8.5.10

Distância de segurança


Dulverton - condado de Somerset, Inglaterra

......Houve uma tempestade, desvairou uma fúria de ventos para os lados de Grodemil, arrepiou e levantou as águas da Lagoa Moura, zurziu a floresta e obrigou um pinheiro a largar uma rija penada sobre o telhado da velha-vivenda-de-passar-férias-e-trocar-de-aborrecimentos.
......Nessa ocasião, ainda não se encontrava em vigor a norma legal que obriga os proprietários a eliminar a vegetação cinquenta metros em redor das casas e que vai necessariamente provocar uma absoluta desertificação do país a norte do Guadiana.
......Na verdade, o nosso legislador é abstracto e geral, tão abstracto e geral que se desinteressa do que sejam dez metros, dezassete metros, quanto mais cinquenta metros. Deve ter considerado desprimoroso dar-se ao trabalho de comprar uma fita métrica dessas extensíveis que há no mercado e medir a distância no terreno. (...)

......Esta repugnância comichosa do legislador pelos números não é novidade. Em 1974 considerou que o direito de manifestação podia ser impedido a menos de cem metros de determinados edifícios o que tornaria praticamente impossíveis os protestos colectivos em qualquer município, a começar por Lisboa. (...) Imagino um governante a chegar a casa, a dizer ao mordomo (publicamente apresentado como «um primo da província, coitado, que vive cá em casa»): «Andrade, passe-me aí um uísque velho com soda que tenho de comemorar uma coisa.» E para a mulher, que acorria em roupão: «Imagine, Maria de Santa Clara, que conseguimos regulamentar o direito de manifestação, à semelhança do mundo civilizado. Não me felicita?» E, depois, «Olhe, o que é exactamente um metro?»
......Mas essas épocas alucinadas passaram e não custaria a um ministro arranjar um rolo de fio (para isso é que há contínuos) e desenrolá-lo no jardim da mansão de São Bento, a partir dos degraus, até parar no primeiro muro. Aplicando-lhe depois uma fita métrica, e medindo o fio, segmento a segmento, descobriria, após um olhar cauteloso em volta: «É pá, isto ia tudo raso e nem chegámos ao muro.»

......Mário de Carvalho, A arte de morrer longe (Editorial Caminho, 2010)

1 comentário :

miguel disse...

Muito interessante a "paródia" com problema tão sério.