Mostrar mensagens com a etiqueta Marsileaceae. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marsileaceae. Mostrar todas as mensagens

30/12/2013

A cultura do milho no Baixo Vouga


Pilularia globulifera L.


Há plantas que, não tendo interesse económico para quem cultiva a terra, assumem preferências ecológicas que as fazem depender dos ciclos de sementeiras e colheitas, fazendo-se convidadas em lugares onde as práticas agrícolas reconstroem ou conservam os habitats a que elas se afeiçoaram. Algumas tornam-se infestantes indesejáveis, outras acrescentam cor e naturalidade a uma paisagem artificial, outras ainda são tão discretas que nem sequer damos pela sua presença. Os fetos da família das Marsileáceas, que engloba os géneros Marsilea e Pilularia, incluem-se nesta última categoria. Gostam de ficar submersos até ao início da Primavera; mas, para produzirem os esporocarpos que asseguram a sua propagação, exigem que o nível de água baixe, e de preferência se reduza a zero, à medida que o Verão se aproxima. Os campos onde o arroz é cultivado têm por hábito cumprir estes requisitos, e por isso a Pilularia globulifera, tanto em Portugal como noutros pontos da sua distribuição (que é exclusivamente europeia), costumava dar-se bem em arrozais. Se, porém, num país onde tanto arroz se come, o cultivo do cereal não está em risco, o mesmo não acontece com este minúsculo feto, certamente vulnerável a práticas agrícolas modernas como o uso de químicos e de maquinaria pesada.

Em Portugal há registos antigos da Pilularia globulifera no litoral português ente o Sado e o Cávado, com especial incidência no Baixo Vouga. É verdade que as suas frondes filiformes, com 5 a 10 cm de comprimento, se podem facilmente confundir com tufos de gramíneas, conquanto um observador mais atento note que as folhas mais jovens têm as pontas caracteristicamente enroladas; mas, nos locais onde ocorre, geralmente em lugares abertos sobre substratos ácidos, ela pode forrar vários metros quadrados de terreno, e não escapará ao olho atento dos especialistas. A menos que os botânicos portugueses se tenham desinteressado dela, é de recear que a quase ausência de observações da erva-das-pílulas (nome acabado de inventar, inspirado pelo inglês pillwort) nas últimas décadas signifique que ela está em vias de desaparecer do nosso país. Este «quase» que introduzimos na frase é mérito de Rui Soares: graças a ele, que encontrou a planta na orla de um campo de milho entre Cacia e Angeja, e teve a amabilidade de nos avisar, ainda não foi em 2013 que lhe foi passada a certidão de óbito.

Acontece que não é o milho a companhia ideal da erva-das-pílulas: ela sempre deixou claro que prefere o arroz, cultura que antes predominava nestes campos baixos e frequentemente inundados. A drenagem dos terrenos e a substituição das culturas significa de facto uma condenação a muito breve prazo. Talvez o reaparecimento da planta em 2013 seja apenas um último estertor, sem direito a encore nos anos vindouros. Por altura da nossa primeira visita, no início de Maio, alguns campos haviam já sido lavrados para a plantação do milho, mas aquele onde morava a Pilularia teria beneficiado de uma moratária por estar ainda muito encharcado. Quando, no fim de Junho, regressámos com intenção de fotografar os esporocarpos (as tais minúsculas pílulas, com 3 a 4 mm de diâmetro, que surgem junto ao rizoma e justificam o nome da planta), já o campo fora revolvido por tractores e o milho plantado em rigoroso alinhamento. Da Pilularia não sobrava nada.

Se estivéssemos num país onde a protecção da biodiversidade passasse do discurso à prática, esta (re)descoberta seria notícia de primeira página. Os organismos de protecção da natureza acorreriam alvoroçados, e ninguém consideraria descabido que o Estado ou alguma associação conservacionista financiassem o proprietário de um terreno de um ou dois hectares para assegurar a sobrevivência da espécie. Sendo as coisas como são, ninguém mexerá uma palha, muito menos uma espiga de milho, e o achado merecerá quando muito um parágrafo adicional no (eternamente adiado) Livro Vermelho da Flora Vascular Portuguesa.

29/11/2011

Imposturas vegetais

Marsilea hirsuta R. Br. [= Marsilea azorica Launert & Paiva]
Quanto mais alto se sobe, maior é a queda: eis um dito que se aplica a usurpadores ou vigaristas apeados no auge da carreira, mas que parece inapropriado quando se fala de plantas ou de bichos. No entanto, plantas e bichos também podem cair em desgraça. Na Austrália, coelhos e gatos, que tanta gente acarinha como animais de estimação, são alvo de impiedosas campanhas de extermínio por se terem reproduzido descontroladamente em ambientes naturais. E, aqui ou na Austrália ou em muitas outras paragens, são inúmeras as plantas introduzidas como ornamentais que se transformaram em pragas de impossível erradicação. Com a consciência gradual dos estragos que as espécies exóticas, animais ou vegetais, podem causar, a nossa escala de valores alterou-se: a «beleza» das mimosas (Acacia dealbata) não nos deve impedir de reconhecê-las como árvores daninhas e indesejáveis no nosso país.

