tradicional de espécie não seja adequado para lidar com um caso destes, mas parece-nos pouco satisfatória a solução, a que os botânicos chegaram recentemente, de decretar que as diversas subespécies do E. cicutarium (incluindo a subsp. bipinnatum) não têm valor taxonómico. Mesmo que estejam ligados por formas intermédias, os extremos do intervalo de variação são claramente distinguíveis. Esta moda de amalgamar coisas díspares sob um único nome pode tornar a taxonomia botânica mais simples, mas não a torna mais útil nem mais interessante.

Uma ou várias versões do E. cicutarium (espécie que, no seu sentido lato, é originária da Europa, Ásia e norte de África) atravessaram o Atlântico e, cumprindo de modo fulgurante o sonho americano, prosperaram e multiplicaram-se no país de acolhimento a ponto de merecerem o estatuto de ervas daninhas impossíveis de erradicar. A ideia de que «se não podes vencê-los, deves comê-los» não será remédio universal para semelhantes casos de infestação; mas, como se ensina nesta página, é útil para lidar com os bicos-de-garça. E ficamos a saber que o E. moschatum, embora mais amargo do que o E. cicutarium, também é comestível. A cautela a ter é que estas plantas, aconselhadas para saladas e temperos, são mais tenras e saborosas quando ainda não floriram, mas nessa fase podem confundir-se com certas umbelíferas mortalmente venenosas.

23.5.15

Agrião fogueteiro



Barbarea verna (Mill.) Asch.

Descobrimo-la na praia fluvial de Friestas, Valença, mais recuada do que as ervas rasteiras que se aventuram a molhar as raízes na maré alta. Chovia bastante, e ali estacámos num grande pasmo diante do rio Minho. Nenhum de nós se lembrou de orar a santa Bárbara - enfim, as tradições já não se honram como outrora. A calma perante a tempestade, todavia, permitiu-nos reparar nesta crucífera formosa, com flores de um amarelo-limão muito apelativo, que o João Lourenço reconheceu de imediato. E, curiosamente, é uma Barbarea, género cuja designação homenageia (dizem) precisamente aquela santa, que tem notoriedade entre os que protegem contra relâmpagos e temporais, e é também padroeira de mineiros e artilheiros.

As plantas deste género (a partir da B. vulgaris) ganharam um tal nome pelo alívio que concedem em caso de queimadura. Há, porém, uma outra virtude que lhes é atribuída hoje em dia. Elas são uma preciosa ajuda no controle biológico das pragas de insectos em campos de cultivo porque criam naturalmente uma armadilha eficiente: os bicharocos são atraídos por estas plantas e nelas depositam, confiadamente, as suas larvas; mas estas morrem cedo por causa das substâncias químicas que as plantas entretanto produzem quando estimuladas por tais visitas. Eh pá, obrigadinha.

A B. verna, de floração temporã e bienal, é nativa do sudoeste da Europa e está presente de norte a sul do nosso território (com algumas lacunas pelo meio: falta no Alentejo e na Beira interior). Aprecia lugares húmidos com alguma sombra e solo arenoso. A Flora Ibérica publicou uma chave básica para distinguir esta da B. intermedia (erva-de-xestre) e da B. vulgaris (erva-de-santa-Bárbara), de que destacamos, porque pode notar esses detalhes nas fotos, os frutos longos, arqueados para cima e ligeiramente comprimidos.

A B. verna é conhecida, entre nós, como agrião-da-horta (em inglês também lhe chamam early yellow rocket), e pode consumir-se em saladas ou sopas, em substituição, por exemplo, do agrião ou dos espinafres.

19.5.15

Rio obeso



Chamaesyce canescens (L.) Prokh. subsp. canescens [sinónimo: Euphorbia chamaesyce L.]

