13.5.08

Cotovias-de-poupa

Acreditamos que a existência de flores no mundo vegetal não se deve apenas ao talento artístico de algumas plantas. O modo vistoso, tão caro a outros seres vivos, de cortejar os polinizadores pode sair a preço de fábrica, mas em nenhuma espécie é ao preço da chuva. Infelizmente, mesmo louras, estas beldades podem passar despercebidas aos zangões. A esta indiferença, trágica para a continuação da espécie, as plantas reagem com o remédio óbvio: optam pela auto-polinização, mantendo contudo o floreado, just in case.


Corydalis claviculata - margem do rio Tâmega

É o que acontece no género Corydalis, que tem cerca de 400 espécies no hemisfério norte (de que conhecemos duas; como se descobrirá daqui a umas poucas linhas, nem estas duas...). Cada flor leva horas a fazer, e a fornada é de uma dezena ou mais. Para cada uma são precisas quatro pétalas - uma superior em forma de capuchinho com uma graciosa crista à-Tintin, uma inferior com formato de bote e duas laterais mais estreitas que protegem os estames e o estilete - e tinta de cor que pode variar de azul a carmim, incluindo vários tons de amarelo. Estando quase pronta, acrescenta-se uma ousada esporinha a cada base.


Corydalis lutea - Hampstead Heath

A Corydalis claviculata é anual e trepadeira; a Corydalis lutea é perene e sem gavinhas. Enfim, feitios. Em ambas, as folhas são bipinadas e de um verde-alface que as permite destacar no mato de outras herbáceas. Não, caro leitor, não aponte nem decore estas designações científicas. Amanhã teremos de mudar as etiquetas: enquanto ainda nos habituávamos a chamar-lhes coridálias, os botânicos decidiram trocá-las de género. São agora Ceratocapnos claviculata e Pseudofumaria lutea, veja lá.

2 comentários :

lucia disse...

Eis me aqui para reclamar estas variações... sem que tenhamos tempo de assimilar a lição de casa.

Maria Carvalho disse...

É como diz, Lúcia, acaba a lição, que achamos aprendida, e vemos o saber escapar-nos como areia por entre os dedos. Os botânicos têm razão, claro, nós é que estamos habituados à eternidade dos teoremas de matemática e impressionamo-nos com esta instabilidade das ciências naturais.