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18/09/2009

Ácer papeleiro



Acer griseum (Franch.) Pax - Jardim Botânico da Universidade de Oxford

O tronco acobreado deste ácer parece desfazer-se em rolos de papel: dá vontade de recolher as películas e espalmá-las num caderninho, para usar em cartões de boas festas e noutras ocasiões de cerimónia. Só não sei se o frágil material resistiria sem se romper ao contacto rude de uma esferográfica. Preferível regressar às canetas de tinta permanente - ou, melhor ainda, às aladas penas que, depois de mergulhadas em tinteiros, roçavam levíssimas pelas superfícies onde largavam letras e símbolos. Quem tivesse uma só árvore destas e um bando de gansos de nada mais precisaria para se lançar como comerciante tradicional (ou artesanal) no ramo dos artigos de escritório.

Mas o investimento inicial seria pesado, além de exigir uma paciência incompatível com a vida acelerada dos tempos modernos. De origem chinesa e introduzido na Europa no início do século XX, o Acer griseum é raro de encontrar à venda, pois tem o hábito de dar sementes estéreis e é de difícil propagação. Além disso, cresce devagar - o que, assegurando-lhe embora vida mais longa do que aquela de que gozam árvores mais apressadas, significa que não produzirá, durante muitos anos, material de escrita suficiente para dar vazão às encomendas. Pensando bem, o melhor é desistir do negócio, e ficar com a árvore só por ela ser bonita. Bonita e arrumadinha: com uma copa redonda e compacta, raramente excede os nove metros de altura.

O exemplar no jardim botânico de Oxford pode contemplar-se de graça, uma vez que o roseiral onde lhe coube morar fica do lado de cá da entrada. As folhas, visíveis na foto acima, são trifoliadas, com folíolos lobados semelhantes às folhas dos carvalhos. Clicando na mesma foto, distinguem-se, num tom verde mais claro, as sâmaras características dos áceres, com as duas asas que, nesta espécie, formam um ângulo distintamente agudo.

09/09/2009

Caçador de rios 1: Cherwell


Rio Cherwell - Oxford

Desde a sua nascente nas Midlands inglesas, o rio Cherwell deambula 64 quilómetros para sul até Oxford, onde se junta ao Tamisa. Mas dois rios não bastavam à orgulhosa cidade, que ainda lhes acrescentou um canal e fez o Cherwell perder-se em bifurcações e desvios antes de o entregar ao Tamisa por dois caudais separados. Dir-se-ia que os colleges, competindo entre si tanto em grandeza como em bucolismo, não dispensavam um rio a correr nos seus domínios privativos; e a solução foi reparti-lo por múltiplos braços, na certeza de que a água dava para todos.

É uma envolvente verde riscada por traços de água que se descobre para lá das ruas onde edifícios universitários se entremeiam com todo o tipo de lojas. Há aqui uma clara inspiração veneziana, com a diferença de, em vez de palácios e catedrais, serem campos de jogos, árvores e prados a emoldurarem os cursos de água, que o são de água doce em vez de salgada. Pequenos barcos de fundo chato, empurrados à vara, suscitam o entusiasmo dos turistas e a indiferença dos ruminantes que tantas vezes, das suas pastagens, os vêem deslizar pelo rio. Chamam-se as embarcações punts; e, explicam os ingleses, não devem ser confundidas com gôndolas, pois, ao contrário da vara, o remo com que estas últimas são movidas não se apoia no leito dos canais. Enfim, pormenores de somenos: apesar dos trajes sumários, estes barqueiros equilibrando-se na popa das suas canoas recriam, propositadamente ou não, uma Veneza mais tranquila, em versão rural.


Christ Church Meadow - Oxford

04/09/2009

Jardim Botânico da Universidade de Oxford


Pinus nigra Arnold subsp. nigra

É sem dúvida um disparate visitar Oxford, ou qualquer outro chamariz turístico, num suado dia de Agosto. Mas quem for simples assalariado, e não especulador de sucesso ou herdeiro de fortunas, resigna-se a fazer férias no mês que o hemisfério norte para isso reservou. E pacatez e isolamento são artigos de luxo, que certamente não estão à venda em Oxford, muito menos em Agosto. Nesse mês não há estudantes, e o resto da comunidade académica, advertida pela experiência, demandou paragens mais sossegadas. Os colleges, no interregno estival, esquecem o estudo e a erudição e rendem-se à lucrativa invasão turística: não se pode visitar claustro, capela, refeitório ou biblioteca por menos de duas libras.

Maior disparate do que visitar Oxford em Agosto é não visitar Oxford por só poder fazê-lo em Agosto. Porque o que a cidade tem para mostrar é genuíno: uma das universidade mais antigas do mundo, onde os históricos edifícios não foram abandonados, nem convertidos em museus, nem reservados a funções protocolares, e são, ainda hoje, o centro da vida estudantil. (Em Portugal, onde o novo-riquismo é a regra, as universidades parecem todas acabadinhas de criar. A mais antiga, a de Coimbra, ocupa edifícios do tempo do Estado Novo, guardando uma ou duas relíquias para iludir turistas.)

Depois de peregrinar pelos colleges, é grande a tentação de procurar lugar menos assediado. O Jardim Botânico da Universidade de Oxford tem entrada pela High Street, em frente do Magdalen College, logo antes da ponte sobre o rio Cherwell. Fundado em 1633, é o mais antigo jardim botânico da Grã-Bretanha e, com os seus 1,8 hectares, o mais compacto. Pequeno, sem dúvida, para o número de visitantes que a ele afluem, apesar da entrada paga.

Pequenez que afinal é enganadora, tal a variedade de plantas distribuídas por canteiros, estufas e lagos; as duas horas da minha visita para pouco deram. Impressionam o arrumo e o apuro geométrico do jardim: de um lado as escolas sistemáticas num rectângulo dividido em oito talhões; do outro, transposto um muro com portal, uma secção triangular mais informal, onde os caminhos são curvilíneos e há muito colorido de flores mesmo no auge do Verão.

Não mais do que duas dezenas de árvores caberão em recinto tão escasso. As que foram eleitas para aqui morarem não se podem queixar de falta de protagonismo, pois não têm quem lhes faça sombra. Quem mais impressiona, pela envergadura, é um pinheiro-negro (Pinus nigra) plantado em 1800: erguendo-se quase no centro do jardim, a sua copa formada por grossas braçadas verticais é foco de todos os olhares. Dizem que era esta a árvore favorita de J. R. R. Tolkien (1892-1973), professor em Oxford e autor da trilogia O Senhor dos Anéis. Mesmo nunca o tendo lido, não posso deixar de lhe gabar o bom gosto. Como poderia eu resistir à inevitabilidade de fotografar tão insigne pinheiro?

(O Pinus nigra é originário do norte de África e do centro e sul da Europa, incluindo Espanha mas não Portugal; é tolerante à poluição e ao frio, e pode ultrapassar os 40 metros de altura; as suas agulhas, dispostas aos pares, são rígidas e medem cerca de 19 cm. Os botânicos reconhecem cinco ou seis subespécies do Pinus nigra; a subespécie nigra é espontânea na Áustria, Itália e Grécia.)

P.S. Sobre a referência à Universidade de Coimbra, um pouco precipitada, leia-se o comentário que um leitor aqui deixou.