10.12.07

De saias


Limonium sinuatum

«Por causa das cantigas, dos poemas, dos fados ou do cor-de-rosa das colinas, Lisboa sempre foi mostrada como mulher. Como tal, maquilhou a imagem feminina que com o tempo foi poisando dentro de nós. (...) Apesar da cantoria, quando entrávamos no íntimo da cidade e percorríamos os bairros típicos, logo verificávamos que era o masculino que dominava. Nas Tabernas, nas Sociedades Recreativas, nas Casas Regionais, nos bares ou nos cafés, a cidade era dos homens. Os mais velhos gostavam de contar a surpresa que foi ver na Segunda Guerra as mulheres refugiadas sentarem-se na Suíça ou na Brasileira de perna cruzada a tomar café e puxar do seu cigarro...

Hoje Lisboa é muito mais feminina. Enquanto os homens recuaram até à maior ambiguidade. As mulheres estão muito mais bonitas e insinuantes. Fazem dos seus gestos, dos seus olhares e dos lábios pequenos fragmentos de arte. Não hesitam em dizer frontalmente que já não há homens e, o mais espantoso, é que lhes assiste uma comprovada razão. (...) As mulheres de Lisboa olham agora os homens com uma indisfarçável sobranceria. Rodeiam-nos com o seu sopro e os seus perfumes e sabem que eles tremem. E quanto maior é a copa, mais o arvoredo abana sob o vendaval. E elas sabem que com um pouco mais de sopro, até as mais altas árvores acabam por cair.»

Manuel Hermínio Monteiro, in K, nº 3 (1990)

1 comentário :

lucia disse...

Maria, olá
Gostei muito desta referência as nossas saias e a seus ares de liberdade. Oxalá, as saias assumam cada vez mais não somente a forma em algumas flores, como nos brincos de princesa e esta linda vestida de azul e branco, mas também a sua defesa!!!