Deslizando pela IC5 entre Alfândega da Fé e Mougadouro, os montes parecem-nos agora mais atarracados e os vales menos profundos, efeito do rio Sabor que começou a inchar doentiamente quando no final de 2014 as comportas da barragem foram fechadas. A alteração brutal da paisagem, o afogamento do vale, o arranque de centenas de milhares de árvores e o desaparecimento de habitats mediterrânicos únicos não podem ser descritos como melhorias, nem (santa ingenuidade!) como o preço a pagar por finalmente haver água à farta numa região onde ela costumava ser escassa. A água que ali está represada serve apenas para produzir energia eléctrica: nunca chegará à torneira de ninguém nem irá regar campos ou pomares ressequidos. Passada a euforia da construção, em que algumas centenas de operários poderão ter animado a economia local, o Nordeste Transmontano não tirará qualquer benefício desta forma destrutiva de progresso. Muito pelo contrário: albufeiras obesas e eutrofizadas há muitas pelo país fora; rios como o Sabor só havia um. Aqueles que procuram lugares genuínos e bem preservados terão menos motivos para visitar Trás-os-Montes. E, como quem espeta mais um prego no caixão, a mesma tragédia com os mesmos protagonistas prossegue inexorável no também transmontano vale do Tua.

Face ao corte de zimbros e azinheiras, à obliteração das mais importantes populações portugueses de buxo silvestre, e ao desaparecimento de herbáceas raras como a Mentha cervina e a Bufonia macropetala, a perda por afogamento da planta que hoje ocupa o escaparate talvez não justifique muitas lágrimas. Pende sobre ela a suspeita antiga (reproduzida na Flora Ibérica) de não ser europeia de puro sangue, mas antes um «arqueófito» originário da Anatólia e do Irão. Como quase todas as suas congéneres, algumas delas (como a C. serpens e a C. maculata) frequentadoras de fendas de calçadas urbanas, a Chamaesyce canescens prefere solos pisoteados, no seu caso com um certo grau de humidade - lamacentos é talvez a palavra certa. O leito de cheia de um rio como o Sabor é, por comparação, um lugar de prestígio onde ela, longe de prever que um lago desabaria sobre a sua cabeça, teve a ousadia e a imprudência de se instalar.

A suspeita de que a C. canescens tenha origem exótica não foi ainda confirmada e talvez nunca venha a sê-lo, fazendo lembrar aqueles processos judiciais que se arrastam anos a fio até que prescrevam sem serem levados a julgamento. Nessa altura o arguido declara que foi reconhecida a sua inocência, mas o público em geral fica a pensar outra coisa. Contudo, se a C. canescens for mesmo nativa do nosso território, como é bem possível que seja, então a sua presença por cá tornou-se tão esporádica (quatro registos apenas no portal Flora On) que, se tal publicação existisse, a espécie teria lugar garantido no Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

O género Chamaesyce aparenta estar bem caracterizado morfologicamente: são ervas rasteiras, anuais, de folhas assimétricas na base, com inflorescências como as das eufórbias, mas axilares em vez de terminais e sem ramificação dicotómica. Contudo, estudos genéticos recentes vieram questionar a sua independência, optando agora muitos autores por incluí-lo no género Euphorbia. Um verdadeiro regresso ao passado, pois Lineu, o pai da taxonomia moderna, baptizou esta planta em 1753 no seu Species Plantarum como Euphorbia chamaesyce.

16.5.15

Amarelo das estradas



Verbascum sinuatum L.

A acreditar nos palpites etimológicos que se podem respigar aqui e ali, a palavra latina Verbascum, que já na antiguidade designava estas plantas altaneiras e de vistosa floração amarela, seria uma corruptela de barbascum. Não será pois muito disparatado traduzi-la por erva-barbuda. Essa propensão para a pilosidade, por vezes tão abundante que a planta se vê forçada a largá-la sob a forma de flocos, é menos evidente neste V. sinuatum do que por exemplo no V. pulverulentum. Ainda assim, a erva-barbuda-ondulada (nome comum acabado de inventar, sem esperança de que outros o adoptem) é assaz provida de agasalho para não desmerecer tal designação. Se fôssemos pedantes, traduziríamos sinuatum por sinusoidal, mas, como se vê pela foto, o termo é uma descrição apropriada da folhagem basal de uma planta que, como quase todas as suas congéneres, tem um ciclo de vida bienal. No primeiro ano, só aparece a inconfundível roseta basal; e, paradoxalmente, é mais fácil reconhecê-la nessa fase do que no seu segundo e último ano de vida, altura em que desenvolve uma inflorescência ampla e algo desgrenhada. Os verbascos são bonitos, e prestam um inestimável serviço público ao ajardinarem voluntariamente bermas de estrada e outros lugares desprezados, mas são todos muito parecidos e dar-lhes o nome correcto exige observação paciente. Contudo, se o leitor pousar os olhos neste quadro, a sua tarefa fica muito facilitada. Há-de notar que os verbascos se diferenciam por terem inflorescência simples ou ramificada, pelo maior ou menor comprimento dos pedúnculos, pela penugem dos estames, pela disposição mais ou menos densa das flores ao longo do caule. Assim, o Verbascum sinuatum, além de ter um porte bem mais modesto do que o V. pulverulentum, e de se distinguir deste igualmente pela folhagem, também se singulariza pela penugem lilás que cobre os estames. A forma das folhas caulinares (3.ª foto em cima) pode, se necessário, ajudar a dissipar dúvidas.

