A deusa substituta
Artemisia verlotiorum Lamotte



Artemisa, a deusa grega da caça, da vida ao ar livre e da castidade, deu nome ao género botânico Artemisia, que inclui numerosas espécies fragrantes e com uso culinário e medicinal, entre elas o famoso absinto e a madorneira que reveste as nossas dunas litorais. Algumas espécies são lenhosas, quase arbustivas, outras são herbáceas, outras hesitam entre os dois extremos. Nenhuma se destaca pela beleza da floração: os capítulos florais, que surgem em cachos, têm 4 ou 5 mm de diâmetro e são desprovidos de "pétalas" vistosas (ou, mais exactamente, de florículos ligulados).
A Artemisia vulgaris, que resume de modo perfeito as características do seu género, é uma das cinco espécies de Artemisia espontânea no nosso país. Originária da Europa, Ásia e África, aproveitou o seu uso em cultivo para se naturalizar no continente americano. É uma planta cespitosa, capaz de atingir os dois metros de altura (embora em geral se fique por 1,2 m), com grandes folhas penatipartidas e caules avermelhados, que revela preferência por terrenos baldios e ruderais e costuma florir entre Julho e Setembro. Em Portugal, onde aparenta ser pouco comum, está disseminda pelo norte e centro do território continental.
Percorrendo as margens do rio Minho nos arredores de Valença, deparámos com abundantes populações daquilo que nos pareceu ser a Artemisia vulgaris. A planta aparece na orla de terrenos cultivados e também, em muito maior número, nas ilhas formadas pelos meandros do rio, algumas delas com centenas de metros de extensão mas facilmente acessíveis na maré baixa (e também na maré alta, se calçarmos galochas). O desejo de a ver em flor obrigou-nos a repetidas visitas: só à enésima vez, já com o mês de Outubro adiantado, é que ela acedeu às nossas solicitações. E essa floração tardia e quase a contragosto já nos fazia desconfiar ter havido troca indevida, mais tarde infelizmente confirmada: a deusa da caça não se fazia representar pela Artemisia vulgaris, mas sim por uma contrafacção importada (de onde haveria de ser?) da China, a Artemisia verlotiorum. Esta espécie foi dedicada a Jean-Baptiste Verlot (1816-1891), director do Jardim Botânico de Grenoble, por ter sido ele quem primeiro a distinguiu da A. vulgaris.
Foram duas as provas circunstanciais que nos levaram à identificação correcta: é sabido que a Artemisia verlotiorum floresce de Outubro a Novembro e que, sendo uma planta estolhosa, é capaz (ao contrário da A. vulgaris) de formar populações muito densas por reprodução vegetativa. E, para dissipar quaisquer dúvidas, eram notórios caracteres morfológicos diferenciadores como as inflorescências pendentes (as da A. vulgaris costumam ser erectas) e as folhas menos recortadas.
João do Amaral Franco, no vol. 2 da Nova Flora de Portugal, editado em 1984, assinala a Artemisia verlotiorum apenas no centro-leste do país, mas a sua distribuição actual é por certo muito mais ampla. Não é improvável que esteja em curso a substituição gradual da espontânea A. vulgaris pela sua congénere exótica: as duas espécies, além de morfologicamente próximas, têm preferências ecológicas equiparáveis. Conhecem-se em Portugal outros exemplos do mesmo fenómeno de "render da guarda": a Bidens tripartita, hoje em dia muito rara, foi arredada pela americana Bidens frondosa, com a qual é amiúde confundida; e a Lindernia procumbens, que poderá estar extinta na Península Ibérica, deu lugar à também americana Lindernia dubia.

Valença: meandros do rio Minho











