Vozes de Outono

Pintura: Ode to the Sound of Autumn -Kim Hong-do (1745 - 1806?) © Ho-Am Art Museum
«Eu, Ao-Iéong-Tze, estava de noite lendo, quando se ouviu aquele rumor, das bandas do Sudoeste. Ao ouvi-lo reflecti, em um sobressalto:
-É singular! A princípio há o tamborilar da chuva, -que depois se transforma na zoada do vento, para logo, em um vertiginoso crescendo, dar lugar a estes estampidos, como de grandes vagas apavorando a noite. O vento e a chuva, precipitando-se em turbilhões, encarniçam-se contra o que se lhes defronta; é uma conflagração retumbante de todos os metais ressoando. Tais os guerreiros, avançando para o combate, ferram os dentes na mordaça e aceleram a carreira, não se lhes ouvindo gritos de incitamento ou de medo, mas só o estrupido dos peões e dos cavalos em marcha...
Pergunto ao meu moço discípulo.
- Aqueles sons o que são? Vai fora e informa-te.
Responde-me, voltando:
- No céu brilham puras as estrelas e a Lua; a Via Láctea esplende. Para todos os lados não há voz humana. São vozes do arvoredo...
E eu então:
- Ai, ai! Oh dor! Todas estas vozes outonais de onde será que procedem? »
Camilo Pessanha -tradução do poema em prosa de Ouyang Xiu (1007-1072) publicada pela 1ª vez em Janeiro de 1918 na revista Atlântida (Lisboa)
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