Mostrar mensagens com a etiqueta Santalaceae. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Santalaceae. Mostrar todas as mensagens

05/09/2015

Como preparar a poção mágica


Viscum album L.



Os leitores de Astérix e Obélix, a banda desenhada sobre a única aldeia gaulesa não dominada pelos romanos, por certo se lembram de Panoramix, o druida que prepara poções mágicas, seja para garantir por uns preciosos instantes uma força excepcional aos aldeões, seja para multiplicar cada aldeão por dois ou mais, assegurando que tantas cópias vencem os romanos pelo número se não pela força. Para algumas destas poções, Panoramix precisa de leite de unicórnio; para outras, ele vai, com uma foice de ouro, colher visco aos carvalhos mais antigos da floresta. Sem o visco, a aldeia gaulesa tem apenas Obélix para a defender, ele que não precisa de reforço de poção porque caiu em criança num caldeirão em que ela se confeccionava.

Por certo os autores dessas personagens conheciam a fama medicinal do visco, cujas bagas (que são venenosas) eram/são usadas pelos ervanários para tratar distúrbios respiratórios e outros males. Além disso, o visco marca presença, simbólica ou real, na mitologia e no folclore de várias culturas. É uma planta perene, nativa das regiões temperadas da Europa, Norte de África e parte da Ásia, que retira água e nutrientes das árvores que parasita, estas em geral de folha caduca mas de copa larga, como carvalhos, oliveiras, macieiras, choupos, freixos e bordos. Não são inteiramente conhecidas as vantagens da associação para a árvore hospedeira, mas sabe-se que nem todas sobrevivem à presença maciça de um tal hóspede.

Não há modernamente qualquer registo confirmado da sua presença em Portugal, mas Amaral Franco menciona-o na bacia do rio Minho ao descrever a subespécie album do V. album no primeiro volume (de 1971) da sua Nova Flora de Portugal. Os exemplares das fotos são da Cantábria, no norte de Espanha, onde vimos uma população com um número impressionante de indivíduos, alguns a formar colónias de formato esférico com cerca de um metro de diâmetro, parasitando sobretudo tramazeiras (Sorbus aucuparia). Segundo o portal Anthos, o V. album tem uma distribuição vasta em Espanha.

Notemos alguns pormenores desta planta nas fotos. As folhas, de 2-8 centímetros de comprimento, são sésseis e coriáceas, morfologia comum a outras espécies da família Santalaceae, com nervuras paralelas, e agrupam-se em pares opostos; os ramos verde-amarelados bifurcam-se regularmente; as flores, que nascem no fim do Inverno junto às axilas das folhas, são inconspícuas, quase sempre unisexuais, e parecidas com as de Osyris alba mas com 4 pétalas; finalmente os frutos, que foi o que vimos em Julho, parecem bagas brancas, viscosas quando maduras, que lembram as de camarinha.

A flora nacional conta ainda, pelo menos no papel, com outra espécie de visco, o V. cruciatum, que parasita em particular oliveiras e pilriteiros, dá bagas vermelhas e, embora raro, talvez ainda ocorra no Alto Alentejo, na região de Portalegre.

25/04/2015

Bagas de sândalo


Osyris lanceolata Hochst. & Steud.
Ao contrário do que acontece com banqueiros e outros especuladores, o parasitismo entre plantas não é muito propício à ostentação. As plantas parasitas são, na sua maioria, pequenas herbáceas com um período de floração curto, ditado apenas pela necessidade de perpetuar a espécie. No resto do ano elas remetem-se a uma invisibilidade que condiz melhor com a sua índole oportunista.

