26.9.09

Um rio só se mata uma vez




Serra do Alvão: pinheiros-bravos (Pinus pinaster Aiton) nas margens do rio Ôlo, perto das Fisgas de Ermelo

Logo após deslizar por uma sucessão de piscinas naturais talhadas no granito, o rio Ôlo encontra as Fisgas de Ermelo, onde se precipita numa cascata com um desnível de duas centenas de metros. Mas não é esse fenómeno natural que mata o rio: incólume apesar da queda, ele prossegue o seu curso, agora menos acidentado, até se juntar ao Tâmega, em Fridão.

Quem tudo fez para matar o rio foi o coveiro dos nossos espaços naturais: o mesmo que usa o risível pseudónimo de ministro do ambiente e que está, felizmente, de saída do cargo (oxalá não volte). O programa de construção de barragens apadrinhado pelo governo prevê nada menos que cinco novas barragens na bacia do Tâmega, todas acima de Amarante. Uma delas, a de Fridão, apenas seis quilómetros a montante da cidade de S. Gonçalo, armazenará uma massa de água capaz de submergir Amarante num abrir e fechar de olhos. Outra, a de Gouvães da Serra, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, seria em parte alimentada por um transvase do rio Ôlo; com quase todo o seu caudal desviado para norte pouco depois da nascente, o rio praticamente desapareceria.

A Iberdrola, empresa eléctrica espanhola à qual caberá construir e explorar as quatro barragens no Alto Tâmega (a barragem de Fridão calhou à EDP), poderia, se quisesse, fazer o transvase do rio Ôlo, pois era isso que estava previsto na concessão que lhe foi entregue pelo governo português. Mas, a 3 de Fevereiro passado, em sessão pública na Faculdade de Engenharia do Porto, um responsável da Iberdrola explicou que a «empresa decidiu não efectuar o transvase do rio Ôlo – embora concessionado no projecto – porque seria um grave crime ambiental destruir a cascata de Ermelo». (Mais detalhes nesta página.)

É sem dúvida edificante. O governo leva de bandeja um rio ao altar do sacrifício, mas o oficiante da cerimónia, incumbido do acto sangrento, recusa-se a executá-lo por entender tratar-se de um grave crime ambiental. São os empresários espanhóis, e não o governo da república portuguesa e os seus ministros, que zelam pela integridade do Parque Natural do Alvão. Ao lançar um infame «programa nacional de barragens» que vai destruir o Sabor, o Tua e o Tâmega, o governo assumiu-se, em relação ao interior norte do país, como potência colonial ocupante, explorando para exclusivo benefício seu e dos seus amigos as riquezas naturais dos territórios subjugados.

4 comentários :

Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega disse...

Esta é uma excelente nota de divulgação de uma matéria que tem andado arredada da comunicação e do esclarecimento devido ao bom povo português.
Pelo facto, tomámos a liberdade de o transcrever em http://artigosediscussao.blogspot.com/2009/09/um-rio-so-se-mata-uma-vez.html, site/blogue do Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega http://cidadaniaparaodesenvolvimentonotamega.blogspot.com/
José Emanuel Queirós

Paulo Araújo disse...

Fico satisfeito se este texto servir para alguma coisa. Escrevi-o como desabafo, e por ser desolador que as matérias ambientais (em que o governo cessante foi sem dúvida o pior de sempre) tenham tido tão pouca importância eleitoral.

Aproveito para declarar o meu apreço e solidariedade pelo movimento em defesa do rio Tâmega. Um trabalho como esse é árduo e quase sempre frustrante, mas traz a semente de um futuro melhor.

Movimento Cidadania para o Desenvolvimento no Tâmega disse...

Bem haja pela sua iniciativa. A Terra compensará no seu jardim feito de árvores.
José Emanuel Queirós

Diário de Lisboa disse...

Muito obrigado pela denuncia, muito obrigado pela lição de cidadania, muito obrigado...