João do Amaral Franco, no vol. 2 da sua Nova Flora de Portugal, informa que o V. sinuatum é uma planta vulgar, presumindo-se que esteja presente em todo o território continental português. A Flora Ibérica corrobora a ideia, listando-a para todas as nossas províncias. Os registos no portal Flora-On sugerem porém que a sua presença a norte do Douro é muito esporádica; e que em Portugal ela ocorre com maior frequência nos afloramentos calcários, não tendo embora uma preferência declarada por tais substratos. Globalmente, a sua área de distribuição abrange toda a bacia mediterrânica.

12.5.15

A romúlea que faltava




Romulea columnae Sebast. & Mauri

Os nossos passeios pelo país, à procura de flora ou habitats que nunca vimos, têm uma propensão natural para locais com espécies mais raras. Em si, esse pormenor não acrescenta ânimo às caminhadas nem entusiasmo à pesquisa, mas não resistimos, sempre que a ocasião se proporciona, ao arrebatamento que se sente quando se fecha um capítulo de uma colecção. Pois bem: relativamente ao género Romulea, faltava-nos este cromo. Por isso, quando o João Lourenço gentilmente nos informou que vira esta espécie num pinhal em Amorosa, Viana do Castelo, corremos para a conhecer. Decerto o leitor quererá saber por que um tal achado é tão valioso, e aqui estamos para satisfazer a sua curiosidade.

Em Portugal ocorrem espontaneamente apenas quatro espécies de Romulea, e a folhagem desta, feita de tubos longos e fininhos, difere pouco da das outras três espécies. A flor, porém, é muito mais pequena, detalhe que nem sempre as fotos exibem com clareza: as tépalas medem cerca de 1 cm de comprimento. Dê agora, caro leitor, toda a sua atenção ao centro da flor: está lá uma coluna envolta em pólen amarelo-alaranjado que protege tão bem o estigma que este mal se nota. Apesar do receituário botânico mencionar mais características que ajudam à identificação, é precisamente esta particularidade que assegura que se trata da R. columnae.

Nativa do bacia mediterrânica, do oeste europeu e da Macaronésia, e apreciadora de lugares arenosos e arejados, em geral pisoteados no Verão, a R. columnae costuma florir no final do Inverno. Isso é de alguma ajuda na detecção de planta tão esquiva, pois a vegetação herbácea tem ainda porte diminuto nessa altura do ano. A glória é, contudo, breve: logo depois a planta hiberna, ficando reduzida a um bolbo subterrâneo, e só volta a mostrar-se no ano seguinte.

9.5.15

Barril de flores



Euphorbia terracina L.

