23.7.09

Manhã de Verão


Ipomoea acuminata (Vahl) Roemer & Schultes [bons-dias, glória-da-manhã]

......Manhã, tão bonita manhã
......Na vida, uma nova canção

......Luís Bonfá, Manhã de Carnaval


Um dos poucos serviços públicos que em Portugal nunca desilude os utentes é aquele que tem por incumbência fornecer-nos estridências musicais quando circulamos a pé pelas ruas do nosso Verão. Quem não puder ter IPod (é favor ler «ai pode?», com ponto de interrogação e tudo, não vá escapar-lhe o trocadilho) nem por isso andará com os ouvidos desocupados, e é aí que reside a essência do serviço público: os que tiverem posses e pose para tanto adquirem no sector privado a sua fonte sonora para exclusivo ensurdecimento pessoal; os desabonados ou botas-de-elástico, por seu turno, têm para seu uso (mesmo que involuntário) o caudal sonoro gratuito e universal que a empresa pública Verões de Portugal faz chegar aos altifalantes instalados em todas as nossas ruas, do Minho até ao Algarve.

Foram as flores desta Ipomoea, reminiscentes, como todas as da família Convolvulaceae, das velhas grafonolas, que me suscitaram este devaneio para-musical. Mas outros paralelismos podem ser invocados: à semelhança dos altifalantes nas ruas, estas flores aparecem sobretudo no Verão; tanto eles como elas estão por todo o lado; e, tal como a música na via pública se cala pelo final da tarde, também as flores só estão abertas durante o dia.

A Ipomoea acuminata, originária da América tropical e do Havai e introduzida no nosso país como ornamental, é uma das 30 espécies classificadas como invasoras em território nacional pelo Decreto Lei 565/99. Planta herbácea trepadeira, multiplica-se vegetativamente (qualquer fragmento de caule pode dar origem a uma infestação) e forma espessas mantas em jardins abandonados: cobre muros, riachos e taludes, e é mesmo capaz de sufocar árvores. Essa vocação expansionista é partilhada por muitas plantas convolvuláceas; mesmo em Portugal outras há, de origem europeia, que merecem ser denunciadas pelo seu mau comportamento (coisa que faremos oportunamente).

A agravar o currículo desta planta, há, entre as mais de quinhentas congéneres suas, várias delas (Ipomoea tricolor, I. violacea e I. purpurea, por exemplo) que produzem sementes de onde se extrai o ácido lisérgico, base do famoso psicotrópico LSD, que tanta música pop alucinada deu ao mundo. Música que você, amigo leitor, não escapará de ouvir este Verão, como em todos os verões anteriores, num altifalante demasiado perto de si.

1 comentário :

Miguel disse...

Seria porventura uma boa aplicação da manipulação genética pôr estas grafonolas a sufocar, em vez de veneráveis espécies vegetais, os implacáveis altifalantes estivais...