16.12.14

Rosa rasteira & amarela pernalta




Centaurea luisieri Samp., Sabugal

De acordo com as regras da taxonomia, o nome desta asterácea rara deve ser Centaurea amblensis Graells, descrita em 1859 pelo naturalista espanhol Mariano de la Paz Graëlls y de la Aguera (1809-1898) nas Memórias da Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales de Madrid. O epíteto refere-se ao Valle de Amblés, na zona central da província de Ávila, vizinho da serra de Gredos onde esta planta também ocorre. Algumas Floras mantêm, contudo, a designação que Sampaio lhe atribuiu em 1916, a partir de exemplares portugueses que talvez tenha visto a sul do rio Douro, perto de Tabuaço. Sampaio escolheu o epíteto luisieri em homenagem a Alphonse Luisier (1872-1957), um jesuíta suiço que estudou os musgos da Madeira e da Península Ibérica.

A população das fotos, que só encontrámos porque o Miguel Porto e a Ana Júlia Pereira nos indicaram a localização, mora numa berma de estrada perto do Sabugal, na orla de terrenos cultivados que pareciam estar em pousio. Trata-se de um habitat de risco, em especial (e como já assinalou Franciso Clamote) pela "limpeza" regular dos taludes feita por entidades que não conhecem as plantas nem são informadas da sua importância ou raridade.

Esta herbácea é perene, de porte baixo, com uma roseta basal de folhas peludinhas, pinatífidas e de tom verde acinzentado; exibe no Verão, pelo que é então mais fácil de avistar, capítulos, grandes e redondos como pompons, de flores cor-de-rosa ou púrpura. É um endemismo ibérico, do noroeste da Península; as poucas populações conhecidas em Portugal são as registadas aqui.



Centaurea melitensis L.

A Centaurea melitensis, que é uma planta anual, é mais cosmopolita e fácil de encontrar. Não parece ser exigente quanto ao solo e aprecia bosques baixos e clareiras de matos. O epíteto também se refere a uma região, desta vez a ilha de Malta, que em latim se denominava Melita. As folhas são crespas, lanceoladas ou liradas, sésseis e de margens ásperas. O caule pode atingir os 80cm de altura e ao longo dele desabotoam inflorescências em geral solitárias, com espinhos longos a proteger flores pequeninas e amarelas. Vimo-la pela primeira vez na serra de Sicó mas também ocorre na Madeira e em algumas ilhas açorianas, onde é conhecida por cardo-beija-mão.

13.12.14

Nem Coimbra, nem Mondego



Lotus conimbricensis Brot.

Apesar dos incentivos, fiscais ou de outro teor, que alguns garantem existir, nunca como hoje se produziram em Portugal tão poucos bebés. Na expectativa de que a situação se altere, têm surgido novos e gigantescos hospitais pediátricos e centros materno-infantis, autênticos hotéis de cinco estrelas em que qualquer mãe gostaria de se hospedar, e em que qualquer bebé gostaria de vir ao mundo. Também têm, é verdade, encerrado serviços hospitalares e maternidades no interior do país, mas as atenções, cuidados e até luxos como aqueles que a medicina e a construção civil modernas podem proporcionar exigem que os nascimentos se concentrem nas principais cidades do litoral. Já lá vai o tempo em que era possível nascer em Santo Tirso, Vimioso ou Salvaterra de Magos. Agora nasce-se, se é que se quer nascer, em Coimbra, Porto ou Lisboa.