Três meses decorridos sobre a nossa viagem ao Algarve, e folheado o álbum de fotos até à última página, está na hora de nos despedirmos. A última planta da série algarvia (nada inferior às suas antecessoras, convém ressalvar) empurra-nos já para outras latitudes. Anda longe de ser exclusiva das praias do sul, embora nos últimos anos pouco tenha sido vista a norte do Tejo. Dada a profusão de eufórbias que já por aqui desfilaram, não será ofensa dizer que esta de média dimensão (uns 40 cm de altura, por vezes bastante mais) não é das mais distintivas, apresentado vincadas semelhanças com a E. serrata e a E. segetalis. Da primeira distingue-se pela forma das folhas e pelos apêndices lineares dos nectários; da segunda pelo aspecto geral prostrado e muito ramificado, pelo serrilhado das folhas e das brácteas, e pela textura lisa das cápsulas (as da E. segetalis são rugosas). Em Portugal, a Euphorbia terracina ocorre (ou ocorria) do Minho ao Algarve em dunas e pinhais costeiros, mas noutros pontos da sua distribuição circum-mediterrânica afasta-se até 100 Km da costa. Vimo-la em maior profusão na ilha de Tavira, tanto na duna secundária como à sombra das casuarinas que ladeiam a miniatural linha férrea do Barril. Exibia uma floração ainda incipiente, e com a época mais adiantada teria sido possível apreciar melhor a arquitectura dicotómica da sua inflorescência.

É este lamento recorrente de termos chegado antes de inaugurada a festa das flores que, quem sabe, nos fará regressar ao Algarve em época mais propícia, porém já não em 2015 nem talvez a tempo de reportar no blogue o que por lá descobrirmos. Houve dois ou três mistérios botânicos que ficaram por desvendar, e como não somos egoístas damos ao leitor oportunidade de se debruçar sobre um deles. No cabo de São Vicente, nos interstícios das pedras calcárias que forram o chão a poucos metros das arribas, vimos uma Silene algo semelhante à vulgar S. littorea das dunas litorais. No entanto, e apesar de não vislumbrarmos outra candidata plausível entre as quarenta espécies do género descritas para Portugal, as diferenças na folhagem, no hábito e até no recorte das pétalas sugerem que esta silene vicentina não é a Silene littorea. Eis as fotos para o leitor entendido dizer de sua justiça.


6.5.15

O café de que o rei gostava



Astragalus boeticus L.

O perfil agrícola que Portugal teve, e que começou a alterar-se há quatro décadas, tornou-se um capítulo do passado que se evita reler. Tal impressão desagradável não se refere, evidentemente, aos grandes produtores de fruta, cortiça, azeite ou vinho, que continuam a existir e a quem nunca faltaram incentivos e mérito. O que não deixou saudades foi a parte do país pobre, ignorante e acanhado, à mercê das intempéries, que se limitava a amanhar batatas e couves para se alimentar. Mas até as boas revoluções comportam enganos e, no nosso caso, houve um detalhe que nos escapou: julgou-se que, para além dos camponeses sem recursos e dos latifundiários bem sucedidos, não havia mais nada a ter em conta na nossa agricultura tradicional. Esqueceram-se dos poucos que praticavam uma lavoura informada, ainda que em pequena escala, que tirava bom partido das plantas, aromáticas e não só, cujo cultivo beneficiava o país com saúde, produtos agrícolas originais e comprazimento à mesa. Anos volvidos, resignados à comida insípida, vemos essas plantas servirem a gastronomia de luxo, orientada por chefes de cozinha que souberam aliar-se às fines herbes para obter mais sabor dos alimentos.

Vem este arrazoado a propósito de um artigo sobre a planta que aqui trazemos publicado em 2014 na revista Genetic Resources and Crop Evolution, incluído na secção dedicada a «neglected and underutilized crops». Ali se descrevem plantas cujo cultivo é hoje mal aproveitado, sobretudo se comparado com o seu sucesso como alimento noutras épocas. E este legume é bom exemplo disso. Conhecido como Swedish coffee por ter servido, no séculos XVIII e XIX, para produzir um substituto do café que os reis suecos de então (entre eles Gustavo III e o seu filho Gustavo IV) muito apreciavam, foi consumido em quase toda a Europa durante períodos em que as colheitas de café foram escassas ou ele esteve proibido*. Gradualmente, contudo, essa prática foi abandonada e a bebida de Astragalus boeticus foi substituída pelo sucedâneo de café obtido das raízes da cenoura ou da chicória, de preço semelhante mas, dizem os entendidos, de menor qualidade. Para os autores do artigo (que leva o título de Swedish coffee (Astragalus boeticus L.), a neglected coffee substitute with a past and a potential future), está na altura de relançar o cultivo e o consumo deste Astragalus, com benefícios antioxidantes comprovados e cujas vagens (de secção triangular e com um pequeno gancho na ponta) são também comestíveis. Para os que são intolerantes à cafeína, esta poderia tornar-se uma alternativa bem-vinda.

