20.9.04

Catedrais

«Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas raízes, nos teus versos. Porquê tantas?

É verdade. As terras fronteiriças do Chile infiltraram as suas raízes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida é uma longa peregrinação que anda sempre às voltas, que retorna sempre ao bosque austral, à selva perdida.

Ali, é certo, as grandes árvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furacão, ou queimadas pela neve, ou destruídas pelo incêndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as árvores titânicas, (...)com estrondo de catástrofe surda, como se batessem com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura. As raízes, porém, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à humidade, aos líquenes, ao aniquilamento progressivo.

Nada mais belo do que aquelas grandes mãos abertas (...) que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da árvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os músculos profundos do domínio vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: são esculturas da profundidade - obras primas secretas da natureza.»

Pablo Neruda, Confesso que vivi (1975)

1 comentário :

manueladlramos disse...

Ai Araucanos, Araucanos...
A que nos forçam as árvores. À lista das razões que as fizeram cair «com estrondo de catástrofe surda, como se batessem com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura» juntar também o desgosto. No?
A poesia tem realmente um efeito redentor( mesmo que temporário). Como gosto de o ler apesar de tudo.
Ainda não recuperei da surpresa.