Não é certamente por culpa do Hospital Pediátrico de Coimbra, inaugurado em Fevereiro de 2011, que o grande botânico português Félix Brotero (1744–1828), se vivesse hoje, dificilmente reencontraria este Lotus em Coimbra. A Quinta das Sete Fontes, local onde originalmente Brotero colheu o Lotus conimbricensis, nome com que baptizou o achado no vol. 2 (de 1805) da sua Flora Lusitanica, foi sendo amputada com o crescimento urbano da cidade e, em meados do século passado, ficou reduzida a muito pouco com a construção do Hospital da Universidade de Coimbra. O novo Hospital Pediátrico foi apenas o derradeiro prego no caixão. Da antiga quinta sobram a casa, a capela e pouco mais, mas em Maio de 2000 a então proprietária pediu a classificação do conjunto ao antigo IPPAR. Mais de 14 anos depois, somos informados na página da Direcção-Geral do Património Cultural que a Casa das Sete Fontes (incluindo capela, edifícios anexos e mata) está desde 2007 em "vias de classificação", o que é uma espécie de pena suspensa sem fim à vista. Poderia pensar-se que o atraso na classificação e a indefinição de uma zona de protecção foram uma ajuda para que a construção do Hospital Pediátrico e dos seus acessos não sofresse percalços. A história, porém, é um pouco mais complicada. Os percalços de facto existiram, em parte porque as sete fontes insistiam em deitar água, mas a maior discórida, envolvendo IPPAR, Câmara de Coimbra e proprietários em cerrada disputa judicial, centrou-se na tentativa de demolição de uns velhos anexos agrícolas. Tenham eles permanecido de pé ou não, o certo é que, somando-se ao hospital, um novo prédio de habitação acabou por comer mais uma fatia do arvoredo.

Enfim, uma história como tantas outras do urbanismo nacional, a que o Lotus conimbricensis, que há muito terá abandonado a cidade do Mondego em busca de lugares mais propícios, é de todo indiferente. Esta planta anual de prados húmidos, cuja área de distribuição abrange o sul da Europa e o norte de África, e que em Portugal surge em quase todo o continente mas de modo muito esporádico, singulariza-se pela cor branca das suas flores, quando a maioria das suas congéneres dá flores amarelas. Outra particularidade já assinalada por Brotero é que cada pedúnculo sustenta apenas uma flor. Quanto a medidas, a planta é pouco avantajada: as hastes não têm mais que 20 a 30 cm de altura, e as flores, quase sempre em escasso número, ficam-se pelos 7 mm de diâmetro.

O único exemplar que encontrámos vivia no concelho de Vimioso, lugar onde as flores, ao contrário dos bebés, ainda têm permissão para nascer.


Freixos (Fraxinus angustifolia) em Campo de Víboras, perto do rio Maçãs

9.12.14

Mudar de cor




Quando vimos esta planta pela primeira vez, no leito seco do rio Sabor, tratámos de lhe dar uma família. Seria depois mais fácil atribuir-lhe um género. O aspecto geral ajudava pouco de tão bizarro: as folhas cinzentas e enrugadas, cobertas de pêlos estrelados; as flores minúsculas, umas femininas e esverdeadas, outras masculinas e amarelas, todas escondidas pela penugem; e, na base das folhas, duas rodelas brilhantes de néctar. Pois sim, não conhecíamos nada de semelhante.


Chrozophora tinctoria (L.) Raf.

Voltámos-nos então para os frutos na esperança de eles conterem alguma pista útil: redondos, com gomos, de pé longo, casca com umas escamas esquisitas, a lembrar... a lembrar... isso mesmo, algumas eufórbias. Daí ao género foi um instante, o Flora-On já tinha fotos desta planta.

É uma herbácea anual, comum no sul da Europa, norte de África e sul da Ásia. Ao deslindar a origem do nome, percebemos que afinal já nos tínhamos cruzado com ela. A designação Chrozophora deriva do grego e alude à tinta que esta planta produz; tinctoria diz quase o mesmo, acrescentando, porém, que a tal tinta, que é de um azul-violáceo, é um corante que é (ou foi) usado em tecidos, licores e massas. E também, aprendemos agora, nas tiras de papel de tornassol que serviram, nas experiências de Química na escola secundária, como indicadores de soluções ácidas (o papel reagia corando de rosa), das neutras (roxo) e das básicas (azul). Para ver um mero papel, liso e fininho, a animar-se, houve quem abdicasse da sua laranja ou do seu pacote de leite, que tinha reservado para o lanche. Pena que não lhe tivessem contado sobre a origem da tinta.


Rio Sabor

6.12.14

Iva aumenta


Ajuga chamaepitys (L.) Schreb.