Como quase todas as leguminosas, esta planta é capaz de, em associação com bactérias apropriadas, fixar azoto do ar e assim reduzir a necessidade de fertilizantes. Talvez por isso, é pouco exigente quanto ao solo e à rega, embora se dê melhor em terreno arenoso e em locais com boa exposição solar. A favor do seu uso como substituto do café estão a ausência de um período obrigatório de dormência das sementes e o carácter indeiscente das vagens (não se abrem espontaneamente quando maduras e, por isso, não libertam descuidadamente as sementes). Além disso, floresce no início da Primavera e dá frutos no Verão, permitindo uma colheita antes dos rigores do Outono-Inverno.

É uma herbácea anual nativa da região mediterrânica, Médio Oriente e Macaronésia. Por cá, há poucos registos dela e situam-se quase todos no sul do país. Tal como no caso do Astragalus tragacanta, não são as flores, esbranquiçadas e agrupadas em cachos penugentos, a parte que nos parece mais bonita nesta planta. É a folhagem que chama a atenção, com as longas folhas imparipinadas, ciliadas e de um verde intenso.

*Proibido? É verdade: por ser importado e essa despesa ter demasiado impacto na balança comercial; por ser estimulante controverso, e ser preciso um papa para inocentá-lo; por estar associado a lugares de reuniões políticas ou religiosas potencialmente subversivas. A permissão para o seu consumo pelas mulheres chegou mais tarde, a par de outros direitos, como testemunha a Coffee Cantata, de Bach.

2.5.15

Mercúrio no pinhal



Mercurialis elliptica Poir.

A biodiversidade vegetal de um lugar mede-se pelo número de espécies que nele se encontram, mas usar este parâmetro no seu sentido estrito, desligado de outras considerações, pode conduzir a resultados estranhos. Chegaríamos por exemplo à conclusão de que a civilização humana, em lugar de depauperar a biodiversidade, tem muitas vezes o efeito aparente de a reforçar. Uma encosta xistosa revestida de tojos, urzes, giestas e carqueja, como há muitas no norte de Portugal, ostenta menor variedade de plantas do que os canteiros desmazelados que é costume encontrar nas nossas cidades. E não me refiro às plantas que os jardineiros municipais (se é que eles ainda existem) lá puseram, mas àquelas que se instalaram pelos seus próprios meios. Também os taludes das estradas, habitats artificiais por excelência, podem concentrar uma diversidade vegetal muito superior à de certos bosques que nos parecem bem conservados.

O fenómeno dos lugares alterados com uma vegetação rica deve-se, em primeiro lugar, à abundância de nutrientes como azoto, potássio e fósforo. Esse enriquecimento do solo é muitas vezes acidental, resultando do pisoteio ou da deposição de dejectos, enquanto que outras vezes (como sucede em campos abandonados ou em pousio) é consequência directa da actividade agrícola. Não é surpresa que sejam muitas e muito diversas as plantas atraídas ao banquete. Contudo, estas plantas oportunistas, além de serem dotadas de um apetite invejável, devem ser capazes de crescer, florir e lançar semente num curto lapso de tempo, pois tais lugares humanizados são palco de frequentes perturbações. As plantas sem essas qualidades de adaptação acabam por desaparecer dos lugares ruderalizados. Assim, o que vemos num relvado, no talude de uma estrada suburbana ou na orla de um campo de cultivo pode ser um rico elenco de espécies vegetais, mas são quase sempre as mesmas e nem sequer faria grande diferença se estivéssemos noutro país da Europa ou até em alguma ilha dos Açores. Um incremento da biodiversidade local, com dezenas de espécies em poucos metros quadrados, traduz-se na verdade por uma homogeneização e um empobrecimento globais.

