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05/12/2011

Junco abrasivo


Equisetum hyemale L.

É a terceira vez que o género Equisetum, único representante vivo de uma das mais primitivas linhagens de plantas vasculares, é convocado para a primeira página do blogue. Ao contrário do que sucedeu nos casos anteriores (carregue na etiqueta Equisetaceae aí em baixo para conferir), as plantas de hoje não têm origem espontânea; e, de facto, pertencem a uma espécie que não é nativa em território português, embora o seja no norte de Espanha e em grande parte do hemisfério norte. O Equisetum hyemale - que é persistente no Inverno e, além disso, se distingue do E. arvense e do E. telmateia por ter hastes não ramificadas e de apenas um tipo (as férteis não são diferentes das estéreis) - é ocasionalmente cultivado em jardins, o que pode ser uma grande imprudência. Espalhando-se através de rizomas, não tardará a assenhorear-se de todos os canteiros. E, conforme testemunha a segunda foto aí em cima, onde o vemos a romper o asfalto da estrada, mesmo um muro pode não ser suficiente para conter o seu avanço. A planta também se pode disseminar pelos esporos que provêm dos cones (ou estróbilos) situados no topo das hastes (1.ª e 4.ª fotos), mas a reprodução vegetativa é claramente predominante.

O nome junco-abrasivo, acabado de inventar, é tradução apressada de scouring rush, uma das designações inglesas, a par de rough horsetail, para o Equisetum hyemale. É algo enganador, pois o Equisetum não é junco nem aparentado, mas a qualificação de abrasivo é apropriada. Os caules da planta, depois de secos, podem ser usados como esfregão para limpar panelas ou lixa para polir madeiras. Também há registo de usos culinários, principalmente no Japão, desta e de outras plantas do género, mas é preciso cautela pois elas são algo venenosas.

31/10/2011

Ponta da Fajã


Ponta da Fajã, ilha das Flores: quintal abandonado com Equisetum telmateia e Colocasia esculenta (= inhame)

Mais um passo na mesma direcção e a Europa acaba. Não se apoquente o leitor: aludimos a um simples facto geográfico, não à impiedosa crise que sobre nós desabou. A ilha das Flores ainda é Europa, pelo menos politicamente (de outros pontos de vista há quem tenha dúvidas, alegando qualquer coisa sobre "placas continentais"). E daqui para oeste até às Américas não há outro pedaço desgarrado do continente europeu. A costa ocidental das Flores e a freguesia da Fajã Grande marcam um limite inultrapassável para os europeus sem passaporte.

A estrada que desce para a costa da Fajã Grande prolonga-se ainda por dois quilómetros até à Ponta da Fajã. À nossa direita desenrola-se o paredão contínuo da falésia com centenas de metros de altura, rasgada por ribeiros alegremente suicidas na pressa de encurtar caminho até ao mar. Na plataforma verdejante da fajã há casas agora só de recreio e campos de cultivo abandonados ou convertidos em pastagens. Vêem-se anúncios de casas para venda, quem sabe se ao preço da chuva, mas qualquer dia acontece um desabamento (muito por culpa do excesso da dita) e fica tudo soterrado. Talvez o cavalo magricela a pastar naquilo que foi em tempos um jardim ainda tenha agilidade para se pôr a salvo.


Equisetum telmateia Ehrh.

A juntar às omnipresentes (e daninhas) exóticas invasoras, há também plantas nativas que têm vindo a recolonizar campos abandonados. Consola ver, aqui na Ponta da Fajã, o vigor com que o Equisetum telmateia se tem espalhado, ocupando em formação cerrada quintais e linhas de água. Trata-se da versão gigante (até 2 metros de altura) do rabo-de-cavalo (Equisetum arvense). Além de ser espontânea nos Açores, é uma planta quase cosmopolita, amiga de lugares húmidos, presente na Europa, Ásia, norte de África e América do Norte.

Tal como o seu congénere, o Equisetum telmateia faz brotar hastes de dois tipos. As férteis surgem entre Março e Abril: têm menos de 50 cm de altura, não são ramificadas, apresentam uma coloração acastanhada e são encimadas pelos cones que contêm os esporângios; desaparecem depois de cumprirem o seu papel reprodutor para serem substituídas pelas hastes estéreis (as que se vêem nas fotos), que persistem até Outubro.

O Equisetum telmateia é também, em Portugal, cidadão do continente, concentrando-se sobretudo na Estremadura, Beira Litoral e Costa Vicentina. Duas espécies adicionais (E. palustris e E. ramosissimum) completam o contingente lusitano de uma família botânica que, tendo sobrevivido a 150 milhões de anos de convulsões do planeta, se aguenta por cá com dificuldade, vítima do desaparecimento ou degradação dos habitats húmidos a que se acolhia.

27/08/2010

De égua para cavalo



Equisetum arvense L. - Sandwich Bay (Inglaterra) e lagoa de Mira (Portugal)

O rabo-de-cavalo (Equisetum arvense) surge como complemento natural do rabo-de-égua (Hippuris vulgaris). Mesmo que a analogia com o apêndice traseiro dos ditos animais seja meio forçada, não há dúvida de que as duas plantas são parecidas. Ambas parecem ser formadas por hastes verdes em que a folhagem se distribui ordenadamente por patamares. Mas as fotos mais acima suscitam estranheza, pois as hastes que aí se vêem não são verdes nem aparentam ter folhas. É legítimo perguntarmo-nos se as fotos de baixo são da mesma planta.

Vamos por partes. A semelhança entre o Equisetum e o Hippuris é puramente superficial. Como único sobrevivente da classe Equisetopsida, que foi abundante e variada no Paleozóico (entre 540 e 245 milhões de anos atrás), o género Equisetum, que inclui cerca de trinta espécies, é considerado um fóssil vivo. As plantas que o integram têm um método de reprodução primitivo, decalcado do dos fetos, que já antes aqui explicámos. Por contraste, o Hippuris é uma angiosperma - ou seja, uma planta moderna, com flor, coisa que só terá sido inventada há uns 140 milhões de anos.

E depois há a questão das folhas. Aquilo que no Equisetum nos parecem ser folhas são na verdade raminhos verdes, capazes de fotossíntese; e por vezes esses raminhos são eles próprios ramificados. As verdadeiras folhas são as escamas triangulares castanhas que vemos ao longo do caule.

Falta explicar o duplo aspecto que a planta assume nas fotos. O Equisetum arvense é peculiar por ter dois tipos de frondes (por analogia com os fetos, chamamos frondes às hastes da planta): as frondes verdes e ramificadas, que são estéreis, e as frondes de um tom entre o bege e o rosa, sem clorofila, que são rematadas por um cone onde se agrupam os esporos reprodutores. Essas frondes férteis surgem no dealbar da Primavera, e só mais tarde é que as outras despontam.

Sucede que o laborioso processo reprodutivo que tão bem funciona nos fetos parece claudicar nos rabos-de-cavalo. De facto, o Equisetum é dotado de extensos rizomas subterrâneos e, para se expandir, vale-se quase exclusivamente da reprodução vegetativa. Se for plantado num jardim pode facilmente converter-se em praga, mas tem grande dificuldade em expandir-se para locais novos. Em Portugal, onde o tipo de hábito ripícola que o favorece está em franca regressão, as populações espontâneas têm-se tornado cada vez mais raras.