O título pode trazer-nos um pico de visitantes, mas apressamo-nos desde já a desfazer equívocos: este texto não fala de impostos, embora muitos botânicos (não é essa a nossa prática) tratem as plantas como simples matéria colectável. Acontece que a planta de hoje é uma versão algo aumentada da iva, ou Ajuga iva se lhe quisermos dar o nome completo, uma diminuta planta de base lenhosa que ocorre com assiduidade nos terrenos calcários secos do centro e sul de Portugal. A Ajuga pyramidalis e a A. reptans, a última também usada como ornamental, completam o quarteto destas labiadas presentes no nosso país. Os traços de parentesco mais evidentes em todas elas são as flores pequenas, dotadas de um lábio inferior proeminente mas destituídas de lábio superior, e as brácteas grandes, semelhantes às folhas, bem maiores do que as flores.

A Ajuga chamaepitys, que tem a reputação de ser uma erva ruderal mas ultimamente se tem feito muito rara, revelando fraca adaptabilidade às mudanças nas práticas agrícolas e no uso dos solos, é uma planta anual (ou bienal, segundo alguns) que, pela nossa curta experiência (vimo-la apenas duas vezes), parece preferir terrenos descampados e secos sobre substratos calcários ou margosos. É uma planta ramificada e peluda, de não mais que 20 cm de altura, com flores amarelas de cerca de 2 cm de diâmetro. As folhas, que são divididas em três segmentos compridos e estreitos, quase lineares, dispõem-se de forma muito densa e dão à planta uma vaga semelhança com um rebento de pinheiro. Assim se explica o epíteto chamaepitys, palavra grega composta de chamae, que significa rasteiro, e de pitys, pinheiro. A mesma comparação é retomada no nome ground-pine que os britânicos dão a esta espécie. Curiosamente, a própria planta parece ter interiorizado a analogia, esforçando-se por torná-la mais completa, já que, ao que consta, as suas folhas rescendem a pinho quando esfregadas.

2.12.14

Erva dos pincéis



Staehelina dubia L.

Estas fotos são antigas, do Verão de há uns dois anos e, estranhamente, não condizem com a memória que tínhamos desta planta. Lembramo-nos dos talos ramificados, dos capítulos de flores com pé alto, das brácteas imbricadas manchadas de vermelho e da folhagem em tom verde-escuro, mas não destas caudas de gatinho com tanto pêlo branco. Dir-se-ia que o Verão das fotografias também teve o seu Inverno. Lemos entretanto na Flora Ibérica (em rascunho) que, quando jovens, as componentes desta planta são até mais lanudas e grisalhas, como se prematuramente envelhecidas. Por certo esta penugem protege-a do vento, ou agasalha-a quando sobe a alturas inóspitas, até porque é frequente encontrá-la desabrigada nos anfiteatros das serras calcárias do centro e sul do país.


Pombal: vale dos Poios

É nativa do oeste da região mediterrânica e, por cá, também há registo dela nos torrões calcários do nordeste e no solo margoso do horst de Cantanhede. Contudo, não a encontrámos nos afloramentos de calcário cristalino e negro de Campanhó, no Marão.

O epíteto dubia está explicado na obra Species Plantarum, onde, a páginas tantas, Lineu comenta que esta planta lhe parece intermédia entre as dos géneros Serratula, Gnaphalium e Staehelina propriamente dita (comparando-a com espécies africanas ali igualmente descritas), sugerindo então que se espere pela frutificação para decidir sobre a identificação da espécie. Agora já não há dúvidas, mas a indecisão de Lineu fará sempre parte da história desta planta.

29.11.14

Dormir é viver



Romulea ramiflora Ten.

São muitas as plantas que ficam reduzidas a bolbos subterrâneos durante nove ou dez meses em cada ano. Vivas mas adormecidas, preparam-se para a glória breve que é o despontar anual para a luz do sol. As romúleas, florescendo logo nos primeiros meses do ano, quase nos passam despercebidas, ainda que sejam comuns de norte a sul do país. Saem da toca quando ainda estamos recolhidos, e regressam a ela quando nos preparamos para sair. Não é um desencontro infeliz, pois elas dispensam bem a nossa atenção, bastando-lhes que os insectos polinizadores para os quais se enfeitam respondam à convocatória.