Todos os amadores de plantas têm presente este dicotomia, valorizando muito mais as espécies distintivas dos habitats naturais (que podem ou não ser raras) do que aquelas todo-o-terreno que frequentam assiduamente os habitats artificializados. Contudo, para mostrar que as coisas nunca são a preto e branco, há plantas de distribuição restrita (os tais preciosos endemismos) que de facto preferem fazer a casa em lugares degradados. O exemplo mais paradigmático é a Scrophularia grandiflora, uma planta ruderal (há que dar nome aos bois) que é endémica de Coimbra e arredores.

Não estou certo de que a Mercurialis elliptica encaixe nesta categoria paradoxal dos endemismos ruderais. O género Mercurialis inclui indiscutíveis espécies ruderais como a vulgaríssima M. ambigua, e as fontes consultadas (Nova Flora de Portugal e Flora Ibérica) concordam em atribuir à M. eliptica idêntica preferência por habitats adulterados. Contudo, na nossa visita ao Algarve vimos a M. eliptica num único local, no pinhal do Vale do Garrão, longe dos caminhos mais calcorreados pelos veraneantes, a poucos metros do tomilho-carnudo e de outras especialidades da flora algarvia. É injusto a M. eliptica ser acusada de ruderal sem que o mesmo vício seja imputado às suas companheiras. Menos controversa é a constatação de que ela tem uma distribuição global muito restrita, ficando-se pelo sul da Penínunsula Ibérica e por Marrocos, e de que a sua presença em Portugal, a julgar pelo número de registos no portal Flora On, é cada vez mais esporádica.

A terminar, eis alguns detalhes morfológicos. A Mercurialis elliptica, que tem base lenhosa e forma pequenas moitas de uns 50 a 60 cm de altura, distingue-se das suas congéneres por ser inteiramente glabra (a M. ambigua, por exemplo, tem as margens das folhas ciliadas) e por ter folhas coriáceas, com margens distintamente crenadas.

28.4.15

Tomateiro do diabo



Solanum linnaeanum Hepper & P.-M.L. Jaeger

A planta das fotos trouxe-nos à lembrança um curto filme de animação que vimos há uns anos. O enredo é uma alegoria sobre a criação: duas nuvens têm a tarefa de gerar, moldando com mãos de nuvem pedaços da própria nuvem, as crias dos animais da Terra. Um par de cegonhas encarrega-se depois de fazer a entrega, sem engano, dos filhotes às respectivas mães. Uma das nuvens, habilidosa e maternal, faz amorosos bebés de gato, tigre, leão, urso e de outros tantos bichinhos fofos, aformoseando orelhas e patinhas com óbvio talento de design. A outra, rabugenta e um pouco estouvada mas artesã igualmente ágil, fabrica com afinco crias de cobra, jacaré, salamandra, aranha, escorpião, animais que nos amedrontam ou em que não vemos encanto especial nas formas e modos dos recém-nascidos. Naturalmente, a cegonha que colabora com a segunda nuvem não está satisfeita com a sua sorte e tenta mudar de emprego. A nuvem chove de raiva mas lá consegue chegar a um acordo: promete tentar fabricar bichinhos mais adoráveis; e o compromisso cumpre-se com um pequenino ouriço-cacheiro, lindo apesar de espinhoso.

Curiosamente, com as plantas, a nossa afeição tende mais para as já amadurecidas, de preferência a florir, ou para as árvores frondosas. Os rebentos parecem-nos ter, em geral, pouca graça, e há até quem os regue em demasia para ver se crescem mais depressa. Mas, se existissem nuvens-oleiros a gerar as plantas, esta de hoje seria criada por uma das ranzinzas. O aspecto geral é o do género Solanum. Vejam-se as flores: as cinco pétalas roxas unidas quase até ao meio que, quando ainda fechadas, formam um balão, abrem-se como flores-estrela tendo ao centro uma coluna amarela de estames a rodear um estilete. Mas a fisionomia crispada da folhagem e a profusão de espinhos causam uma impressão desagradável que nem os frutos jovens, semelhantes a fabulosas bolas de cristal, ajudam a aliviar.

Trata-se de uma espécie exótica, nativa da África do Sul, Moçambique e Zimbabwe, de que, por cá, só se conhecem registos no litoral sul e sudoeste, e sempre em locais ruderalizados. Talvez seja a espécie a que Lineu chamou Solanum sodomeum, e é conhecida em algumas referências inglesas como apple of Sodom. Na dúvida, foi rebaptizada, homenageando-se Lineu, o seu provável primeiro descritor.