Nada disto nos preparou para a revelação de que a Marsilea azorica, um raríssimo endemismo açoriano de que se conhecia uma única população em todo o arquipélago (na Terceira), é afinal uma planta exótica e potencialmente invasora. De seu verdadeiro nome Marsilea hirsuta, é originária da Austrália e terá chegado à Terceira por via dos EUA, onde, no estado da Florida, se tem vindo a comportar como colonizadora agressiva de ecossistemas aquáticos. Foram os botânicos Hanno Schaefer, Mark A. Carine e Fred J. Rumsey, em artigo científico acabado de publicar (disponível aqui), que desmascararam a pretensa Marsilea «azorica».

É verdade que a singularidade da distribuição deste feto, encontrado nos Açores pela primeira vez em 1971 e descrito como uma nova espécie, endémica do arquipélago, em 1983, tinha já suscitado a estranheza de alguns botânicos. Vale a pena reproduzir o comentário que Carlos Aguiar aqui deixou em Dezembro de 2010: A distribuição desta planta nos Açores é surpreendente: uma lagoa na berma de uma estrada movimentada, na ilha Terceira. Não me surpreenderia que um dia alguém descobrisse que se trata de um neófito de origem neotropical.

Apesar das dúvidas em surdina, a Marsilea «azorica» sempre recebeu as maiores honrarias. Foi incluída na lista vermelha da IUCN com o estatuto de espécie em perigo crítico; e, no livro Flora Vascular dos Açores — Prioridades em Conservação, de Luís Silva et al. (edição Amigos dos Açores, 2009), aparece em primeiro lugar entre 90 espécies, como aquela cuja conservação é mais prioritária.

Tudo galardões de que a australiana Marsilea hirsuta não tardará a ser despojada. Contudo, ficam ainda muitos genuínos endemismos açorianos de que importa cuidar. O mais ameaçado é talvez o Myosotis azorica, em vias de extinção nas Flores (o Corvo é a única outra ilha onde ele ocorre) por causa dos rebanhos de cabras devoradoras que os serviços da Secretaria Regional do Ambiente se recusam a controlar.

Deparia petersenii (Kunze) M. Kato [= Diplazium allorgei Tardieu]
Vem a propósito deslindar uma história algo semelhante envolvendo outro feto colectado nos Açores. Em Dezembro de 1938, foi publicado, na revista Notulae Systematicae (vol. VII, fasc. 3), um artigo de Tardieu-Blot com o título «Sur un Diplazium des Açores» [clique no título para ler o artigo], descrevendo uma nova espécie a que a autora chamou Diplazium allorgei. A confusão, de acordo com Schaefer e seus co-autores, só seria desfeita quatro décadas mais tarde (em 1975 ou 1977), quando W. A. Sledge revelou, na Fern Gazette, que o hipotético endemismo açoriano era indistinguível da asiática Deparia petersenii.

A história, contudo, não se passou exactamente assim. Nada indica que alguma vez alguém tenha considerado esse feto como endémico dos Açores. A própria Tardieu-Blot considerava-o como possivelmente introduzido, embora não soubesse de onde ele teria vindo. Mais: Tardieu-Blot reconhecia que o seu feto e o Diplazium petersenii (nome que então se dava à Deparia petersenii) eram muito semelhantes, mas entendia haver diferenças suficientes para definir uma nova espécie.

Em 1943, Rui Teles Palhinha (1871-1957) publica, no Boletim da Sociedade Broteriana (vol. 17), uma lista dos «Pteridófitos do arquipélago dos Açores» [clique no título]. Entre os fetos por ele considerados como «subespontâneos ou fugidos de cultura» encontra-se o Diplazium petersenii, «da China, Índia e Java»; não há menção ao Diplazium allorgei. No seu livro póstumo Catálogo das plantas vasculares dos Açores, de 1966, Palhinha parece ter mudado de opinião: faz desaparecer o Diplazium petersenii para o substituir pelo Diplazium allorgei, deixando porém a hipótese de este ser de origem asiática ou sul-americana.

Acontece que, de facto, Palhinha não mudou de opinião. As páginas sobre pteridófitos no livro póstumo não foram escritas por ele mas sim pelo editor A. R. Pinto da Silva, o qual, conforme esclarece o prefácio, se baseou no artigo de 1943 de Palhinha e num outro de 1961 de Pierre Dansereau. Havendo, como há neste caso, discrepâncias entre o livro póstumo e o artigo de 1943, a opinião de Palhinha é a que está no artigo e não a do livro. É pois plausível afirmar que W. A. Sledge, em 1975 ou 1977, não revelou nada que em 1943 Palhinha não soubesse já.