Em Portugal ocorrem espontaneamente apenas quatro espécies de Romulea, o que é motivo de embaraço se compararmos com as 60 ou mais espécies que são nativas da África do Sul. Ainda assim, a nossa diversidade é suficiente para por vezes confundir botânicos tanto amadores como profissionais. A espécie mais comum, R. bulbocodium, tem uma ecologia muito variada e pode apresentar flores que vão de um roxo carregado a um lilás pálido, chegando mesmo a ser brancas. Ao longo do litoral norte, ocorre uma segunda espécie, a R. clusiana, que só se distingue da anterior (com a qual muitas vezes convive) pelas flores maiores e mais vistosas. Se atendêssemos apenas ao número de registos no portal Flora On, as duas restantes espécies - R. columnae e a que hoje apresentamos, R. ramiflora - seriam muito raras no nosso país. Conclusão algo precipitada, pois ao surgimento fugaz típico do género as romúleas juntam a dificuldade de identificação: pode haver quem as veja, mas não as reconheça; ou, por causa da grande variabilidade dentro de cada espécie, não esteja seguro do que vê. Arrumar o mundo vegetal em espécies estanques, com fronteiras bem definidas, é uma construção humana que nem sempre se ajusta à realidade.

Não é pela cor das flores nem pelo seu tamanho, em ambos os casos à roda dos 2 ou 3 cm, que a Romulea ramiflora se diferencia fiavelmente da R. bulbocodium. O carácter distintivo mais importante é que na primeira as anteras são mais altas do que o estilete, envolvendo-o e ocultando-o, e na segunda a relação inverte-se, com o estilete claramente destacado das anteras (como se vê nesta foto). Outra diferença assinalável, a confirmar à lupa, é que na R. bulbocodium a bractéola na base da flor é formada por uma membrana transparente (os botânicos dizem-na escariosa; pode vê-la aqui), enquanto que na R. ramiflora a bractéola é verde, podendo no entanto ter uma margem "escariosa" mais ou menos estreita (quarta foto em cima). Como tira-teimas, pode ainda notar-se que na R. ramiflora as três tépalas mais externas têm um verso de tonalidade esverdeada, e que na R. bulbocodium o tom é escuro, entre o roxo e o castanho.

Por muito cristalino que pareça este receituário, fica o leitor avisado de que são frequentes os casos em que ele se revela ineficaz, pois as romúleas são useiras e vezeiras em desobedecer às especificações dos manuais. Depois de muito falso alarme, só umas romúleas de Salir do Porto (não as que existem no local da foto abaixo), que visitámos no final de Fevereiro para ver um endemismo lusitano, é que passaram no teste para serem chamadas R. ramiflora com razoável grau de certeza.


São Martinho do Porto

25.11.14

Erva dos cinco dedos


Castro Vicente - rio Sabor ao fundo

Visitar os afloramentos calcários de Castro Vicente ou das minas de Santo Adrião é como entrar numa livraria esmerada e sem lacunas: lá encontramos os clássicos, os de leitura obrigatória, os recomendados, os de elevada qualidade, os dignos de apreço, os ainda não lidos, os menos virtuosos e alguns já preparados para serem esquecidos. A impressão que nos domina é a de que nunca conseguiremos ler tudo, e de que nem todos os livros têm por destino envelhecer numa biblioteca. Resta-nos o consolo de saber que, apesar de a biblioteca de plantas conter infinitas possibilidades, que o acaso proporcione e a natureza consinta, ela será sempre finita.



Dorycnium pentaphyllum Scop.

A planta das fotos, uma herbácea airosa e robusta de flores minúsculas, é uma aquisição com alguns meses que tem estado na pilha das novidades a aguardar a sua vez. Foi boa ideia esperarmos até agora para a mostrar: nestes dias cinzentos de aguaceiros, voltar ao Verão e ao nordeste pelas imagens de plantas tem sido um exercício revigorante. O que se nota nestes pequenos arbustos perenes? A folhagem, que é de um verde acetinado; as folhas com cinco folíolos por vezes desiguais; e as inflorescências em capítulos de flores com corola de estandarte e asas brancas. O fruto é uma vagem ovóide com uns 5 mm de comprimento, a lembrar uma azeitona com costura.