25.4.15

Bagas de sândalo


Osyris lanceolata Hochst. & Steud.

Ao contrário do que acontece com banqueiros e outros especuladores, o parasitismo entre plantas não é muito propício à ostentação. As plantas parasitas são, na sua maioria, pequenas herbáceas com um período de floração curto, ditado apenas pela necessidade de perpetuar a espécie. No resto do ano elas remetem-se a uma invisibilidade que condiz melhor com a sua índole oportunista.

Esta regra geral está, no entanto, sujeita a numerosas excepções que também têm o seu paralelo entre os humanos. Quem testemunha o estilo de vida de um milionário julga que ele terá trabalhado para acumular riqueza; e quem vê árvores ou arbustos pujantes acha que eles, através da fotossíntese, se alimentaram sozinhos para atingir tais dimensões. No entanto, há árvores e arbustos parasitas ou, pelo menos, hemiparasitas. O prefixo hemi, que significa metade, indica que o vegetal em causa, além de sugar várias das plantas que lhe estão próximas, dispõe de folhas verdes e é por isso capaz de realizar alguma fotossíntese. As duas fontes de alimentação, a própria e a roubada, contribuem para a dieta em proporções muito variáveis, havendo plantas hemiparasitas que, em percentagem, são quase totalmente parasitas, e outras que, em caso de necessidade, podem sustentar-se sem ajuda (um pouco como quem perde a fortuna num investimento azarado e descobre, com surpresa, que pode trabalhar para ganhar a vida).

Este Osyris lanceolata - a que, apesar de ser também nativo de Portugal, chamamos sândalo-africano por se encontrar amplamente distribuído no quadrante sudeste desse continente - é um arbusto hemiparasita muito ramificado e de consideráveis dimensões, que amiúde excede os 2 metros de altura. Não sabemos de que grau de parasitismo é culpado: certamente menos do que o seu primo afastado Arceuthobium azoricum (espigos-de-cedro), mas talvez mais do que a extraordinária árvore-de-Natal australiana (Nuytsia floribunda), capaz no estádio adulto de sobreviver mesmo quando toda a vegetação à sua volta é extirpada.

Componente comum dos matos mediterrânicos algarvios, mais frequente perto da costa, o Osyris lanceolata substitui, no sul do país, o seu congénere O. alba, que ocorre no resto do território e tem preferência por lugares mais húmidos e abrigados. Os dois sândalos distinguem-se pela envergadura, com o O. lanceolata a vencer o O. alba em quase todos os parâmetros: na altura (o O. alba raramente ultrapassa 1 metro), no tamanho das folhas (as do O. alba são estreitas, quase lineares, e têm metade do comprimento das do O. lanceolata) e no tamanho dos frutos (os do O. alba são distintamente menores).

O nome sândalo evoca a famosa madeira perfumada originária da Índia, e pode parecer um despropósito usá-lo para designar um simples arbusto. Mas o sândalo-da-Índia (Santalum album) e o sândalo-africano (Osyris lanceolata), além de pertencerem à mesma família botânica, partilham muitas das propriedades aromáticas, tantas que o último é tradicionalmente usado em África para produzir óleo de sândalo.

21.4.15

Tomilho das areias



Thymus carnosus Boiss.

O suiço Pierre Edmond Boissier (1810-1885) é dos autores botânicos que mais assiduamente nos visita, embora o faça discretamente, usando a abreviatura Boiss. em vez do nome completo. Há duas semanas, porém, ao falarmos desta linária miniatural, nomeámo-lo por extenso. Agora que repetimos a dose convém recordar aos distraídos que o icónico lírio-do-Gerês recebeu o nome de Iris boissieri em homenagem a Edmond Boissier.