Esta regra geral está, no entanto, sujeita a numerosas excepções que também têm o seu paralelo entre os humanos. Quem testemunha o estilo de vida de um milionário julga que ele terá trabalhado para acumular riqueza; e quem vê árvores ou arbustos pujantes acha que eles, através da fotossíntese, se alimentaram sozinhos para atingir tais dimensões. No entanto, há árvores e arbustos parasitas ou, pelo menos, hemiparasitas. O prefixo hemi, que significa metade, indica que o vegetal em causa, além de sugar várias das plantas que lhe estão próximas, dispõe de folhas verdes e é por isso capaz de realizar alguma fotossíntese. As duas fontes de alimentação, a própria e a roubada, contribuem para a dieta em proporções muito variáveis, havendo plantas hemiparasitas que, em percentagem, são quase totalmente parasitas, e outras que, em caso de necessidade, podem sustentar-se sem ajuda (um pouco como quem perde a fortuna num investimento azarado e descobre, com surpresa, que pode trabalhar para ganhar a vida).

Este Osyris lanceolata — a que, apesar de ser também nativo de Portugal, chamamos sândalo-africano por se encontrar amplamente distribuído no quadrante sudeste desse continente — é um arbusto hemiparasita muito ramificado e de consideráveis dimensões, que amiúde excede os 2 metros de altura. Não sabemos de que grau de parasitismo é culpado: certamente menos do que o seu primo afastado Arceuthobium azoricum (espigos-de-cedro), mas talvez mais do que a extraordinária árvore-de-Natal australiana (Nuytsia floribunda), capaz no estádio adulto de sobreviver mesmo quando toda a vegetação à sua volta é extirpada.

Componente comum dos matos mediterrânicos algarvios, mais frequente perto da costa, o Osyris lanceolata substitui, no sul do país, o seu congénere O. alba, que ocorre no resto do território e tem preferência por lugares mais húmidos e abrigados. Os dois sândalos distinguem-se pela envergadura, com o O. lanceolata a vencer o O. alba em quase todos os parâmetros: na altura (o O. alba raramente ultrapassa 1 metro), no tamanho das folhas (as do O. alba são estreitas, quase lineares, e têm metade do comprimento das do O. lanceolata) e no tamanho dos frutos (os do O. alba são distintamente menores).

O nome sândalo evoca a famosa madeira perfumada originária da Índia, e pode parecer um despropósito usá-lo para designar um simples arbusto. Mas o sândalo-da-Índia (Santalum album) e o sândalo-africano (Osyris lanceolata), além de pertencerem à mesma família botânica, partilham muitas das propriedades aromáticas, tantas que o último é tradicionalmente usado em África para produzir óleo de sândalo.

18/11/2010

Espigos-de-cedro

Arceuthobium azoricum Wiens & F. G. Hawksworth


Tal como sucede com todas as coníferas, os cedros-do-monte (que não são cedros, mas sim juníperos) não dão flores. Causa assim certa estranheza que no verde de algumas copas sobressaiam manchas douradas. Serão folhas amarelecidas pelo Outono, mesmo sendo estas árvores de folhagem perene? Ou será que alguma doença as atacou? Em certo sentido, elas foram vítimas de um ataque, mas é melhor inspeccionarmos o fenómeno de perto. Rapidamente concluímos que o amarelo não pertence aos juníperos, mas sim a umas plantas quase alienígenas que a eles se agarraram. Além de não terem folhas que se vejam, as suas hastes parecem formadas por peças cilíndricas arbitrariamente encaixadas umas nas outras, com as peças terminais rematadas por flores sumárias. O défice de clorofila denunciado pela cor amarela e a posição comprometedora em que se encontram não permitem dúvidas sobre a índole parasita destas plantas.

Em rigor, o Arceuthobium azoricum (ou espigos-de-cedro, como lhe chamam nos Açores) não é inteiramente parasita, uma vez que possui alguma clorofila; por isso se diz hemiparasita. Mas, como a sua concentração de clorofila é cerca de um décimo daquela que se encontra na folhagem verde de uma planta normal, ela é muito pouco eficiente na fotossíntese. Se quiséssemos ser picuinhas, diríamos que hemiparasita, ao indicar um grau de dependência do hospedeiro da ordem dos 50% (o prefixo grego hemi significa metade), é uma qualificação enganadora; tal dependência, medida na importância para a sua dieta dos nutrientes subtraídos à vítima, andará acima dos 90%, e por isso é indiscutível que parasita representa uma aproximação mais satisfatória.