Estes exemplares estavam em solo pedregoso, exposto ao sol e em sítio árido. Ainda assim, chegavam a uns 80 cm de altura e faziam uma bela sombra a muitas orquídeas e a mais algumas preciosidades. Em Portugal continental há registo de mais duas espécies deste género, o D. rectum (abundante em juncais e em margens de lagoas e charcos, cujos frutos parecem salsichas) e o D. hirsutum, planta do litoral algarvio que ainda não vimos.

22.11.14

A primeira dúzia



Veronica scutellata L.

Se a evolução nos tivesse concedido seis dedos em cada mão, talvez não fôssemos muito mais hábeis em trabalhos de bricolage, mas seríamos incomparavelmente melhores a fazer contas de cabeça. E talvez essa maior facilidade na aritmética tivesse permitido que a ciência e o progresso material a ela associado se desenvolvessem uns séculos mais cedo. Infelizmente, é impossível começar de novo para sabermos que diferenças teria a História para registar se, no início de tudo, em vez de escolhermos o 10 como base de numeração, tivéssemos optado, como seria racional, pelo 12. O 12 tem mais divisores do que o 10, e por isso o sistema de numeração duodecimal permite que mais fracções se exprimam como dízimas finitas - ou, dito de outro modo, há mais contas de dividir que dão resultado exacto. Por exemplo, na base 10, a fracção 1/3 escreve-se 0,3333..., mas na base 12 a mesma fracção escreve-se simplesmente 0,4. Muito se pouparia em tempo e confusão quando no restaurante chegasse a hora de dividir a conta por 3 convivas (ou 4, ou 6, ou mesmo 8, 9 ou 12) já meio tocados pela bebida. Os pequenos inconvenientes de termos de inventar dois símbolos adicionais para os novos algarismos (um para o 10 e outro para o 11), e também de decorar tabuadas maiores, seriam rapidamente compensados pela maior agilidade nos cálculos. Mas o 10 continua a mandar, e mesmo na época dos computadores e da comunicação global instantânea continuamos a atribuir uma importância supersticiosa aos seus múltiplos, celebrando os dez anos disto e os cem anos daquilo com uma seriedade inapropriada, quando afinal tudo se deve ao número de dedos que calhou termos nas mãos.

Ao contrariarmos essa tendência hegemónica, não queremos inaugurar uma nova era. Reinvidicamos apenas o direito de ignorar o dez e, porque não queremos substituir uma superstição por outra, de assinalar o doze sem grandes foguetes comemorativos. Escolhemos por isso um doze que, completando-se hoje, não marca uma efeméride muito relevante. Acontece apenas que esta é a 12.ª verónica que mostramos no Dias com Árvores. (Sim, este blogue já fez 10 anos. Quando fizer 12, também não iremos chamar a atenção para isso.)

Apesar de as suas flores serem em geral diminutas, as verónicas são facilmente reconhecíveis pelas quatro pétalas assimétricas e pelos dois estames muito salientes. No capítulo da ecologia, o género Veronica é dos mais versáteis da flora portuguesa, com um leque de espécies que abrange plantas ruderais como a Veronica persica e outras raras ou mesmo endémicas como a V. micrantha (exlusiva do noroeste peninsular) e a açoriana V. dabneyi. A V. scutellata, a que os anglo-saxónicos chamam grass leaved speedwell ou skullcap speedwell, é pouco comum em Portugal (veja aqui um mapa de registos) mas distribui-se por toda a Europa e América do Norte. Habitante de lugares encharcados, não atingindo mais que os 60 cm de altura, distingue-se pelas folhas compridas (até 7 cm) e lanceoladas, com vinco central bem marcado, e sobretudo pelas inflorescências sustentadas por pedúnculos finos e muito longos, saídos das axilas das folhas.

