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20/05/2007

Cebola-da-Pérsia



Cansei os braços
a pendurar estrelas no céu.
Destino dos fados lassos.
Tudo termina em cansaços
braços
e estrelas
e eu.


António Gedeão, Balão Esvaziado (in Movimento Perpétuo, 1956)


Allium cristophii

25/11/2006

Centenário



Se com flores se fizeram revoluções
que linda revolução daria este canteiro!


António Gedeão

07/10/2006

Esporas-bravas


Linaria triornithophora


Viajei por toda a Terra
desde o norte até o sul;
em toda a parte do mundo
vi mar verde e céu azul.

Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão,
universais, como as dores
do mundo
que em toda a parte se dão.


António Gedeão, Lírio roxo, in Teatro do Mundo (1958)

27/10/2005

"Não há, não, duas folhas iguais em toda a criação"

.

Foto: manueladlramos 2002- Detalhe da estampa VII da Flora Lusitanica (1804) de F. Avelar Brotero
(exemplar da Biblioteca do Instituto Botânico do Porto)

Pastoral
Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
baínha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.


Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.
António Gedeão (Poesias Completas, 1956-1967 )
.

17/08/2005

Poema das coisas belas

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivo serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do Sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando coisas percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

António Gedeão, Poemas póstumos (1987)


Foto: pva 0506 - Gloriosa superba «Rothschildiana» - Kew Gardens

28/08/2004

Amanhã...

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados
nelas.
Tudo volta ao princípio.

António Gedeão, Novos poemas póstumos (1990)