22.1.05

Laureados e Robustecidos


Foto: pva 0412

Uma árvore, por si só, não corporiza nenhuma mensagem: o carvalho, ainda que alto e forte e, a nossos olhos, quase imortal, não nos exorta a uma vida longa e saudável; o limoeiro não nos quer ensinar o quanto a vida pode ser azeda. Por sua vontade, a árvore nada nos diz; somos nós que a carregamos de simbologia: ao plantá-la num certo lugar, ao representá-la de um certo modo, ao darmos certo uso ao que ela produz. Humanizar a árvore e as outras formas de vida não humana é só um primeiro, incipiente passo para começarmos a respeitá-las.

Se uma árvore não é uma mensagem, a mesma árvore numa pintura ou esculpida em pedra tem quase sempre algum recado a dar-nos. Exemplo extremo é o da heráldica, em que os elementos botânicos e zoológicos dos brasões fornecem rico elucidário sobre a vaidade humana. No brasão da foto em cima, que aparece na fachada cinquentenária de uma escola de Vila Nova de Gaia, lêem-se máximas que não são deste tempo; talvez por isso ninguém hoje as queira ou saiba ler. Eu próprio posso estar a treslê-las.

Eis o que as duas vozes gravadas no brasão diziam aos meninos (não às meninas, que a escola não era para elas) de há cinquenta anos:

- Se fores um estudante sério e aplicado - é o loureiro à esquerda falando com voz suave de tenor -, terás boas notas, serás elogiado pelos teus professores, admirado pelos teus colegas, e receberás como prémio, na cerimónia do dia oficial da escola, uma citação pública de louvor e um livro de conteúdo edificante.

- É o saber conquistado pelo estudo que robustece os homens e os faz subir na vida - estrondeia à direita a voz de barítono do carvalho-roble.

Como eram ingénuas estas vozes de antanho!

1 comentário :

António Viriato disse...

À parte o nocivo enquadramento político e a vaga misoginia da época em que estes preceitos foram escritos e propostos à consagração pública, nada neles me parece malsão e muito ganharíamos em os recuperar e em os aplicar, ainda que possamos passar por ingénuos...