21.6.11

Açucena portuguesa



Paradisea lusitanica (Coutinho) Samp.

This yet I apprehend not, why to those / Among whom God will deigne to dwell on Earth / So many and so various Laws are giv'n; / So many Laws argue so many sins / Among them; how can God / with such reside?
John Milton, Paradise lost (Book XII, 1674)

Este lírio é um endemismo ibérico que ocorre em taludes húmidos, bosques sombrios e lameiros de montanha, entre os 50 e os 1300 metros de altitude, mas apenas no norte de Portugal, sul da Galiza e metade oeste do Sistema Central. Planta perene, com rizoma, de floração vistosa entre Maio e Julho, identifica-se facilmente até pelos tufos densos de folhas basais, que são lineares e longas (~ 60-120 cm). Deveria estar sob protecção legal por ter uma distribuição restrita e as populações conhecidas serem pequenas.

Encontrámos no ano passado o primeiro núcleo desta açucena, já a frutificar - o fruto é uma cápsula ovóide com uma vintena de sementes negras que parecem tetraedros pequeninos. Eram apenas duas dezenas de plantas empoleiradas num talude, junto à albufeira da Paradela, onde a abundante escorrência de água forma um mini-habitat com grande interesse florístico. A segunda população, mais numerosa, estava no fundo de um prado inclinado onde espreitavam orquídeas cor-de-rosa (Dactylorhiza ericetorum (E.F. Linton) Averyanov). E a manhã soalheira ajustava-se ao lençol branquinho de flores a corar. Finalmente, revimo-la num lameiro onde só se consegue andar de galochas altas, perto de uma cascata em Pitões das Júnias.

O género Paradisea contém outra espécie, a P. liliastrum (L.) Bertol.), que não existe em Portugal. A flor-de-lis é natural dos prados de montanha nos Pirenéus, Alpes e Apeninos, entre os 1100 e os 2400 metros de altitude. Floresce um pouco mais tarde, é menos robusta e tem flores maiores que a P. lusitanica, mas nas fotos isso não se nota.

O nome Paradisea homenageia Giovanni Paradisi (1760-1826), matemático e poeta italiano. Mas talvez A. Coutinho e G. Sampaio quisessem que também aqui lêssemos paradisi, o que pertence ao paraíso.

5 comentários :

Rúben Vilas Boas disse...

Muito gira, assim como o seu nome científico. Apenas uma pequeno esquecimento no texto: não será 500m em vez de 50m?
Continuem o excelente trabalho!

Maria Carvalho disse...

E levemente perfumada, esqueci-me de mencionar.

[Em Portugal, nunca a vimos tão baixo, mas a Flora Ibérica informa (em rascunho) que é nesse intervalo de altitudes que se encontra.]

Anónimo disse...

Olá.
Conhecendo-a da mesma cascata desde há dois anos quando lá fiz tracking-geocaching,também nos maravilhosos lameiros (em flora e fauna-insectos) à volta de Montalegre existe em quantidade, como nos lameiros a caminho de Nodões-Castro/Cap. Sto.Amaro existe em quantidade apreciável[capela essa,aliás, onde imperavam uma tranquilidade e silêncio absolutos onde vi,em início de Junho cerca de 20 e tal,VINTE e tal!! borboletas PRETAS de nome Chimney Sweeper, ODEZIA atrata.Uma maravilha].
Obrigada pela conhecimento que vão espalhando.
Carlos Silva

Carlos Boullón disse...

A única poboacion de P. lusitanica conhecida na provincia de Pontevedra está en Torronha (concello de Oia). Está situada a 395 m sobre o nivel do mar. Ver http://www.anabam.org/paradisea_lusitanica.html
Parabens polo blog; é un dos meus favoritos.

Maria Carvalho disse...

Carlos S.: Curiosamente, conhecemos essa borboleta preta de um livro (The Chimney Sweeper's Boy) da escritora inglesa Ruth Rendell (sob o pseudónimo Barbara Vine). Mas nele só há uma.

Carlos B.: Obrigada pela informação. A maior ameaça para as nossas populações de Paradisea é a destruição, ou utilização indevida, dos ribeiros, lameiros ou zonas alagadas de que ela precisa. Se puder, mantenha-nos a par das vossas acções de salvaguarda desta espécie em Pontevedra.