Como nota final, assinale-se que João do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, adopta o nome Diplazium allorgei. Mas considera-o uma espécie introduzida de origem sul-americana — o que, embora não seja correcto, se explica pela circunstância de o feto estar igualmente naturalizado no Brasil.

Em conclusão: o Diplazium allorgei nunca foi seriamente considerado como um endemismo açoriano, e desde sempre foi conhecida a possível sinonímia entre Diplazium allorgei e Diplazium petersenii (= Deparia petersenii). Afinal a história nem sempre se repete.

13/10/2010

Deixem passar o Sr. Presidente

Marsilea azorica Launert & Paiva
Nota prévia (Novembro de 2011). O texto que se segue foi escrito um ano antes de se descobrir que a Marsilea azorica é afinal uma espécie exótica de origem australiana, de seu verdadeiro nome Marsilea hirsuta. Mais informações aqui.

Para este raríssimo feto açoriano, ao que se conta, quase foi fatal a presidência aberta de Mário Soares no arquipélago entre Maio e Junho de 1989. Ressalve-se, porém, que o então Presidente da República não teve culpa no sucedido. As regras de bem receber impunham que as estradas por onde desfilasse a comitiva presidencial estivessem um primor, com bermas rapadas à escovinha e as inevitáveis hortênsias para enfeitar. E não é que a Marsilea azorica, com tantas ilhas aonde se acolher, e nelas tantas lagoas debruadas de sossego, elege para sua única residência a vizinhança de uma das principais estradas da ilha Terceira? As plantas mais afoitas desapareceram para nunca mais serem vistas. Sobraram, num charco temporário já fora do alcance da máquina zero, umas quantas plantas que desde então têm levado uma existência mais ou menos tranquila. Foi colocada uma paliçada ao longo da estrada para impedir o pisoteio, e falta só completar igual protecção do lado oposto, não vá algum rebanho mais incauto confundir este trevo-de-quatro-folhas com a sua dieta habitual.

A Marsilea azorica, com um habitat global de poucas dezenas de metros quadrados, é certamente uma das plantas mais raras e vulneráveis do planeta. Mas, como deve ter ficado claro, encontrá-la não exige grandes dotes de explorador: todos os terceirenses que valorizam o património natural da ilha sabem onde ela vive. Em 1989 poucos sabiam, e o resultado foi quase catastrófico. Ficou a lição de que o secretismo e o desconhecimento geral não são o melhor modo de preservar espécies em perigo. A população de M. azorica é vigorosa e, salvo algum desastre imponderável, há-de manter-se indefinidamente no seu charco.

O reconhecimento deste endemismo terceirense é recente: o nome científico só foi registado em 1983 por Georg Oskar Edmund Launert e Jorge Paiva. Talvez até então se pensasse que as plantas açorianas pertenceriam a alguma das outras 64 espécies de Marsilea. De facto, as diferenças entre a M. azorica e a europeia M. quadrifolia não são fáceis de detectar a olho nu. E, pelo menos em Portugal, a M. quadrifolia corre muito maior risco de extinção do que a sua congénere açoriana. De nada lhe valeu ter sido uma das oito espécies seleccionadas pelo Plano Nacional de Conservação da Flora em Perigo, lançado pelo ICN em 2002. No único local conhecido de ocorrência da espécie no nosso país — foz do rio Corgo, na Régua —, não foram detectadas quaisquer plantas entre 2003 e 2005. Só em 2006 se encontraram meia dúzia de exemplares, e como o projecto deveria terminar no final desse ano já nada se fez: o ICN, afinal, apenas conseguiu ministrar a extrema-unção à M. quadrifolia. É muito provável que a espécie já não exista em Portugal: em busca dela andámos este Verão no Corgo e no Douro com água pelos joelhos e nada encontrámos.

A um olhar distraído a Marsilea pode confundir-se com o Oxalis, mas basta contar até quatro para desfazer a confusão. O Oxalis é uma angiospérmica — ou seja, uma planta que dá flor —, enquanto que a Marsilea é um feto, reproduzindo-se por esporos. É verdade que, com as suas frondes compostas por quatro lâminas, é um feto peculiar. Por exemplo, é difícil saber quantas plantas aparecem na foto em baixo: pode ser uma só, podem ser muitas. Tal como várias outras plantas adaptadas à vida aquática, a Marsilea tem caules rastejantes (ou, mais propriamente, rizomas) de onde saem os pecíolos de 12 a 15 cm com as folhas nas extremidades. Quando há água, as folhas, que não têm mais que 3,5 cm de diâmetro, flutuam à superfície; quando, no Verão, a água recua, as hastes mantêm-se erectas. Trata-se assim de uma planta anfíbia, que muda de veste conforme a estação do ano.


Marsilea azorica Launert & Paiva