Selvagem procura-se
A primeira descrição da planta surgiu apenas em 1988, incluída em A revision of the tribe Antirrhineae, monografia de 575 páginas sobre bocas-de-lobo e plantas afins da autoria de David A. Sutton. Para descrever a nova espécie, o autor baseou-se num único exemplar de herbário, sem flores nem folhas, que havia sido colhido na Selvagem Grande 120 anos antes, algures entre 1860 e 1867. A planta não mais voltou a ser vista nas Selvagens e não foram localizados outros exemplares em herbários. Os frutos e sementes desse exemplar único distinguiam-no claramente dos Misopates conhecidos, mas a descrição da nova espécie foi necessariamente lacunar, e era grande a probabilidade de ela já se encontrar extinta.
Até que, já neste século, a planta foi reencontrada não já nas Selvagens mas nas Canárias, nas ilhas de El Hierro, Fuerteventura e Lanzarote. No artigo onde se dá a notícia [Apuntes florísticos y taxonómicos para la flora de las Islas Canarias, Acta Botánica Malacitana 34 (2009): 242-251 — PDF], os autores reportam que o Misopates salvagense é frequente em zonas costeiras áridas de Lanzarote e Fuerteventura, e que antes ele terá sido confundido, nessas ilhas, com o Misopates orontium. Este último está presente em todas as ilhas do arquipelago canário, mas tem flores maiores, em geral cor-de-rosa, e é densamente glanduloso na inflorescência.
De endemismo nado-morto das ilhas Selvagens, o Misopates salvagense passou assim a ser um elemento relativamente banal da flora nativa canária. Talvez o exemplar colhido no século XIX nas Selvagens represente um episódio fortuito: sementes arrastadas pelo vento desde as Canárias que germinaram mas não lograram estabelecer uma população permanente. Ou talvez a Selvagem Grande seja mesmo o berço da espécie, e ela tenha tido a sorte de colonizar as Canárias antes de se extinguir na sua ilha de origem por acção dos herbívoros (cabras, coelhos e murganhos) lá introduzidos. É muito improvável que o mistério alguma vez seja deslindado.