18.11.14

As duas vidas do sabugueiro

Passeávamos por um juncal na foz do rio Coura, que em Caminha se une ao rio Minho, quando, entre muitos pés de Samolus valerandi e Centaurium spicatum, vimos uma fiada de arbustos que nos pareceram sabugueiros em flor. Porém, a memória guarda, para nossa segurança, um razoável guião do mundo que já vimos, e é por isso capaz de uma vigilância que chega a surpreender-nos: apesar de fazerem lembrar os sabugueiros comuns, estes sabugueiros minhotos tinham textura herbácea (o S. nigra tem caule e ramos lenhosos) e as suas folhas, de cor verde-alface, exibiam pínulas anormalmente grandes. Para reforçar a estranheza, as anteras (onde está o pólen) eram de cor púrpura, não amarelas como as do Sambucus nigra.

Lembrámo-nos de que já havíamos lido aqui sobre uma outra espécie de Sambucus espontânea em Portugal continental. Confirmámos então que o que encontrámos em Caminha foi mesmo o S. ebulus, apesar de oficialmente em Portugal ele só ocorrer no Algarve, Alto Alentejo, Beira Alta e Trás-os-Montes. Sabemos agora que à lista deve acrescentar-se o Minho, terra de muitos ribeirinhos e bosques como os sabugueiros gostam.




Sambucus ebulus L.

Esta é uma erva estolhosa, perene e com rizoma, que pode atingir os 2 metros de altura (o S. nigra sobe mais, até aos 10 m) e exala um odor característico dos sabugueiros, que nos parece nauseante mas que atrai muitos polinizadores. Os frutos são bagas que amadurecem negras enquanto as folhas ganham o tom alaranjado de Outono.

O nome científico, atribuído por Lineu em 1753, não tem parentesco com o vírus doentio, mas o epíteto talvez se refira, como no caso do rio Ébola (de «águas brancas») no Congo, à medula esbranquiçada dos caules, o sabugo.

15.11.14

Quem vê folhas não vê florações




Laserpitium eliasii Sennen & Pau subsp. thalictrifolium (Samp.) P. Monts.

A chamada sabedoria popular, repositório do senso comum mais comezinho em que vale tudo e o seu contrário, pode ter algum préstimo desde que saibamos fazer as necessárias adaptações. Assim, o provérbio glosado no título pode, se quisermos, alertar-nos para o facto de aquilo que observamos ser apenas uma parte talvez enganadora da realidade. No inocente passatempo de botanizar, esse princípio aplica-se de modo literal quando insistimos em dar nome a uma planta que se nos apresenta em estado vegetativo, sem flores ou frutos que facilitem a identificação. Nalguns casos, a possível confusão com outras espécies é reconhecida no próprio nome científico. Serve de exemplo a umbelífera de hoje, em que o epíteto thalictrifolium denuncia a semelhança da sua folhagem com a do Thalictrum. Se atentarmos no penacho dourado que é a inflorescência do mesmo Thalictrum, reconhecemos contudo que não há engano possível quando alguma das plantas está em flor.

O género Laserpitium, nome escolhido por Tournefort mas validado por Lineu, inclui 14 ou 15 espécies europeias. São plantas perenes, robustas, capazes de atingir metro e meio de altura, de caule maciço e estriado, com folhas pinadas divididas até quatro vezes. As flores são brancas, em geral com estames longos e recurvados, e os frutos apresentam quatro bandas membranáceas longitudinais de largura variável. O Laserpitium eliasii, de que estão descritas três subespécies de diferenciação nem sempre clara, é um endemismo ibérico confinado ao norte de Espanha e de Portugal; por cá só se reconhece a presença da subespécie thalictrifolium, que ocorre com alguma assiduidade no nosso único parque nacional, em carvalhais e outros bosques húmidos de montanha, mas fora dele quase nunca se vê.

A descrição original do Laserpitium eliasii foi publicada em 1907 no Boletin de la Sociedad Aragonesa de Ciencias Naturales por dois estudiosos da flora espanhola: o francês Étienne Marcellin Granier-Blanc (1861-1937) e o valenciano Carlos Pau (1857-1937). O primeiro, que foi membro da comunidade católica dos Irmãos de La Salle, adoptou o nome religioso de Frère Sennen; a sua actividade como botânico e explorador estendeu-se a França, Espanha e Marrocos.