2.1.10

O céu que nos aflige


Praça de Parada Leitão, Porto

Há usos que podem parecer convenções arbitrárias, mas que resultam de ajustes sucessivos à realidade. Dito de outro modo: já se fez de forma diferente, até se ter verificado que não funcionava. Aquilo que às vezes passa por inovação pode não ser mais do que ignorância da história e dos erros passados, que repetimos com alegre inconsciência. É por isso que a inteligência e o bom senso não progridem à mesma velocidade que a tecnologia, e chegam mesmo a registar retrocessos clamorosos.

Nesta época de discussões sobre as cidades e a sua função, em que os arquitectos de nomeada são escutados com a reverência devida aos oráculos ou aos deuses do Olimpo, a praça de Parada Leitão, transformada sucessivamente para pior ao abrigo das mais avançadas doutrinas, avulta como mostruário de inépcia urbanística. Até 2001, ano em que o título de capital europeia da cultura foi pretexto, no Porto, para operações mal-amanhadas de requalificação urbana, a praça tinha três alinhamentos de árvores: um central, formado por seis plátanos mais que cinquentenários, e dois nos passeios laterais, cada um deles com uma dezena de robínias. Com a supressão do trânsito na praça e na envolvente da Faculdade de Ciências (actual Reitoria da Universidade do Porto), abriu-se uma área pedonal que, alegou-se então, prolongaria o Jardim da Cordoaria até aos Leões. O que de facto se criou, uma vez arrancadas sem critério todas as árvores da praça, foi um amplo terreiro empedrado, desprovido de sombras, cenário dia e noite para o estacionamento caótico e ilegal. Com um preciosismo de escultor que doseia os seus efeitos, e uma pasmosa inconsciência do que é e para que serve uma árvore, o arquitecto fez plantar, no lado poente da praça, umas quantas tílias dispostas aos molhos de três em exíguas caldeiras rectangulares. Talvez não lhe tenha ocorrido que as árvores crescem, tão apertadas as deixou umas contra as outras; ou então espera que coalesçam, formando cada trio um monstro-árvore de três troncos e uma só cabeça.

Em qualquer caso, alguma sombra prometia ter esse canto quando as tílias, melhor ou pior, se desenvolvessem. E a companhia fresca da folhagem, mitigando o efeito do parque de estacionamento em que a praça se converteu, poderia tornar mais convidativas as esplanadas que lá acabaram por se instalar.

Embora as esplanadas com vista para ruas com trânsito nunca me tenham seduzido, entendo que quem se senta nelas goste de sentir a cidade à sua volta: em vez de se resguardar num salão, deixa-se impregnar pelas imagens, sons e cheiros que compõem a vida urbana; para lhe servir de tecto só precisa do céu, de um guarda-sol ou (melhor ainda) de uma árvore.

Incompreensível é gostar de esplanadas e temer o ar livre e o céu por cima da cabeça; é deixar-se ficar num contentor envidraçado, espécie de submarino para mergulhar na cidade sem por ela ser contaminado, acreditando estar numa esplanada; é substituir a proximidade das árvores pela frieza do vidro e do metal.

A esplanada-gaiola da praça de Parada Leitão, iniciativa privada autorizada pela Câmara do Porto, está a acabar de ser montada, e deve estrear ainda em Janeiro. Dizem os seus promotores que respeitaram as árvores, mas ainda assim aplicaram-lhes uma poda correctiva - para elas saberem que doravante, se não puderem evitar crescer, terão de fazê-lo só para cima. A tília aí em baixo está quase encostada às vigas de metal da estrutura: convém pois que o seu tronco delgado e juvenil não engrosse com a idade.

Imaginem, se puderem, como vai ficar a praça: metade estacionamento, e a outra metade ocupada com contentores por entre os quais acenam algumas copas enfezadas. Uma combinação tão indescritível que nem o mais assanhado pato bravo dos subúrbios se envergonharia dela. A diferença é que aqui, no coração do Porto, a dois passos da Torre dos Clérigos, houve arquitectos, urbanistas, comissários e planeadores que juntaram as suas (in)competências para chegarem a isto.


Tília engaiolada - Praça de Parada Leitão, Porto

12 comentários :

Maria da Luz Borges disse...

Sem comentários!
Que tristeza!!!
Luz

Amadeu Gaspar disse...

Será que estou a ver bem? O Dias com árvores está de volta?

Então já sei a quem pedir que me diga quem é esta beleza:
http://fyad.org/10hl7

Paulo Araújo disse...

O nome científico é Ruscus aculeatus. É espontânea em Portugal, conhecida como gilbardeira, mas também existe em jardins (por exemplo, nos do Palácio de Cristal e no Jardim do Carregal). Há uns anos a Manuela falou dela aqui.

Gi disse...

Vontade de partir os vidros todos à pedrada...
Quem, eu? Nego, nego!

Paulo Araújo disse...

Pelo sim pelo não (mas declinando desde já qualquer responsabilidade por eventuais prejuízos causados por terceiros ou terceiras), avisarei logo que os vidros da «esplanada» estejam colocados.

Lianor Vaz disse...

Partir só os vidros?!... E que tal uma bombita que fizesse uns bons buracos para plantar árvores de novo?;)

coutinho disse...

As árvores preocupam-me de facto mas como já há comentários com os quais estou de acordo, prefiro comentar e chamar a atenção para uma zona histórica. Zona essa onde estão implantados prédios classificados, o próprio Piolho que tanta festa fez com o centenário, que vão ficar com as fachadas totalmente tapadas com as construções dos "mausoléus" esplanadas.Onde estão os históricos?

Paulo Araújo disse...

Aqui no Porto acreditamos ainda na transparência das edificações com paredes de vidro. Mas o que me parece que ali houve foi falta de juízo e falta de fiscalização. Falta de juízo porque a obra foi encomendada e paga pelos estabelecimentos (incluindo o Piolho) que vão ficar com o mamarracho-esplanada a tapar-lhes as fachadas. Falta de fiscalização porque a Câmara bem poderia ter visto com mais cuidado o que estava a autorizar.

PV disse...

Que triste exemplo de má gestão do espaço público. Tudo o que esse largo não precisava era de construção, do tipo barraca ou de qualquer outro tipo. Não era fantástico que existissem umas sementes mágicas que produzissem enormes árvores seculares de um momento para o outro (como no Domínio dos Deuses do Astérix), para espalhar sobre estes contentores e sobre os milhares de deformidades idênticas que desfiguram este país, engolindo-os debaixo de raízes gigantes?

Paulo Araújo disse...

Essa solução das árvores instantâneas seria bem pacífica, preferível à sanguinária bomba que alguém sugere aí em cima. Numa das Martian Chronicles do Ray Bradbury há também uma floresta de grandes árvores gerada numa só noite, mas em Marte. Na Terra não se vê nada igual desde o tempo do Astérix.

Anónimo disse...

Esses tipos de esplanada moderna e boa para os pintores de murais, espero que eles utilizem para poder envergonhar mais ainda as pessoas que aprovaram esse projeto. Pois se e uma zona HISTORICA, penso eu, porque fizeram essa VERGONHA

Charlotte Vandersleyen disse...

Não é por ser arquitectos que é preciso construir (caixotes)em todo lado em nome de uma suposta "modernização". Há sítios que não precisam dela (da modernização), pois, quem é que não gosta das pedras nas ruas do centro histórico? Daqui a pouco sera a vez da miguel bombarda... :(