Pelo que pudemos respigar em livros e páginas da Internet, Boissier não parece ter alguma vez assumido qualquer cargo oficial ou académico. A fortuna familiar permitiu-lhe dedicar a vida às expedições botânicas e à escrita e edição dos livros em que descrevia as plantas descobertas por si e pelos seus colaboradores. Com uma vincada predilecção pelo Mediterrâneo e pelo sul da Europa, grande parte das 6000 espécies que lhe são creditadas foram colhidas em Espanha ou em Portugal. Desse grupo faz parte o tomilho de hoje, baptizado no tomo II do seu Voyage botanique dans le midi de l'Espagne pendant l'anné 1837. Boissier sublinha que este Thymus carnosus, já anteriormente assinalado nas praias de Setúbal mas atribuído então a uma outra espécie, se singulariza, entre outras coisas, pela consistência carnuda das suas folhas.

Habitante de dunas e de pinhais litorais, este pequeno arbusto, que exibe hastes erectas de não mais que 40 cm de altura e folhas com margens muito enroladas, ocorre apenas na Península Ibérica, e só a oeste do estreito de Gibraltar. A presença na província de Huelva desqualifica-o, por escassa margem, como endemismo lusitano, mas é na costa portuguesa desde a Arrábida até Vila Real de Santo António que se encontra o grosso das suas populações. Fazendo parte da pequena lista de plantas legalmente protegidas em Portugal, a sua inclusão nos anexos da Directivas Habitats é plenamente justificada, embora raramente lhe assegure a protecção que merece. A sua (cada vez mais esporádica) presença nas praias do Algarve nunca fez refrear a construção de hotéis ou de aldeamentos turísticos, nem motivou o impedimento de acesso dos veraneantes a algum areal mais vulnerável.

Vimos o tomilho-carnudo na ilha de Tavira, perto da praia do Barril, e também no Vale do Garrão, num dos fragmentos de pinhal que os espampanantes bairros de vivendas com palmeiras ainda não engoliram. Era aí que um pequeno arbusto, enchendo-se de brios por saber que morava num dos metros quadrados de areia mais caros do país, fazia desabrochar, adiantando-se ao calendário, as duas ou três primeiras flores da temporada.


Vale do Garrão

18.4.15

Suspiros com folhas de arruda



Pycnocomon rutifolium (Vahl) Hoffmanns. & Link

Guardámos o último dia da nossa estadia no Algarve, em Fevereiro, para visitar o Alvor, lugar que evoca o acordo assinado, em Janeiro de 1975, por Portugal e pelos movimentos de libertação de Angola. Chovia bastante e o ar impregnado de maresia saturava o ambiente, relembrando-nos que ali há outra ria, a de Alvor. Mais uma vez não é bem uma ria mas um pequeno rio, que reúne as águas de quatro ribeiras que nascem na serra de Monchique e que desaguam num estuário largo onde coabitam dunas cinzentas, praias, sapais salgados, terrenos agrícolas, mato natural e pinhal. Este é um habitat classificado como Sítio de Importância Comunitária, galardão que se espera suficiente para que seja devidamente conservado.

Parecia, junto ao caminho para a praia, que alguém fizera dispor inúmeros coxins verdes, de folhas muito divididas, com antenas espetadas, uma ou outra encimada por capítulos de flores brancas. Já nos tínhamos cruzado com estas plantas na Ponta da Areia, em Vila Real de Santo António, mas nessa altura circulávamos num passadiço alto que não permitiu fotografá-las em pormenor. Desafortunadamente, a chuva forte obrigou-nos a abreviar o passeio na praia mas, com dois guarda-chuvas tentando proteger fotógrafo e objectiva, foi possível registar estas flores de Inverno. Parece que a floração da planta atinge o auge no fim da Primavera; suspeitamos que, por essa altura, estes herbáceas altas de folhagem basal densa quase ocultarão a areia com o seu lençol de flores brancas.

O género Pycnocomon contém uma espécie da região mediterrânica (P. rutifolium, cuja distribuição conhecida em Portugal pode ser vista aqui), e um endemismo da Península Ibérica, Pycnocomon intermedium, de flores arroxeadas, que também aprecia solos arenosos, sejam do litoral ou do interior. O leitor pode comparar, nestas fotos sem salpicos de chuva, aspectos morfológicos das folhas, flores e frutos das duas espécies, e obter na mesma página mais informações sobre as suas preferências ecológicas.