Os espigos-de-cedro recusam-se, naturalmente, a parasitar outras plantas que não os cedros-do-monte. Como tal hospedeiro só existe nos Açores, também o hóspede está impossibilitado de se aventurar fora das ilhas. De facto, o Arceuthobium azoricum só ocorre nas maiores populações de Juniperus brevifolia no grupo central do arquipélago; e, em geral, coloniza poucas árvores em cada população. Encontrá-lo é prova de que chegámos a um sítio especial.

Erik Sjögren, no seu livro Plants & flowers of the Azores (Os Montanheiros, 2001; edição trilingue), afirma que as árvores infectadas pelos espigos parecem nada sofrer com o ataque. Talvez essa inocuidade se deva à razão elementar de que o agressor nunca poderia sobreviver à morte da vítima. Num ecossistema tão circunscrito como é o de uma pequena ilha, uma relação parasitária mais nociva teria há muito terminado com a extinção de ambas as espécies. Mas num continente como a América do Norte um tal equilíbrio já não é essencial. Aí, entre as quase 40 espécies de Arceuthobium, há uma que em poucos anos é mortífera para os espruces (Picea mariana, P. glauca, etc.) onde se costuma alojar: trata-se do A. pusillum, conhecido como dwarf mistletoe (ou visco-anão). Curiosamente, é uma planta quase invisível, pois as suas hastes, que em geral não são ramificadas, não ultrapassam os 2 cm de comprimento. As árvores atacadas desenvolvem uma copa irregular, com a folhagem concentrada em tufos: nesta página, por exemplo, pode ver-se uma árvore morta e outra a que já pouca vida resta.

02/11/2010

Sândalo-dos-Pirenéus

Thesium pyrenaicum Pourr.
     El cuento es muy sencillo
     usted nace
     contempla atribulado
     el rojo azul del cielo
     el pájaro que emigra
     el torpe escarabajo
     que su zapato aplastará
     valiente
     (...)
     usted aprende
     y usa lo aprendido
     para volverse lentamente sabio
     para saber que al fin el mundo es esto
     en su mejor momento una nostalgia
     en su peor momento un desamparo
     y siempre siempre
     un lío

     entonces
     usted muere.

     Mario Benedetti, Currículum

02/07/2010

Meia pensão

Osyris alba L.
Ao contrário de boa parte das suas colegas parasitas, o sândalo-branco (que é apenas parasita por metade, ou hemiparasita) aprecia uma dieta variada, sugando com moderação as raízes de qualquer planta que encontre por perto. Pôde assim adaptar-se a diversos habitats da região mediterrânica, desde bosques a charnecas e a terrenos baldios. É um arbusto formado por ramadas finas e longas (até 1,5 m), pontuadas por raminhos curtos onde despontam folhas sésseis com cerca de 1,5 cm de comprimento. As flores perfumadas e minúsculas (8 mm), com as três pétalas fundidas em tubo, apresentam, vistas de frente, a forma de um triângulo equilátero. Tratando-se de uma planta dióica, há indivíduos dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. As flores masculinas, caracterizadas pela presença de estames, surgem em cachos, enquanto que as femininas aparecem isoladas. Por inadvertência, fotografámos apenas uma planta masculina.

A família Santalaceae, integrada exclusivamente por plantas hemiparasitas, está ainda representada em Portugal por herbáceas do género Thesium. Conforme aqui se pode ler, tais plantas apresentam uma frutificação curiosa, em que a parte carnuda resulta do engrossamento do pedúnculo floral. Por contraste, os frutos da Osyris são simples bagas vermelhas, presumivelmente venenosas.

Alargando o âmbito geográfico à Europa e ao Oriente, seria imperdoável não mencionar os dois mais famosos membros desta família botânica. Um deles é o visco (Viscum album), em inglês mistletoe, que se empoleira nas árvores e convida os namorados a trocarem beijos. O outro é o sândalo (Santalum album), árvore que ocorre desde a Índia até à Austrália e que é muito estimada pela madeira fragrante e pelo óleo que dela se extrai.